"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Curtas - Coisas de Criança

Para a Gabi, que faz hoje 9 aninhos.

— Ora, queria meio quilo de fígado, uns quatro bifes de peru, duas mãos cheias de carne picada… de porco, por favor… e um frango inteiro! — leu ela para o homem do açougue, que a observava atentamente, de cutelo na mão e avental ensanguentado. O homem tratou de providenciar o seu pedido e ela achou melhor desviar o olhar… a vitrina de um talho não é propriamente uma visão agradável, principalmente quando nela se podem ver orelhas e patas de porco («que nojo, aquilo são pêlos?») ou coelhos e lebres “depilados” e inteiros, de olhos abertos e cara expressando um forte sentimento de dor.

Para se distrair, olhou para o seu lado direito, onde se deparou com o seu amigo Gustavo abrindo caminho por entre a multidão de solteiros e universitários que se aglomerava na secção de congelados. Do seu lado esquerdo lá estava, a sua mãe, juntamente com tantas outras matriarcas, que davam especial atenção à secção do «leve três pague dois» (o que é pura propaganda enganosa, porque o produto em questão passará de validade dentro de dois dias e como a mãe leva sempre caixas e caixas porque «’tava tão barato!», ela e o Gustavo que lá vai todos os dias, vão ter que passar o dia todo a comer iogurtes com pedaços de frutas e bolachas de água e sal). O supermercado é um centro de estudos fascinante!

Voltou novamente a olhar para o homem do talho, que agarrava agora num gordo frango sem cabeça, penas e membros.

— Aa… podia arrancar o couro do frango? — pediu ela. Ordens da mãe! A mãe está sempre a repetir as coisas milhentas vezes porque, sabem como é, mãe adora falar!

— Mana — era Gabriela, a sua irmã mais nova, que olhava de olhos esbugalhados para o homem do talho enquanto este arrancava a pele do frango —, é isto que tu me vais fazer quando dizes «vou arrancar o teu couro, Gabriela!».

As pessoas que estavam na fila viraram todas a cabeça para ela. Uma velhota de óculos exageradamente graduados abanava a cabeça, provavelmente já a pensar «pobre criança mal tratada, chamem a Comissão de Protecção! Chamem a Justiça! Chamem a TVI!». O açougueiro riu a seu bel-prazer.

— Crianças! — disse Camilla em tom de desculpa, enquanto com um sorriso tentava disfarçar a vergonha que se apoderara dela. Estava vermelha como um pimentão.

Pois, crianças… dizem sempre as coisas mais inapropriadas nos momentos mais inoportunos, principalmente se isso implicar o constrangimento do irmão mais velho!


Ps: Estou passando rapidíssimo hoje só para postar este texto, amanhã colocarei as leituras em dia. Tenho estado ausente da blogsfera uma vez que estou ajudando o Gus numa pesquisa sociológica, ao mesmo tempo que escrevo uma história… além disso: The Sims 2 Vida no Apartamento é completamente viciante! (Deus, já devo estar a deitar sangue dos olhos!)

Nota do texto: A TVI (referida no texto) é, na opinião geral, o pior canal de televisão português. Tudo bem, tem investido em produções nacional e blá blá blá, mas que tal mandarem primeiro para a universidade o pessoal que escreve aqueles melodramas de quinta e os pseudo-actores que saíram de uma agência de modelos? Além dos guiões a roçar o horrible e a performance degradante dos actores/modelos, a TVI também é conhecida por ser sensacionalista e dramatizar todo o tipo de notícias (quase com violinos de fundo e pessoas a chorar como aqueles bonecos chineses. Normalmente quando acontece algo catastrófico (no sentido irónico, é claro), há sempre alguém que diz «Oh não, chamem a TVI» e de certeza que esse acontecimento passará no Jornal Nacional e com direito a comentários de especialistas! (Peço desculpa se feri susceptibilidades).

Pss: O meu nacionalismo está no auge enquanto o meu rádio toca incessantemente NX Zero (ok, eles são emos, são um lixo e uma poluição sonora). They rock!