"Crónica de Costumes"
sábado, 29 de novembro de 2008
Desamores
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Curtas

Estavam num pequeno quiosque numa rua movimentada e na sua frente achavam-se centenas de jornais, mas os jornais ingleses destacavam-se sempre pelas suas letras garrafais, fundo negro e imagens reveladoras sobre o casal Beckham ou a família Real Britânica.
— Bom, existem jornais sensacionalistas em todo o lado, mas os ingleses exageram — respondeu Gustavo, vagamente, enquanto perscrutava num monte de jornais em busca do periódico irlandês Irish Independent e do jornal português que oferecia álbuns fotográficos de personalidades renomeadas na área, as quais ele coleccionava por ser de seu interesse pessoal. — Não sei qual é a piada de saber que a Britney Spears não faz a depilação ou que a Rihanna foi apanhada a andar sem cuecas.
— Aqui tem o seu troco, menino Gustavo — o velhote do quiosque, com um farfalhudo bigode grisalho, entregou ao Gus umas quantas moedas, as quais ele guardou no bolso das suas calças axadrezadas.
— O homemzinho já te conhece — fez notar ela enquanto eles se encaminhavam para o trabalho dele. Camilla concordara em leva-lo ao trabalho de manhã para praticar um pouco de exercício e desfrutar da sua companhia.
— É normal — retaliou ele enquanto lia o cabeçalho do Independent. — Vou sempre ali comprar jornais e sou o único que compra o Irish Independent. Gosto sempre de saber o que se passa no meu país.
Ela revirou os olhos. «Patriota», pensou.
— Olha, Gus, já reparaste que nunca mais se falou nada sobre aquela miúda inglesa que desapareceu na Praia da Luz… a Maddie McCann.
— Podes crer, tanto alarido p’ra nada. Eu acho que a miúda ‘tá morta… também, se for para a torturarem mais vale que esteja morta… sometimes a morte é mais uma solução do que propriamente um problema.
— Sabes, logo quando passou nas notícias a história do desaparecimento da Maddie, a minha irmã fez-me uma pergunta que me deixou a pensar…
— Qual foi?
— Ela perguntou: «Porquê que existem adultos que fazem mal às crianças?»
— E o que é que respondeste?
— Disse que existem pessoas más no mundo… mas no fundo acho que não dei a resposta certa, foi mais para despachar o assunto porque acho que ninguém sabe responder a essa pergunta…
— Concordo contigo, a maldade não tem explicação…
E ainda não hoje não sei que resposta dar…
domingo, 23 de novembro de 2008
Blindness

Aviso: Este post contém revelações sobre o enredo (spoilers).
Esta terça-feira que passou fui ao cinema (algo que já não fazia há muito tempo). Fui ver o Ensaio sobre a Cegueira, baseado na obra de José Saramago, o Nobel da Literatura que os portugueses tratam com fria indiferença. Já sabia de antemão, pelos críticos e por amigos que já tinham visto o filme, que estava prestes a ver uma daquelas obras-primas cinematográficas que arrumam a um canto qualquer filme de efeitos especiais sobre corridas de carros ou animais amestrados que praticam todo o tipo de desportos. De facto, a minha opinião acabou por coincidir com a de todos os outros. Chocante poderia ser a palavra-chave para definir o filme, e, no entanto, não poderia esperar outra coisa vinda de Fernando Meirelles, o mesmo homem que realizou Cidade de Deus.
Vi o filme e gostei, não me canso de recomendá-lo. Como ainda estava na fase de colheita de inspiração, anotei no meu bloco as ideias principais para escrever aqui.
Primeiro de tudo, acho que é impossível sair da sala de cinema sem odiar a humanidade. O filme coloca a nu toda a putrefacção do ser humano e se, por ventura algo semelhante acontecesse, tenho a certeza que seria assim mesmo. Como todos sabemos, no filme todas as personagens ficam cegas, à excepção de uma única mulher. As pessoas que vão ficando cegas são colocadas num edifício isolado após se comprovar que essa cegueira é contagiosa, o que por si só já pode ser considerado uma crítica. Na maior parte dos casos é preferível esconder o problema do que acreditar que ele está mesmo lá. Porém, achei curioso que, quando a Ministra da Saúde ficou cega, ninguém a mandou para esse mesmo local. Há medida que as camaratas desse edifico foram enchendo de cegos, foi-se tornando visível uma divisão. Para além da superlotação, era verificável uma sede de poder na Camarata Três. Esta, maioritariamente constituída por homens, proclamou-se como detentora da comida e que, caso as outras Camaratas quisessem comer, teriam de pagar. Ora isto mostra que, mesmo nesta condição, o ser humano não perde a sua ambição desenfreada.
Inicialmente a Camarata Três pediu dinheiro e bens valiosos em troca de comida. Interroguei-me para que quereriam eles dinheiro ou jóias se estavam ali, exilados naquele lugar e não poderiam fazer nada com o dinheiro. Foi pura ambição, penso eu. Mais tarde, em troca de comida a Camarata Três exigiu que lhes oferecessem as mulheres e esse é que foi o ponto mais repugnante do filme. É que muitos homens das outras Camaratas praticamente exigiram que as mulheres fossem prestar serviços sexuais para todos poderem comer. «Por um bem maior». Foi revoltante ver a maneira como as duas Camaratas cederam às exigências de uma Camarata só. Sendo as duas juntas mais numerosas que a terceira, facilmente poderiam revoltar-se e acabar com essas exigências. Uma vez mais, critica-se a inércia das pessoas face a uma “ditadura”, preferiram ceder do que lutar para mudar a situação.
Houve uma personagem que me intrigou especialmente. Um gordo que pertencia à Camarata Três. Ele era mesmo cego de nascença e não havia sido atingido pela tal «cegueira branca» como os restantes personagens. O médico, personagem principal, perguntou-lhe se ele sendo cego não sentia nem um pouco de compaixão para com os restantes que estavam em desespero perante esta situação. A esta acusação, um dos homens da Camarata Três respondeu: «Ele só é cego. Isso não faz dele bom ou mau, simplesmente é cego». Pensei para mim, esse gordo era cego muito antes de todos os outros, provavelmente sempre foi discriminado por isso e, agora que todos se encontravam na mesma situação que ele, sentia-se superior pois já estava habituado a essa condição e por isso sentia-se no direito de segregar os mais fracos.
Felizmente, e liderados por uma mulher (o que é mais curioso, porque os homens parecem ser os elementos mais fracos no desenrolar desta trama), conseguiram libertar-se da Camarata Três e fugir do edifício, verificando que a cidade estava num verdadeiro caos porque já todos tinham sido infectados pela cegueira.
A cidade estava em degradação, as pessoas andavam nuas pelas ruas enquanto os ultra-modernos automóveis se achavam estacionados, inutilizados pelas ruas. No final acabaram por nem ligar aos bens materiais quando viram que haviam perdido um dos seus bens mais preciosos: a visão.
Uma das críticas mais audaciosas e fugazes foi a feita à religião. Enquanto passava pela igreja a fim de transportar alimentos par ao resto do grupo, a mulher que via notou que todas as imagens dos santos tinham os olhos vendados e o padre tinha alterado todo o sermão, contando agora a história que de Jesus era cego. É a velha ideia de que o homem sente necessidade de adaptar a religião à sua realidade, o que me leva a pensar: «Será a humanidade uma criação de Deus ou Deus uma criação da humanidade?».
O reconfortante do filme é que, no final, todas as personagens voltam a ver. Conclui-se assim a lição de moral à qual, tanto Meirelles quanto Saramago se haviam proposto. Outro aspecto que também achei interessante, em contraposição com o do gordo cego, foi o de um senhor negro que também havia nascido cego. Ainda que ele desejasse que os amigos voltassem a ver, uma parte dele sentiu-se bem por ninguém ver (à excepção da mulher do médico) pois, pela primeira vez, ele sentia-se igual a todos os outros.
Resumindo, tiro do filme as seguintes conclusões:
¬ O ser humano é repugnante. Ainda que seja racional, o seu instinto é sempre animal e, independentemente da sua condição física ansiará sempre pelo poder.
¬ Não é uma deficiência física que irá definir se um ser humano é bom ou mau. A própria Agatha Christie costumava falar disso em seus livros.
¬ A religião é o ópio do povo.
¬ O mundo, hoje em dia, mergulhou numa espécie de cegueira branca. Uma letargia que o impede de ver o que está diante dos seus olhos. Talvez por isso a frase inicial do livro seja: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
¬ Saramago merece mais valor do que aquele que lhe dão.
Ps: Obrigado pelas palavras de carinho deixadas nos comentários do texto anterior. É bom estar de volta ;)
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Inspiração
— Foda-se! — gritou ela enquanto amarrotava furiosamente a folha de papel. Atirou-a ao lixo como se tratasse de uma bola de basquete. O papel bateu no cesto e foi rolando até aos pés dele.
— God, Boyle! Qual é o drama? — perguntou ele enquanto fazia zapping com o comando da televisão.
— Não tem piada, Gus! — retaliou ela. Sentia o coração martelando contra as costelas e um ódio inexplicável consumindo-lhe cada centímetro do corpo. — ‘Tou com um sério problema…
— Que é… — falava com o seu tom de voz despreocupado, que tanto o caracterizava mas que em situações como aquelas ela aprendera a detestar.
— Não consigo escrever! Não tenho inspiração! Não sai nada! Há meses que não escrevo nada no blog, que não me sai nada de especial. ‘Tou a ficar preocupada, a serio que ‘tou, isto não é normal! Antigamente eu andava sempre com o lápis e a caneta na mão, as ideias fluíam, às vezes até me davam para mais do que um post por dia, mas agora… — olhou para a folha que tinha na sua frente e contava pelos dedos as frases que não haviam sido riscadas. — Não consigo escrever nada, sinto a cabeça oca, perco-me nas ideias…
Gustavo curvou-se para a mesa que tinha na sua frente, pegou a primeira revista que encontrou e escondeu-se atrás dela. “Canção Nova”, dizia na capa.
— É só isso?
— Só isso?!
— Sim, Boyle, isso é perfeitamente normal, não é preciso fazer um filme francês sobre isso. Também passo alturas em que tiro fotografias suficientes para ilustrar a Enciclopédia Britânica e outras vezes saem-me fotos dignas de um pasquim e também há vezes em que não me sai nada, mas nem por isso tenho vontade de cortar os pulsos e escrever mensagens de ajuda com o sangue.
Camilla mordeu o lábio. Sentia que mesmo apôs aquela explicação, as preocupações que a consumiam não se evaporariam tão depressa.
— Oh, Gus, não é só isso, não sabes como é horrível tentares escrever alguma coisa e não te sair nada, parece que ‘tou a perder o meu dom, nem a merda de uma dedicatória de aniversário eu consigo escrever, não sei o que se passa…
— Well, but I know! Andas a exigir demasiado de ti. Essas coisas não se podem forçar, têm que sair naturalmente! Não te podes sentar à frente do computador a pensar «tenho que escrever, tenho que actualizar o blog», não é assim, Boyle.
— Sim, mas não é só por causa disso que ‘tou neste estado — interrompeu ela. Não é só porque tenho que actualizar o blog que ando assim… parece que ‘tou sempre a arranjar desculpas para não escrever… ou é por causa do estágio ou por causa dos trabalhos, mas mesmo assim ainda me sobra tempo e o que é que eu faço? Vou jogar Sims ou ver filmes…
— Porque agora ‘tás em aulas! É diferente! E ‘tás cansada, precisas de descansar, por isso é que vais jogar ou ver filmes, a vida não é só escrever. Durante o Verão escrevias mais porque tinhas mais tempo e tivestes mais experiências que te deram inspiração, agora ‘tás em stand by, só vais escrever quando acontecer alguma coisa que te faça dar aquele clic, não quando tu disseres que têm de ser… sei lá, é assim que essas cenas funcionam… os génios são assim.
— Pff, e quem é que te disse que eu sou um génio? Só tenho é a sorte de escrever umas quantas coisinhas com umas palavras rococós que as pessoas até gostam de ler… secalhar por ter me andado a gabar disso é que deixei de escrever. Perdi o poder…
Gustavo atirou a revista para um canto do sofá e olhou de sobrolho erguido para ela.
— OK, este foi o maior disparate que já disseste até hoje! Achas mesmo que uma força maior, se é que essa treta existe mesmo, te roubou o dom só porque eu ou qualquer outro dos teus amigos te chama de «geniozinho»? Boyle, that’s stupid! Há coisas que têm explicações bem mais básicas, simplesmente não tens tido inspiração, não é preciso fazeres disso uma novela mexicana e ires já buscar a Divindade e essas coisas todas para aqui…
Mas por essa altura ela já se sentia mais deprimida do que uma personagem de um romance existencialista de Simone de Beauvoir.
— Não sei mesmo, Gus… — levantou-se e agarrou no casaco. — Acho que vou dar uma volta p’ra ver se arejo as ideias… se continuar a olhar pró papel ainda dou em louca.
— Fazes bem, eu nem vou atrás de ti, ficas impossível quando ‘tás com essas crises. Vou acabar de ler a revista… e anyways eu já sei p’ra onde é que vais, se me aborrecer eu vou lá ter contigo.
Camilla revirou os olhos, ainda que o adorasse daquela forma que só um irmão é capaz de conhecer, detestava-o quando ele mostrava todo aquele interesse face às crises da humanidade. «Se a misantropia fosse uma pessoa, provavelmente seria o Gus», pensou ela.
Fechou a porta e saiu para a rua, sentindo o vento gélido lamber-lhe as maçãs do rosto. Correu o fecho éclair do casaco até ao pescoço e enterrou as mãos nos bolsos, caminhando sem rumo pelas ruas, até onde as suas pernas a conduziam.
Aquela sensação de vazio que sentia dentro da sua cabeça dava-lhe vontade de correr pelas ruas e gritar obscenidades, mas sempre tinha que reprimir esses instintos. Era o preço que se tinha de pagar por se viver em civilização. E o que fazer quando sentia toda aquela raiva fermentando dentro de si? Antigamente tinha a escrita, mas naquele momento nada saía da sua caneta. Era como se o seu cérebro estivesse entorpecido, congelado dentro de uma arca para ser estudado por gerações vindouras.
«Também não terão muito que analisar», pensou ela.
As pessoas acotovelavam-se a ela para poderem passar. Caminhavam apressadamente ou conversavam animadamente. Era tão caricato pensar que cada uma das pessoas com quem se cruzava nas ruas tinha uma vida, uma história só sua que por ventura nunca viria a ser do conhecimento geral e quando passavam por ela na rua era, para ela, como se só existissem naquele momento. «O que é que será que elas fazem quando eu as deixo de ver? Às vezes gostava de ser uma mosca e seguir cada uma dessas pessoas, ver como seria a vida deles». Talvez assim tivesse inspiração… mas ao mesmo tempo trespassou-lhe uma infinidade de pensamentos pecaminosos… «Secalhar as pessoas não são aquilo que eu penso que elas são quando as deixo de ver…». E então sentiu uma estúpida vontade de rir sonoramente na rua (ideia que teve de afastar pois corria o risco de ser olhada de esguelha, mais um dos preços da civilização), era como se ouvisse dentro dela a voz do Gus a dizer que talvez querer saber o que as pessoas fazem quando ela as deixa de ver não fosse tão benigno para o estômago e para a alma como assim se afigurava.
Sorriu e viu que algumas velhotas que andavam pelas ruas lhe retribuíam o sorriso. Repelindo a patética ideia de querer ser voyeur, ela continuo a caminhada, pensando para onde iria. «Anyways eu já sei p’ra onde é que vais» haviam sido essas as palavras do seu melhor amigo. De facto o Gustavo sabia sempre para onde ela ia quando precisava de pensar, já a conhecia muito bem, talvez mais até do que ela poderia querer. A cumplicidade sempre a assustara…
Viu pessoas amontoadas à montra de uma pastelaria admirando os deliciosos bolos expostos e lembrou-se de que ainda não bebera café. Em tempos remotos o café havia sido o seu amigo inseparável, o seu néctar revigorante nas horas intermináveis que passava a escrever, mas naquele momento sentiu que mesmo que lhe injectassem café nas veias qual soro, seria incapaz de escrever o que quer que fosse.
Entrou. Estava quente lá dentro. O som das conversas alegres dava à sala um ar agradável enquanto o cheiro a pão quente e a café perfumava o estabelecimento. Encontrou lugar a um canto, naquelas mesas onde habitualmente se sentam as pessoas que passam sempre despercebidas. Uma empregada extremamente maquilhada e com um sotaque de leste que arranhava o português veio tirar-lhe o pedido. Pediu um Cappuccino e uma torrada e aguardou até, passados cinco minutos, ela voltava com o pedido.
Camilla divertiu-se a ver o fumo que provinha da bebida. «Acho que o meu cérebro deve ‘tar assim. A fumegar… quase a queimar». Bebeu um gole. Foi como nascer de novo. O Cappuccino aqueceu-lhe a garganta, transmitindo-lhe algum calor de modo a fazê-la esquecer de que estava em pleno «inverno do seu descontentamento». A manteiga, exageradamente barrada derretia devido ao calor das torradas. «Colesterol», pensou ela. E decidiu que seria melhor não comer aquelas torradas.
Ia bebendo o seu cappuccino enquanto pensava em algo que pudesse escrever (e quase conseguia ouvir o zunir das moscas dentro da sua cabeça) quando alguém a chamou.
— Camy, por aqui?! — era Ana Rodrigues, sua colega da Universidade e das suas melhores amigas. Trazia debaixo do braço o novo livro de Carlos Zafón (que há muito lhe vinha roubando as horas de sono) e nos lábios o habitual sorriso de alegria.
— O meu corpo ‘tá aqui, mas acho que o meu cérebro foi raptado por algum OVNI — respondeu Camilla.
— Então?! — Ana sentou-se e ouviu avidamente o relato que lhe foi feito. Camilla desabafou com ela toda a raiva que lhe vinha trespassando nos últimos tempos por não ser capaz de escrever nada que se aproveitasse. Por achar que tinha o cérebro cansado, que era incapaz de raciocinar e que não conseguia mais fazer aquilo que mais gostava naquele mundo: escrever. Quando concluiu o seu depoimento, aguardou para que a amiga se desatasse a rir, talvez era o que ia acontecer, era o que acontecia sempre que revela os seus problemas aos outros, eles riam-se sempre pois estes pareciam sempre dignos de alguma nouvelle vague francesa. Porém, ao invés do escárnio, Ana ficou pensativa. — Posso te ser sincera? — disse Ana, por fim.
— Força.
— Eu acho que isso que ‘tás a passar é perfeitamente normal. ‘Tás numa fase de introspecção, todo o escritor passa por isso. Há autores que passam anos e anos sem escrever e depois voltam com um best-seller, simplesmente estava nessa fase… de pousio, vá. O Mozart e o Beethoven não compunham sinfonias todos os dias, nem o Da Vinci pintava a toda a hora… há alturas de descanso. Tu não és uma fonte inesgotável, também precisas de ‘tar algum tempo a descansar para depois poderes dar fruto.
— Essa conversa toda que vocês têm como se eu fosse alguma coisa de jeito. Só escrevo uns textozecos… às vezes olho para os livros — apontou para o exemplar de O Jogo do Anjo que jazia sobre a mesa. — E penso que nunca vou conseguir ser tão boa como o Zafón ou a Agatha Christie, eles sim são bons por isso o que eu tenho é um golpe de sorte, não um talento.
— Não é bem assim. Tu escreves bem, aliás, tens um dom muito especial, que é escrever coisas que fazem as pessoas sentirem-se bem, acho que tu, especialmente, escreves bem para um público jovem, histórias para adolescentes e no fim fazes uma coisa muito boa, dás lições de moral, por isso acho que, na nossa área da Educação Social, podias usar isso a teu favor. Já eu, por exemplo, dizem que nasci com o dom da palavra — Camilla anuniu com a cabeça —, sou boa a falar, tu és boa a escrever, senão fosses não ias ter pessoas a ler o teu blog ou a ler os teus textos. E de certeza que o Zafón não escrevia bem quando tinha catorze anos ou vinte, o tempo torna as coisas melhores, ou às vezes piores, dependendo das pessoas, mas foi com o tempo. Aquele livro que tu me mostrastes da outra vez…
— Sim, o The Rap Game, comecei a escreve-lo quando tinha treze anos e nunca o consegui acabar… ‘tou sempre a rescrevê-lo porque ele nunca ‘tá como eu quero… — sorriu. — Quando leio as versões anteriores até me dá raiva… Penso sempre: fui eu que escrevi isso.
Ana sorriu também.
— Sabes lá se esse não é o livro da tua vida? Há escritores que os últimos livros que publicam são, justamente, os primeiros que escreveram. Tens que ver que ‘tás em época de mudança. Como já saíste da adolescência, daquela coisa de escrever nos diários, de desabafar os problemas, é normal que não escrevas tão regularmente. ‘Tás a crescer, coisa que, pelo que já li, também tens medo, mas secalhar não é tão mau quanto parece. Envelhecer não é sinónimo de mudar aquilo que és. Os teus textos vão-se adaptar ao que tu és neste momento, provavelmente vais escrever sobre outros temas que não sejam a adolescência, apesar de seres muito boa nisso porque tu sabes como falar com os jovens. Tens é de compreender que ‘tás numa fase em que ‘tás a entrar na vida adulta… deve haver muita coisa dentro de ti que está em metamorfose, simplesmente precisas de tempo para consolidar isso, mas vais ver que quando te der aquele clic vais voltar a escrever — agarrou no livro que quase sempre a acompanhava. — Há aqui uma personagem que passou exactamente por isso que ‘tás a passar… era um escritor, escrevia muito, mas quando começou a ser pressionado pela editora, para cumprir prazos e contractos já não tinha inspiração… é normal, ninguém trabalha bem sobre pressão.
Foi como se tivessem acabado de regar uma planta murcha. Camilla absorveu cada palavra proferida pela amiga e sentiu-se bem interiormente. Os problemas pareciam tão ridículos depois de expostos.
Na mesa do lado alguém aplaudiu. Elas olharam para o lado, tinham estado tão absortas na conversa que se haviam esquecido por completo que estavam numa pastelaria repleta de pessoas. Naquela mesa achava Gustavo, vestindo um sobretudo negro abotoado até acima, estava com as faces rosadas de frio e o típico ar de diversão desenhado na cara.
— Excelente discurso, eu não teria feito melhor — levantou-se, agarrou no seu galão e foi sentar-se junto delas.
— Como é que tu sabias que eu ia ‘tar aqui? — inquiriu Camilla.
— Porque vim atrás de ti quando saíste casa — explicou ele. — Achas mesmo que te ia deixar sozinha sabendo que ‘tavas nesse estado tão «Holden Caulfield»? Vim atrás de ti e sentei-me aqui do lado enquanto vocês ‘tavam a conversar. Nem sequer reparam em mim.
— Aquela despreocupação toda foi só p’ra me enervar?
— Yes, precisavas de ‘tar um pouco sozinha e pensar, mas não tão sozinha a ponto de fazer alguma loucura, por isso é que te segui. Além disso, aposto que pensaste em muita coisa enquanto vinhas p’ra cá…
— Por acaso…
— Vês… fiz um óptimo papel…
— Nem tanto… desconfiei quando fingiste que ‘tavas a ler a revista “Canção Nova” da minha mãe… o Carlos Gustavo que eu conheço não acredita nessas coisas…
— Too much Agatha Christie — disse Gustavo dirigindo-se mais a Ana do que a Camilla.
— Definitivamente — acordou Ana.
Riram-se alegremente até…
— Pessoal, alguém tem um papel e uma caneta? — pediu Camilla. — Acho que tive uma ideia.
Gustavo retirou um bloco de notas do bolso… o bloco de notas de Camilla, o qual ela não escrevia havia muito tempo.
— What?! — exclamou ele quando viu a admiração dançar na cara da melhor amiga. — Eu penso em tudo… Às vezes acho que devo ter sido o teu anjo da guarda noutra vida qualquer.
— Às vezes eu acho que ainda és…
PS: Compreendem então porque desapareci? Medo de admitir que não conseguia escrever nada. Mas pelos vistos parece que voltei.

