"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal

O Admirável Mundo deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal, cheio de paz, amor e saúde. Voltaremos ao activo depois assim que conseguirmos despachar todos os sumptuosos bolos que a minha tia preparou. Merry Christmas, como diria o Gus, e obrigado pela companhia ao longo deste tortuoso ano de crise financeira =)

Beijinhos

domingo, 21 de dezembro de 2008

A inveja...

"A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhe apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá." - Carlos Ruiz Zafón (o homem que escreve com o coração)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Curtas - A vida é injusta?

«Rosalie Otterbourne: Linnet Doyle é muito bonita, não é?
Hercule Poirot:
Oui, mademoiselle.
Rosalie: E também muito rica… Li sobre ela em todos os jornais, vi a foto dela em toda a parte, mas nada pode preparar-nos para quão bela ela é ao vivo. Acho que nunca odeie tanto ninguém à primeira vista.
Poirot: Nem tudo o que brilha…
Rosalie: Não no caso dela. A vida é injusta,
Monsieur Poirot»

[…]

«Ferguson: É incrível, não é. Milhões de desempregados, um lunático prestes a assumir o poder na Alemanha e só se fala de uma fedelha mimada que deixou um Lord pelo noivo da melhor amiga.
Rosalie: Há pessoas que tem tudo.
Ferguson: Depende do que acha que vale a pena ter»


Excerto retirado do guião do filme “Morte no Nilo”, baseado no romance homónimo de Agatha Christie.

E, partindo do pressuposto de Mr. Ferguson, talvez a vida não seja tão injusta assim. O que valerá a pena ter? Para alguns será dinheiro, para outros um grande amor, outros dirão que sucesso é a chave da vida, há quem pense que o importante é ter saúde ou há até mesmo quem diga que o ideal é ter isso tudo. Mas não haverá algo que é mais importante ter? Algo que vale mesmo a pena? «Depende do que acha que vale a pena ter». O problema é que os seres humanos querem ter tudo. Não é a vida que é injusta, as pessoas é que são insaciáveis.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Aquela" pessoa


— Gus, posso te fazer uma pergunta? — indagou ela observando-o atentamente por entre as duas velas do candelabro que adornava a mesa.

Ele respondeu com um murmúrio enquanto saboreava uma fatia do Bife com molho pimenta que havia levado à boca. Por todo o restaurante ouvia-se o tilintar dos talheres rivalizando com o riso alegre das pessoas. Os empregados passeavam por entre as mesas, procurando satisfazer o máximo possível os exigentes clientes.

— Como é que sabes que encontras-te a pessoa da tua vida?

Gustavo teve de beber dois golos de vinho Rosé para engolir o pedaço de bife, provavelmente não esperava semelhante pergunta.

— Porquê essa pergunta?

— Curiosidade mórbida… tenho pensado nisso, falam tanto nessa coisa das almas gémeas que pus-me a pensar: então e como é que sabemos que essa pessoa é tal?

— Acho que vieste pedir ajuda à porta errada — brincou ele enquanto limpava os cantos da boca com o guardanapo. — However eu acho que, pelo menos nos filmes lamechas, isso se sabe quando a pessoa entra na sala e depois as outras pessoas param, toca aquela musiquinha romântica de fundo e os teus olhos brilham e sentes aquela sensação no estômago…

— Oh, Charles, ‘tou a falar a sério — resmungou ela cruzando os talheres, terminara o seu salmão. — Puxa pela cabecinha!

Well, eu não sou propriamente um romântico incurável e essas coisas de amor soam um bocado a Nicholas Sparks. Eu não sei se existe, supostamente, uma pessoa certa p’ra cada um de nós, tipo aquela pessoa, The One. Acho que ao longo da vida vais conhecendo várias pessoas até encontrares aquela com quem te identificas mais — fitou momentaneamente a ténue chama da vela. — Acontece tantas vezes… acharmos que encontramos o tesouro… mas no fundo são só jóias falsas — molhou novamente os lábios no vinho. — Acontece mais vezes do que devia…

— Sim, mas se isso acontece tantas vezes é porque ainda não encontrastes a tal pessoa… vê os teus pais, por exemplo, são casados há tantos anos e são felizes. Acertaram! Há pessoas que não têm tanta sorte

— É como tudo na vida… é uma questão de sorte… Os meus pais estão casados porque gostam mesmo um do outro mas há casais que ainda estão juntos por puro comodismo… por hábito, I think — inclinou-se para lhe sussurrar. — Aquele casal ali, por exemplo — Camilla seguiu-lhe o olhar até um casal de meia-idade que jantava sem trocar palavra alguma, quase como se fossem dois desconhecidos. — Chegar ao ponto de ‘tar a jantar e não se conversar com a pessoa com quem se casou... é assustador. A solidão acompanhada é pior tipo de solidão.

— É verdade, mas ‘tás a fugir um bocado ao assunto p’ra ver se te escapas da pergunta…

Sorriu novamente.

— OK, OK… Acho que sabes isso desde que falas com a pessoa. Há pessoas que passam uma eternidade de tempo juntas e de repente dá-lhes um clic e descobrem que foram feitas um para o outro… ou sei lá, quando já conheces a pessoa e sentes que ela preenche o vazio, que se completam… essas coisinhas todas… ‘Tás a rir do quê?

— Porque por essa descrição toda fez-me pensar que às vezes as pessoas devem achar, então, que nós os dois fomos feitos um para o outro!

— As pessoas não me conhecem ao ponto de me desejarem tanto mal assim — gracejou ele. — In fact, fomos feitos um para o outro, yes, mas só como amigos… acho que ambos merecemos pessoas com alguma sanidade mental… dois weirdos como nós…

Ela riu também.

— Mas vamos supor que tu vês uma pessoa, achas que têm tudo a ver…

— OH, essa coisa do amor à primeira vista é tão demodé e típico de uma novela de quinta categoria. Não podes olhar p’ra uma pessoa e dizer «é aquele», a não ser que Deus ou quem quer que seja responsável por isso, se é que há alguém responsável por isso, esteja de bom humor e decida facilitar-te as coisas… Eu acho que a pessoa certa não é quem tu queres que seja mas sim aquela pessoa que ‘tá destinada a ti — ficou alguns momentos em silêncio. — Esta conversa toda ‘tá-me a fazer sentir o Dr. Phil.

— Mas então é assim, temos de esperar pacientemente até o destino nos trazer a pessoa certa… Bah! Sinceramente detesto quem se acomoda com o destino! Será que temos que esperar que as coisas aconteçam por si só ou não podemos interferir para que as coisas aconteçam como nós queremos, afinal somos nós que fazemos o nosso próprio destino, não somos…

— Mas às vezes não o fazemos da melhor maneira… talvez a pessoa que tu achas que é a certa para ti pode não achar que tu és a certa para ela. Além disso, tentares interferir com o rumo das coisas seria manipulação e já sabemos que tudo o que é manipulado não dá frutos bons… é melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente.

— Sim, senhor existencialista, mas eu pensei que tu fosses defensor de que o homem é que cria a sua existência e está condenado à liberdade e tal e agora vens falar de forças ocultas que controlam o rumo das coisas…

— Não são forças ocultas! Também não sei o que são, mas, por exemplo: sim, o homem, através das suas opções é que cria a sua existência, mas há certas coisas que escapam ao seu poder de decisão, coisas que por mais que nos esforcemos para que aconteçam, pura e simplesmente não acontecem por se calhar não deviam de acontecer. Essa lengalenga de que o mundo dá muitas voltas e do «aqui se faz, aqui se paga», não são os homens que fazem para que isso aconteça… é o rumo das coisas, acontece porque assim tem de ser.

— Já pensaste em criar uma corrente de pensamento filosófico só sobre essa tua teoria?

Ele riu.

— Brinca, brinca. Eu pelo menos penso que as coisas funcionam assim, que por mais que queiramos que uma pessoa seja a certa para nós, se ela não for, não vale a pena fazermos nada em relação a isso. Podes-te esforçar para tentar fazer dela a pessoa mais feliz do mundo, mas senão tem que ser ela, então nada feito. A minha mãe ‘tá sempre a dizer «o que é teu ‘tá guardado, Carlos». Quem sabe neste momento o teu futuro Mr. Boyle está a jantar fora com a melhor amiga, lamentando-se de não ter encontrado ainda o grande amor da vida dele, com violinos de fundo a acompanhar a cena. Ou a minha Mrs. Charles Gustav, como tu dizes, deve ‘tar na mesma situação que eu, desejando fumar um cigarro mas não pode por causa da lei, namorando algum Merengue de Limão exposto na montra das sobremesas, ou esperando que o empregado de mesa se digne a deixar de lamber as botas daquele casal inglês cheio de dinheiro e venha levantar a mesa.

Camilla explodiu em gargalhadas.

— Tu decididamente não existes! — levantou o copo como que lhe propondo um brinde. — Mas confessa, despertei em ti essa veia de filósofo do destino e crente na chegada de um amor ideal que tu nem sabias que tinhas.

In deed, arrancas sempre o pior de mim daqui de dentro. Devias escrever um livro sobre isso…

— Um livro não, mas dava um bom post.

— Ah, levo-te a jantar lagosta se alguém se dignar a ler isso.

We’ll see, meu amigo irlandês!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Manifesto anti-neoliberalismo

Desde o início deste tortuoso terceiro ano académico que tenho vindo a ser embriagada por ideias subversivas que contestam o sistema político/económico que temos em vigor nos dias que correm: o neo-liberalismo. De facto, basta olhar em volta para se detestar esta forma de governo oligárquica. O crescente número de desempregados face ao reduzido número de ricos, as multinacionais que exploram as riquezas de outros países, a privatização e o aumento dos cortes em sectores públicos como a saúde e a educação são alguns dos acontecimentos que temos vivenciado desde que, das “cabecinhas luminosas” de Reagan e Tatcher, saiu esta ideia de construir uma forma de governo que tornasse os ricos mais ricos, para que, por sua vez, através deles os pobres pudessem ser menos pobres. Todavia, o contrário tem vindo a acontecer. As desigualdades acentuaram-se e todos os dias somos bombardeados com notícias de fábricas que encerram ou despedimentos que vêem engrossar a lista de desempregados, ou seja, mais gente dependente do Estado.

E por falar em Estado, o neoliberalismo coloca à tona qual deve ser o verdadeiro papel do Estado. Enquanto Constituições de todo o mundo defendem que todos têm direito à saúde, à educação e a todo esse bla bla bla utópico, o neoliberalismo vem defender que o Estado deve intervir o mínimo possível. Vemos, nos dias de hoje, direitos essenciais como a saúde, a educação, a tornarem-se mercadorias onde só quem paga é que pode aceder. A competitividade de que os neoliberais são tão apologistas não é, nada mais, nada menos, do que uma farsa. «É necessário estudar muito, estar preparado para competir com outros indivíduos. Quem tiver melhor preparação académica estará mais apto para ingressar no mercado de trabalho e quem não tem qualificações a culpa é somente sua, porque o governo coloca à sua disposição as formações, os cursos, etc». É esse o discurso que anda pela ordem do dia. Sim, o Governo coloca as formações ao nosso dispor, mas são pagas, e por vezes em quantias exorbitantes, e então como poderá um desempregado aceder a essas formações para arranjar um emprego? O mesmo acontece com a saúde… os nossos direitos essenciais tornaram-se bens mercantis para enriquecer uma classe de parasitas.

Na verdade o neoliberalismo não quer seres humanos porque nele só sobrevive quem tem super-poderes… aqueles que, nada mais tem a fazer, a não ser trabalhar como escravos para acompanhar o ritmo de competitividade tão fomentado. Produzir é a palavra preferida dos burgueses. Vamos produzir objectos de alta-tecnologia, de vanguarda, futuristas… mas como querem que as pessoas os comprem se estas não têm dinheiro para isso? Se as confiam à dependência do Estado, abrindo fábricas em países subdesenvolvidos para explorarem pobres coitados e enriquecer ainda mais? O que mais me entristece é que as pessoas compram sim esses produtos. Cada vez mais existem pessoas dependentes de créditos, que fazem empréstimos quer seja para estudar, quer seja comprar algo, e depois tornam-se dependentes destes modernos agiotas que cobram juros elevadíssimos, daqueles que seriam necessárias duas vidas na Terra para os conseguir pagar. Sim, está tudo perversamente montado.

As privatizações… também as detesto. Concordo que seja necessário existirem empresas privadas, mas será necessário que estas sejam estrangeiras? Será necessário colocar o país em leilão? Ter aqui centenas de multinacionais que exploram os nossos recursos e cujas receitas nem sequer acabam por ficar no nosso país? De facto, estas multinacionais são excelentes empregadoras de mão-de-obra, mas de que valerá isso se no fim acabar-se-ão por mudar para o Bangladesh ou para a China, para explorarem crianças e mulheres por um dólar por dia? Todo esse progresso económico que aparece nos discursos de defensores do neoliberalismo, valerá de muito? Valerá de muito esse desenvolvimento económico em nome do progresso se no final tudo se resume a crises cíclicas cuja guerra se avizinha como única esperança de revigorar uma economia em decadência? Não seria o papel do Estado assegurar o bem-estar comum? E conseguirá dormir descansado um rico empresário cuja incontável fortuna foi adquirida através da exploração laboral? Sou a favor, sim senhor, do enriquecimento através do trabalho, mas somente quando esta fortuna é conseguida de uma maneira justa e não por meio da exploração.

No entanto, tenho a certeza de que todos estes problemas sociais não foram esquecidos por aqueles que fazem esta política oligárquica. O descontentamento de muita gente levou a que se implementassem inúmeras políticas sociais, ditas de esquerda, mas que no fundo são envernizadas com pensamentos de direita. Por isso vemos nos dias de hoje partidos, supostamente, de cariz “socialistas” a adoptarem medidas que fazem o pobre Marx dar voltas no túmulo. Veja-se o caso do Partido Socialista Português! Parece, a muitos, que os neoliberais estão a acordar e finalmente preocupam-se com as pessoas comuns. Será? É cada vez maior a busca de uma Terceira Via que garanta um sincretismo entre o mercado e o Estado promotor do bem-estar social. Deve ser por isso que se fala tanto em dar oportunidade a todos… balelas… toda essa preocupação é maquilhada, na verdade, com interesses económicos e egoístas de enriquecimento burguês.

Porém, não é só necessário criticar este sistema inseguro, é necessário fazer propostas e encontrar possíveis soluções. É certo e sabido que concordo com muitas das teorias socialistas de Marx, embora discorde exactamente no mesmo ponto que Bernstein discordou. Como li na Wikipedia: “Bernstein defendia a melhoria gradual e constante das condições de vida dos trabalhadores (dar-lhes meios para ascender à classe média), tinha dúvidas quanto à necessidade de nacionalizações em massa de empresas e recusava a via da violência revolucionária para atingir o socialismo (como o socialismo era inevitável por motivos morais, não era necessário derramar sangue por ele − acabaria por chegar um dia). Vimos isso em muitos países europeus, depois da Segunda Guerra Mundial. Países como o Reino Unido que abraçaram a ideologia Social-Democrata. O famoso Estado Providência assegurava o bem-estar social “do berço à sepultura”, podemos vê-lo isso… basta falar com muitos ingleses para saber que os anos que procederam à guerra, até à crise petrolífera de 70, que estes foram os anos gloriosos. As nações escandinavas levaram esse modelo ao extremo e basta reparar que eles têm dos níveis de vida mais elevados do mundo. É necessária, sim, uma intervenção do Estado para assegurar o bem-estar comum. O livre mercado, defendido pelos liberais, é uma utopia, pois sem controlo este mesmo mercado acaba por violar direitos humanos, recorre à exploração infantil. Sem controlo quem detém o poder deste mercado pode fazer o que bem entender sem ter de prestar contas por isso. Quem critica este modelo, afirma que ele é paternalista demais, que deixa as pessoas dependentes do Estado e que sobrecarrega este mesmo Estado. Porém, eu acredito que mais vale um pai super-protector do que um cruel padrasto como o neo-liberalismo.