
A ideia para este post surgiu de um problema de cariz semelhante que eu tive com uma das minhas “prés-adolescentes”. No fundo pretendo dar uma visão adolescente do tema e também uma lição de moral. Secalhar quem lê isto pensa «bah, os adolescentes não são assim!» Mas eu fui e também tive amigos assim… e que bom que seria se todos fossem como os jovenzinhos que eu crio!
Era sábado à tarde. Um primaveril dia no parque da cidade. As flores desabrochando coloriam o verdejante da relva e o chilrear dos pássaros rivalizava com a risada das crianças. Nos banquinhos adultos conversavam, liam o jornal ou alimentavam os pombos com pipocas. Na relva crianças brincavam, empinavam pipas, casais namoravam ou simplesmente conversavam.
À sombra agradável de uma árvore um grupinho de adolescentes conversava animadamente. Havia sido ideia da Diana aproveitarem aquele dia solarengo ao ar livre ao invés de fechados entre as quatro paredes de um cinema. Deitados sobre a toalha estavam Ivan, Diana, Becky e Raquel que jogavam às cartas, enquanto mais afastados se achavam Gustavo e Marco que andavam de skate no caminho calcetado do parque.
- P’ra próxima apostamos dinheiro – disse Becky que estava a ganhar. – Saio daqui rica!
- Só te fica mal estares-te a gabar, gorducha – atirou Marco que se aproximava do resto dos amigos na companhia do Gustavo. A transpiração na sua cara reluzia à luz forte do sol.
- Ai, vocês os dois nem comecem já a discutir – suplicou Diana.
- Então, surfista, já dominas o skate? – perguntou Ivan enquanto via os seus dois amigos perscrutarem as suas mochilas em busca de garrafas de água.
- Nem por isso, prefiro muito mais o mar, as manobras em terra são muito mais complicadas – respondeu Marco.
- Ainda vais a tempo de ir p’ra praia surfar, era um favor que me fazias – disse Becky.
Diana revirou os olhos enquanto Raquel sufocava o riso. Aqueles dois no fundo não conseguiam viver um sem o outro.
Joana apareceu nesse instante com uma cara de poucos amigos, o cabelo ondulava ao fraco vento e ela chegou junto dos amigos, sentou-se sem sequer lhes dirigir palavra. Todos tiraram os olhos das cartas, pasmados com aquela chegada tão abrupta. Gustavo apressou-se a desempenhar o seu papel como namorado, aproximando-se dela e colocando o seu braço em volta dos ombros a fim de a reconfortar.
- Que aconteceu, fofinha?
Foi a vez de todos controlarem o riso. Ouvir o Gustavo a referir-se a alguém por meio do adjectivo «fofinha» era deveras hilariante.
- ‘Tou super chateada com a minha prima – explicou Joana sucintamente. Os outros largaram as cartas e colocaram-se à escuta. – Aquela de treze anos… a Daniela…
- O que foi que ela fez? – quis Becky saber.
- Ela agora meteu naquela cabeça dela que quer ser popular! – contou Joana. – Que é p’ra ter um monte de amigos, ser convidada p’ras festas e p’ra conhecer rapazes…
- Ela tem treze anos? – repetiu Diana. – Então isso é normal, ‘tá na altura da rebentação das hormonas!
- Sim, Di, mas o que não é normal é ela ter mentido à mãe a dizer que ia dormir à casa do pai e dizer ao pai que ia dormir na casa da mãe… os meus tios são divorciados, caso não saibam. A minha tia ficou descansada e foi ao Norte visitar a nossa avó, portanto a menina Daniela ficou com a casa por conta dela… o que ela fez? Levou p’ra lá um pessoal, embebedaram-se e depois porque já era tarde e p’ra não irem embora sozinhos alguns dormiram lá em casa, e ela dormiu na mesma cama que um rapaz… não, não houve sexo – acrescentou Joana ao ver as reacções de choque nas caras de Becky e Raquel. – Mas o moço agora anda a espalhar pela Escola que dormiu com ela…
- Isso é muito mau – desabafou Ivan, taciturno.
- Muito mau?! – repetiu Joana em tom jocoso. – Se fosse só isso… também sei de uma história que uns rapazes começaram a gritar de uma varanda, cenas estúpidas, e ela mais as amigas formam bater à porta do apartamento deles a pedir p’ra entrar… isto não é normal… o pessoal todo lá da Escola dela anda a comentar estas histórias… ela que quer ser popular, bela fama que ‘tá a arranjar!
- Mesmo! – anuiu Gustavo. – Os rapazes todos vão começar a ser fácil e ela vai passar a ser a «quebra-galho», sabem… aquela a quem os rapazes recorrem quando estão necessitados.
- O moço fez muito mal em ter andando a esplhar essas mentiras – opinou Diana -, mas a tua prima… cá entre nós, também não se deu ao respeito.
- Eu sei! Vocês tão cheios de razão… eu tenho que tentar meter-lhe algum juízo na cabeça. Ela tem me contado estas histórias como se fosse algo que desse muito orgulho e eu prometi não contar nada a minha tia… ela é um pouco distraída, mas é boa mãe, só que do jeito que as coisas andam talvez não vai conseguir domesticar a minha prima. É que sempre que lhe mando mensagens ela ‘tá na rua com os rapazes, a fazer sabe-se lá o quê!
- Fogo, que cena! – exclamou Gustavo. – Ela tem um exemplo do caraças mesmo na vizinha do lado, não é? Aquela que também já rodou a cidade quase toda… também andava nessa onda de querer ser popular e deixou-se papar por tudo quanto era moço, levou a fama e agora ‘tá aí sozinha! Acho que vocês conhecem! Chamam-na de “Dunas” porque ela ia p’ra trás das dunas da praia e…
- Ah, já sei quem é! – Marco disse. – Aquela tem a abertura quase do tamanho do túnel do metro… é tipo discoteca gratuita sem porteiro.
Os jovens riram-se do gracejo de Marco, até Becky lhe dirigiu um sorriso, mas a piada do amigo não parece animar Joana, facto que Raquel notou.
- Jo, acho que tens de te esforçar p’ra por juízo na cabeça da tua prima. A sério… nesta idade as miúdas estão com a vontade toda de serem populares e de quererem crescer à força toda e acham que se forem p’ra cama com alguém que passam a ser melhores por isso… só que depois nem pensam nas consequências: ficar grávida, doenças ou até ficar com fama.
- P’ra quê que a tua prima quer ser popular? – perguntou Ivan. – A sério, ser popular às vezes nem é tão fixe quanto parece! O pessoal fala todo na tua vida, p’ra onde vais tão sempre a controlar os teus passos e quando há confusão acham que ‘tás sempre metido no meio!
- Sim, mas vai lá dizer isso a uma miúda de treze anos – retorquiu Diana. – E depois… ser popular por os motivos que ela quer ser… por favor, poupem-me! O tiro só lhe vai é sair pela culatra porque o Bruno ‘tá-me sempre a dizer que os rapazes não gostam de moças fáceis, sabem… aquelas que eles estalam os dedos e elas ‘tão logo lá.
- E também não gostamos de carne mastigada – acrescentou Marco.
Novamente eles riram, mas as gargalhadas morreram com a mesma repentinidade com que emergiram. A feição carrega de Joana não os incentivava a rir e eles permaneceram uns minutos em silêncio, ouvindo lá ao longo as risadas das crianças.
- Treze anos! – exclamou Becky quebrando o silêncio, todos olharam para ela. – eu não era assim com treze anos! Só dei o meu primeiro beijo com quinze, durante as férias de Verão, com o tal Oliver de Liverpool – Marco limpou a garganta sonoramente. Ivan e Gustavo trocaram olhares significativos que expressavam claramente o motivo da reacção do seu amigo. – Acho com treze anos era bem parvinha.
- Tu ainda és bem parvinha, gorducha – zombou Marco e Ivan piscou o olho a Gustavo em sinal de as suas suspeitas haviam sido comprovadas.
- Queres o quê, os miúdos de hoje em dia querem crescer mais depressa – disse Diana. – Assim como eu ficou de boca aberta quando oiço histórias de moças de doze que já não são virgens, a minha irmã também ficou quando soube que eu já namorava. Ela só teve o primeiro namorado aos dezoito, perdeu a virgindade aos dezanove e no fundo só teve duas relações na vida, e só têm vinte e três anos.
Eles anuíram com a cabeça. Raquel, algo acabrunhada, falou.
- Às vezes eu acho que não sou igual aos outros adolescentes da minha idade. Não façam essa cara – dirigiu-se a Diana e Joana. – É que a maior parte das moças da minha idade já teve relações sexuais e…
- Raquel, já tínhamos falado nisso! – interrompeu Joana, exasperada, pois ela detestava ver a amiga desvalorizar-se. – Cada um tem o seu ritmo e tu não tens de ir atrás do que os outros fazem só p’ra te sentires enquadrada.
- Mas sabes que elas também não perdoam – ripostou Raquel. – Começam logo a mandar boquinhas, «ah, não sabes o que ‘tás a perder». Falam de ser virgem como se tivéssemos a perder algo muito importante da nossa vida. Já sabes que nesta idade a gente liga muito ao que os outros dizem, e acabam sempre por existir pessoas como uma da minha turma que foi p’ra cama com o namorado que conheceu há uma semana só porque riam-se dela por ser virgem… ela acabou por ceder à pressão!
- Gente sem personalidade – suspirou Diana. – Primeiro elas não têm nada a ver com isso! Depois, cada um sabe quando é o seu momento certo, não são elas. Todos os que tão aqui temos aproveitado bem a nossa vida e tanto quanto sei somos todos virgens, não é?
Alguns coraram, mas no fim todos responderam afirmativamente com a cabeça.
- Qual é a idade certa p’ra se perder a virgindade? – perguntou Becky, ela estava vermelha como um pimentão.
- Outra! – exclamou Joana contorcendo os cantos da boca. – Eu não acho que existem uma idade obrigatória p’ra perderes a virgindidade e quem não perder é reprovado e passa a ser um totó. Acontece quando tem de acontecer! Quando já te sentes preparada, quando achas encontras-te a pessoa certa, não é perder só por perder porque se andam a rir de ti!
- Sim, mas sendo assim também não podes censurar as miúdas de 13 anos – retorqiu Ivan. – Sabes lá se com essa idade elas não se sentem já preparadas?
- É diferente, Ivan – retaliou Gustavo. – Treze anos ainda é cedo, até a nível de desenvolvimento do corpo, sei lá. E depois chegas aos 18 e fazes o quê? Acho que há uma idade certa p’ra tudo, e treze anos é cedo.
- Mais vale esperar pelo momento certo e ir aproveitando os namorinhos – opinou Joana.
- Pois… nós esperamos pela pessoa certa e vocês, rapazes, esperam pela mais boazona? – indagou Becky dirigindo o seu olhar claramente para o Marco.
- Nada disso – respondeu Gustavo. – E digo-te sinceramente, oportunidades não faltaram, mas preferia que fosse com alguém de quem eu gosto.
- Sim – concordou Marco. – P’ra ser com qualquer uma era só ligar à Dunas e pronto!
- E vocês acham sempre que nós temos de ser diferentes – rematou Ivan.
Elas riram.
- Eu não tenho problemas nenhuns em ser virgem – desabafou Diana. – Não sou nenhuma miudinha ingénua com o cinto de castidade como toda a gente pensa que elas são. Estou a ter o meu tempo, aproveitando a vida e o meu namorado e quando chegar, chegou. Que mania que as pessoas têm de pensar que o sexo faz amadurecer. Se fosse por isso as moças que começam a fazer isso bem cedo iam ter mais juízo na cabeça.
- Achas que essa pessoa é o Bruno? – inquiriu Joana lançando um sorriso à amiga, ela achava-se parecida com Diana pois também não ligava muito ao que as outras pessoas diziam.
- Sinceramente não sei… o que tiver que ser será! Se for o Bruno fico muito feliz porque a cada dia que passa gosto mais dele e acho que a nossa relação pode durar. Os meus pais e a minha irmão ficaram chocados quando souberam que o Bruno tem dezassete… já sabem, não é… um rapaz de dezassete anos tem interesses diferentes de uma moça de quinze… mas o meu bebé não, ele diz que não me quer forçar a nada, que espera até eu me sentir preparada… - e os nos seus olhos a felicidade dançava ao falar no namorado.
- Que fixe! – exclamou Joana. – Ele é bem diferente do Victor. O meu ex andava-me sempre a pressionar, «ah, eu tenho necessidades»… ainda bem que me livrei desse emplastro – e deu um beijo na bochecha do Gustavo.
- É tudo uma questão de atitude – filosofou Ivan. – Se souberes respeitar a outra pessoa e ti mesmo tudo bem.
- Vocês dizem isso porque ainda tão todos na idade – atalhou Raquel. – Agora aqueles que acabam a adolescência ainda virgens são todos vistos de lado. Toda a gente acha que antes já devíamos de ter vivido um grande amor, ter tido um namorado e pimba… mas depois há uns analfabetos sentimentais, como eu… os inúteis que não têm sorte nenhuma no amor… quero ver depois na casa dos vinte, quando se faz sexo por tudo e por nada, eu ainda virgem.
- Então tens uma solução, abre as pernas pró primeiro que aparecer e depois diz se valeu a pena – respondeu Joana, irritada. – Acorda p’ra vida, Raquel! Essas tuas colegas não batem é bem da cabecinha delas p’ra tarem a julgar quando é que tu tens ou não de ir p’ra cama com alguém. Tu esperas o tempo que achas que deves, e acredita que se ainda não apareceu ninguém p’ra ti é porque quando vier vai ser alguém mesmo muito especial! Quanto a essas vacas manda-as pastar porque se elas perdem tempo a comentar a vida sexual dos outros… é porque no fundo devem é ter uma vida sexual mesmo muito fracassada!
- Votem na Joana! – troçou Marco, aplaudindo.
E mais uma vez as gargalhadas ecoaram, somente forem quebradas pelo Bruno, o namorado da Diana, que apareceu com uma viola na mão.
- Olá, morzinho – Diana levantou-se e deu-lhe um beijo. Bruno saudou os amigos da namorada e eles retribuíram o cumprimento. – Trouxeste a viola?
- Sim, p’ra animar um bocado o pessoal e praticar – Bruno sentou-se do lado dela. – Que querem que toque?
- Outside, dos Staind – pediu Becky.
- Essa música é uma seca! – contrariou Marco. – Toca Olhos Certos, dos Detonautas.
- A minha é que é uma seca?! – admirou-se Becky. – Essa é uma porcaria!!!
E começaram a discutir.
- Olha, mor, toca uma música qualquer sobre duas pessoas que passam a vida a discutir mas que no fundo gostam muito uma da outra – sugeriu Diana.
Marco e Becky ficaram com as caras tingidas de escarlate de vergonha enquanto os seus amigos riam a bandeiras despregadas e Bruno tocava as notas inicias da música sugerida.