"Crónica de Costumes"

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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Aquela" pessoa


— Gus, posso te fazer uma pergunta? — indagou ela observando-o atentamente por entre as duas velas do candelabro que adornava a mesa.

Ele respondeu com um murmúrio enquanto saboreava uma fatia do Bife com molho pimenta que havia levado à boca. Por todo o restaurante ouvia-se o tilintar dos talheres rivalizando com o riso alegre das pessoas. Os empregados passeavam por entre as mesas, procurando satisfazer o máximo possível os exigentes clientes.

— Como é que sabes que encontras-te a pessoa da tua vida?

Gustavo teve de beber dois golos de vinho Rosé para engolir o pedaço de bife, provavelmente não esperava semelhante pergunta.

— Porquê essa pergunta?

— Curiosidade mórbida… tenho pensado nisso, falam tanto nessa coisa das almas gémeas que pus-me a pensar: então e como é que sabemos que essa pessoa é tal?

— Acho que vieste pedir ajuda à porta errada — brincou ele enquanto limpava os cantos da boca com o guardanapo. — However eu acho que, pelo menos nos filmes lamechas, isso se sabe quando a pessoa entra na sala e depois as outras pessoas param, toca aquela musiquinha romântica de fundo e os teus olhos brilham e sentes aquela sensação no estômago…

— Oh, Charles, ‘tou a falar a sério — resmungou ela cruzando os talheres, terminara o seu salmão. — Puxa pela cabecinha!

Well, eu não sou propriamente um romântico incurável e essas coisas de amor soam um bocado a Nicholas Sparks. Eu não sei se existe, supostamente, uma pessoa certa p’ra cada um de nós, tipo aquela pessoa, The One. Acho que ao longo da vida vais conhecendo várias pessoas até encontrares aquela com quem te identificas mais — fitou momentaneamente a ténue chama da vela. — Acontece tantas vezes… acharmos que encontramos o tesouro… mas no fundo são só jóias falsas — molhou novamente os lábios no vinho. — Acontece mais vezes do que devia…

— Sim, mas se isso acontece tantas vezes é porque ainda não encontrastes a tal pessoa… vê os teus pais, por exemplo, são casados há tantos anos e são felizes. Acertaram! Há pessoas que não têm tanta sorte

— É como tudo na vida… é uma questão de sorte… Os meus pais estão casados porque gostam mesmo um do outro mas há casais que ainda estão juntos por puro comodismo… por hábito, I think — inclinou-se para lhe sussurrar. — Aquele casal ali, por exemplo — Camilla seguiu-lhe o olhar até um casal de meia-idade que jantava sem trocar palavra alguma, quase como se fossem dois desconhecidos. — Chegar ao ponto de ‘tar a jantar e não se conversar com a pessoa com quem se casou... é assustador. A solidão acompanhada é pior tipo de solidão.

— É verdade, mas ‘tás a fugir um bocado ao assunto p’ra ver se te escapas da pergunta…

Sorriu novamente.

— OK, OK… Acho que sabes isso desde que falas com a pessoa. Há pessoas que passam uma eternidade de tempo juntas e de repente dá-lhes um clic e descobrem que foram feitas um para o outro… ou sei lá, quando já conheces a pessoa e sentes que ela preenche o vazio, que se completam… essas coisinhas todas… ‘Tás a rir do quê?

— Porque por essa descrição toda fez-me pensar que às vezes as pessoas devem achar, então, que nós os dois fomos feitos um para o outro!

— As pessoas não me conhecem ao ponto de me desejarem tanto mal assim — gracejou ele. — In fact, fomos feitos um para o outro, yes, mas só como amigos… acho que ambos merecemos pessoas com alguma sanidade mental… dois weirdos como nós…

Ela riu também.

— Mas vamos supor que tu vês uma pessoa, achas que têm tudo a ver…

— OH, essa coisa do amor à primeira vista é tão demodé e típico de uma novela de quinta categoria. Não podes olhar p’ra uma pessoa e dizer «é aquele», a não ser que Deus ou quem quer que seja responsável por isso, se é que há alguém responsável por isso, esteja de bom humor e decida facilitar-te as coisas… Eu acho que a pessoa certa não é quem tu queres que seja mas sim aquela pessoa que ‘tá destinada a ti — ficou alguns momentos em silêncio. — Esta conversa toda ‘tá-me a fazer sentir o Dr. Phil.

— Mas então é assim, temos de esperar pacientemente até o destino nos trazer a pessoa certa… Bah! Sinceramente detesto quem se acomoda com o destino! Será que temos que esperar que as coisas aconteçam por si só ou não podemos interferir para que as coisas aconteçam como nós queremos, afinal somos nós que fazemos o nosso próprio destino, não somos…

— Mas às vezes não o fazemos da melhor maneira… talvez a pessoa que tu achas que é a certa para ti pode não achar que tu és a certa para ela. Além disso, tentares interferir com o rumo das coisas seria manipulação e já sabemos que tudo o que é manipulado não dá frutos bons… é melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente.

— Sim, senhor existencialista, mas eu pensei que tu fosses defensor de que o homem é que cria a sua existência e está condenado à liberdade e tal e agora vens falar de forças ocultas que controlam o rumo das coisas…

— Não são forças ocultas! Também não sei o que são, mas, por exemplo: sim, o homem, através das suas opções é que cria a sua existência, mas há certas coisas que escapam ao seu poder de decisão, coisas que por mais que nos esforcemos para que aconteçam, pura e simplesmente não acontecem por se calhar não deviam de acontecer. Essa lengalenga de que o mundo dá muitas voltas e do «aqui se faz, aqui se paga», não são os homens que fazem para que isso aconteça… é o rumo das coisas, acontece porque assim tem de ser.

— Já pensaste em criar uma corrente de pensamento filosófico só sobre essa tua teoria?

Ele riu.

— Brinca, brinca. Eu pelo menos penso que as coisas funcionam assim, que por mais que queiramos que uma pessoa seja a certa para nós, se ela não for, não vale a pena fazermos nada em relação a isso. Podes-te esforçar para tentar fazer dela a pessoa mais feliz do mundo, mas senão tem que ser ela, então nada feito. A minha mãe ‘tá sempre a dizer «o que é teu ‘tá guardado, Carlos». Quem sabe neste momento o teu futuro Mr. Boyle está a jantar fora com a melhor amiga, lamentando-se de não ter encontrado ainda o grande amor da vida dele, com violinos de fundo a acompanhar a cena. Ou a minha Mrs. Charles Gustav, como tu dizes, deve ‘tar na mesma situação que eu, desejando fumar um cigarro mas não pode por causa da lei, namorando algum Merengue de Limão exposto na montra das sobremesas, ou esperando que o empregado de mesa se digne a deixar de lamber as botas daquele casal inglês cheio de dinheiro e venha levantar a mesa.

Camilla explodiu em gargalhadas.

— Tu decididamente não existes! — levantou o copo como que lhe propondo um brinde. — Mas confessa, despertei em ti essa veia de filósofo do destino e crente na chegada de um amor ideal que tu nem sabias que tinhas.

In deed, arrancas sempre o pior de mim daqui de dentro. Devias escrever um livro sobre isso…

— Um livro não, mas dava um bom post.

— Ah, levo-te a jantar lagosta se alguém se dignar a ler isso.

We’ll see, meu amigo irlandês!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Curtas


— Já reparaste, Gus, estes jornais ingleses são uma baixaria! — comentou Camilla enquanto apontava para um exemplar do The Sun.

Estavam num pequeno quiosque numa rua movimentada e na sua frente achavam-se centenas de jornais, mas os jornais ingleses destacavam-se sempre pelas suas letras garrafais, fundo negro e imagens reveladoras sobre o casal Beckham ou a família Real Britânica.

— Bom, existem jornais sensacionalistas em todo o lado, mas os ingleses exageram — respondeu Gustavo, vagamente, enquanto perscrutava num monte de jornais em busca do periódico irlandês Irish Independent e do jornal português que oferecia álbuns fotográficos de personalidades renomeadas na área, as quais ele coleccionava por ser de seu interesse pessoal. — Não sei qual é a piada de saber que a Britney Spears não faz a depilação ou que a Rihanna foi apanhada a andar sem cuecas.

— Aqui tem o seu troco, menino Gustavo — o velhote do quiosque, com um farfalhudo bigode grisalho, entregou ao Gus umas quantas moedas, as quais ele guardou no bolso das suas calças axadrezadas.

— O homemzinho já te conhece — fez notar ela enquanto eles se encaminhavam para o trabalho dele. Camilla concordara em leva-lo ao trabalho de manhã para praticar um pouco de exercício e desfrutar da sua companhia.

— É normal — retaliou ele enquanto lia o cabeçalho do Independent. — Vou sempre ali comprar jornais e sou o único que compra o Irish Independent. Gosto sempre de saber o que se passa no meu país.

Ela revirou os olhos. «Patriota», pensou.

— Olha, Gus, já reparaste que nunca mais se falou nada sobre aquela miúda inglesa que desapareceu na Praia da Luz… a Maddie McCann.

— Podes crer, tanto alarido p’ra nada. Eu acho que a miúda ‘tá morta… também, se for para a torturarem mais vale que esteja morta… sometimes a morte é mais uma solução do que propriamente um problema.

— Sabes, logo quando passou nas notícias a história do desaparecimento da Maddie, a minha irmã fez-me uma pergunta que me deixou a pensar…

— Qual foi?

— Ela perguntou: «Porquê que existem adultos que fazem mal às crianças?»

— E o que é que respondeste?

— Disse que existem pessoas más no mundo… mas no fundo acho que não dei a resposta certa, foi mais para despachar o assunto porque acho que ninguém sabe responder a essa pergunta…
— Concordo contigo, a maldade não tem explicação…

E ainda não hoje não sei que resposta dar…

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Inspiração

Dedicado a Gustavo e Ana. Obrigado!


— Foda-se! — gritou ela enquanto amarrotava furiosamente a folha de papel. Atirou-a ao lixo como se tratasse de uma bola de basquete. O papel bateu no cesto e foi rolando até aos pés dele.

God, Boyle! Qual é o drama? — perguntou ele enquanto fazia zapping com o comando da televisão.
— Não tem piada, Gus! — retaliou ela. Sentia o coração martelando contra as costelas e um ódio inexplicável consumindo-lhe cada centímetro do corpo. — ‘Tou com um sério problema…

— Que é… — falava com o seu tom de voz despreocupado, que tanto o caracterizava mas que em situações como aquelas ela aprendera a detestar.

— Não consigo escrever! Não tenho inspiração! Não sai nada! Há meses que não escrevo nada no blog, que não me sai nada de especial. ‘Tou a ficar preocupada, a serio que ‘tou, isto não é normal! Antigamente eu andava sempre com o lápis e a caneta na mão, as ideias fluíam, às vezes até me davam para mais do que um post por dia, mas agora… — olhou para a folha que tinha na sua frente e contava pelos dedos as frases que não haviam sido riscadas. — Não consigo escrever nada, sinto a cabeça oca, perco-me nas ideias…

Gustavo curvou-se para a mesa que tinha na sua frente, pegou a primeira revista que encontrou e escondeu-se atrás dela. “Canção Nova”, dizia na capa.

— É só isso?
— Só isso?!
— Sim, Boyle, isso é perfeitamente normal, não é preciso fazer um filme francês sobre isso. Também passo alturas em que tiro fotografias suficientes para ilustrar a Enciclopédia Britânica e outras vezes saem-me fotos dignas de um pasquim e também há vezes em que não me sai nada, mas nem por isso tenho vontade de cortar os pulsos e escrever mensagens de ajuda com o sangue.

Camilla mordeu o lábio. Sentia que mesmo apôs aquela explicação, as preocupações que a consumiam não se evaporariam tão depressa.

— Oh, Gus, não é só isso, não sabes como é horrível tentares escrever alguma coisa e não te sair nada, parece que ‘tou a perder o meu dom, nem a merda de uma dedicatória de aniversário eu consigo escrever, não sei o que se passa…

Well, but I know! Andas a exigir demasiado de ti. Essas coisas não se podem forçar, têm que sair naturalmente! Não te podes sentar à frente do computador a pensar «tenho que escrever, tenho que actualizar o blog», não é assim, Boyle.

— Sim, mas não é só por causa disso que ‘tou neste estado — interrompeu ela. Não é só porque tenho que actualizar o blog que ando assim… parece que ‘tou sempre a arranjar desculpas para não escrever… ou é por causa do estágio ou por causa dos trabalhos, mas mesmo assim ainda me sobra tempo e o que é que eu faço? Vou jogar Sims ou ver filmes…

— Porque agora ‘tás em aulas! É diferente! E ‘tás cansada, precisas de descansar, por isso é que vais jogar ou ver filmes, a vida não é só escrever. Durante o Verão escrevias mais porque tinhas mais tempo e tivestes mais experiências que te deram inspiração, agora ‘tás em stand by, só vais escrever quando acontecer alguma coisa que te faça dar aquele clic, não quando tu disseres que têm de ser… sei lá, é assim que essas cenas funcionam… os génios são assim.

— Pff, e quem é que te disse que eu sou um génio? Só tenho é a sorte de escrever umas quantas coisinhas com umas palavras rococós que as pessoas até gostam de ler… secalhar por ter me andado a gabar disso é que deixei de escrever. Perdi o poder…

Gustavo atirou a revista para um canto do sofá e olhou de sobrolho erguido para ela.

— OK, este foi o maior disparate que já disseste até hoje! Achas mesmo que uma força maior, se é que essa treta existe mesmo, te roubou o dom só porque eu ou qualquer outro dos teus amigos te chama de «geniozinho»? Boyle, that’s stupid! Há coisas que têm explicações bem mais básicas, simplesmente não tens tido inspiração, não é preciso fazeres disso uma novela mexicana e ires já buscar a Divindade e essas coisas todas para aqui…

Mas por essa altura ela já se sentia mais deprimida do que uma personagem de um romance existencialista de Simone de Beauvoir.

— Não sei mesmo, Gus… — levantou-se e agarrou no casaco. — Acho que vou dar uma volta p’ra ver se arejo as ideias… se continuar a olhar pró papel ainda dou em louca.

— Fazes bem, eu nem vou atrás de ti, ficas impossível quando ‘tás com essas crises. Vou acabar de ler a revista… e anyways eu já sei p’ra onde é que vais, se me aborrecer eu vou lá ter contigo.

Camilla revirou os olhos, ainda que o adorasse daquela forma que só um irmão é capaz de conhecer, detestava-o quando ele mostrava todo aquele interesse face às crises da humanidade. «Se a misantropia fosse uma pessoa, provavelmente seria o Gus», pensou ela.

Fechou a porta e saiu para a rua, sentindo o vento gélido lamber-lhe as maçãs do rosto. Correu o fecho éclair do casaco até ao pescoço e enterrou as mãos nos bolsos, caminhando sem rumo pelas ruas, até onde as suas pernas a conduziam.

Aquela sensação de vazio que sentia dentro da sua cabeça dava-lhe vontade de correr pelas ruas e gritar obscenidades, mas sempre tinha que reprimir esses instintos. Era o preço que se tinha de pagar por se viver em civilização. E o que fazer quando sentia toda aquela raiva fermentando dentro de si? Antigamente tinha a escrita, mas naquele momento nada saía da sua caneta. Era como se o seu cérebro estivesse entorpecido, congelado dentro de uma arca para ser estudado por gerações vindouras.

«Também não terão muito que analisar», pensou ela.

As pessoas acotovelavam-se a ela para poderem passar. Caminhavam apressadamente ou conversavam animadamente. Era tão caricato pensar que cada uma das pessoas com quem se cruzava nas ruas tinha uma vida, uma história só sua que por ventura nunca viria a ser do conhecimento geral e quando passavam por ela na rua era, para ela, como se só existissem naquele momento. «O que é que será que elas fazem quando eu as deixo de ver? Às vezes gostava de ser uma mosca e seguir cada uma dessas pessoas, ver como seria a vida deles». Talvez assim tivesse inspiração… mas ao mesmo tempo trespassou-lhe uma infinidade de pensamentos pecaminosos… «Secalhar as pessoas não são aquilo que eu penso que elas são quando as deixo de ver…». E então sentiu uma estúpida vontade de rir sonoramente na rua (ideia que teve de afastar pois corria o risco de ser olhada de esguelha, mais um dos preços da civilização), era como se ouvisse dentro dela a voz do Gus a dizer que talvez querer saber o que as pessoas fazem quando ela as deixa de ver não fosse tão benigno para o estômago e para a alma como assim se afigurava.

Sorriu e viu que algumas velhotas que andavam pelas ruas lhe retribuíam o sorriso. Repelindo a patética ideia de querer ser voyeur, ela continuo a caminhada, pensando para onde iria. «Anyways eu já sei p’ra onde é que vais» haviam sido essas as palavras do seu melhor amigo. De facto o Gustavo sabia sempre para onde ela ia quando precisava de pensar, já a conhecia muito bem, talvez mais até do que ela poderia querer. A cumplicidade sempre a assustara…

Viu pessoas amontoadas à montra de uma pastelaria admirando os deliciosos bolos expostos e lembrou-se de que ainda não bebera café. Em tempos remotos o café havia sido o seu amigo inseparável, o seu néctar revigorante nas horas intermináveis que passava a escrever, mas naquele momento sentiu que mesmo que lhe injectassem café nas veias qual soro, seria incapaz de escrever o que quer que fosse.

Entrou. Estava quente lá dentro. O som das conversas alegres dava à sala um ar agradável enquanto o cheiro a pão quente e a café perfumava o estabelecimento. Encontrou lugar a um canto, naquelas mesas onde habitualmente se sentam as pessoas que passam sempre despercebidas. Uma empregada extremamente maquilhada e com um sotaque de leste que arranhava o português veio tirar-lhe o pedido. Pediu um Cappuccino e uma torrada e aguardou até, passados cinco minutos, ela voltava com o pedido.

Camilla divertiu-se a ver o fumo que provinha da bebida. «Acho que o meu cérebro deve ‘tar assim. A fumegar… quase a queimar». Bebeu um gole. Foi como nascer de novo. O Cappuccino aqueceu-lhe a garganta, transmitindo-lhe algum calor de modo a fazê-la esquecer de que estava em pleno «inverno do seu descontentamento». A manteiga, exageradamente barrada derretia devido ao calor das torradas. «Colesterol», pensou ela. E decidiu que seria melhor não comer aquelas torradas.

Ia bebendo o seu cappuccino enquanto pensava em algo que pudesse escrever (e quase conseguia ouvir o zunir das moscas dentro da sua cabeça) quando alguém a chamou.

— Camy, por aqui?! — era Ana Rodrigues, sua colega da Universidade e das suas melhores amigas. Trazia debaixo do braço o novo livro de Carlos Zafón (que há muito lhe vinha roubando as horas de sono) e nos lábios o habitual sorriso de alegria.

— O meu corpo ‘tá aqui, mas acho que o meu cérebro foi raptado por algum OVNI — respondeu Camilla.

— Então?! — Ana sentou-se e ouviu avidamente o relato que lhe foi feito. Camilla desabafou com ela toda a raiva que lhe vinha trespassando nos últimos tempos por não ser capaz de escrever nada que se aproveitasse. Por achar que tinha o cérebro cansado, que era incapaz de raciocinar e que não conseguia mais fazer aquilo que mais gostava naquele mundo: escrever. Quando concluiu o seu depoimento, aguardou para que a amiga se desatasse a rir, talvez era o que ia acontecer, era o que acontecia sempre que revela os seus problemas aos outros, eles riam-se sempre pois estes pareciam sempre dignos de alguma nouvelle vague francesa. Porém, ao invés do escárnio, Ana ficou pensativa. — Posso te ser sincera? — disse Ana, por fim.

— Força.

— Eu acho que isso que ‘tás a passar é perfeitamente normal. ‘Tás numa fase de introspecção, todo o escritor passa por isso. Há autores que passam anos e anos sem escrever e depois voltam com um best-seller, simplesmente estava nessa fase… de pousio, vá. O Mozart e o Beethoven não compunham sinfonias todos os dias, nem o Da Vinci pintava a toda a hora… há alturas de descanso. Tu não és uma fonte inesgotável, também precisas de ‘tar algum tempo a descansar para depois poderes dar fruto.

— Essa conversa toda que vocês têm como se eu fosse alguma coisa de jeito. Só escrevo uns textozecos… às vezes olho para os livros — apontou para o exemplar de O Jogo do Anjo que jazia sobre a mesa. — E penso que nunca vou conseguir ser tão boa como o Zafón ou a Agatha Christie, eles sim são bons por isso o que eu tenho é um golpe de sorte, não um talento.

— Não é bem assim. Tu escreves bem, aliás, tens um dom muito especial, que é escrever coisas que fazem as pessoas sentirem-se bem, acho que tu, especialmente, escreves bem para um público jovem, histórias para adolescentes e no fim fazes uma coisa muito boa, dás lições de moral, por isso acho que, na nossa área da Educação Social, podias usar isso a teu favor. Já eu, por exemplo, dizem que nasci com o dom da palavra — Camilla anuniu com a cabeça —, sou boa a falar, tu és boa a escrever, senão fosses não ias ter pessoas a ler o teu blog ou a ler os teus textos. E de certeza que o Zafón não escrevia bem quando tinha catorze anos ou vinte, o tempo torna as coisas melhores, ou às vezes piores, dependendo das pessoas, mas foi com o tempo. Aquele livro que tu me mostrastes da outra vez…

— Sim, o The Rap Game, comecei a escreve-lo quando tinha treze anos e nunca o consegui acabar… ‘tou sempre a rescrevê-lo porque ele nunca ‘tá como eu quero… — sorriu. — Quando leio as versões anteriores até me dá raiva… Penso sempre: fui eu que escrevi isso.

Ana sorriu também.

— Sabes lá se esse não é o livro da tua vida? Há escritores que os últimos livros que publicam são, justamente, os primeiros que escreveram. Tens que ver que ‘tás em época de mudança. Como já saíste da adolescência, daquela coisa de escrever nos diários, de desabafar os problemas, é normal que não escrevas tão regularmente. ‘Tás a crescer, coisa que, pelo que já li, também tens medo, mas secalhar não é tão mau quanto parece. Envelhecer não é sinónimo de mudar aquilo que és. Os teus textos vão-se adaptar ao que tu és neste momento, provavelmente vais escrever sobre outros temas que não sejam a adolescência, apesar de seres muito boa nisso porque tu sabes como falar com os jovens. Tens é de compreender que ‘tás numa fase em que ‘tás a entrar na vida adulta… deve haver muita coisa dentro de ti que está em metamorfose, simplesmente precisas de tempo para consolidar isso, mas vais ver que quando te der aquele clic vais voltar a escrever — agarrou no livro que quase sempre a acompanhava. — Há aqui uma personagem que passou exactamente por isso que ‘tás a passar… era um escritor, escrevia muito, mas quando começou a ser pressionado pela editora, para cumprir prazos e contractos já não tinha inspiração… é normal, ninguém trabalha bem sobre pressão.

Foi como se tivessem acabado de regar uma planta murcha. Camilla absorveu cada palavra proferida pela amiga e sentiu-se bem interiormente. Os problemas pareciam tão ridículos depois de expostos.

Na mesa do lado alguém aplaudiu. Elas olharam para o lado, tinham estado tão absortas na conversa que se haviam esquecido por completo que estavam numa pastelaria repleta de pessoas. Naquela mesa achava Gustavo, vestindo um sobretudo negro abotoado até acima, estava com as faces rosadas de frio e o típico ar de diversão desenhado na cara.

— Excelente discurso, eu não teria feito melhor — levantou-se, agarrou no seu galão e foi sentar-se junto delas.

— Como é que tu sabias que eu ia ‘tar aqui? — inquiriu Camilla.
— Porque vim atrás de ti quando saíste casa — explicou ele. — Achas mesmo que te ia deixar sozinha sabendo que ‘tavas nesse estado tão «Holden Caulfield»? Vim atrás de ti e sentei-me aqui do lado enquanto vocês ‘tavam a conversar. Nem sequer reparam em mim.
— Aquela despreocupação toda foi só p’ra me enervar?
— Yes, precisavas de ‘tar um pouco sozinha e pensar, mas não tão sozinha a ponto de fazer alguma loucura, por isso é que te segui. Além disso, aposto que pensaste em muita coisa enquanto vinhas p’ra cá…
— Por acaso…
— Vês… fiz um óptimo papel…
— Nem tanto… desconfiei quando fingiste que ‘tavas a ler a revista “Canção Nova” da minha mãe… o Carlos Gustavo que eu conheço não acredita nessas coisas…
Too much Agatha Christie — disse Gustavo dirigindo-se mais a Ana do que a Camilla.
— Definitivamente — acordou Ana.

Riram-se alegremente até…

— Pessoal, alguém tem um papel e uma caneta? — pediu Camilla. — Acho que tive uma ideia.

Gustavo retirou um bloco de notas do bolso… o bloco de notas de Camilla, o qual ela não escrevia havia muito tempo.

What?! — exclamou ele quando viu a admiração dançar na cara da melhor amiga. — Eu penso em tudo… Às vezes acho que devo ter sido o teu anjo da guarda noutra vida qualquer.

— Às vezes eu acho que ainda és…

PS: Compreendem então porque desapareci? Medo de admitir que não conseguia escrever nada. Mas pelos vistos parece que voltei.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A história repete-se


Ok, este texto está um pouco confuso, sem nexo e fracote, mas foi o que consegui arranjar (para já) no meio da correria que tem sido a minha vida nestes últimos dias.

Good God, Boyle! — exclamou ele. — Já viste bem a tua cara? Parece que só dormiste duas horas?

— Adivinha só, não dormi nada! — retorquiu ela ante um bocejo. — Os meus vizinhos passaram a noite toda a fazer barulho, a falar alto e a cantar no quintal. Detesto o Verão! Eles ‘tão cá p’ra aproveitar o tempo livre mas esquecem-se que há gente que vive aqui e trabalha no dia seguinte. Eu sei que podia ter chamado a polícia mas depois não queria criar mau ambiente e provavelmente no dia seguinte ainda ia ter alguma surpresa desagradável, então fui p’ra net e fiquei a falar com o Jadson até de manhã.

Achavam-se os dois numa confeitaria. Eram 8:30 da manhã e vagueava no ar um cheiro a bolos acabados de sair do forno e a café quente, o espaço era preenchido pelo som das conversas alegres, o tilintar das loiças e o barulho das máquinas. O ambiente ideal para tomar um pequeno-almoço tranquilo.

— Os vizinhos são sempre uma chatice… mas espera lá, ficaste até de manhã a falar com esse tal de Jadson… muito bem… não me lembro de ficares até tão tarde a falar comigo… very well — e no seu rosto podia-se ver uma pontinha de ciúme.

— Bem, Gustavo, secalhar é porque ‘tou contigo 24 horas por dia enquanto o Jadson vive em São Paulo e só posso falar com ele pela net… — Camilla engoliu o riso. — Não precisas de ficar com ciúmes.

I’m not jealous — atirou ele desviando o olhar para a empregada de mesa que se dirigia para eles com o pedido. Serviu a ela um croissant torrado e um café com leite e a ele uma Bannoffee Pie (tarte de banana) e um sumo de laranja natural. Num lugar vazio deixou uma torrada e uma meia de leite. — Nhami, Bannoffe! — exclamou Gustavo cujos olhos reluziam ao ver aquele delicioso manjar.

— Gus, que porcaria de pequeno-almoço! Quem é que come Bannoffe a estas horas?

— Eu! Eu e toda a gente! É um bolo como outro qualquer, só que é especial porque faz-me lembrar a minha Irlanda!

Camilla revirou os olhos. Já devia adivinhar!

— És a pessoa mais patriota que conheço. No próximo dia dos namorados ofereço-te dinheiro p’ra tatuares uma bandeira da Irlanda nas costas.

— Dia dos namorados! — exclamou a tia Amélia que se aproximava deles com um jornal debaixo do braço para ocupar o lugar vago na mesa. — Ainda tenho a sorte de vos ver juntos?

No way! — negou Gustavo entre as goladas ao sumo. — É impossível, ela é como uma irmã p’ra mim.

— E depois, qual é o problema de dois irmãos se envolverem?! Vocês nunca leram “Os Maias”? — brincou a tia. Os três riram embora no fundo soubessem que uma relação entra aquela menina magrela de cabelos rebeldes e aquele jovem de braço tatuado e piercing no lábio fosse totalmente impensável. Assim que as risadas cessaram, a tia mergulhou na leitura do jornal enquanto os dois dedicavam a devida atenção a sua primeira refeição do dia. — Esta notícia está em todos os jornais — comentou a tia —, sobre os dois brasileiros que assaltaram o banco em Lisboa.

— Acho que é muita conversa p’ra uma coisa sem importância — opinou Gustavo. — Digo, Portugal nem é um país violento, thank God, mas quando acontece uma coisa assim as pessoas entram logo em pânico. Não é o fim do mundo! E depois… acha que o facto deles serem brasileiros, angolanos ou israelitas é assim tão relevante? Os portugueses também cometem crimes, sabe!

— Lá está, Gustavo — retorquiu a tia —, cometem crimes mas estão no país deles, daí que talvez a nacionalidade tenha alguma relevância. Tu não vais para a casa dos outros fazer porcaria! Eu não sou contra a emigração, mas desde que eles venham para cá para trabalhar, tudo bem, agora para roubar, assaltar e matar, então não são bem vindos. Pensa bem, o país abre-lhes as portas e eles vêm para cá e começam a assaltar e a matar… depois admiram-se que apareçam os Hitlers deste mundo…

— Não estará a exagerar? — riu Gustavo.

— Claro que não! Basta olhares em volta! A Europa não tem capacidade para suportar tantos emigrantes!

— Eu ontem falei com o meu amigo Jadson sobre isso — o olhar dela cruzou com o olhar dele e foi com deleite que viu que ele ficara afectado —, ele diz que é a vez das antigas colónias invadirem a Europa… o contrário do que aconteceu nos descobrimentos. A história acaba sempre por se repetir

— Sim, a única diferença é que os europeus quando foram para África ou para a América construíram cidades e instruíram pessoas — contrapôs a tia Amélia. — Não se meterem a assaltar bancos ou a roubar pessoas.

— Ah, então é da opinião que os europeus ensinaram os selvagenzinhos que corriam atrás dos rinocerontes a comportarem-se como pessoas civilizadas — brincou Gustavo.

— Bem, tia, mas eles quando vêem p’ra cá para a Europa também ajudam a construir prédios e cidades, ou esquece-se que eles fazem os trabalhos que mais ninguém faz… e se roubam é porque os europeus, quando foram para lá também roubaram as riquezas dos países deles…

A tia Amélia enrolou o jornal, visto que a conversa começava a interessá-la.

— Que disparate! Não roubaram! Exploraram os recursos, assim como os emigrantes fazem quando vão para outros países. Pela tua lógica, então quando um emigrante abre um negócio noutro país, está a roubar esses recursos. Assim sendo, o teu pai, que foi para o Brasil, é um ladrão. Os pais do Gustavo, que foram para a Irlanda, são ladrões. Eu, que nasci em Moçambique, também sou uma ladra…

— Talvez até tenha razão — disse Camilla. — Mas o Jadson acha que essa exploração é que levou à situação destes países hoje… que o Brasil, por exemplo, está como está porque roubaram o ouro para os palácios em Portugal.

A tia riu sarcasticamente.

— Que coisa mais ridícula! Então essa corrupção e pobreza no Brasil é porque D. João V mandou decorar os palácios a ouro… bem, mas que desculpa mais esfarrapada! Nem sei o que isso tem a ver! Se tivessem sido explorados por ingleses ia ser diferente?! Sinceramente nem sei onde é que se insere a lógica desse teu amigo…

— Tens de escolher melhor as pessoas com que falas, Boyle — atirou Gustavo.

Camilla lançou-lhe um olhar gelado.

— Meninos, eu nasci em Moçambique e vivi lá até ao 25 de Abril. Vocês sabem o que é construírem uma coisa e depois vir alguém e destruir tudo? Tudo bem, eles têm direito à independência, mas vejam só o que eles fizeram com o país, não estavam muito melhor quando lá estavam os portugueses? Agora é o quê: fome, miséria corrupção… está se desenvolvendo, sim, mas é com ajuda estrangeira… Eu acredito que cada povo tem o governo que merece. Vejam o presidente de Angola. É dos homens mais ricos do mundo enquanto povo passa fome!

— Porque também é mantido na ignorância — retaliou Camilla. — Não tem educação e por isso é manipulado pelo governo.

— Camilla, para fazer uma revolução não é preciso um mestrado ou um doutoramento. Se eu tenho fome, vivo em péssimas condições e vejo que o homem que devia de ‘tar a governar o país passa o dia a viajar de iate, então alguma coisa está errado, não é? Parece é que as pessoas, hoje em dia, acomodam-se mais em vez de irem a luta. E quanto àquilo que o teu amigo disse, de ser a vez das colónias a invadir, discordo, porque quando as colónias se tornaram independentes até estavam em boas condições, se depois caminharam para a banca rota, vão culpar os europeus? Eles, entretanto, já tinham sido mandados embora, então é mais fácil condenar o fundador do que o mau governador?

— Sim, talvez até tenha razão, mas temos de concordar que a história está-se a repetir. Só que agora a Europa está a ser invadida pelas suas antigas colónias, e basta pensarmos que agora são os Estados Unidos que “comandam” o Reino Unido.

— E eu repito, se eles vierem para cá para trabalhar, tudo bem, mas não para transformar isto no país deles! Não me parece muito justo, pois não. Digo, a culpa dos conflitos e da situação de África não é culpa da Europa. Eles já tinham estes conflitos muito antes, só que estavam reprimidos, assim que os europeus foram embora, os conflitos explodiram. Daí que a culpa não seja deles — opinou Gustavo. — As pessoas adoram lutar por um pedaço de terra… o mundo é tão grande, há espaço p’ra todos…

— O que eu acho engraçado — disse Camilla —, é que toda a história é contada na perspectiva do homem europeu… sabemos lá como os africanos ou os americanos se sentiram quando viram um barco cheio de gente a chegar no país deles e a tomar-lhe conta das terras, a fazer escravos… Não se trata de arranjar culpados, mas sim aprender com os erros do passado. A história repete-se, e acho até que há uma citação para isso…

— Ai sim, e foi o teu amigo Jadson que a disse? — zombou Gustavo.

— Por acaso até não foi — Camilla respondeu com azedume. — Foi Goethe, esta citação veio no “Mundo de Sofia”. «Quem não sabe prestar contas de três milénios, permanece nas trevas ignorante, e vive o dia que passa» … Toda a história tem dois lados, e nós infelizmente só conhecemos um!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“TRAGÉDIA” EM TRÊS ACTOS – EPISÓDIOS DA VIDA MODERNA


III Acto – “… porque cada acontecimento encerra uma lição”.

“Os erros são os portais da descoberta.” – James Joyce

— Porquê que ‘tás tão chateada? — perguntou ele enquanto apressava o passo para tentar alcança-la.

Já passava da meia-noite e ele tinha-a ido buscar a casa para os dois irem beber qualquer coisa a um bar de karaoke ali perto. Encontrara-a bastante irritadiça e sem dirigir-lhe palavra, ela começou a andar apressadamente para o bar com ele a correr atrás dela, sem saber ao certo o que se passava. Ela entrou abruptamente dentro do bar onde um casal de ingleses cantava a música “Unforgetable” do Frank Sinatra. Gustavo entrou logo em seguida, também bruscamente e foi sentar-se junto dela, o que levou o empregado de mesa a olhar para eles com a sobrancelha arqueada.

— Então, vais-me dizer o que é que tens? — perguntou ele, respirando com dificuldade pois viera a correr.

Ela ia abrir a boca para responder, quando o empregado de mesa se aproximou para tirar o pedido.

— Uma Magners p’ra mim e um Baileys p’ra ela — pediu Gustavo para o tentar despachar, mas ainda assim o empregado ainda permaneceu ali, olhando-os com curiosidade, quase como se estivesse a bisbilhotar. — É só!

E finalmente afastou-se…

— Então?
— Foi um idiota que veio falar comigo no Msn.
— Ele disse-te alguma coisa que te ofendeu?
— Não, foi mais pelo facto de ter vindo falar comigo.
— O que é que isso tem de mal?

— Oh, Gus, porque ele é daquele tipo de pessoas que dás Graças a Deus se nunca mais tiveres de lhe falar. Ele magoou-me muito, acredita e só de olhar p’ra cara dele ou de falar com ele, dá-me nojo, por isso é que fico tão chateada quando ele vem falar comigo.
— Sim… e quando é que ‘tás a pensar dizer-me o que é que ele te fez?

O empregado trouxe-lhes as bebidas, olhando-os com curiosidade e depois afastou-se.

— Bem, foi assim… uma amiga minha apresentou-nos, ele demonstrava muito interesse em mim e isso, e sabes como é, quando sabes que tens alguém interessado em ti, ou ficas interessado também ou nem sequer te importas… comigo foi mais o primeiro, fiquei interessada também e o meu erro deve ter sido esse, ter-lhe dito que gostava dele… quer dizer, é uma coisa que não se deve fazer com os rapazes porque eles podem-se aproveitar disso, já percebi que vocês gostam de ser maltratados… de qualquer maneira perguntei-lhe se tinha oportunidades e ele disse que sim, disse que queria muito ‘tar comigo e essas coisas todas, que gostava de mim e bla bla bla, e quando finalmente íamos ‘tar juntos, ele disse que já não queria nada, que tinha confundido as coisas e que nunca tinha gostado de mim daquela maneira…

What an asshole! Porquê que não me contas-te nada?
— Porque tu és homem e pensei que lhe pudesses dar razão porque secalhar quem estragou tudo fui eu…

— Isso não quer dizer nada! Posso ser homem mas também há coisas que os homens fazem que não concordo. Quem estragou tudo foi ele que não sabia o que queria e andou a brincar com os teus sentimentos.
— Exactamente — concordou Camilla enquanto abanava o seu copo e observava as pedras de gelo. — Já viste o que é darem-te falsas esperanças e assim do nada dizerem «ups, acho que não é isto que eu quero». Gus, nem imaginas como me senti.
Gustavo bebeu um grande golo da sua Magners.

— Devias de ter-me contado que eu tinha partido a cara desse imbecil! Eu farto-me depressa das moças com que ando, mas pelo menos digo-lhes logo do início que não quero nada sério, sou sempre sincero e só cai quem quer, mas quando quero brincar com pessoas, jogo o The Sims, pelo menos ninguém sai magoado…

— Pois, mas ai ‘tá a diferença entre tu e ele… tu és boa pessoa… a minha amiga diz que ele até é boa pessoa, mas depois disto que ele me fez a mim… não quero nem saber que tipo de pessoa ele é, só sei que tenho nojo dele.

— Bem, Boyle… secalhar devias de fazer aquilo que falta à minha tia e que conversamos hoje no carro… perdoar o passado e esquecer isso, até os maus acontecimentos têm lições p’ra ensinar.

— Sim, e este teve — notava-se algum rancor na voz. — Ensinou-me a ser mais cuidadosa quanto tiver de mostrar os meus sentimentos… mas se queres que te diga, depois disto acho que fiquei um pouco fechada p’ra balanço, o meu coração foi de férias ou assim…

— Às vezes eu acho que o meu reformou-se — brincou Gustavo. — Mas e perdoar, não?

— Gus, é difícil, neste caso, como é que perdoas alguém que andou a brincar contigo? Por mais que a gente tente não dá p’ra perdoar tudo, neste caso eu prefiro agir como se nunca tivesse existido, não perdoar, mas simplesmente riscar da minha memória, e fico bem, mas depois ele vem falar comigo como se nada tivesse acontecido, nem sequer pediu desculpas pelo que aconteceu e ainda se faz de vítima… — bebeu sofregamente do seu Baileys.

— Deixa ‘tar, Boyle… tu perdes-te tempo, mas ele perdeu uma grande mulher.

Camilla sorriu e deu-lhe um beijo na bochecha.

— Mas é só isso que te ‘tá a chatear?
— Pfff, nem por sombras, quando um mal vem, nunca vem só.
— Que aconteceu?

— Oh, sou eu que nunca aprendo com os erros. Fui cair outra vez na tentação de apresentar pessoas e a coisa deu pró torto e agora ‘tão-me a meter no meio da confusão. Já devia de saber que isso não dá certo, o ano passado apresentei pessoas totalmente diferente e qual foi o resultado: a minha festa de anos foi uma merda! Desta vez, apresentei um moço e uma moça, eles envolveram-se e agora andam p’ra lá numas confusões e ‘tão-me a puxar, querem que interceda por um, pelo outro, só que já sabes que se saírem chateados posso perder dois amigos de uma vez.

— Boyle, a tua vida tem dramas suficientes p’ra escrever uma colectânea — riu Gustavo. — Mas em que consiste esta crise?

— Bem, Gus, eu conheço pessoas tão diferentes que apresentá-las é sempre um erro. Fui apresentar um mulherengo a uma ciumenta compulsiva, mas também nunca pensei que se fossem envolver, mas pronto, envolveram-se e agora ‘tamos assim, ele não quer nada sério e faz p’ra lá umas coisas que eu sei mas que não posso contar porque ele é meu amigo e ela ‘tá sempre a mandar-lhe mensagens, obsessivamente, como um filme de terror, e depois encosta-me à parede e pergunta-me se sei de alguma coisa… imaginas o dilema em que ‘tou… a minha tia disse-me pra não me envolver, mas é difícil porque me puxam sempre lá p’ra dentro.

Gustavo riu.

— Ai, as pessoas nunca aprendem com os erros.

— Sim, mas no meio desta “tragédia” toda nem sei quem é que cometeu os erros. Se eu que fui me armar em parva e apresentá-los, se ele que acha que dormindo com toda a gente que ninguém vai sair magoado disto tudo, ou se ela, que acha que sufocando-o com atenções que vai conseguir alguma coisa.

— Bem, eu acho que tu não tens culpa… ele tem que aprender que não é usando as mulheres como terapia que se vai safar e ela tem que aprender que os homens precisam do seu próprio espaço! I mean, pelo menos eu não gosto de gente peganhenta e muito menos de coisas muito fáceis, perdes a vontade de lutar por elas e deve ser por isso que me farto depressa… see, eles é que cometeram os erros, não foste tu, mas deixa ‘tar que a vida vai-se encarregar de lhes ensinar a aprender com os erros deles… what goes around, comes back around.

Ficaram algum tempo a ouvir uma brasileira que cantava no karaoke uma música da Alcione, até que o telemóvel de Camilla tocou.

— Oh, não, aquele idiota mandou-me uma mensagem. “Achei que ias gostar de saber que o Chullage vêm cá”. O que é que ele quer com isto?

Só p’ra ter alguém, que vive sempre ao seu dispor, por um segundo de amor — cantou a moça.

— Talvez queria isto — zombou Gus apontando para o karaoke. — Ou talvez queria ser simpático, sei lá, ele é estranho…

— Pois é, e fiquei a saber que lhe tinham feito o mesmo que ele me fez a mim, que brincaram com os sentimentos dele e então ele deve ter ficado feliz por ter alguém que gostasse dele e fez isso e depois fartou-se e deitou fora… é nojento, não é, ele sabe o que custou quando foi com ele e depois fez o mesmo… não dá p’ra perdoar, o melhor mesmo é ignorar.

A vida é a melhor escola, os erros os melhores professores, mas há pessoas que são péssimos alunos — disse Gustavo. — Deixa lá, Boyle, tens a consciência limpa e é isso que importa. És uma grande mulher e mereces um grande homem, não uma amostra!


Sim, há pessoas que não sabem viver... apenas existem.

domingo, 3 de agosto de 2008

“TRAGÉDIA” EM TRÊS ACTOS – EPISÓDIOS DA VIDA MODERNA


II Acto – “… há que ser forte e seguir em frente…”

“Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o triunfo pertence a quem se atreve e a vida é muito curta para ser insignificante”Charles Chaplin


— Chegaram mesmo a tempo… acabei de tirar a carne do forno — elucidou a tia Amélia enquanto lhes abria a porta de casa.

Era uma senhora já na meia-idade, com um curto cabelo grisalho, alta e robusta, possuidora de uns encantadores olhos azuis e com um rostinho redondo e simpático. A mesa já se achava posta no jardim, à sombra, envolta num ambiente acolhedor e tipicamente mediterrâneo. O pastor alemão, Nero, ziguezagueava atrás da sua cauda, sendo atentamente observado pelas duas roliças e indolentes gatas. Como som de fundo ouvia-se o chilrear dos pássaros e os ABBA, que tocavam no rádio.

— Onde está a D. Maria? — indagou Camilla ao ver que mais ninguém se achava presente.

D. Maria era a patroa da sua tia, uma senhora já de idade, para quem Amélia trabalhara lealmente por mais de dez anos.

— Foi passar uns dias à casa do irmão — esclareceu a tia, abrindo o frigorífico. — Queres uma cerveja, Gustavo?

Ele ia responder, mas Camilla cortou-lhe a palavra.

— Não, tia, ele bebe sumo! P’ra já ele vai conduzir e vai trabalhar e depois… dê álcool e música — apontou para o rádio —, a um irlandês e ele só vai parar de beber quando tiver em coma.

A tia encaminhou-se para a mesa, rindo. Até o próprio Gustavo riu do gracejo que algo se assemelhava com a realidade, embora no que tocasse à bebida, os escoceses conseguissem bater os irlandeses.

Sentaram-se, serviram-se e ficaram algum tempo conversando, até que…

— Dona Amélia — disse Gustavo —, por acaso não sabe de nenhum apartamento para alugar? Tenho uma prima que vêm morar para cá porque conseguiu trabalho e anda à procura de casa. Ela já arranjou uma colega com quem dividir a casa, o problema é que não encontram nada assim em conta e a minha mãe lá na Agência ‘tá cheia de turistas que querem alugar casas e por isso não tem tempo p’ra ver isso.

— Hmmm — pensou ela —… tenho sim. — Dona Maria era dona de um prédio, o qual Amélia administrava — No quinto andar, os Silva foram-se embora e o apartamento ‘tá p’ra alugar.
— Foram-se embora?! — exclamou Camilla que conhecia grande parte dos moradores daquele prédio por ter lá passado grande parte da sua vida. — Eu gostava dos miúdos…

— Sim, eram simpáticos — comentou a tia limpando os cantos da boca com o guardanapo. — Apesar de terem andado por aí a dizer que eu os recriminava por eles terem computadores e telemóveis topo de gama…

— E isso é verdade? — perguntou Gustavo. — Quer dizer, as pessoas inventam muita coisa…

— Não é verdade mas também não é mentira… Diz-me lá, Gustavo, de que é que adianta ter um computador ou telemóvel moderno se depois no talho deves cem, na mercearia deves cinquenta, se atrasas a renda…

— Então eles usavam o dinheiro nos lugares errados? — concluiu ele e a senhora acenou afirmativamente com a cabeça.

— As pessoas às vezes tem as prioridades todas trocadas — disse Camilla.

— Pois é — concordou a tia. — Andavam todos bem vestidos, sempre com coisas novas, mas na caixa do correio era um monte de coisas para pagar e depois ainda se metiam a comprar coisas às prestações, contavam com o ovo no cu da galinha e ficavam com mais dívidas ainda, e depois ainda se metem em créditos que são uns autênticos agiotas, enfim, só sei é que tiveram de sair da casa porque estão afundados em dívidas.

— Quem diria! — exclamou Camilla.

— Eu, sinceramente, prefiro mil vezes ir trabalhando e colocando algum dinheiro de parte para comprar alguma coisa do que comprar às prestações e ir pagando todos os meses, imagina que acontece um imprevisto e não tenho o dinheiro! Não, nem pensar, prefiro chegar ao lugar e comprar a coisa com o dinheiro já na mão… é muito mais seguro — opinou a tia.

— Sim, mas isso vai depender também daquilo que pretende comprar — disse Gustavo. — Pode demorar algum tempo até conseguir esse dinheiro.

— Pois pode, mas sabias que o melhor mesmo de querer uma coisa é exactamente o querer, porque tu ficas pensando no que vais fazer para a ter, então vais trabalhando, mentalizado de que queres aquilo e pronto, quando consegues ficas «e agora?», porque já tens o querias. Mas acreditem, não há nada melhor do que encostar a cabeça no travesseiro e pensar «eu consegui isso com o meu trabalho».

Os jovens entreolharam-se, dado que ambos trabalhavam.

— Sabem, meninos, eu aprendi que se queremos ser alguém na vida ou se queremos ter alguma coisa para nós, só vamos conseguir isso através do trabalho… e não nos podemos contentar a trabalhar só as oito horas de trabalho, porque nessas oito horas ganhas o teu ordenado e depois, acham que serve? Quem quer ter as coisas faz horas extra, tem vários trabalhos. Existe algo melhor do que isso? Ter a força para ir à luta pelo que se quer, mas há luta honesta… é muito melhor do que viver aperreado, contando os tostões porque se quer ter a cabeça maior que o chapéu.

Eles pareciam os dois ávidos daqueles sábios conhecimentos que a senhora lhes transmitia. No fundo era assim, na vida tudo se conseguia com esforço e era preciso ser forte e ir à luta ao invés de ficar sentado aguardando que as coisas caiam do céu, pois no primeiro caso enquanto quem espera sempre alcança, no segundo quem espera desespera.

— Tem razão, Dona Amélia — admitiu Gustavo. — Eu sinto-me muito melhor por não ter que pedir dinheiro à minha mãe para comprar o que quero.

— É isso mesmo — anuiu ela, satisfeita. — O trabalho nunca matou ninguém, antes pelo contrário. Desde que sejamos honestos e nunca desistamos dos nossos sonhos, é assim que os podemos alcançar. E vejam o exemplo da Dona Maria. Trabalhou a vida toda, construiu o império dela e agora ‘tá a desfrutar desses anos de trabalho, numa casa confortável, viajando… garanto-vos que não há nada melhor do que isso.

— Ah, então vou já delinear as minhas metas — brincou Camilla. — Assim já me imagino no futuro, trabalhando arduamente mas vivendo num apartamento moderno nos subúrbios de uma cidade europeia, com um cãozinho que vai buscar o jornal e um filho brilhante — eles riram. — Mas o engraçado é que quando penso nisso não me vejo ao lado de nenhum homem, e muito menos ao lado de uma mulher — e novamente eles riram. — Sinceramente acho que essas relações normais não são para mim… prefiro uma ao estilo Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir… mas sem os menáges estranhos.

— Oh, essa era a melhor parte da relação deles — riu Gustavo que era um existencialista nato.

— As coisas que vocês dizem! — disse Dona Amélia que já tinha a cara rosada de tanto rir. — Querem sobremesa… tenho melancia e uma tarte de whisky que comprei ontem, muito boa…

— P’ra mim não — recusou Gustavo. — Não se esqueça que o whisky pode ser recessivo ao meu sangue irlandês e a minha hora de almoço ‘tá a acabar e é provável que hoje peça ao Mário p’ra fazer umas horas extra — brincou.

— É isso, meu filho, trabalha que só assim é que consegues as coisas, através do esforço aconselhou a tia. — Gustavo, quando saíres fecha o portão por causa do Nero — ia-se encaminhando par a cozinha, mas parou e disse. — E não se esqueçam que, em todos os aspectos, “a vida é fantástica senão tivermos medo dela”.

— Charles Chaplin! — disseram eles em uníssono.

Com um último sorriso a senhora encaminhou-se para a cozinha.

— Adoro a tua tia!

— Também eu, é uma espécie de segunda mãe.

— Eu vou andando, depois de saíres do trabalho queres ir dar uma volta ou assim?

— Pode ser.

Ele levantou-se da sua mesa mas lembrou-se de algo.

— Sabes, Boyle, se a gente vivesse numa ditadura, ias ser das primeiras pessoas a ser executada.

— Porquê? — estranhou ela.

— Porque fazes demasiadas perguntas!

Os dois riram.

— OK! ‘Tamos quites… nunca mais ofendo o teu sangue irlandês!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

"TRAGÉDIA" EM TRÊS ACTOS – EPISÓDIOS DA VIDA MODERNA


I Acto – “Por mais doloroso que tenha sido o passado…”

“A felicidade não se pode alimentar apenas das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro” – Jorge Amado (in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá).


Fuck! Se soubesses o quanto odeio estes malditos mecânicos! — desabafou Gustavo, exasperado, enquanto ligava o seu carro.

Estavam os dois sentados no carro dele. Ela tinha-o ido buscar à Agência de Publicidade onde ele trabalhava para assim os dois poderem ir almoçar.

— Então, onde é que vamos almoçar? — indagou ele tamborilando distraidamente com os dedos no volante.

— À casa da minha tia Amélia — ela esclareceu. — Ela fez Picanha e ‘tá à nossa espera!

— Já reparaste — disse ele enquanto fazia as manobras para tirar o carro do parque de estacionamento —, que todas as famílias têm uma tia solteirona? Se queres saber, acho-lhes piada. Normalmente são as que apaparicam os sobrinhos e se queres que te diga, senão conseguir manter uma relação por mais de dois meses, provavelmente vou-me tornar um tio solterião…

— Bom, pelo menos as minhas relações chegam até aos quatro meses — brincou Camilla. — Ganhei-te! Mas, tu também tens uma tia solteirona?

— Bem, da família do meu pai não, ele é filho único. O meu avô morreu num acidente de trabalho e a minha avó é daquelas pessoas que quando o marido morre enterra-se juntamente com ele, só voltou a casar com um irlandês quando o meu pai tinha 25 anos, o que explica muita coisa… E bem, na parte da minha mãe…

— Sim…

A menos que os olhos não lhe estivessem a trair, Gustavo parecia pouco à vontade.

— Também tenho uma tia, não é das melhores pessoas, se queres saber. Bloody cow! Não gosto nada dela.

Camilla riu.

— Tens uma língua afiada, Gus. Porquê que não gostas da tua tia?

— Também não ias gostar dela se a conhecesses. Ela parece uma raposa manhosa, sempre de guarda, olhando pacientemente à espera de alguma coisa para depois te puder tramar.
— Tenho a certeza que ‘tás a exagerar!

— Não ‘tou! Ela é bastante desagradável. Sempre a pavonear-se de que pode comprar coisas caras e que pode viajar ao Dubai, às Canárias ou p’ró raio que a parta! É tudo mentira porque ela não tem onde cair morta. No fundo, ela tem é inveja da minha mãe!

Camilla arregalou os olhos com o choque.

— E porquê isso?

— Bem, primeiro de tudo porque ela é a mais velha e acha que devia de ser aquela a quem todos deviam de pedir conselhos, mas a verdade é que os meus tios e os meus primos preferem a minha mãe. Também, não é de admirar, ela é muito mais simpática e divertida!

— Sim, Gus, mas isso não quer dizer nada, lá porque a tua tia ‘tá sempre com a cara fechada não quer dizer que seja má pessoa.

— Dizes isso porque não a conheces, toda a gente sabe disto. Primeiro de tudo, ela tem inveja da minha mãe porque ela fez um bom casamento com o meu pai, eles ainda estão juntos! Depois, a minha mãe já viveu em Paris e na Irlanda enquanto ela nunca saiu daquele buraco! Ela tem um bom trabalho na Agência Imobiliária e tem um filho brilhante como eu — os dois riram. — E olha p’ra ela, não tem nada!

— Secalhar a culpa não é dela, Gus…

— Acredita que é, Boyle, eu conheço-a melhor que tu. Ela podia ter seguido em frente como todas as pessoas fazem quando passam por coisas más, mas ela não o fez, ficou sempre a remoer «porque não eu? Porque não eu?». Pessoalmente odeio pessoas invejosas. Porquê que ela tem de procurar nos outros algo que pode encontrar dentro dela?

— Eu acho que ela não soube lidar bem com as adversidades do passado. Somos aquilo que a vida faz de nós, para bem e para o mal…

Ele parou o carro nos semáforos.

— Não é bem assim. Toda a gente passa por coisas más na vida e porquê que uns se tornam boas pessoas e outros se tornam psicopatas nojentos? See, Boyle, toda a gente têm os seus fracassos, os seus traumas, episódios que quer esquecer, mas acho que eles existem para nos ensinar a perdoar. Perdoar o passado! A vida é agora, não o que aconteceu há anos atrás! Porquê que ela ‘tá sempre a chafurdar no facto de ninguém a ter querido no Liceu? No facto de nunca ter encontrado um homem decente? Se ela soubesse seguir em frente e parasse de olhar para o que os outros têm, acredita que teria sido muito mais feliz…

— Ela tem baixa auto-estima?

— Acho que ela é mesmo louca, isso sim. Essa coisa da auto-estima tem muito que se lhe diga. As pessoas com baixa auto-estima querem sempre parecer que são coitadinhas, inofensivas, bla bla bla. Ah, give me a break! A minha mãe sempre me disse «nunca deixes que sintam pena de ti!». E ela tem razão! Essas pessoas querem sempre festinhas na cabeça mas há uma hora que tu te fartas de lhes fazer festas porque começas a perceber que eles gostam de estar nesse estado decrépito. Além disso, tu que gostas tanto da Agatha Christie, deves ‘tar careca de saber que na maior parte dos casos o assassino é aquele mais quietinho, que tinha o complexo de inferioridade que achava que tinha de compensar isso matando alguém, para se puder sentir alguma coisa que preste! São todos assim, as pessoas que perdem tempo com intrigas também, precisam de compensar com alguma coisa!

— Ah, isso lembrou-me uma lá do meu curso. A “intriguista-mor”, como lhe chamamos. Uma vez perguntaram-lhe porquê que ela não falava com a colega de casa e ela respondeu «porque ela é feliz demais». Sim — ela ressaltou quando viu a expressão na cara dele —, ela disse exactamente isso.

— Tal como a minha tia. Não são felizes, nem querem que os outros sejam. Ela queria tanto ser feliz que tem inveja de ver alguém a rir alegremente.

Camilla recostou a cabeça no assento do carro.

— As pessoas são estranhas! Às vezes os problemas são tão fáceis de resolver, porquê que fazem um bicho-de-sete-cabeças?

— Porque remoem, remoem, remoem! That’s the point! Ela agora está com uma depressão — Gustavo tossiu sarcasticamente. — Ás vezes não são os problemas que vêem atrás de nós, somos nós que vamos atrás deles. Seria tão fácil se ela compreendesse que nada dura p’ra sempre, que as desilusões não matam. E quanto a ti, com o teu “pseudo-complexo de inferioridade” que eu nunca percebi muito bem porque o tens, ainda bem que tens pessoas como eu, a tua mãe ou a tua tia por perto p’ra te dar nas orelhas, senão ias-te tornar numa dessas pessoas insuportáveis. «A gente só ajuda quem quer ser ajudado», é o que diz a minha avó.

— Ela tinha razão! E não é complexo de inferioridade — Camilla corou. — É só insegurança em relação às minhas capacidades… e aos rapazes…

Gustavo deu-lhe um pequeno soco na perna e ela sorriu.

— É melhor ligares à tua tia a dizer que ‘tamos a chegar… I’m starving!

Ela começou a procurar o seu telemóvel na sua bolsa. Gustavo sempre se perguntava como é que as mulheres conseguiam trazer a sua vida toda dentro de um pequeno utensílio. Ela tirou alguns objectos de lá de dentro… caderno de anotações… mp3, pacote de lenços… um livro…

— Que ‘tás a ler? — perguntou ele ao ver na capa do livro a foto do último Czar da Rússia e da sua família.

The Kitchen Boy — disse ela segurando o livro e olhando também a foto. — Sobre os últimos dias de vida dos Romanov… — permaneceu algum tempo em silêncio, observando a foto. — Sabes, Gus — disse por fim —, às vezes temos que conhecer bem o passado para poder entender o presente e quem sabe prever o futuro…

terça-feira, 22 de julho de 2008

Máscaras...


Basicamente a receita é esta: pego numa conversa que tenha tido com ele, dou-lhe um diferente contexto, altero uns quantos nomes se considerar pertinente (como foi neste caso), coloco uma sátira aqui, uma irónica acolá et voilá, saí um texto assim…

— Não achas engraçado, Gus, o facto de as pessoas representarem como actores amadores e nem darem conta disso? — declarou Camilla.

Estavam os dois em pé, na paragem de autocarro com mais uma dúzia de pessoas, na sua maioria jovens que, tal como eles, transportavam sacos de compras, ou adultos que empurravam carrinhos de bebés. Eles tinham ido às compras ao Shoping da cidade vizinha e agora aguardavam pela chegada do meio de transporte que os iria levar a casa, estava um calor abrasador de Verão e o cheiro do protector solar misturava-se com o da transpiração de inúmeras pessoas.

— ‘Tás armada em Miss Marple estudando o comportamento humano? — zombou ele.

— Não! É só que às vezes as pessoas não são aquilo que elas querem parecer que são… sabes, por vezes usam máscaras e nunca mostram aquilo que realmente são… São como actores amadores no chamado palco da vida… Vês aquele homem do outro lado da estrada — apontou para um homem engravatado que caminhava apressadamente balançando a sua pasta de cabedal — todo janota, deve ser um advogado, banqueiro, gestor ou algo assim, mas quem não te garante que não possa ser um burlão, um agiota ou um mafioso…

— Ah, sim! Às vezes não nos podemos guiar pelos nossos sentidos porque «não há nada mais falso do que aquilo que se vê», os acontecimentos nem sempre são como os vemos, há sempre algo escondido debaixo do tapete, é aí que queres chegar?

— Exactamente! Às pessoas projectam-se para nós como querem que nós as vejamos, às vezes escondem muita coisa do seu verdadeiro eu, usam a máscara…

— Ah sim, e a que propósito veio esta conversa? Ainda pensas naquilo da tua Universidade?

Camilla suspirou!

— Sabes, Gus, ao menos entrar para aquela turma ensinou-me a manter os dois olhos sempre abertos e a estar quase sempre reticente quanto a confiar nas pessoas. Nunca tinha visto tanta falsidade junta. E o mais irritante no meio disto tudo é que as pessoas que te tratavam melhor eram justamente aquelas que eram mais falsas, ao contrário daquelas que pareciam quase nunca sorrir para ti, que pareciam que te odeiam, no fundo não tem nada contra ti…

— «Nem toda a gente que te sorri te quer bem», foi o que eu aprendi. Pessoalmente detesto pessoas efusivas… aquelas que mal te conhecem e são sempre muito carinhosas contigo, todas sorridentes, conversando pelos cotovelos, com abracinhos, sabes, pode ser a minha misantropia a falar, mas acho que há algo errado nisso tudo, que não encaixa. Pode até ser um pré-conceito, mas na grande maioria das vezes mostrou-se muito acertado.

Ela lançou-me um sorriso.

— Tal como tu! Às pessoas olham para ti, com o piercing, as tatuagens no braço, sempre observando e pensando em fotografias, não dariam nada por ti e não sabem o amigo leal que és, Sr. Misantropia.

Ele riu e deu-lhe um pequeno empurrão.

— Olha quem fala, Senhorita Complexo de Greta Garbo. Sempre perdida nas páginas de um livro e com a cabeça nas nuvens — ambos sorriram. — Sabes, eu gosto de observar as pessoas, mas não perco o meu tempo a ser como elas. Às vezes acho que as pessoas reflectem os seus problemas na maneira como tratam os outros. Havia uma moça no meu Curso que tinha problemas em casa com os pais e para fugir a eles fazia mexericos, era sempre muito simpática contigo para depois te tramar quando viravas as costas, ou um moço gay que a mãe não o aceitava e ele para isso espezinhava os colegas mais “fracos” para se sentir melhor… sabes, gente assim embrulha-me o estômago.

— A natureza humana é muito curiosa. É como ler um policial. Pelos dados que nos são fornecidos sempre achamos que pode ser um «X» porque achamos que ele se enquadra devido à sua personalidade, mas a verdade é que o assassino é sempre quem menos esperávamos porque ele estava usando uma máscara.

— Elementar, meu caro Watson… Oh não, o autocarro vem aí! — mas não parecia muito animado. — Devíamos de ter ido de comboio!

— Porquê que não gostas de andar de autocarro, Gus?

— Já viste bem estes autocarros?! São os restos mortais de um transporte público da Alemanha! Estas coisas deviam de estar num museu e não andando na estrada!

Para sorte deles o autocarro não era dos mais velhos. Entraram, Gustavo ia praguejando contra os mecânicos que nunca conseguiam ter os carros prontos a tempo, pagaram e encaminharam-se para uns lugares quando…

— Camilla?!

Ela olhou em volta até ver que quem a chamara fora Fernanda, a mãe das prés-adolescentes de quem ela tanto gostava e inquilina da sua tia Amélia. Eles cumprimentaram-na e ocuparam os seus lugares junto dela. Camilla sentou-se ao lado de Fernanda e Gustavo no banco da frente, ao lado de um senhor já de uma certa idade que trazia o braço engessado, no entanto, ele virou-se para trás para poder conversar com elas.

— Então, vieram as compras? — indagou Fernanda olhando os sacos que eles traziam. Eles anuíram com a cabeça. — E é o teu namorado, Camilla?

Eles sorriram, já estavam habituados a essa pergunta.

— Não, é o meu melhor amigo, o Gustavo!

— Ah, então é este o famoso Gustavo que as meninas tanto falam… elas bem que diziam que tu tinhas um amigo muito engraçado e falavam sempre num tal Gustavo e então é este — olhou-o de cima abaixo. — Sim, senhor. Mas senão me dissesses eu ia jurar que ele era estrangeiro, mas pelo nome…

— É normal — retaliou ele —, eu sou irlandês — e a verdade é que os olhos verdes, o cabelo castanho quase loiro e a aparência excêntrica ele parecia tudo menos português. — Os meus pais são portugueses, mas como conheciam gente na Irlanda foram para lá… vivi lá até aos nove anos e depois vim para Portugal.

— Ah, mas então és praticamente português — disse Fernanda.

— Humm, pelo menos não me vejo assim, identifico-me mais com os irlandeses, ainda vivi lá mais três anos porque fiz a Universidade lá… tenho mais a ver com os irlandeses, sabe.

— É esse o problema quando se é filho de emigrante — suspirou Camilla. — Nunca sabemos de onde somos. Os brasileiros olham p’ra mim e dizem «ah você já é praticamente portuguesa», mas eu não me identifico muito com a cultura portuguesa… se me forem a perguntar eu não sei sinceramente o que sou.

— Tens de encontrar o lugar onde te encaixes — brincou Fernanda. — E qual é o curso que tiraste, Gustavo?

Tanto quanto Camilla podia saber pelo facto de já conhecer bem o seu melhor amigo, ele detestava falar dele mesmo.

— Design Gráfico. Estudei na Irlanda durante três anos porque a minha mãe disse que ia ser melhor assim, além disso não sei se quero continuar cá em Portugal por muito tempo… de qualquer maneira ‘tou a estagiar numa empresa de Publicidade, trabalho com Web Design e essas coisas assim.

— Não me digas que é a empresa do Mário?! — admirou-se Fernanda.

— Mário Fernandes, exactamente, é o meu patrão.

— Então deves conhecer a ex-mulher dele!

Gustavo revirou os olhos.

— Se conheço, vai lá às vezes fazer um ou outro escândalo e agora abriu uma loja de decoração e quer que a gente trate da publicidade. O Mário diz que não a entende porque ela agora é rica mas atrasa os pagamentos todos.

— Ah sim — disse Fernanda. — Ela largou o Mário porque se casou com um homem ainda mais rico, só que muito mais velho, mas aposto que ela não diz a ninguém o que fez para arrebatar o velho — Camilla e Gustavo entreolharam-se. — Sim, ela não tinha nem onde cair morta… já a conheço há muito tempo, trabalhava comigo no Time-share, era um pé rapada! Conheceu o Mário mas depois andou atrás do velho, também trabalhei com uma das filhas do velho que não podem com essa mulherzinha. Claro que ela serviu-se de uns bruxeduzinhos para conseguir ficar com ele… O quê que acham que uma mulher tão nova ia ‘tar a fazer com um homem tão velho que já foi casado três vezes!

— Bem, ela disse que teve umas lojas em Londres e que por isso é que ficou rica e depois conheceu lá o senhor.

Fernanda riu ironicamente.

— Lojas em Londres! Ela nunca saiu do país, o Mário sabe disso, assim como também sabe que o velho só é rico porque enganou muita gente, fazia os desvios deles e não pagava aos funcionários e como eles não tinham documentos, não podiam provar isso.

— Quer dizer que aquele dinheiro todo é sujo. É tudo fachada?

— Claro! O Mário nem pode com ela, e o pior é que ela agora ‘tá a ir pelo mesmo caminho do velho, não paga aos funcionários e são agarrados ao dinheiro de um jeito que até dá dó!

— Bem, mas eles vão acabar por pagar pelo que fizeram — disse Camilla. — Não é assim?

— Olha que não sei — respondeu Fernanda. — Já tenho visto tanta maldade que às vezes pergunto-me se essas pessoas não serão as que se dão bem na vida, pelo menos até agora ninguém os apanhou e vejam bem que eles são muito conhecidos e são muito ricos… mas é nojenta a forma como conseguiram o dinheiro… Oh, é a minha paragem!

Despediu-se deles e saiu juntamente com várias pessoas, levando com ela os cumprimentos que eles haviam mandado para as gémeas.

Bloody Hell! — exclamou Gustavo. — Quem diria que a respeitável ex-mulher do Mário era uma vigarista!

—Gus, p’ra quem não gosta de mexericos parecias uma autêntica beata! — repreendeu Camilla.

— Eu não falei mal de ninguém! Só disse a verdade! Toda a gente sabe que o Mário diz aquelas coisas sobre a ex-mulher dele! — ficou uns segundos calado. — Mas achas que ela pode ‘tar a mentir?

— A Fernanda?! Não me parece… ela não é desse tipo de pessoas… — fez uma pausa e ergueu o sobrolho. — E daí… não sei, não pudemos meter a mão no fogo por ninguém. Nunca sei quando as pessoas estão com as máscaras postas ou não!

— A quem o dizes! E já que falas em máscara, estes dois tem uma perfeita. Ninguém desconfia deles os dois, respeitáveis pessoas de negócios. E o Mário que sabe disto tudo e ainda tem de lidar com eles!

— Sabes Gus, ainda que a Fernanda tenha razão no que disse, ela pode não saber a verdade toda, cada história tem dois lados e pode não ter sido tudo como ela contou, além disso, é melhor nem te meteres. Eu sei que gostas do Mário e ele é um óptimo patrão mas faz o teu trabalho e quando acabar a tua hora desliga-te, não tomes partido nem as dores de ninguém…

— Normalmente sou eu que te dou conselhos…

— Hoje foi a minha vez!

— Sim, vocês mulheres percebem melhor de intrigas do que nós.

Camilla deu-lhe um soco no braço.

— Mas que visão tão machista! Tu é que és ingénuo e já ‘tavas a emprenhar pelos ouvidos porque é uma coisa que indirectamente te diz respeito. Não precisas deste tipo de conversas, és uma pessoa transparente... Ah, vamos sair aqui!

— P’ra fazer o quê?

— Lanchar com a Tia Amélia. Depois de tanta banalidade apetece-me uma conversa interessante sobre coisas que valem realmente a pena.

O autocarro parou e eles saíram. Estavam caminhando quando ele parou subitamente. Camilla parou também e viu-o com um olhar pensativo, brincando com o seu piercing no lábio com a língua enquanto matutava em algo.

— Aconteceu alguma coisa, Gus?

Ele, com um ar muito sério perguntou-lhe:

— Camilla, já alguma vez pensaste em ir viver para a Irlanda?

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Origem do Mundo - Filosofia Barata no Carro


Ler “O Mundo de Sofia” deu completamente a volta aos meus miolos. Ter um melhor amigo que adora filosofia e é um admirador afincado de Jean Paul Sartre também. E para finalizar, uma mãe que acha que Deus explica tudo pode-se dizer que é a cereja em cima de tamanha insanidade que daqui provém. Duas pessoas com visões opostas sobre o mundo e uma jovem que vive incansavelmente procurando por respostas dá no que pensar. Por isso é que estas viagens de carro são tão interessantes. Por isso é que escrevi este texto. Algumas coisas aconteceram, outras não, outras são mistura com episódios anteriormente vividos, são aqueles pequenos toques que fazem o escritor sorrir interiormente…

— Peço imensa desculpa por lhe estar a dar este incómodo, tia Telma, mas o meu carro só volta do mecânico na terça-feira — desculpou-se Gustavo enquanto eles entravam no carro.

A mãe de Camila, uma senhora de aparência jovem apesar da idade com que já contava preparava-se para levar a filha e o melhor amigo dela à praia. Era um solarengo dia de Verão, com um sol abrasador que convidada a um refúgio fresco. Camila envergava um vestido branco e trazia consigo uma pequena sacola de praia, enquanto o jovem Gustavo, com os seus calções de banho e uma T-shirt, carregava às costas uma mochila vermelha e nas mãos segurava cuidadosamente a sua preciosa máquina fotográfica.

Entraram no carro e passaram os primeiros minutos conversando sobre os adereços espalhafatosos que os turistas usavam. Telma gostava muito do jovem, conquanto ainda olhasse com alguma apreensão para o piercing que ele tinha no lábio ou para o seu braço direito totalmente tatuado, à parte do seu visual que relembra um guitarrista de uma banda de rock, Gustavo era um jovem excêntrico e dotado de uma inteligência admirável.

— Gus, amanhã temos que ir comer a este novo restaurante mexicano que abriu — Camilla anunciou. — Dizem que a comida é boa…

— Ah, então já não ‘tás mais com intenções de pegar a mochila às costas e fugir? — indagou Telma, ainda que com algum sarcasmo na voz.

O silêncio reinou. Não foi preciso Camilla dizer nada para Gustavo perceber que ela não gostara nada daquela pergunta, há pessoas que se compreendem tão bem que um simples olhar serve para espelhar o que vai na alma e entre estes dois assim o era, já se conheciam há tempo suficiente.

— Temos andado a pensar nisso — respondeu ele para dar uma ajuda. — Num futuro próximo, talvez…

— Eu não me importo que viajem — revelou Telma. — Desde que a Camilla não use isso como fuga, aliás, nem sei do que é que ela pode querer fugir… ela tem tudo, quando eu tinha a idade dela não tinha nem metade das coisas que ela tem e ainda assim queixa-se… — olhou para a filha que roía impacientemente as unhas como sempre fazia quando se achava nervosa. — Camilla, tu podias morar no paraíso que mesmo assim ias-te queixar! O que queres, afinal?

— O paraíso é uma seca — brincou Gustavo. — Um sítio onde tudo é perfeito, não há acção nem vícios e não temos nada para satirizar — bocejou teatralmente — boring! — Gustavo é irlandês. — Pelo menos, Adão e Eva só conseguiram ser felizes quando foram expulsos de lá…

Camilla riu da audácia dele, mas tanto quanto sabia, a sua mãe, religiosa como era, não deveria de ter gostado muito da piada sobre Adão e Eva e por isso decidiu falar.

— Eu não me ‘tou a queixar de nada! Eu só queria compreender a vida. Saber a razão porque estamos aqui, qual o nosso objectivo, qual o objectivo da nossa existência…

A mãe dela esbugalhou os olhos de tal maneira como se a sua filha tivesse acabado de revelar que sofria de alguma doença perigosa.

— O homem que pensou isso acabou ficando louco — disse ela, preocupada. No banco de trás Gustavo sufocou o riso. — Camilla, vive a vida um dia de cada vez e não penses tanto nessas perguntas porque vais ‘tar perdendo o teu tempo com coisas que nunca vais conseguir compreender… a vida foi feita p’ra ser vivida e não p’ra ser entendida…

— Bem, o Sartre poderia simplificar isso com o seu existencialismo — entreviu Gustavo, empolgado, dado o facto de ser um grande admirador do filósofo em questão. — Somos nós que damos significado à nossa vida. “Existir é criar a nossa própria existência”, não está escrito em nenhum livro como é que tens de existir, és tu que realizas esse filme e vives a tua vida em função dos teus objectivos e sonhos.

— Parece interessante — disse Camilla. — Eu sei que é assim, mas às vezes dou por mim a pensar involuntariamente nisto, em porque motivo a vida é assim, porque existimos, porquê isto… porquê aquilo…

Telma suspirou.

— Bem que diziam que ia chegar uma altura em que as pessoas iam-se começar a questionar sobre tudo, sem fé, achando que a vida não tem mais sentido…

Gustavo desta vez teve que tossir para disfarçar o riso mas Telma percebeu.

— Não acreditas em Deus, pois não, Gustavo?

— Eu não sou ateu, não. Sou agnóstico. Não acredito em nada como fazem os ateus mas também não acredito em tudo como os crentes. Acho um pouco impossível provar que Deus existe ou não, é uma questão de fé, é preciso acreditar cegamente em algo mas nunca podemos confiar totalmente em alguma coisa porque…

— Não existem verdades absolutas — finalizou Camilla com um sorriso.

In deed — ele retribuiu o sorriso.

— Como é que não acreditas em Deus? — Telma parecia escandalizada. — Como é que explicas, então, o facto de existir o mundo?

Well, não lhe posso responder a isso, há séculos que se procura essa resposta mas nunca ninguém a encontrou, faz parte da caixinha de perguntas sem resposta… Mas seguindo a lógica de que Deus criou o mundo, às tantas temos que nos perguntar «então quem criou Deus?» «Será que Deus se criou a si mesmo?» «Ou terá sido Deus a criação dos humanos?». Sabe, é que desde o tempo dos homens das cavernas que há necessidade de se explicar os fenómenos da natureza e a razão de existirmos e as pessoas começaram a criar histórias sobre isso, os tais mitos e lendas, e quando não conhecemos algo e contam-nos uma história sobre isso acabamos por acreditar, não é assim, basta termos fé nisso. Podemos acreditar nas histórias que nos contam sobre isso, mas custa-me também a acreditar que nascemos todos de Adão e Eva e na história de mares que se abrem ao meio ou arcas com animaizinhos, parece digno do “Senhor dos Anéis”. However, pensar que descendemos dos macacos também é um pouco duvidoso, ‘tá bem que anda por aí gente que parece chimpanzé ou gorila — Camilla riu do gracejo. — Mas então e os que ainda ‘tão na selva, são homens que ainda estão por evoluir? Sim, são duas teorias complicadas e então podemos dizer que o mundo sempre existiu, mas como é que uma coisa pode existir desde sempre sem ter tido um começo? E se o mundo tem um início, como é que surgiu? Do nada? Mas alguma poisa pode surgir do nada?... — fez uma pausa. — Dá que pensar…

Ela sentiu vontade de aplaudir o discurso, mas a sua mãe não parecia muito convencida.

— Eu acredito em Deus — disse Camilla. — Mas não acredito nas Igrejas. Acho que as igrejas usam Ele para poder controlar as pessoas. É preciso ter fé e acreditar em algo transcendente, temos essa necessidade de procurar algo em que acreditar, mas até disso servem para nos manipular, a maior parte das coisas que a Igreja diz que não devemos fazer são só para manter a ordem social. Tenho fé sim, porque é preciso ter algo em que acreditar, apesar de não existirem verdades absolutas. Eu sinto, por vezes, que a vida é muito mais do que estes vícios e virtudes que temos aqui na terra, sabes, que há algo mais, e certos fenómenos mostram que existe algo mais para além daquilo que realmente vemos…

— Isto aqui é só uma passagem — acrescentou Telma. — É importante ter algo em que acreditar, deve ser vazia a vida de alguém que não acredita em nada, apesar de tu, Gustavo, também não acreditares em tudo, mas isto aqui é só uma passagem, temos felicidades, provações, que nos ajudam a preparar para a vida que teremos depois, de que adianta essa vida curta se teremos a eternidade para encontrar essas resposta…

Parecia algo romântica aquela frase, todavia, transmitia alguma esperança, pensar que para além da vida mundana haveria algo mais esperando-os e que então talvez algumas perguntas teriam respostas ou então o ser humano estaria assim, predestinado a procurar incansavelmente essas respostas. Não era uma verdade e tampouco uma mentira, pelo menos, ainda ninguém havia regressado à vida para provar o contrário.

Tinham conversado tanto sobre aquilo que nem se aperceberam que haviam chegado à praia. Telma estacionou num lugar estratégico para deixar sair a sua filha e o jovem amigo.

— Vá, vão lá — ela disse. — E não pensem nisso. Vivam um dia de cada vez. O segredo da vida é vivê-la, é por isso que aqui estamos. E nunca perder a fé, porque se acreditar-mos muito numa coisa acreditem que ela acontece mesmo.

— OK — anuiu Gustavo. — Nós vamos viver o momento e comportarmo-nos como pessoas normais da nossa idade.

— Não era mau pensado — riu Telma. — Vocês precisam é de ocupar as vossas cabeças com outras coisas! A tua namorada, Gustavo?

Gustavo encolheu os ombros. — Acabámos! Fartei-me! Era fácil demais!

Telma riu.

— O Gustavo é um diletante até na hora de amar — brincou Camilla enquanto saía do carro, mas tanto quanto podia ver pela cara da sua mãe, ela não tinha percebido bem o que isso era.

Eles despediram-se e ela arrancou com o carro, deixando-os ali junto dos turistas que se encaminhavam para a praia com as suas roupas espalhafatosas e deixando atrás de si o aroma de protector solar.

— O quê é que é um diletante? — questionou Gustavo arqueando o sobrolho.

Foi a vez de Camilla olhar para ele com a sobrancelha arqueada.

— Um diletante é alguém que se apaixona por um assunto, pesquisa sobre ele e do nada desiste e interessa-se por outra coisa totalmente diferente. São pessoas que se interessam por arte, mas de uma forma ligeira, não querem aprofundar tanto como os especialistas nessa arte, porque acham que a arte é um prazer e não um trabalho… Já sabes como é que isso pode ser utilizado na hora de amar — Camilla estacou à frente dele com um sorriso de escárnio. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ele fez-lhe um gesto obsceno com os dedos e aproximou-se de umas flores que se achavam num canteiro junto a um café com a máquina fotográfica a postos. Camilla, por sua vez, inspirou com emoção e olhou em volta, vendo as pessoas caminhando, os pássaros que chilreavam e lá ao fundo um tapete azul ao qual chamamos mar.

— Como é que as pessoas vivem sem nunca se perguntarem como é que isto tudo surgiu? — suspirou ela.

— Acabaram-se acostumando ao mundo — respondeu ele examinando de perto as flores. — Não se deixam surpreender com coisas banais como a razão para a galinha cacarejar ou andarmos em duas patas, só iriam estranhar se vissem uma vaca a andar em duas patas ou a bronzear-se na praia, apesar de existirem muitas vacas que fazem isso — satirizou ele novamente. — È essa a diferença entre as pessoas normais e os filósofos ou pessoas como nós. Somos como crianças que ainda se surpreendem com coisas óbvias.

— Graças a Deus que nasci assim, então! A vida das pessoas normais deve ser uma seca autêntica!

— O importante é que são felizes… vivem para o momento, não ficam com cabelos brancos de tanto pensar.

— Mas diz-me, Gus, como é que eu faço p’ra deixar de pensar nessas coisas se no fundo tenho algo dentro de mim que acaba sempre por fazer essas perguntas sem eu querer?

— Não podes lutar contra a tua natureza, és assim e ainda bem, mas também tens que perceber que há limites para o conhecimento e que não podes saber toda a verdade sobre o universo e a vida… Tens que ler Kant ou Sartre… como ele diz, as verdades existenciais nunca terão uma resposta definida… — disparou o flash da máquina e ficou algum tempo a olhar a foto que tirara. — Anda cá ver a foto que tirei!

Ela aproximou-se e viu somente um malmequer.

— É só uma flor, Gus!

Ele olhou para ela com uma mescla de riso e de seriedade.

— É só uma flor, sim, mas se fizer zoom — e fez zoom com a máquina e o ecrã da máquina acabou por se centrar numa joaninha que estava no caule do malmequer, fazia um contraste engraçado e era até uma foto bonita, Camilla teve de admitir. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ela riu, mas nem lhe respondeu nada, simplesmente deu-lhe um beijo na bochecha gorducha, agradecendo-lhe. Havia coisas que davam significado à vida, e uma boa amizade era sem dúvida uma delas… Ele sorriu… mas foram interrompidos por um grupo de velhotas inglesas com chapéus exóticos, rostinho bonacheirão que davam risadinhas enquanto olhavam para eles e diziam:

So cutes!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sonho de uma noite de Verão


Andei cogitando se devia ou não escrever este texto, afinal está aqui presente um pouco de mim, os meus medos, os meus problemas, as minhas angústias, é como abrir um pouco do meu coração e não é algo que eu faça com muita frequência, justamente por não gostar de falar do meu íntimo, mas o Gus, com os seus sábios conselhos está-me sempre a dizer para não me fechar tanto dentro da concha ou acabarei sozinha. «Nenhum homem é uma filha», diz ele evocando Ernest Heminghay. OK, então aqui estou eu, a escrever sobre esta página da minha vida, veremos no que dá, mas é provável que passe ao lado, afinal, ninguém leva a sério uma miúda de 19 anos…

— Às vezes acho que falhei — desabafou ela.

Estavam os dois deitados na areia da praia, olhando as estrelas, ouvindo o barulho das ondas batendo contra as rochas e lá ao fundo, o insistente ruído dos grilos. Lá ao longe estava um grupo de jovens que acampava na praia e que fazia ruído cantando músicas, mas eles os dois, mais afastados, pareciam embrulhados no silêncio cúmplice que os unias. Ela tinha uma angústia que a perfurava.

— Então porquê? — indagou ele.

Ela sentou-se e suspirou profundamente, esperando que os problemas saíssem juntamente com o ar que expulsara do seu corpo.

— Não sei… às vezes acho que a minha mãe queria que eu fosse uma pessoas diferente daquilo que sou… quer dizer… não digo que ela não tenha orgulho por eu ser inteligente, como vocês dizem, ou que ande na universidade… mas ela queria que eu fosse… bem… normal… sabes, que não tivesse sempre a cabeça nas nuvens…

— Que não sonhasses tanto?

— Que não sonhasse de todo. Sabes aquelas coisas que costumo dizer… que quero colocar uma mochila nas costas e partir por aí, conhecer o mundo, ir à descoberta… ela não entende, corta-me logo as asas. Ela acha que isso é coisa de gente drogada que não tem mais nada em que pensar, gente vagabunda. Aí começa com aquele discurso: tu tens falta de Deus na tua vida. Gus, foram apenas desvaneios, sabes aquelas coisas bobas que dizes, mas p’ra ela é um bicho de sete cabeças… eu só queria fazer alguma coisa diferente este ano em vez de trabalhar como sempre tenho feito… sabes, é o meu último verão antes de terminar a faculdade…

Gustavo sentou-se também, no seu rosto via-se uma expressão de triunfo e ele ria, apesar da gravidade da situação.

— Ah! Já sei qual é a crise! O teu medo, Boyle, é que depois de fazeres 20 anos a tua vida mude radicalmente, mas não vais morrer nem nada que se pareça. Olha p’ra mim, tenho 21 e ‘tou vivinho.

— Sim, mas a vida já não vai ser a mesma… já não posso acordar, depois ir p’ra escola e fazer o que quero, ir a concertos, passar horas e horas a ler, já não vou ter tempo p’ra isso, vou ter que trabalhar e ter as malditas férias de 15 dias…

— Eu acho que tu encaras a tua entrada na vida adulta como a morte de muitos dos teus sonhos…

— Precisamente, Gus! — ela exclamou. Colocou-se de joelhos em frente dele para olhar nos olhos verdes do seu melhor amigo. — Eu sei que trabalhar é importante, mas não é tudo na vida. Eu até gosto de trabalhar, mas não é isso que me dá o total prazer e não quero viver em função disso, quero fazer outras coisas…
— Mas para fazeres essas outras coisas precisas de dinheiro, logo tens de trabalhar.

— Eu sei, Gus… mas eu vejo além disso, além da vida comum, além do que ela vê, mas ela só pensa em trabalhar, trabalhar, trabalhar… Eu acho ‘tão banal certas coisas da vida humana…

— Lembras-me o Mário Puzo… vi isso na biografia dele na TV. Ele também via além disso… era um sonhador…

— Sim, mas aos olhos dos nossos parentes somos as «ovelhas negras»…

— Dá tempo ao tempo… — e deu-lhe uma palmadinha no ombro.

Ficaram algum tempo em silêncio até ela falar, desta vez fê-lo com um certo toque de rancor na voz.

— Ela diz cenas que magoam mesmo. “Porquê que vives num mundo irreal?”, “Porque ‘tás sempre atrás de problemas p’ra pôr na tua cabeça”, “Não quero criar uma louca aqui em casa”…

Gustavo suspirou, também ele parecia desanimado.

— O mal da comunicação humana é que as conversas podem ser interpretadas de mil e uma formas e normalmente acabam sempre por ser mal-interpretadas… só porque dissestes isso a tua mãe já acha que precisas de um psicanalista?! Ela nunca teve sonhos?

— Às vezes acho que não e que secalhar porque nunca os teve não quer que eu ande com a cabeça nas nuvens, mas Gus, tu sabes “quando o mundo não te aceita como és, cria o teu próprio mundo”, foi o que eu fiz, mas acho que aos olhos das pessoas normais deve assustar um pouco eu ser diferente deles…

— Eu acho que mergulhaste demais dentro do teu mundinho e que isso às vezes interfere bastante com a vida comum… Mas ser diferente nunca foi fácil…

Ela baixou a cabeça, tinha os olhos enevoados devido às lágrimas que insistia em conter.

— Por isso mesmo é que às vezes queria ser normal! Ser como ela queria que eu fosse… estudiosa, trabalhadora e com os pés no chão… arrimar as coisas em casa, ir sorridente para o trabalho e perder menos tempo a ler, a ver filhos, a sonhar ou a escrever… acho que é a escrita que causa esse grande abismo… talvez se parasse de escrever… afinal também nunca saí nada de especial.

Gustavo levantou-se bruscamente, parecia furioso e foi de um modo abrupto que falou com ela.

— Nunca mais digas isso! Nunca mais! — apontou-lhe um dedo ameaçador à cara. — Nunca penses em parar de fazer aquilo de que mais gostas e aquilo em que és verdadeiramente boa! Tu tens um dom, Boyle. Já te apercebeste disso? Ainda te falta limar algumas arestas mas tu tens uma visão excepcional, o teu cérebro nunca pára e tu ‘tás sempre a pensar em algo. Porquê que achas que insiste tanto para querer seu teu amigo? — o seu ar de furioso amoleceu um pouco perante a lembrança. — Porque és diferente das outras pessoas! Enquanto a maior parte das pessoas ‘tá a terminar o movimento de rotação, já tu concluíste o movimento de translação…. Devias de ter orgulho desse dom que tens…

Ela limpou as lágrimas que lhe corriam pela cara com as costas da mão.

— E tenho… — murmurou. — Mas não dá dinheiro e não posso ganhar a vida com ele…

— Mas p’ra isso tens que ter um emprego que te dê segurança p’ra poderes escrever…

— E era isso que queria fazer, mas ela reclama que perco tempo com babozisses em vez de limpar a casa ou passar a ferro porque ‘tá cansada, porque tem três empregos! ~

Gustavo voltou-se a sentar bem juntinho da amiga.

— Man, eu adoro a tua mãe, ela é uma grande mulher, batalhadora… mas não tem um pingo de visão artística, o que é uma pena porque ninguém é perfeito — riu ironicamente. — Que sorte a dela, uma pessoa comum que não entende porque teve uma filha que vê para além do óbvio, que tem preocupações diferentes das pessoas comuns…

— Que é “anormal”, segundo ela.

Gustavo envolveu a amiga num abraço, sempre tivera uma óptima relação com os seus pais e eles sabiam lidar com a sua paixão pela fotografia e por filosofia, mas conseguia imaginar como seria a dor de ver o seu dom renegado pela própria mãe.

— No fundo a tua mãe só quer que sejas bem sucedida, acha que viver de arte não é vida, que é coisa de gente vagabunda porque há cada vez menos gente a ler… mas desencorajar-te não é a melhor técnica… É uma pena que uma mulher tão brilhante pense assim! A vida não é só trabalho! E a arte é algo tão belo!

— É… eles querem destruir uma parte de mim para que eu possa me adaptar, por isso é que não quero fazer 20 anos e tornar-me adulta, entrar no mundo real, porque só vou poder fazer parte dele quando essa minha parte estiver morta ou então vou ser sempre vista de lado. — Encostou a cabeça no ombro do amigo. — “Não quero que os sonhos acabem”.

— Greta Garbo disse isso — os lábios dele abriram-se num ténue sorriso — … uma mulher curiosa…

Camilla desencostou abruptamente a cabeça do ombro dele e olhou-o nos olhos.

— Deve ser chato ser normal!

Ele riu.

— Muito! Por isso é melhor nem sequer experimentar-mos.