"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sonho de uma noite de Verão


Andei cogitando se devia ou não escrever este texto, afinal está aqui presente um pouco de mim, os meus medos, os meus problemas, as minhas angústias, é como abrir um pouco do meu coração e não é algo que eu faça com muita frequência, justamente por não gostar de falar do meu íntimo, mas o Gus, com os seus sábios conselhos está-me sempre a dizer para não me fechar tanto dentro da concha ou acabarei sozinha. «Nenhum homem é uma filha», diz ele evocando Ernest Heminghay. OK, então aqui estou eu, a escrever sobre esta página da minha vida, veremos no que dá, mas é provável que passe ao lado, afinal, ninguém leva a sério uma miúda de 19 anos…

— Às vezes acho que falhei — desabafou ela.

Estavam os dois deitados na areia da praia, olhando as estrelas, ouvindo o barulho das ondas batendo contra as rochas e lá ao fundo, o insistente ruído dos grilos. Lá ao longe estava um grupo de jovens que acampava na praia e que fazia ruído cantando músicas, mas eles os dois, mais afastados, pareciam embrulhados no silêncio cúmplice que os unias. Ela tinha uma angústia que a perfurava.

— Então porquê? — indagou ele.

Ela sentou-se e suspirou profundamente, esperando que os problemas saíssem juntamente com o ar que expulsara do seu corpo.

— Não sei… às vezes acho que a minha mãe queria que eu fosse uma pessoas diferente daquilo que sou… quer dizer… não digo que ela não tenha orgulho por eu ser inteligente, como vocês dizem, ou que ande na universidade… mas ela queria que eu fosse… bem… normal… sabes, que não tivesse sempre a cabeça nas nuvens…

— Que não sonhasses tanto?

— Que não sonhasse de todo. Sabes aquelas coisas que costumo dizer… que quero colocar uma mochila nas costas e partir por aí, conhecer o mundo, ir à descoberta… ela não entende, corta-me logo as asas. Ela acha que isso é coisa de gente drogada que não tem mais nada em que pensar, gente vagabunda. Aí começa com aquele discurso: tu tens falta de Deus na tua vida. Gus, foram apenas desvaneios, sabes aquelas coisas bobas que dizes, mas p’ra ela é um bicho de sete cabeças… eu só queria fazer alguma coisa diferente este ano em vez de trabalhar como sempre tenho feito… sabes, é o meu último verão antes de terminar a faculdade…

Gustavo sentou-se também, no seu rosto via-se uma expressão de triunfo e ele ria, apesar da gravidade da situação.

— Ah! Já sei qual é a crise! O teu medo, Boyle, é que depois de fazeres 20 anos a tua vida mude radicalmente, mas não vais morrer nem nada que se pareça. Olha p’ra mim, tenho 21 e ‘tou vivinho.

— Sim, mas a vida já não vai ser a mesma… já não posso acordar, depois ir p’ra escola e fazer o que quero, ir a concertos, passar horas e horas a ler, já não vou ter tempo p’ra isso, vou ter que trabalhar e ter as malditas férias de 15 dias…

— Eu acho que tu encaras a tua entrada na vida adulta como a morte de muitos dos teus sonhos…

— Precisamente, Gus! — ela exclamou. Colocou-se de joelhos em frente dele para olhar nos olhos verdes do seu melhor amigo. — Eu sei que trabalhar é importante, mas não é tudo na vida. Eu até gosto de trabalhar, mas não é isso que me dá o total prazer e não quero viver em função disso, quero fazer outras coisas…
— Mas para fazeres essas outras coisas precisas de dinheiro, logo tens de trabalhar.

— Eu sei, Gus… mas eu vejo além disso, além da vida comum, além do que ela vê, mas ela só pensa em trabalhar, trabalhar, trabalhar… Eu acho ‘tão banal certas coisas da vida humana…

— Lembras-me o Mário Puzo… vi isso na biografia dele na TV. Ele também via além disso… era um sonhador…

— Sim, mas aos olhos dos nossos parentes somos as «ovelhas negras»…

— Dá tempo ao tempo… — e deu-lhe uma palmadinha no ombro.

Ficaram algum tempo em silêncio até ela falar, desta vez fê-lo com um certo toque de rancor na voz.

— Ela diz cenas que magoam mesmo. “Porquê que vives num mundo irreal?”, “Porque ‘tás sempre atrás de problemas p’ra pôr na tua cabeça”, “Não quero criar uma louca aqui em casa”…

Gustavo suspirou, também ele parecia desanimado.

— O mal da comunicação humana é que as conversas podem ser interpretadas de mil e uma formas e normalmente acabam sempre por ser mal-interpretadas… só porque dissestes isso a tua mãe já acha que precisas de um psicanalista?! Ela nunca teve sonhos?

— Às vezes acho que não e que secalhar porque nunca os teve não quer que eu ande com a cabeça nas nuvens, mas Gus, tu sabes “quando o mundo não te aceita como és, cria o teu próprio mundo”, foi o que eu fiz, mas acho que aos olhos das pessoas normais deve assustar um pouco eu ser diferente deles…

— Eu acho que mergulhaste demais dentro do teu mundinho e que isso às vezes interfere bastante com a vida comum… Mas ser diferente nunca foi fácil…

Ela baixou a cabeça, tinha os olhos enevoados devido às lágrimas que insistia em conter.

— Por isso mesmo é que às vezes queria ser normal! Ser como ela queria que eu fosse… estudiosa, trabalhadora e com os pés no chão… arrimar as coisas em casa, ir sorridente para o trabalho e perder menos tempo a ler, a ver filhos, a sonhar ou a escrever… acho que é a escrita que causa esse grande abismo… talvez se parasse de escrever… afinal também nunca saí nada de especial.

Gustavo levantou-se bruscamente, parecia furioso e foi de um modo abrupto que falou com ela.

— Nunca mais digas isso! Nunca mais! — apontou-lhe um dedo ameaçador à cara. — Nunca penses em parar de fazer aquilo de que mais gostas e aquilo em que és verdadeiramente boa! Tu tens um dom, Boyle. Já te apercebeste disso? Ainda te falta limar algumas arestas mas tu tens uma visão excepcional, o teu cérebro nunca pára e tu ‘tás sempre a pensar em algo. Porquê que achas que insiste tanto para querer seu teu amigo? — o seu ar de furioso amoleceu um pouco perante a lembrança. — Porque és diferente das outras pessoas! Enquanto a maior parte das pessoas ‘tá a terminar o movimento de rotação, já tu concluíste o movimento de translação…. Devias de ter orgulho desse dom que tens…

Ela limpou as lágrimas que lhe corriam pela cara com as costas da mão.

— E tenho… — murmurou. — Mas não dá dinheiro e não posso ganhar a vida com ele…

— Mas p’ra isso tens que ter um emprego que te dê segurança p’ra poderes escrever…

— E era isso que queria fazer, mas ela reclama que perco tempo com babozisses em vez de limpar a casa ou passar a ferro porque ‘tá cansada, porque tem três empregos! ~

Gustavo voltou-se a sentar bem juntinho da amiga.

— Man, eu adoro a tua mãe, ela é uma grande mulher, batalhadora… mas não tem um pingo de visão artística, o que é uma pena porque ninguém é perfeito — riu ironicamente. — Que sorte a dela, uma pessoa comum que não entende porque teve uma filha que vê para além do óbvio, que tem preocupações diferentes das pessoas comuns…

— Que é “anormal”, segundo ela.

Gustavo envolveu a amiga num abraço, sempre tivera uma óptima relação com os seus pais e eles sabiam lidar com a sua paixão pela fotografia e por filosofia, mas conseguia imaginar como seria a dor de ver o seu dom renegado pela própria mãe.

— No fundo a tua mãe só quer que sejas bem sucedida, acha que viver de arte não é vida, que é coisa de gente vagabunda porque há cada vez menos gente a ler… mas desencorajar-te não é a melhor técnica… É uma pena que uma mulher tão brilhante pense assim! A vida não é só trabalho! E a arte é algo tão belo!

— É… eles querem destruir uma parte de mim para que eu possa me adaptar, por isso é que não quero fazer 20 anos e tornar-me adulta, entrar no mundo real, porque só vou poder fazer parte dele quando essa minha parte estiver morta ou então vou ser sempre vista de lado. — Encostou a cabeça no ombro do amigo. — “Não quero que os sonhos acabem”.

— Greta Garbo disse isso — os lábios dele abriram-se num ténue sorriso — … uma mulher curiosa…

Camilla desencostou abruptamente a cabeça do ombro dele e olhou-o nos olhos.

— Deve ser chato ser normal!

Ele riu.

— Muito! Por isso é melhor nem sequer experimentar-mos.

5 comentários:

Anónimo disse...

Vem cá, por quê ninguém levaria uma miúda de 19 anos a sério? Até onde li,isso não justifica essa afirmação. Passando aqui meio depressa e voltarei com tempo para acabar de ler, para te convidar a participar desse projeto:

http://o-arrotoooo.blogspot.com/

Ressucitei O Arroto com o espírito da Confraria, já que ele será um blog coletivo. Ficaria muito feliz e honrado se fosse mais uma arrotadora. Caso aceite, deixa um endereço de e-mail para que eu possa lhe enviar o convite de acesso. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Camilla K. Boyle disse...

Leia a história e verá porque não me levariam a sério.

Aceito sim =)

Anónimo disse...

� horr�vel ser normal! A dita "normailidade" toli o que h� de melhor em n�s. Tamb�m j� quis pegar uma mochila e sair mundo a fora, como fez o Che quando jovem, mas o foda � que a realidade n�o nos permite tal perip�rcias, e s� o Che, com aquele esp�rito revolucion�rio enorme. Olha, quando a "vida adulta" bate a porta, o melhor � encar�-la de frente. N�o fa�a das resposabilidades que ter� de ter, um bicho de 7 cabe�as. Minha m�e tamb�m tem certos "aspectos caretas", mas com bom di�logo, tudo se ajeita. Deixa teu e-mail l� no blog ou manda para so.pensando@hotmail.com para que eu possa te mandar o convite de acesso ao blog. Tenta encarar as coisas com mais naturalidade, a vida infelizmente � assim mesmo. Fa�a como eu, viva entre os 2 mundos. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Anónimo disse...

Eu levo-te a sério, até demais, mas acho que às vezes és demasiado dura contigo mesmo e acabas por exigir demasiado de ti, a tal busca pela perfeita perfeiçao (é um pleonasmo para dar ênfase). Relax, Boyle!

Quanto ao texto, inevitavelmente terias de por um pouco de ti pois todo o artista coloca um pouco de si na sua obra, à semelhança e um Deus, mas não te esqueças que não podes ser perfeita como um Deus, tens de conscientizar da tua existencia mortal.

Por esta altura já chegastea ao capitulo sobre o Romantismo e deves ter lido: "Era dever do romântico viver a vida ou afastar-se dela, sonhando. Os filisteus é que deviam preocupar-se com os assuntos do dia-a-dia". Tu és uma "romantica incurável", mas por vezes faz-te bem descer do teu castelo nas nuvens... lembra-te que a vida só se dá para quem se deu...

Um beijo grande*

Anónimo disse...

Já te enviei o convite de acesso ao O Arroto, assim como um e-mail. Caso os dois não cheguem, me dá um toque que eu reenvio. Não sabes da alegria que estou de ter aceitado o meu convite. Bjus e bem vinda ao mundo da arrotação.

http://so-pensando.blogspot.com