
Aviso: Este post contém revelações sobre o enredo (spoilers).
Esta terça-feira que passou fui ao cinema (algo que já não fazia há muito tempo). Fui ver o Ensaio sobre a Cegueira, baseado na obra de José Saramago, o Nobel da Literatura que os portugueses tratam com fria indiferença. Já sabia de antemão, pelos críticos e por amigos que já tinham visto o filme, que estava prestes a ver uma daquelas obras-primas cinematográficas que arrumam a um canto qualquer filme de efeitos especiais sobre corridas de carros ou animais amestrados que praticam todo o tipo de desportos. De facto, a minha opinião acabou por coincidir com a de todos os outros. Chocante poderia ser a palavra-chave para definir o filme, e, no entanto, não poderia esperar outra coisa vinda de Fernando Meirelles, o mesmo homem que realizou Cidade de Deus.
Vi o filme e gostei, não me canso de recomendá-lo. Como ainda estava na fase de colheita de inspiração, anotei no meu bloco as ideias principais para escrever aqui.
Primeiro de tudo, acho que é impossível sair da sala de cinema sem odiar a humanidade. O filme coloca a nu toda a putrefacção do ser humano e se, por ventura algo semelhante acontecesse, tenho a certeza que seria assim mesmo. Como todos sabemos, no filme todas as personagens ficam cegas, à excepção de uma única mulher. As pessoas que vão ficando cegas são colocadas num edifício isolado após se comprovar que essa cegueira é contagiosa, o que por si só já pode ser considerado uma crítica. Na maior parte dos casos é preferível esconder o problema do que acreditar que ele está mesmo lá. Porém, achei curioso que, quando a Ministra da Saúde ficou cega, ninguém a mandou para esse mesmo local. Há medida que as camaratas desse edifico foram enchendo de cegos, foi-se tornando visível uma divisão. Para além da superlotação, era verificável uma sede de poder na Camarata Três. Esta, maioritariamente constituída por homens, proclamou-se como detentora da comida e que, caso as outras Camaratas quisessem comer, teriam de pagar. Ora isto mostra que, mesmo nesta condição, o ser humano não perde a sua ambição desenfreada.
Inicialmente a Camarata Três pediu dinheiro e bens valiosos em troca de comida. Interroguei-me para que quereriam eles dinheiro ou jóias se estavam ali, exilados naquele lugar e não poderiam fazer nada com o dinheiro. Foi pura ambição, penso eu. Mais tarde, em troca de comida a Camarata Três exigiu que lhes oferecessem as mulheres e esse é que foi o ponto mais repugnante do filme. É que muitos homens das outras Camaratas praticamente exigiram que as mulheres fossem prestar serviços sexuais para todos poderem comer. «Por um bem maior». Foi revoltante ver a maneira como as duas Camaratas cederam às exigências de uma Camarata só. Sendo as duas juntas mais numerosas que a terceira, facilmente poderiam revoltar-se e acabar com essas exigências. Uma vez mais, critica-se a inércia das pessoas face a uma “ditadura”, preferiram ceder do que lutar para mudar a situação.
Houve uma personagem que me intrigou especialmente. Um gordo que pertencia à Camarata Três. Ele era mesmo cego de nascença e não havia sido atingido pela tal «cegueira branca» como os restantes personagens. O médico, personagem principal, perguntou-lhe se ele sendo cego não sentia nem um pouco de compaixão para com os restantes que estavam em desespero perante esta situação. A esta acusação, um dos homens da Camarata Três respondeu: «Ele só é cego. Isso não faz dele bom ou mau, simplesmente é cego». Pensei para mim, esse gordo era cego muito antes de todos os outros, provavelmente sempre foi discriminado por isso e, agora que todos se encontravam na mesma situação que ele, sentia-se superior pois já estava habituado a essa condição e por isso sentia-se no direito de segregar os mais fracos.
Felizmente, e liderados por uma mulher (o que é mais curioso, porque os homens parecem ser os elementos mais fracos no desenrolar desta trama), conseguiram libertar-se da Camarata Três e fugir do edifício, verificando que a cidade estava num verdadeiro caos porque já todos tinham sido infectados pela cegueira.
A cidade estava em degradação, as pessoas andavam nuas pelas ruas enquanto os ultra-modernos automóveis se achavam estacionados, inutilizados pelas ruas. No final acabaram por nem ligar aos bens materiais quando viram que haviam perdido um dos seus bens mais preciosos: a visão.
Uma das críticas mais audaciosas e fugazes foi a feita à religião. Enquanto passava pela igreja a fim de transportar alimentos par ao resto do grupo, a mulher que via notou que todas as imagens dos santos tinham os olhos vendados e o padre tinha alterado todo o sermão, contando agora a história que de Jesus era cego. É a velha ideia de que o homem sente necessidade de adaptar a religião à sua realidade, o que me leva a pensar: «Será a humanidade uma criação de Deus ou Deus uma criação da humanidade?».
O reconfortante do filme é que, no final, todas as personagens voltam a ver. Conclui-se assim a lição de moral à qual, tanto Meirelles quanto Saramago se haviam proposto. Outro aspecto que também achei interessante, em contraposição com o do gordo cego, foi o de um senhor negro que também havia nascido cego. Ainda que ele desejasse que os amigos voltassem a ver, uma parte dele sentiu-se bem por ninguém ver (à excepção da mulher do médico) pois, pela primeira vez, ele sentia-se igual a todos os outros.
Resumindo, tiro do filme as seguintes conclusões:
¬ O ser humano é repugnante. Ainda que seja racional, o seu instinto é sempre animal e, independentemente da sua condição física ansiará sempre pelo poder.
¬ Não é uma deficiência física que irá definir se um ser humano é bom ou mau. A própria Agatha Christie costumava falar disso em seus livros.
¬ A religião é o ópio do povo.
¬ O mundo, hoje em dia, mergulhou numa espécie de cegueira branca. Uma letargia que o impede de ver o que está diante dos seus olhos. Talvez por isso a frase inicial do livro seja: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
¬ Saramago merece mais valor do que aquele que lhe dão.
Ps: Obrigado pelas palavras de carinho deixadas nos comentários do texto anterior. É bom estar de volta ;)


3 comentários:
Acabei visitanto teu blogger, pela pequena linda foto,mas deparei-me com otimos textos...
adorei a frase em que diz:" O ser humano é repugnante. Ainda que seja racional, o seu instinto é sempre animal e, independentemente da sua condição física ansiará sempre pelo poder."
Simplicidade aos humanos!
menos poder, muito mais poder!
bjs ao entardecer.
Bom, independente das outras conclusões que aí, eu me identifiquei com essa ->
O mundo, hoje em dia, mergulhou numa espécie de cegueira branca. Uma letargia que o impede de ver o que está diante dos seus olhos. Talvez por isso a frase inicial do livro seja: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
E ainda não fui ver o filme!...
Gostando da volta menina.
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