"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Origem do Mundo - Filosofia Barata no Carro


Ler “O Mundo de Sofia” deu completamente a volta aos meus miolos. Ter um melhor amigo que adora filosofia e é um admirador afincado de Jean Paul Sartre também. E para finalizar, uma mãe que acha que Deus explica tudo pode-se dizer que é a cereja em cima de tamanha insanidade que daqui provém. Duas pessoas com visões opostas sobre o mundo e uma jovem que vive incansavelmente procurando por respostas dá no que pensar. Por isso é que estas viagens de carro são tão interessantes. Por isso é que escrevi este texto. Algumas coisas aconteceram, outras não, outras são mistura com episódios anteriormente vividos, são aqueles pequenos toques que fazem o escritor sorrir interiormente…

— Peço imensa desculpa por lhe estar a dar este incómodo, tia Telma, mas o meu carro só volta do mecânico na terça-feira — desculpou-se Gustavo enquanto eles entravam no carro.

A mãe de Camila, uma senhora de aparência jovem apesar da idade com que já contava preparava-se para levar a filha e o melhor amigo dela à praia. Era um solarengo dia de Verão, com um sol abrasador que convidada a um refúgio fresco. Camila envergava um vestido branco e trazia consigo uma pequena sacola de praia, enquanto o jovem Gustavo, com os seus calções de banho e uma T-shirt, carregava às costas uma mochila vermelha e nas mãos segurava cuidadosamente a sua preciosa máquina fotográfica.

Entraram no carro e passaram os primeiros minutos conversando sobre os adereços espalhafatosos que os turistas usavam. Telma gostava muito do jovem, conquanto ainda olhasse com alguma apreensão para o piercing que ele tinha no lábio ou para o seu braço direito totalmente tatuado, à parte do seu visual que relembra um guitarrista de uma banda de rock, Gustavo era um jovem excêntrico e dotado de uma inteligência admirável.

— Gus, amanhã temos que ir comer a este novo restaurante mexicano que abriu — Camilla anunciou. — Dizem que a comida é boa…

— Ah, então já não ‘tás mais com intenções de pegar a mochila às costas e fugir? — indagou Telma, ainda que com algum sarcasmo na voz.

O silêncio reinou. Não foi preciso Camilla dizer nada para Gustavo perceber que ela não gostara nada daquela pergunta, há pessoas que se compreendem tão bem que um simples olhar serve para espelhar o que vai na alma e entre estes dois assim o era, já se conheciam há tempo suficiente.

— Temos andado a pensar nisso — respondeu ele para dar uma ajuda. — Num futuro próximo, talvez…

— Eu não me importo que viajem — revelou Telma. — Desde que a Camilla não use isso como fuga, aliás, nem sei do que é que ela pode querer fugir… ela tem tudo, quando eu tinha a idade dela não tinha nem metade das coisas que ela tem e ainda assim queixa-se… — olhou para a filha que roía impacientemente as unhas como sempre fazia quando se achava nervosa. — Camilla, tu podias morar no paraíso que mesmo assim ias-te queixar! O que queres, afinal?

— O paraíso é uma seca — brincou Gustavo. — Um sítio onde tudo é perfeito, não há acção nem vícios e não temos nada para satirizar — bocejou teatralmente — boring! — Gustavo é irlandês. — Pelo menos, Adão e Eva só conseguiram ser felizes quando foram expulsos de lá…

Camilla riu da audácia dele, mas tanto quanto sabia, a sua mãe, religiosa como era, não deveria de ter gostado muito da piada sobre Adão e Eva e por isso decidiu falar.

— Eu não me ‘tou a queixar de nada! Eu só queria compreender a vida. Saber a razão porque estamos aqui, qual o nosso objectivo, qual o objectivo da nossa existência…

A mãe dela esbugalhou os olhos de tal maneira como se a sua filha tivesse acabado de revelar que sofria de alguma doença perigosa.

— O homem que pensou isso acabou ficando louco — disse ela, preocupada. No banco de trás Gustavo sufocou o riso. — Camilla, vive a vida um dia de cada vez e não penses tanto nessas perguntas porque vais ‘tar perdendo o teu tempo com coisas que nunca vais conseguir compreender… a vida foi feita p’ra ser vivida e não p’ra ser entendida…

— Bem, o Sartre poderia simplificar isso com o seu existencialismo — entreviu Gustavo, empolgado, dado o facto de ser um grande admirador do filósofo em questão. — Somos nós que damos significado à nossa vida. “Existir é criar a nossa própria existência”, não está escrito em nenhum livro como é que tens de existir, és tu que realizas esse filme e vives a tua vida em função dos teus objectivos e sonhos.

— Parece interessante — disse Camilla. — Eu sei que é assim, mas às vezes dou por mim a pensar involuntariamente nisto, em porque motivo a vida é assim, porque existimos, porquê isto… porquê aquilo…

Telma suspirou.

— Bem que diziam que ia chegar uma altura em que as pessoas iam-se começar a questionar sobre tudo, sem fé, achando que a vida não tem mais sentido…

Gustavo desta vez teve que tossir para disfarçar o riso mas Telma percebeu.

— Não acreditas em Deus, pois não, Gustavo?

— Eu não sou ateu, não. Sou agnóstico. Não acredito em nada como fazem os ateus mas também não acredito em tudo como os crentes. Acho um pouco impossível provar que Deus existe ou não, é uma questão de fé, é preciso acreditar cegamente em algo mas nunca podemos confiar totalmente em alguma coisa porque…

— Não existem verdades absolutas — finalizou Camilla com um sorriso.

In deed — ele retribuiu o sorriso.

— Como é que não acreditas em Deus? — Telma parecia escandalizada. — Como é que explicas, então, o facto de existir o mundo?

Well, não lhe posso responder a isso, há séculos que se procura essa resposta mas nunca ninguém a encontrou, faz parte da caixinha de perguntas sem resposta… Mas seguindo a lógica de que Deus criou o mundo, às tantas temos que nos perguntar «então quem criou Deus?» «Será que Deus se criou a si mesmo?» «Ou terá sido Deus a criação dos humanos?». Sabe, é que desde o tempo dos homens das cavernas que há necessidade de se explicar os fenómenos da natureza e a razão de existirmos e as pessoas começaram a criar histórias sobre isso, os tais mitos e lendas, e quando não conhecemos algo e contam-nos uma história sobre isso acabamos por acreditar, não é assim, basta termos fé nisso. Podemos acreditar nas histórias que nos contam sobre isso, mas custa-me também a acreditar que nascemos todos de Adão e Eva e na história de mares que se abrem ao meio ou arcas com animaizinhos, parece digno do “Senhor dos Anéis”. However, pensar que descendemos dos macacos também é um pouco duvidoso, ‘tá bem que anda por aí gente que parece chimpanzé ou gorila — Camilla riu do gracejo. — Mas então e os que ainda ‘tão na selva, são homens que ainda estão por evoluir? Sim, são duas teorias complicadas e então podemos dizer que o mundo sempre existiu, mas como é que uma coisa pode existir desde sempre sem ter tido um começo? E se o mundo tem um início, como é que surgiu? Do nada? Mas alguma poisa pode surgir do nada?... — fez uma pausa. — Dá que pensar…

Ela sentiu vontade de aplaudir o discurso, mas a sua mãe não parecia muito convencida.

— Eu acredito em Deus — disse Camilla. — Mas não acredito nas Igrejas. Acho que as igrejas usam Ele para poder controlar as pessoas. É preciso ter fé e acreditar em algo transcendente, temos essa necessidade de procurar algo em que acreditar, mas até disso servem para nos manipular, a maior parte das coisas que a Igreja diz que não devemos fazer são só para manter a ordem social. Tenho fé sim, porque é preciso ter algo em que acreditar, apesar de não existirem verdades absolutas. Eu sinto, por vezes, que a vida é muito mais do que estes vícios e virtudes que temos aqui na terra, sabes, que há algo mais, e certos fenómenos mostram que existe algo mais para além daquilo que realmente vemos…

— Isto aqui é só uma passagem — acrescentou Telma. — É importante ter algo em que acreditar, deve ser vazia a vida de alguém que não acredita em nada, apesar de tu, Gustavo, também não acreditares em tudo, mas isto aqui é só uma passagem, temos felicidades, provações, que nos ajudam a preparar para a vida que teremos depois, de que adianta essa vida curta se teremos a eternidade para encontrar essas resposta…

Parecia algo romântica aquela frase, todavia, transmitia alguma esperança, pensar que para além da vida mundana haveria algo mais esperando-os e que então talvez algumas perguntas teriam respostas ou então o ser humano estaria assim, predestinado a procurar incansavelmente essas respostas. Não era uma verdade e tampouco uma mentira, pelo menos, ainda ninguém havia regressado à vida para provar o contrário.

Tinham conversado tanto sobre aquilo que nem se aperceberam que haviam chegado à praia. Telma estacionou num lugar estratégico para deixar sair a sua filha e o jovem amigo.

— Vá, vão lá — ela disse. — E não pensem nisso. Vivam um dia de cada vez. O segredo da vida é vivê-la, é por isso que aqui estamos. E nunca perder a fé, porque se acreditar-mos muito numa coisa acreditem que ela acontece mesmo.

— OK — anuiu Gustavo. — Nós vamos viver o momento e comportarmo-nos como pessoas normais da nossa idade.

— Não era mau pensado — riu Telma. — Vocês precisam é de ocupar as vossas cabeças com outras coisas! A tua namorada, Gustavo?

Gustavo encolheu os ombros. — Acabámos! Fartei-me! Era fácil demais!

Telma riu.

— O Gustavo é um diletante até na hora de amar — brincou Camilla enquanto saía do carro, mas tanto quanto podia ver pela cara da sua mãe, ela não tinha percebido bem o que isso era.

Eles despediram-se e ela arrancou com o carro, deixando-os ali junto dos turistas que se encaminhavam para a praia com as suas roupas espalhafatosas e deixando atrás de si o aroma de protector solar.

— O quê é que é um diletante? — questionou Gustavo arqueando o sobrolho.

Foi a vez de Camilla olhar para ele com a sobrancelha arqueada.

— Um diletante é alguém que se apaixona por um assunto, pesquisa sobre ele e do nada desiste e interessa-se por outra coisa totalmente diferente. São pessoas que se interessam por arte, mas de uma forma ligeira, não querem aprofundar tanto como os especialistas nessa arte, porque acham que a arte é um prazer e não um trabalho… Já sabes como é que isso pode ser utilizado na hora de amar — Camilla estacou à frente dele com um sorriso de escárnio. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ele fez-lhe um gesto obsceno com os dedos e aproximou-se de umas flores que se achavam num canteiro junto a um café com a máquina fotográfica a postos. Camilla, por sua vez, inspirou com emoção e olhou em volta, vendo as pessoas caminhando, os pássaros que chilreavam e lá ao fundo um tapete azul ao qual chamamos mar.

— Como é que as pessoas vivem sem nunca se perguntarem como é que isto tudo surgiu? — suspirou ela.

— Acabaram-se acostumando ao mundo — respondeu ele examinando de perto as flores. — Não se deixam surpreender com coisas banais como a razão para a galinha cacarejar ou andarmos em duas patas, só iriam estranhar se vissem uma vaca a andar em duas patas ou a bronzear-se na praia, apesar de existirem muitas vacas que fazem isso — satirizou ele novamente. — È essa a diferença entre as pessoas normais e os filósofos ou pessoas como nós. Somos como crianças que ainda se surpreendem com coisas óbvias.

— Graças a Deus que nasci assim, então! A vida das pessoas normais deve ser uma seca autêntica!

— O importante é que são felizes… vivem para o momento, não ficam com cabelos brancos de tanto pensar.

— Mas diz-me, Gus, como é que eu faço p’ra deixar de pensar nessas coisas se no fundo tenho algo dentro de mim que acaba sempre por fazer essas perguntas sem eu querer?

— Não podes lutar contra a tua natureza, és assim e ainda bem, mas também tens que perceber que há limites para o conhecimento e que não podes saber toda a verdade sobre o universo e a vida… Tens que ler Kant ou Sartre… como ele diz, as verdades existenciais nunca terão uma resposta definida… — disparou o flash da máquina e ficou algum tempo a olhar a foto que tirara. — Anda cá ver a foto que tirei!

Ela aproximou-se e viu somente um malmequer.

— É só uma flor, Gus!

Ele olhou para ela com uma mescla de riso e de seriedade.

— É só uma flor, sim, mas se fizer zoom — e fez zoom com a máquina e o ecrã da máquina acabou por se centrar numa joaninha que estava no caule do malmequer, fazia um contraste engraçado e era até uma foto bonita, Camilla teve de admitir. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ela riu, mas nem lhe respondeu nada, simplesmente deu-lhe um beijo na bochecha gorducha, agradecendo-lhe. Havia coisas que davam significado à vida, e uma boa amizade era sem dúvida uma delas… Ele sorriu… mas foram interrompidos por um grupo de velhotas inglesas com chapéus exóticos, rostinho bonacheirão que davam risadinhas enquanto olhavam para eles e diziam:

So cutes!

8 comentários:

Anónimo disse...

Ler este texto fez-me pensar que um filme tem muito mais interesse para quem o fez do que pra quem o vê. Nada melhor do que saber o que se passa no backstage. Adorei o texto apesar de os preliminares introdutórios poderem ser chatos para quem não esta por dentro =D pra mim tá optimo!

Como diria aqui o irlandes: "We are such a funny figures". LOL Conversar sobre estes assuntos com a tua mãe é sempre engraçado, principalmente porque tas la pra mediar, senao acho que seria atirado do carro em andamento xD.

Não te esqueças de ler sobre Sartre! ***

Ps: As velhotas inglesas! ^^,

Ps1: "À parte do seu visual que relembra um guitarrista de uma banda de rock, Gustavo era um jovem excêntrico e dotado de uma inteligência admirável". Isto é melhor que consegues fazer?! Oh God, "Tão inteligente para umas coisas e para outras..."

Camilla K. Boyle disse...

Bloody Hell!!! =) Também começo a pensar isso. Fartei-me de rir a escrever isto e a lembrar-me de várias coisas ao mesmo tempo. Talvez o texto seja grande e roçe o enfadonho, mas deu-me gosto e vamos ver no que dá.

Quanto ao Sartre, vou primeiro exprimentar a literatura russa e depois passo pra França, também quero conhecer uns quantos irlandeses =D

"Adorei o texto apesar de os preliminares introdutórios poderem ser chatos para quem não esta por dentro" -> Os prelimares são sempre importantes (don't be nasty!) Não podia deixar cair a filosofia (se é que podemos dar-lhe este nome a umas quantas perguntas que não tem resposta) assim à paposeco, afinal, nada surge do nada...

Anónimo disse...

LOL adoro frases com duplo sentido xD.

Quanto à origem do mundo, acho que são respostas que nunca encontraremos. É como ler um livro, perde a piada quando chega ao fim porque já sabemos como termina e o mundo também é assim... quando descobrirmos todas as respostas ai é que a vida vai perder o seu sentido...

Irlandeses?! Lê Beckett, Joyce, Bernard Shaw e claro Wilde!

Anónimo disse...

Escrevi mal o meu nome!!!

Flávia disse...

gostei de Gus ;)

Passei aqui seguindo o link que encontrei lá n'O Arroto e adorei a forma como vc escreve. E o conto... bom, terminei a leitura com um sorriso =)

Beijão, moça.

Rafael disse...

Seria legal se n vida real tivessemos conversas tão filosoficas assim a caminho da praia.esse texto é real ou mesclado com realidade?

Anónimo disse...

Papos filosóficos vez o outra é bom. Ultimamente as pessoas tem cada vez menos conversado algo que preste! Belo texto e bom final de semana.

http://so-pensando.blogspot.com

Camilla K. Boyle disse...

Um mágico nunca revela os seus troques, Rafael. Posso-te dizer que ter um amigo como o Gus dá sempre para ter conversas assim ou viver episódios como este.

Flávia é bom ter voce por aqui =)

Pois é Dani, mas eu e o Gus temos feito para que assim não seja =)