(obs: Tinha pensado noutro texto diferente para hoje, mas ao vasculhar pelo meu pc encontrei estas duas conversas com o Rapadura e a Rafaela, a quem dedico o post de hoje. Obrigado por me terem ajudado num momento semelhante a este. Foi inevitável…)
Angélica Gomes passara a manhã toda a arrumar o andar inferior da sua casa. Os seus anos de serviço ao Tribunal da sua cidade, como dactilógrafa, haviam-na permitido desfrutar daquela semana de férias. Não era propriamente a semana de férias em algum lugar paradisíaco na companhia do seu marido, como ela sempre desejara, agora que estavam casados há vinte anos, mas ela concordou para si mesma que estava na altura de fazer uma limpeza intensiva à sua casa e nada melhor do que aproveitar aquela semana para se aventurar naquela missão exaustiva.
Com o marido no trabalho e os três filhos na escola ela pode desfrutar de algum sossego. Limpou a sala de estar, a cozinha, o escritório e a sala de jantar ao som de Frank Sinatra e sendo constantemente seguida pelo seu gato persa. Almoçou uma sandes de frango e abriu uma garrafa de vinho, saboreando aquela refeição como se de um banquete se tratasse. Sorria interiormente. Se estivesse no trabalho teria de comer em algum restaurante nas imediações do Tribunal e de cariz duvidoso (Angélica detestava comer fora porque nutria uma certa aversão ao modo como os alimentos eram confeccionados) e caso estivesse em casa na companhia da sua família teria de ser escrava do fogão, a preparar uma quantidade descomunal de comida para agradar o estômago exigente do seu marido e os caprichos do seu filho Gustavo (felizmente Filipe e Cláudia não eram muito rigorosos neste aspecto).
Depois da refeição dedicou-se a mudar os lençóis dos quartos dos filhos, mas ao ver a desarrumação que a aguardava decidiu deixar aqueles aposentos para outro dia… provavelmente iria perder grande parte das suas férias a tentar limpar o quarto dos filhos.
Estava a fechar a porta do quarto de Cláudia, organizando mentalmente a descompostura que lhe iria dar por ela ter estado a escrever nas paredes com lápis de cera, quando olhou para as escadas que conduziam para o sótão.
Nos filmes de terror os sótãos eram quase sempre vistos como os lugares ideais para as cenas mais assustadoras acontecerem, conquanto Angélica temesse mais as caves do que os sótãos. Na sua opinião os sótãos eram as suas divisões predilectas da casa. Sempre cheios de segredo, a transbordar de memórias e de histórias para serem contadas. E de facto aquele sótão enclausurava mesmo muitas memórias.
Foi até à sala e agarrou no seu copo e na garrafa de vinho. Eram as únicas companhias de que necessitava para vasculhar o sótão.
A porta rangeu com a falta de óleo qual o portão ferrugento de um castelo assombrado. Era uma divisão muito mal iluminada, poeirenta e que cheirava a um misto de mofo com naftalina. Por todo o espaço se amontoavam caixas. Haviam também alguns móveis, como o berço em que os seus filhos haviam dormido. Eduardo fizera questão de que não se deviriam de livrar dele por se tratar de uma relíquia de família.
Passou ao de leve com os olhos pelos caixotes. O seu cérebro parecia um filme que estava a ser puxado para atrás. Tantas recordações! Os livros de banda desenhada que ela e Eduardo haviam lido na infância, alguns dos brinquedos com que Eduardo brincara em miúdo (brinquedos estes que haviam sido construídos pelo seu próprio pai, Francisco, que era carpinteiro). E os discos de vinil! A sua mãe era louca por jazz e Angélica havia sido contagiada por ela. Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Louis Armstrong, estavam todos lá!
A sua visão ficou ligeiramente turva… as lágrimas já estavam à porta, mas lágrimas de felicidade perante tantas recordações dos seus tempos de miúda em que, enquanto as suas colegas deliravam com bandas como os Led Zeplin, Aerosmith, Queen, e até com o Michael Jackson… Angélica prefira ficar em casa com a mãe e o pai apreciar um calmo jazz. Todos os rapazes que ela havia conhecido eram igualmente fãs das novas tendências musicais, ela chegara mesmo a namorar com um rapaz que se assemelhava ao Eric Clapton no início da sua carreira, mas felizmente ela tivera a sorte de conhecer Eduardo… também ele era fanático por jazz… ah como era bom quando eles se reuniam às quintas à noite naquele pequeno bar, a ouvir o Igor a tocar, estavam tão apaixonados, desconfiavam eles de que em breve iriam casar… e subitamente lembrou-se! O Igor! Mas que personagem!
O Igor havia sido um rapaz que ela conhecera quando tinha sensivelmente a idade do Gustavo (dezasseis anos). A sua mãe havia-a inscrito nas aulas de Dança Jazz e o Igor iria ser o seu pai. Negro, mais velho que ela e muito, muito bonito, Angélica divertia-se imenso nas aulas de dança, porque Igor era dotado de um sentido de humor fora do comum e muito entendido em jazz, uma caixinha de boas qualidades. Ela chegara mesmo a ter uma pequena paixoneta por ele… que no entanto, como todas as paixonetas, em nada dera. Igor estava apaixonado há quase três anos pela mesma moça! Mas mesmo assim fizera o favor de apresentar a Angélica o seu vizinho Eduardo. Pobre Igor, nem ele saberia que estava a ajudar o Cupido a fazer o seu trabalho.
E agora lá estava ele, imigrado em Nova Iorque como ele sempre desejara. Todos os Natais enviava sempre postais a Angélica e a Eduardo. Era daquelas amizades que queremos sempre guardar junto de nós e que esperamos que o tempo nunca apague.
Lá ao fundo estava uma caixa em que alguém escrevera a caneta de feltro «Angélica». Provavelmente só a ela diria respeito. Aproximou-se dela e sentou-se, colocando ao seu lado o copo e a garrafa.
Estava cheia de folhas de cadernos, já amareladas com o tempo. Pequenos poemas, desenhos, algumas histórias, que ela havia escrito durante as suas aulas do Liceu.
O Liceu!
Foram sem dúvida os melhores tempos da vida dela. Como sentia saudades daqueles três anos de liberdade e irresponsabilidade que havia passado no Liceu. As vezes em que saltara os muros da escola para se encontrar com os namorado; os desfiles de moda; os saraus de ginástica; os concursos que a Associação de Alunos organizavam… como sentia falta daquilo… tornara-se tudo tão diferente quando ela fora para o curso técnico para ser dactilógrafa.
Era tipo a universidade, e lá as pessoas achavam-se adultas, eram arrogantes… nada a ver com a jovialidade do Liceu.
Voltou a olhar para a caixa. Tinha lá algumas bonecas suas, de plano, claro, fizera questão de doar todas as de porcelana que a sua tia lhe havia oferecido. Detestava bonecas de porcelana! Eram tão dignas dos filmes de terror como os palhaços. Criaturas desprezíveis!
E finalmente viu… os álbuns de fotografias. Agarrou neles e abriu um por um no seu colo.
Como era bonita quando era adolescentes, sem ter a cara com rugas nem sinais de cabelos brancos… detestava aquilo… estava a ficar velha e temia isso… sempre quisera ser adolescente para sempre.
«Olha a Mariana!» A Mariana… ela e o Ruben… seus amigos desde quando ela tinha dez anos. Eram os únicos com quem ela ainda mantinha contacto, para além do Igor. Mariana era a sua amiga de todas as horas, e morava a alguns quarteirões de distância com o seu namorado, agora marido, desde sempre: o Rogério. «Aqueles dois foram mesmo feitos um para o outro», pensou ela. O Ruben ao chegar ao Liceu ingressara pelo caminho dos punks, até entrara para os motoqueiros, era um rebelde, mas mesmo assim nunca haveria perdido o contacto com ele… ainda iam ao cinema como nos bons velhos tempos…
Foi então que as viu…. Paula e Júlia… as suas colegas da sua turma. Mariana havia chumbado de ano, pelo que na escola, como tinha horários um tudo ou nada incompatíveis, Angélica tinha de passar grande parte do seu tempo com Paula e Júlia… até se divertia com elas… principalmente nas horas de almoço… eram boas pessoas e muito leais… mas o cenário havia começado a ficar negro.
E sentiu aquele aperto incómodo na garganta… o mesmo aperto que sentimos habitualmente quando queremos chorar… Fora inivitável o que acontecera!
Sentou-se na cadeira de balanço do tio-avô de Eduardo, segurando a fotografia com Paula e Júlia nas mãos.
No último ano do Liceu teriam de realizar exames para serem admitidos na Universidade, e Paula e Júlia haviam chumbado. Angélica ainda mantinha o contacto com elas… mas as coisas haviam inevitavelmente mudado. Apesar de ela ter detestado as pessoas que conheceu nos tempos do Curso de Dactilografia, ela teve de admitir para si mesma que ainda tivera a sorte de travar conhecimento com algumas pessoas interessantes de outros cursos. Costumavam sair, ir ao cinema e participar em pequenas manifestações contra o governo local. Fora igualmente nessa altura que Angélica conhecera Eduardo, que estava a cursar Gestão de Empresas, e que começara a frequentar o bar onde o Igor trabalhava e ia lá tocar… a própria Angélica também trabalhara como empregada de mesa num restaurante, durante as férias de Verão… Tinha uma vida nova e estava a alargar os seus horizontes… sentia sim, a falta do Liceu, mas do Liceu em si e não das pessoas que lá andavam…
Sentia-se mal consigo mesma pois já não tinha tempo para poder estar com Paula… felizmente Júlia arranjara namorado e não fizera caso da situação… mas Paula… estava constantemente a lançar-lhe um dedo acusador e a deixar-lhe mensagens incomodativas no gravador de mensagens.
«Então, já não te deixas ver?» perguntava ela num tom de voz extremamente desagradável. «Se não for eu a telefonar-te nunca te lembras de me telefonar». Cobranças! Angélica detestava que a estivessem constantemente a cobrar das coisas que fazia. «Não lhes deves nada» dizia a sua mãe que também já estava a ficar farta das mensagens. Mas Angélica sentia-se pessimamente, sentia-se mal consigo mesma. Não gostava nada de fazer aquilo que estava a fazer com Paula. Sabia que não era falta de tempo, pois ela continuava a ir ao cinema com Mariana e Ruben… era mesmo falta de vontade de estar com Paula… Ela estava inevitavelmente a crescer… a tornar-se numa mulher e procurava agora novas coisas para a sua vida… gostava de estar com Maria e Ruben pois eram pessoas com quem sempre aprendia algo… mas a Paula… não a via com grandes perspectivas de vida… sempre que lhe perguntava como ela estava ela dizia sempre que estava tudo na mesma. Ela tentou meter-se no lugar da amiga e sabia que não iria gostar caso lhe fizessem isso… mas com certeza teria o bom-senso de ver que estava a mais, o que não parecia ser o exemplo de Paula… estava constantemente a lançar críticas mordazes sobre isto… Angélica sentia-se confusa, irritada… embora não tivesse propriamente culpa do que estava a acontecer… no fundo até gostava de Paula… simplesmente já não partilhavam os meus interesses… os temas das suas conversas erm tão enfadonhos… ela era tão banal…
Fechou os olhos… parecia que ainda via aquela cena como se fosse hoje.
Terça-feira, havia saído das aulas e estava agora a entrar no bar onde o Igor trabalhava. Precisava de falar com ele! Felizmente, àquela hora da tarde não se achava lá ninguém, e Igor estava a jogar com as cartas à Paciência em cima do balcão quando Angélica o cumprimentou.
- Ah, finalmente! – exclamou ele. Curvou-se sobre o balcão para dar dois beijinhos à amiga. – Vai um cappuccino?
- Sim – aceitou ela sentando-se nos bancos em frente ao balcão. Numas mesas lá ao fundo as duas empregadas de mesa lanchavam e Angélica acenou-lhes alegremente.
Igor serviu-lhe um cappuccino e para ele um pouco de Bailey’s.
- É um bocado cedo para beber – fez notar Angélica torcendo o nariz de aversão.
- É sobre isto que querias falar comigo ou há alguma mais importante?
- Na verdade até há, preciso de um conselho teu, Igor, mas agradeço que estejas sóbrio para me responder.
- Relaxa. Fala aí o que é…
- É assim: normalmente acontece quando a gente entra para a faculdade perdemos inevitavelmente o contacto com certas pessoas que deixamos para trás… E há uma amiga minha. Ela é boa pessoa. Só que agora, com estas novas convivências eu acho que já não tenho aa… paciência para aturá-la. Tipo… eu estou alargando os meus horizontes e a conversa dela não sai da mesma coisa… Eu não queria ser assim, Igor, mas estou desprezando ela inconscientemente.
Igor bebeu um pouco do Bailey’s.
- Eu entendo, Angélica. Já passei por isso. A primeira coisa que tens a fazer é cuidar de ti mesma. Procurar o melhor para ti… depois vê se podes agradar algúem…
- Isso não é um bocado egocêntrico?
- Minha amiga, senão pensares em ti quem é que vai pensar? Tu precisas de alargar o teu conhecimento, procurar evoluir… as coisas que não te trazem nenhum benefício são dispensáveis. São como as músicas sem conteúdo… fazem barulho mas não trazem nada de que se acrescente às nossas vidas.
Angélica concordou com Igor, queria coisas novas, e Paula não parecia transmitir-lhe isso.
- Ela faz-me cobranças…
- Ah, já chega de cobranças. Somos mais do que cobrados neste Mundo. Sinceramente! Acho que é um pouco de falta maturidade da parte dela. Quem gosta mesmo de ti vai sempre querer que ver crescer… Tu ainda falas com a Mariana e o Ruben não é…
- Sim.
- Não somos nós que nos afastamos das pessoas. É a própria vida que nos leva para caminhos diferentes. Ganhamos responsabilidades… o emprego, a família… cada um toma o seu rumo… é normal. E se a vida nos permitir, quem sabe vamos nos encontrar mais tarde.
- Eu ainda tentei sair com ela… mas não resulta, já não é o mesmo como antigamente…
- Tenta unicamente concentrar-te no que estás a fazer agora, e faz com que ela entenda o teu lado… nem sempre podemos dar atenção a toda a gente… ela também tem de compreender o teu lado. Tens tanta coisa para fazer… essas cobranças dela só estão a fazer com que fiques confusa. Tu precisas de pessoas que te apoiem… não que te deixem ainda mais preocupada.
Como adorava o Igor!
- O tempo prova quem é quem, Angélica… e a vida é a melhor escola… aqueles que permanecem sempre na nossa vida são sem dúvida os nossos verdadeiros amigos… era bom se eu pudesse continuar a falar com todo o pessoal que conheci até hoje… mas não, cada um andou para o lado que lhe deu mais jeito… uns para a esquerda, outros para a direita, alguns andaram para trás e outros nem saíram do mesmo sítio… aqueles que andam connosco guardamos no nosso coração e os que deixámos para trás irão povoar as nossas lembranças quando formos vais velhotes…
Ah como era verdade. Tentou explicar aquilo à Paula, mas ela não quis ouvir… deixou de falar com Angélica. Mas Angélica estava em paz consigo mesma… havia feito a sua parte… tal como Igor dissera…
Alguém a abanava nesse instante… acordou abruptamente… tinha quarto pares de olhos curiosos a olhar para ela.
- Mãe, ‘tiveste a beber? – perguntou Gustavo apontado para o copo com vinho. – Belo exemplo, hein.
- Cala a boca, Gustavo – ordenou o pai ajoelhando-se em frente da esposa. – Estás bem?
- Sim, sim. Vim só aqui limpar umas coisas e acabei adormecendo.
Eduardo olhou para a fotografia que a esposa segurava nas mãos.
- Meninos, vão lá para baixo. Preciso de falar com a vossa mãe.
Gustavo foi o primeiro a sair, seguido dos irmãos. Detestava o sótão, pois desde pequeno que acreditava que tinha lá um monstro e era a forma ideal de a sua mãe fazer com que ele a obedecesse. «Senão te portares bem tranco-te no sótão e deito a chave fora» dizia ela.
- Lembranças? – perguntou Eduardo quando se achou finalmente sozinho com a esposa.
- Sim, faz parte da idade, não é? Olhar para trás em retrospectiva e ver o que aprendemos com esta caminhada na terra…
- E o que aprendeste com isto? – apontou para a foto.
- Que conhecemos muita gente ao longo da vida, mas só os melhores amigos ficam sempre connosco… é inevitável… Nada é eterno…
- Digno do velho Igor!
Sorriram… era inevitável… havia coisas que a vida fazia por si mesma sem nos consultar…