"Crónica de Costumes"

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Meme das Meninas Superpoderosas



Mirian me ofereceu este presentinho virtual e aqui estou eu para realizar a meme e repassa-la como deve ser feito, pois além de ser engraçado, eu não quero ter não sei quantos anos de azar caso quebre a corrente. Brincadeirinha =) Obrigada pelo presente, Mirian ;)

As Meninas Superpoderosas são três pequenas garotas com uma missão: salvar o mundo antes da hora de dormir. E sua missão nesse mundo qual é?

R: Bem, podia dar a resposta típica: ser feliz! Mas a julgar pelo que tenho feito agora, diria que é servir de boa influência para um grupo de prés-adolescentes sem muito juízo na cabeça (e quem tinha juízo nessa idade), e acreditem que isso me faz muito feliz. Também acho que vou ter a missão de fazer os jovens gostarem de História, caso um dia venha a ser professora. Isto claro, depois de terminar meu curso de Educação Social.

Os atributos das Meninas Superpoderosas são: Florzinha é a líder, Lindinha é o espírito indomável e Docinho é a valentona que mais aprecia lutar contra os caras maus. Em qual deles você se encaixa?

R: Acho que mais com a Lindinha, sou tipo James Dean "rebelde sem causa" xD... totalmente indomável. Por incrivel que pareça até tenho um pouco de Florzinha, dizem que até funciono bem como líder democrático.

As meninas foram criadas da seguinte maneira: Certo dia , o professor estava fazendo uma experiência para criar garotinhas perfeitas. Misturou açúcar, tempero e tudo que há de bom no mundo , quando se distraiu e , por engano, acrescentou o Elemento X. Qual é o elemento X na sua vida?

R: Hmmm diria que é minha imaginação... ela me supreende até a mim mesma.

Além disso , as Meninas Superpoderosas emprestam seu charme a diversos produtos , irresistíveis , que fazem a alegria dos fãs. A que você empresta seu charme?

R: Fazendo juz ao que a Mirian disse, acho que as minhas personagens também têm um pouco do meu charme, também tento passar um pouco dele para as minhas prés-adolescentes que se auto-intitulam de minhas "filhas". Bem, como pseudo-mãe até tenho algum sucesso.

Quais são seus Superpoderes? (veja
os superpoderes das meninas para ter idéias )

R: Uma paciência daquelas que só as mães conhecem bem; a capacidade de mudar de humor mais depressa que as cores do semáforo; a capacidade de fazer rir; a capacidade de ser tão imprevisivel e de me surpreender a mim mesma; a capacidade de imaginar e a capacidade de nunca acertar o nome do assassino dos livros da Agatha Christie.

Em seu país você aniquilaria o quê?

R: O sistema de justiça e o sistema de saúde, felizmente a Educação tem vindo a evoluir. Na minha Patria Amada talvez começaria pela corrupção.

Qual o principal vilão ou vilã do seu país?

R: Acho que é mesmo a discriminação, o racismo, a ignorância e a alineação.

Uma frase Superpoderosa:

R: "Os Homens só serão iguais quando puderem ser diferentes". Adoro esta citação.

A quem eu repasso: Para a galera do
Make Stupidity History, com o sentido de humor deles, de certeza que vai sair algo bombástico xD

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Divagações sobre o Sistema de Saúde...

O nosso caro Primeiro-ministro José Sócrates decidiu demitir o antigo Ministro da Saúde. Recebi esta notícia com muito regozijo porque sinceramente nunca percebi muito bem qual a política dele do «mais vale ter um hospital a 30 km do que um mal hospital a 3 km». Centenas de clínicas fecharam, bem como maternidades, algumas mães chegaram mesmo a ir ter os filhos a Espanha. Bem, se fossem perguntar a um homem que está a ter um enfarte se preferia ir ao hospital de 30 km ou ao de 3 ele mandava-vos ir pentear macacos porque o que ele queria mesmo era ser salve, e talvez quando chegasse ao hospital que fica a 30 km de distância da sua cidade já seria um cadáver.

O sistema de saúde de Portugal, como o da maioria da Europa (salvaguardando claro os países da Europa do Norte que são um mundo à parte), é uma vergonha. Listas de espera de não sei quantos anos, falta de médicos nos hospitais públicos, pelo que aqui no Algarve predominam os médicos espanhóis e claro os erros (in)evitáveis. Por exemplo, passou à uns meses atrás uma reportagem de uma senhora que precisava de ser operada ao pé esquerdo, e o que fizeram os excelentíssimos senhores doutores? Operaram o pé direito! (Devem de ter visto a radiografia ao contrário)… até dá vontade de rir, exceptuando claro o facto de a senhora ter ficado incapacitada de andar porque tinha um pé engessado e o outro fracturado.

Também me lembro daquela vez que estava a almoçar na casa da minha tia Amélia quando o telefone toca.

«Está sim, é para avisar que já foi marcado o exame aos pulmões do Sr. Felizbelo Santos» - disse a foz da querida profissional de saúde.

«Ah sim, mas é que o meu pai já morreu» - respondeu a minha tia, alarmada pela falta de qualidade do nosso querido sistema de saúde - «há quase um ano».

Enfim, até é um bocado difícil de censurar os médicos do Algarve (falo exclusivamente desta região portuguesa porque desconheço como seja lá em cima, podendo somente fazer relatos na terceira pessoa, mas como diz o Eça de Queirós «Lisboa é Portugal, fora de Lisboa não há nada», acreditem que isto pode ser muito revelador no que toca ao sistema de saúde algarvio), afinal eles fazem turnos horários de mais de 12 horas e são movidos a cafeína… eu também não consigo pensar correctamente quando fico a estudar até as 5 da manhã para o teste do dia seguinte (estudar já é uma seca, estudar de véspera então é uma m*****). Há sim falta de médicos, afinal as médias são tão altas que só os anti-sociais do Liceu é que podiam se dar ao luxo de entrar em Medicina. Concordo sim que se devam abaixar as médias, embora todos queiramos médicos competentes, quem não nos garantes que um bom médico pode ter média de 15 e um mau médico média de 19?

Mas mesmo que se baixem as médias os médicos vão sempre preferir ir para estabelecimentos de saúde privados. Uma vez até estava a conversar sobre este tema com a minha tia e ela deu-me a seguinte ideia:

É sabido que o Estado gasta milhares de euros na formação dos futuros médicos (apesar de nós alunos universitários pagarmos um balúrdio em proprinas [e se querem que vos diga não sei para onde vai esse dinheiro, a julgar pelas condições da minha Faculdade, onde até chove lá dentro, não diria que seja para as reformas estruturais]), assim como também o fazem para os pilotos da Força Aérea. O que acontece é que estes médicos depois vão para hospitais privados e o Estado esteve a jogar dinheiro ao vento (algo que o Estado sabe fazer melhor do que ninguém). No caso dos pilotos, eles ficam dez anos de serviço ao Estado como pagamento do esforço que este mesmo Estado dispensou na sua formação e depois vão à sua vida (claro está que recebem ordenado, não trabalham de graça). Creio que o mesmo poderia ser realizado no sistema de saúde. Os médicos trabalham durante 10 anos para os hospitais públicos e depois é cada um por si.

Tenho fé que a nova Ministra faça um melhor trabalho do que o seu antecessor. Porque andamos nós a pagar grandes quantias de impostos e esperamos ter alguma segurança caso adoeçamos.

Não só os hospitais, mas também as maternidades… andam as portuguesas a fazer filhos para depois eles ficarem registrados como espanhóis? Daqui a pouco ainda voltamos aos tempos em que as mulheres têm os filhos em case. Quem sabe ainda ressuscitamos as prezadas parteiras.

Havia de ser engraçado…

«Eu nasci no Hospital de Santa Maria, e tu João, onde nasceste?»

«No cruzamento da Avenida 25 de Abril com a Travessa 10 de Outubro. A ambulância tinha parado nos semáforos».

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

É Inevitável…

(obs: Tinha pensado noutro texto diferente para hoje, mas ao vasculhar pelo meu pc encontrei estas duas conversas com o Rapadura e a Rafaela, a quem dedico o post de hoje. Obrigado por me terem ajudado num momento semelhante a este. Foi inevitável…)

Angélica Gomes passara a manhã toda a arrumar o andar inferior da sua casa. Os seus anos de serviço ao Tribunal da sua cidade, como dactilógrafa, haviam-na permitido desfrutar daquela semana de férias. Não era propriamente a semana de férias em algum lugar paradisíaco na companhia do seu marido, como ela sempre desejara, agora que estavam casados há vinte anos, mas ela concordou para si mesma que estava na altura de fazer uma limpeza intensiva à sua casa e nada melhor do que aproveitar aquela semana para se aventurar naquela missão exaustiva.

Com o marido no trabalho e os três filhos na escola ela pode desfrutar de algum sossego. Limpou a sala de estar, a cozinha, o escritório e a sala de jantar ao som de Frank Sinatra e sendo constantemente seguida pelo seu gato persa. Almoçou uma sandes de frango e abriu uma garrafa de vinho, saboreando aquela refeição como se de um banquete se tratasse. Sorria interiormente. Se estivesse no trabalho teria de comer em algum restaurante nas imediações do Tribunal e de cariz duvidoso (Angélica detestava comer fora porque nutria uma certa aversão ao modo como os alimentos eram confeccionados) e caso estivesse em casa na companhia da sua família teria de ser escrava do fogão, a preparar uma quantidade descomunal de comida para agradar o estômago exigente do seu marido e os caprichos do seu filho Gustavo (felizmente Filipe e Cláudia não eram muito rigorosos neste aspecto).

Depois da refeição dedicou-se a mudar os lençóis dos quartos dos filhos, mas ao ver a desarrumação que a aguardava decidiu deixar aqueles aposentos para outro dia… provavelmente iria perder grande parte das suas férias a tentar limpar o quarto dos filhos.

Estava a fechar a porta do quarto de Cláudia, organizando mentalmente a descompostura que lhe iria dar por ela ter estado a escrever nas paredes com lápis de cera, quando olhou para as escadas que conduziam para o sótão.

Nos filmes de terror os sótãos eram quase sempre vistos como os lugares ideais para as cenas mais assustadoras acontecerem, conquanto Angélica temesse mais as caves do que os sótãos. Na sua opinião os sótãos eram as suas divisões predilectas da casa. Sempre cheios de segredo, a transbordar de memórias e de histórias para serem contadas. E de facto aquele sótão enclausurava mesmo muitas memórias.

Foi até à sala e agarrou no seu copo e na garrafa de vinho. Eram as únicas companhias de que necessitava para vasculhar o sótão.

A porta rangeu com a falta de óleo qual o portão ferrugento de um castelo assombrado. Era uma divisão muito mal iluminada, poeirenta e que cheirava a um misto de mofo com naftalina. Por todo o espaço se amontoavam caixas. Haviam também alguns móveis, como o berço em que os seus filhos haviam dormido. Eduardo fizera questão de que não se deviriam de livrar dele por se tratar de uma relíquia de família.
Passou ao de leve com os olhos pelos caixotes. O seu cérebro parecia um filme que estava a ser puxado para atrás. Tantas recordações! Os livros de banda desenhada que ela e Eduardo haviam lido na infância, alguns dos brinquedos com que Eduardo brincara em miúdo (brinquedos estes que haviam sido construídos pelo seu próprio pai, Francisco, que era carpinteiro). E os discos de vinil! A sua mãe era louca por jazz e Angélica havia sido contagiada por ela. Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Louis Armstrong, estavam todos lá!

A sua visão ficou ligeiramente turva… as lágrimas já estavam à porta, mas lágrimas de felicidade perante tantas recordações dos seus tempos de miúda em que, enquanto as suas colegas deliravam com bandas como os Led Zeplin, Aerosmith, Queen, e até com o Michael Jackson… Angélica prefira ficar em casa com a mãe e o pai apreciar um calmo jazz. Todos os rapazes que ela havia conhecido eram igualmente fãs das novas tendências musicais, ela chegara mesmo a namorar com um rapaz que se assemelhava ao Eric Clapton no início da sua carreira, mas felizmente ela tivera a sorte de conhecer Eduardo… também ele era fanático por jazz… ah como era bom quando eles se reuniam às quintas à noite naquele pequeno bar, a ouvir o Igor a tocar, estavam tão apaixonados, desconfiavam eles de que em breve iriam casar… e subitamente lembrou-se! O Igor! Mas que personagem!

O Igor havia sido um rapaz que ela conhecera quando tinha sensivelmente a idade do Gustavo (dezasseis anos). A sua mãe havia-a inscrito nas aulas de Dança Jazz e o Igor iria ser o seu pai. Negro, mais velho que ela e muito, muito bonito, Angélica divertia-se imenso nas aulas de dança, porque Igor era dotado de um sentido de humor fora do comum e muito entendido em jazz, uma caixinha de boas qualidades. Ela chegara mesmo a ter uma pequena paixoneta por ele… que no entanto, como todas as paixonetas, em nada dera. Igor estava apaixonado há quase três anos pela mesma moça! Mas mesmo assim fizera o favor de apresentar a Angélica o seu vizinho Eduardo. Pobre Igor, nem ele saberia que estava a ajudar o Cupido a fazer o seu trabalho.

E agora lá estava ele, imigrado em Nova Iorque como ele sempre desejara. Todos os Natais enviava sempre postais a Angélica e a Eduardo. Era daquelas amizades que queremos sempre guardar junto de nós e que esperamos que o tempo nunca apague.

Lá ao fundo estava uma caixa em que alguém escrevera a caneta de feltro «Angélica». Provavelmente só a ela diria respeito. Aproximou-se dela e sentou-se, colocando ao seu lado o copo e a garrafa.

Estava cheia de folhas de cadernos, já amareladas com o tempo. Pequenos poemas, desenhos, algumas histórias, que ela havia escrito durante as suas aulas do Liceu.

O Liceu!

Foram sem dúvida os melhores tempos da vida dela. Como sentia saudades daqueles três anos de liberdade e irresponsabilidade que havia passado no Liceu. As vezes em que saltara os muros da escola para se encontrar com os namorado; os desfiles de moda; os saraus de ginástica; os concursos que a Associação de Alunos organizavam… como sentia falta daquilo… tornara-se tudo tão diferente quando ela fora para o curso técnico para ser dactilógrafa.

Era tipo a universidade, e lá as pessoas achavam-se adultas, eram arrogantes… nada a ver com a jovialidade do Liceu.

Voltou a olhar para a caixa. Tinha lá algumas bonecas suas, de plano, claro, fizera questão de doar todas as de porcelana que a sua tia lhe havia oferecido. Detestava bonecas de porcelana! Eram tão dignas dos filmes de terror como os palhaços. Criaturas desprezíveis!

E finalmente viu… os álbuns de fotografias. Agarrou neles e abriu um por um no seu colo.

Como era bonita quando era adolescentes, sem ter a cara com rugas nem sinais de cabelos brancos… detestava aquilo… estava a ficar velha e temia isso… sempre quisera ser adolescente para sempre.

«Olha a Mariana!» A Mariana… ela e o Ruben… seus amigos desde quando ela tinha dez anos. Eram os únicos com quem ela ainda mantinha contacto, para além do Igor. Mariana era a sua amiga de todas as horas, e morava a alguns quarteirões de distância com o seu namorado, agora marido, desde sempre: o Rogério. «Aqueles dois foram mesmo feitos um para o outro», pensou ela. O Ruben ao chegar ao Liceu ingressara pelo caminho dos punks, até entrara para os motoqueiros, era um rebelde, mas mesmo assim nunca haveria perdido o contacto com ele… ainda iam ao cinema como nos bons velhos tempos…

Foi então que as viu…. Paula e Júlia… as suas colegas da sua turma. Mariana havia chumbado de ano, pelo que na escola, como tinha horários um tudo ou nada incompatíveis, Angélica tinha de passar grande parte do seu tempo com Paula e Júlia… até se divertia com elas… principalmente nas horas de almoço… eram boas pessoas e muito leais… mas o cenário havia começado a ficar negro.

E sentiu aquele aperto incómodo na garganta… o mesmo aperto que sentimos habitualmente quando queremos chorar… Fora inivitável o que acontecera!

Sentou-se na cadeira de balanço do tio-avô de Eduardo, segurando a fotografia com Paula e Júlia nas mãos.

No último ano do Liceu teriam de realizar exames para serem admitidos na Universidade, e Paula e Júlia haviam chumbado. Angélica ainda mantinha o contacto com elas… mas as coisas haviam inevitavelmente mudado. Apesar de ela ter detestado as pessoas que conheceu nos tempos do Curso de Dactilografia, ela teve de admitir para si mesma que ainda tivera a sorte de travar conhecimento com algumas pessoas interessantes de outros cursos. Costumavam sair, ir ao cinema e participar em pequenas manifestações contra o governo local. Fora igualmente nessa altura que Angélica conhecera Eduardo, que estava a cursar Gestão de Empresas, e que começara a frequentar o bar onde o Igor trabalhava e ia lá tocar… a própria Angélica também trabalhara como empregada de mesa num restaurante, durante as férias de Verão… Tinha uma vida nova e estava a alargar os seus horizontes… sentia sim, a falta do Liceu, mas do Liceu em si e não das pessoas que lá andavam…

Sentia-se mal consigo mesma pois já não tinha tempo para poder estar com Paula… felizmente Júlia arranjara namorado e não fizera caso da situação… mas Paula… estava constantemente a lançar-lhe um dedo acusador e a deixar-lhe mensagens incomodativas no gravador de mensagens.

«Então, já não te deixas ver?» perguntava ela num tom de voz extremamente desagradável. «Se não for eu a telefonar-te nunca te lembras de me telefonar». Cobranças! Angélica detestava que a estivessem constantemente a cobrar das coisas que fazia. «Não lhes deves nada» dizia a sua mãe que também já estava a ficar farta das mensagens. Mas Angélica sentia-se pessimamente, sentia-se mal consigo mesma. Não gostava nada de fazer aquilo que estava a fazer com Paula. Sabia que não era falta de tempo, pois ela continuava a ir ao cinema com Mariana e Ruben… era mesmo falta de vontade de estar com Paula… Ela estava inevitavelmente a crescer… a tornar-se numa mulher e procurava agora novas coisas para a sua vida… gostava de estar com Maria e Ruben pois eram pessoas com quem sempre aprendia algo… mas a Paula… não a via com grandes perspectivas de vida… sempre que lhe perguntava como ela estava ela dizia sempre que estava tudo na mesma. Ela tentou meter-se no lugar da amiga e sabia que não iria gostar caso lhe fizessem isso… mas com certeza teria o bom-senso de ver que estava a mais, o que não parecia ser o exemplo de Paula… estava constantemente a lançar críticas mordazes sobre isto… Angélica sentia-se confusa, irritada… embora não tivesse propriamente culpa do que estava a acontecer… no fundo até gostava de Paula… simplesmente já não partilhavam os meus interesses… os temas das suas conversas erm tão enfadonhos… ela era tão banal…

Fechou os olhos… parecia que ainda via aquela cena como se fosse hoje.

Terça-feira, havia saído das aulas e estava agora a entrar no bar onde o Igor trabalhava. Precisava de falar com ele! Felizmente, àquela hora da tarde não se achava lá ninguém, e Igor estava a jogar com as cartas à Paciência em cima do balcão quando Angélica o cumprimentou.

- Ah, finalmente! – exclamou ele. Curvou-se sobre o balcão para dar dois beijinhos à amiga. – Vai um cappuccino?

- Sim – aceitou ela sentando-se nos bancos em frente ao balcão. Numas mesas lá ao fundo as duas empregadas de mesa lanchavam e Angélica acenou-lhes alegremente.

Igor serviu-lhe um cappuccino e para ele um pouco de Bailey’s.

- É um bocado cedo para beber – fez notar Angélica torcendo o nariz de aversão.
- É sobre isto que querias falar comigo ou há alguma mais importante?
- Na verdade até há, preciso de um conselho teu, Igor, mas agradeço que estejas sóbrio para me responder.
- Relaxa. Fala aí o que é…

- É assim: normalmente acontece quando a gente entra para a faculdade perdemos inevitavelmente o contacto com certas pessoas que deixamos para trás… E há uma amiga minha. Ela é boa pessoa. Só que agora, com estas novas convivências eu acho que já não tenho aa… paciência para aturá-la. Tipo… eu estou alargando os meus horizontes e a conversa dela não sai da mesma coisa… Eu não queria ser assim, Igor, mas estou desprezando ela inconscientemente.

Igor bebeu um pouco do Bailey’s.

- Eu entendo, Angélica. Já passei por isso. A primeira coisa que tens a fazer é cuidar de ti mesma. Procurar o melhor para ti… depois vê se podes agradar algúem…
- Isso não é um bocado egocêntrico?
- Minha amiga, senão pensares em ti quem é que vai pensar? Tu precisas de alargar o teu conhecimento, procurar evoluir… as coisas que não te trazem nenhum benefício são dispensáveis. São como as músicas sem conteúdo… fazem barulho mas não trazem nada de que se acrescente às nossas vidas.

Angélica concordou com Igor, queria coisas novas, e Paula não parecia transmitir-lhe isso.

- Ela faz-me cobranças…

- Ah, já chega de cobranças. Somos mais do que cobrados neste Mundo. Sinceramente! Acho que é um pouco de falta maturidade da parte dela. Quem gosta mesmo de ti vai sempre querer que ver crescer… Tu ainda falas com a Mariana e o Ruben não é…
- Sim.

- Não somos nós que nos afastamos das pessoas. É a própria vida que nos leva para caminhos diferentes. Ganhamos responsabilidades… o emprego, a família… cada um toma o seu rumo… é normal. E se a vida nos permitir, quem sabe vamos nos encontrar mais tarde.

- Eu ainda tentei sair com ela… mas não resulta, já não é o mesmo como antigamente…
- Tenta unicamente concentrar-te no que estás a fazer agora, e faz com que ela entenda o teu lado… nem sempre podemos dar atenção a toda a gente… ela também tem de compreender o teu lado. Tens tanta coisa para fazer… essas cobranças dela só estão a fazer com que fiques confusa. Tu precisas de pessoas que te apoiem… não que te deixem ainda mais preocupada.

Como adorava o Igor!

- O tempo prova quem é quem, Angélica… e a vida é a melhor escola… aqueles que permanecem sempre na nossa vida são sem dúvida os nossos verdadeiros amigos… era bom se eu pudesse continuar a falar com todo o pessoal que conheci até hoje… mas não, cada um andou para o lado que lhe deu mais jeito… uns para a esquerda, outros para a direita, alguns andaram para trás e outros nem saíram do mesmo sítio… aqueles que andam connosco guardamos no nosso coração e os que deixámos para trás irão povoar as nossas lembranças quando formos vais velhotes…

Ah como era verdade. Tentou explicar aquilo à Paula, mas ela não quis ouvir… deixou de falar com Angélica. Mas Angélica estava em paz consigo mesma… havia feito a sua parte… tal como Igor dissera…

Alguém a abanava nesse instante… acordou abruptamente… tinha quarto pares de olhos curiosos a olhar para ela.

- Mãe, ‘tiveste a beber? – perguntou Gustavo apontado para o copo com vinho. – Belo exemplo, hein.

- Cala a boca, Gustavo – ordenou o pai ajoelhando-se em frente da esposa. – Estás bem?

- Sim, sim. Vim só aqui limpar umas coisas e acabei adormecendo.

Eduardo olhou para a fotografia que a esposa segurava nas mãos.

- Meninos, vão lá para baixo. Preciso de falar com a vossa mãe.

Gustavo foi o primeiro a sair, seguido dos irmãos. Detestava o sótão, pois desde pequeno que acreditava que tinha lá um monstro e era a forma ideal de a sua mãe fazer com que ele a obedecesse. «Senão te portares bem tranco-te no sótão e deito a chave fora» dizia ela.

- Lembranças? – perguntou Eduardo quando se achou finalmente sozinho com a esposa.
- Sim, faz parte da idade, não é? Olhar para trás em retrospectiva e ver o que aprendemos com esta caminhada na terra…
- E o que aprendeste com isto? – apontou para a foto.

- Que conhecemos muita gente ao longo da vida, mas só os melhores amigos ficam sempre connosco… é inevitável… Nada é eterno…
- Digno do velho Igor!

Sorriram… era inevitável… havia coisas que a vida fazia por si mesma sem nos consultar…

sábado, 26 de janeiro de 2008

Tesourinho Deprimente

Gato Fedorento é sem dúvida dos melhores programas de humor da televisão portuguesa. No seu quadro "Tesourinhos Deprimentes" eles vão aos registros da RTP e agarram nos programas antigos e nas suas gaffes e os comentam... é muito, muito engraçado. Para que possamos ver como eram os programas antigamente... Eu cá por mim dou graças a Deus de a televisão ter evoluido... Vale a pena confirmar.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

La Cosa Nostra

«Não é nada pessoal... são apenas negócios» afirmam eles... La Cosa Nostra ou se preferirem: a Máfia... essa organização que se esconde por detrás de um véu de secretismo para operar perfidamente na vida quotidiana. Estamos familiarizados com ela graças aos filmes com os Al Pacinos e os De Niros de Hollywood e também graças a romances à la Mario Puzo... ficção esta que somente ajuda a pincelar de tons alegres toda a escuridão que na verdade envolve os membros desta organização... afinal, todos os Al Capones, Lucky Lucianos e John Gottis deste mundo gostam que se pensem neles à imagem e semelhança do Don Corleone, que mesmo sendo muito afável não deixou de ser um criminoso sem escrúpulos. A Máfia e o modo como opera é tão surreal e ao mesmo tempo tão real que nos leva a acreditar na ficção e a pensar neles como uns Robins dos Bosques... e na verdade, quantos de nós estevimos frente-a-frente com um mafioso siciliano para saber como ele é na realidade?

Confesso que sempre nutri um certo interesse (salvo seja) pela Máfia Italiana, o que me levou a adquirir uma série de material a seu respeito e que hoje colore a minha biblioteca pessoal. Debruço-me hoje sobre este tema porque a Máfia encerra em si uma série de problemas que povoam o Admirável Mundo Moderno...

«A Máfia é opressão, arrogância, ganância, enriquecimento próprio, poder e hegemonia acima e por cima de todos os outros. Não é um conceito abstracto, um estado de espírito ou um termo literário... É uma organização criminosa, regida por regras não-escritas, mas inexoráveis e implacáveis... O mito de um “homem de honra” corajoso e generso tem de ser destruído, porque um mafioso é exactamente o oposto» - proferiu Cesare Terranova, um magistrado italiano [in os Maiores Gangsters da História, da autoria de Lauren Carter]. Mas a Máfia representará na realidade a falha da sociedade em gerir os seus problemas ou o produto da mente deturpada de alguns indivíduos?

Basta pensarmos no motivo que levou muitos dos jovens, filhos de imigrantes italianos, a ingressar neste estilo de vida. Alegaram todos que se sentiam fascinados ao ver alguns dos seus compatriotas desfilando com roupas elegantes, jóias, grandes carros e mulheres bonitas... estes jovens viviam a dura realidade dos bairros miseráveis... os seus pais mostravam-se relutantes em se adaptarem ao país em que agora viviam, e este país também não mostrava grande interesse em aceitar estes novos cidadãos. A maioria dos jovens também não se sentia atraída com os programas leccionados na escola, o que conduziu ao abandono da mesma... foi nas ruas que encontraram o seu refúgio e optaram pela vida fácil. «A minha vida ditou todos os rumos que tomei. Nunca tive escolha. No meu tempo, todas as portas estavam fechadas», afirmou John Gotti.

Sim, agora podíamos apontar uma série de dedos acusadores aos Governos, responsáveis pelo caminho que estes jovens seguiram, responsáveis por não terem possibilitado uma melhor qualidade de vida... no entanto, existe sempre a resiliência (tema que eu aliás já tinha debatido com Mirian) e isto não deve ser utilizado como desculpa para todos os crimes hediondos cometidos pelos mafiosos.

A Máfia adora vangloriar-se de defender valores como a honra e a lealdade, embora o faça por motivos diferentes. A honra é lavada com sangue, e se alguém desrespeita um mafioso, este não terá meias medidas em descarregar toda a sua artilharia em cima daquele que o ofendeu... afinal o respeito é uma coisa muito bonita e todos nós gostamos, não é... e a lealdade rege-se pelo código do silêncio da Máfia: Omerta. Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada... ninguém pode ser “dedo-duro”... o que pode ser mais desprezível do que aquele queixinhas que vai contar ao professor quem é que se portou mal quando o docente saiu momentaneamente da sala? Os mafiosos cresceram nesta crença... e todos os que quebram este código de honra pagam com a morte... é que quando se entra para uma família siciliana deve-se fazer o juramento que consiste em abrir uma ferida no dedo de modo a que esta sangre ligeiramente, enquanto se queima a imagem de um santo e se diz «que a minha carne queime como este santo se eu trair a Família»... Quando se faz um acordo com a Máfia este só termina quando morremos...

La Cosa Nostra explora o que de mais hediondo existe na natureza humana, enquanto muitos de nós sentimos arrependimento e um peso na consciência quando cometemos algo de errado (e nenhum de nós anda por aí assaltar bancos e a matar a torto e a direito) o mesmo não parece acontecer com estes indíviduos... não sentem peso não consciência por matarem, por explorarem outras pessoas, assaltarem e fazerem em somente uns meses a quantidade de dinheiro que provavelmente nunca iríamos fazer nem que passássemos por este mundo umas quinhentas vezes (tirando o Michael Corleone [que afinal foi criado pelo caro Mario Puzo] não estou a ver mais nenhum mafioso a ajoelhar-se a pedir perdão pelos seus pecados [e acreditem que seriam precisos vários rolos de papel higiénico para registrar todos eles]). «Foi a vida que escolhi», afirmam, e devemos nós, comuns mortais, aceitar que nos matemos a trabalhar enquanto um mafioso lava mais de não sei quantos biliões de dólares só por traficar cocaína, comandar bordéis, fazer desfalques em bancos, chantagem, burla, extorsão, traficar seres humanos, órgãos, e etc. etc. etc. E isto acaba-se tornando um ciclo vicioso... por exemplo... a polícia para prender John Gotti, o último dos chefes da família Gambino (uma das famílias mafiosas mais poderosas dos EUA), contou com o apoio do seu braço direito Sammy Gravano... tudo bem, o Gotti foi para a prisão e morreu recentemente, ao Gravano foi dada a possibilidade de reconstituir a sua vida noutro estado, sobre um novo nome e tudo mais, bem à maneira americana, e o que fez Gravano? Foi apanhado mais tarde nos negócios ilegais... o que dizer disto? Enfim... é como diz Al Capone: «quando entras para os negócios ilícitos é para sempre».

Mas os mafiosos não se cingem somente ao comum mafioso de bairro que fica nas ruas a fazer o trabalhinho sujo... há o grande chefe... aquele que fica confortavelmente sentado na sua cadeira a contar maços de notas e a fumar gordos charutos... aquele que de dia é o respeitável Sr. Não-sei-quê e de noite, sentado na mesa redonda com os outros da sua laia, discute porque motivo têm que eliminar não sei quem. Era assim que devia de ser o verdadeiro chefe mafioso, esconder-se por detrás da máscara de cavalheiro respeitável que faz doações à igreja... era o que advogavam grandes chefes como Gambino e Genevosse. Este é, na minha opinião o mais desprezível dos chefes mafiosos... consegue até ser mais desprezível do que os Zés Pequenos deste mundo. Gostei particularmente do último filme de O Padrinho (no Brasil se chama “O Poderoso Chefão”) porque explora um pouco deste lado legal da Máfia... é que até os Bispos e outros tantos (perdoem-me mas não pesco grande coisa de hierarquia religiosa) estão envolvidos com negócios ilegais.

«Por detrás de cada grande fortuna oculta-se um crime» de Balzac e «Não compreendo quem segue o caminho do crime quando há tantas formas legais de se ser desonesto» de Al Capone servem para reforçar a ideia que anteriormente expus. Desde o árbitro que aceita o suborno, o político que desvia o dinheiro, o polícia que encobre o tráfico das drogas até ao comum mafioso de rua que chula as prostitutas... são todos farinha do mesmo saco... mas o mais desprezível é quando alguém que, supostamente devia de zelar pelos nosso bem-estar, se deixa seduzir pelo doce aroma do dinheiro sujo. Finalizo com esta citação do livro Al Capone e o seu gang: «Os polícias e o juízes estão tão metidos no esquema como eu. A única diferença é que eles se fazem de santinhos! Eu cá prefiro mil vezes os criminosos. Ao menos são honestos».

Deve ser quebrado o pudor de se falar em Máfia, não somente na Máfia Italiana que usei aqui por exemplo, mas todo o tipo de organização criminosa que se sirva de meios hediondos e ilegais para subir na vida. Não devemos fechar os olhos à corrupção e lidar como se fosse algo que não nos afectasse porque na verdade afecta, e muito e nem devemos de louvar a facilidade com que consegue as coisas (salvo seja) porque tudo nesta vida é consigo com esforço, não é...


A Máfia é muito “bonita” e tem o seu glamour sim, mas é nas páginas de um romance ou numa tela de cinema, não no mundo real...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

III Acto – Sobre as Famílias Adoptivas

O pêndulo do relógio de parede balançava indolentemente e Alberto Fonseca o seguia com os olhos, como se estivesse a ser hipnotizado. Tinha o cérebro a trabalhar a mil à hora, sentia-se nervoso e ao mesmo tempo impaciente com a espera. Tamborilava distraidamente com os dedos num cartão de visitas que lhe haviam dado...

Pierre Fernandes
Advogado


James, o seu colega inglês lá do hospital havia-lhe recomendado aquele homem...

- É muito bom, para um francês – dizia James. – É especialista em Menores... desde divórcios, a adopções, abusos sexuais... nada lhe escapa. Foi o meu advogado quando me separei da mãe da Becky, mas tem cuidado, ele é um bocadinho caro... Oh yes... já sei que ele vai enfiar a faca, por isso, my friend, be careful.

E lá estava Alberto naquele momento. Na sala de espera do escritório de advogados onde trabalhava o senhor Pierre. Pareciam ser todos muitos procurados porque desde uma hora que ele se achava ali à espera de ser chamado. A fila ia diminuindo gradualmente e ele seria o próximo a ser atendido.

Sentia-se extremamente nervoso, queria logo dar um fim naquela situação que o aterrorizava a cada segundo da sua existência... era um pesadelo que não queria terminar.

Algumas cadeiras ao seu lado uma senhora gorducha lia aquelas revistas já fora da data que os advogados, médicos, cabeleireiros, insistiam em colocar para os clientes se entreterem a ler, no seu lado direito uma outra senhora que parecia ter saído de uma revista sobre celebridades, ao mesmo tempo que também parecia ter sido paga para andar com a roupa da D&G, Alberto desconfiava se ela não teria feito uma plástica.

Estranhou estarem ali só mulheres, até a secretária que mascava pastilha e limava as unhas enquanto lia uma série de e-mails engraçados e soltava uma ou outra gargalhada que ecoava por todo o vestíbulo. O choque havia atingido toda a família, mas ele, por ser homem, tinha quer ser mais forte, tinha de consolar a sua esposa e preparar-se para a guerra, por isso decidira ele mesmo ir ao advogado para começar a tratar de tudo.

Um telemóvel tocou a senhora do jet set e atendeu, falando tão alto que Alberto chegou a pensar que ela teria algum problema de audição.

- Ah, olá querida. Estou aqui no advogado, mas isto demora tanto, espero bem não passar aqui o resto da tarde, prometi que levava o João ao ténis... sim ele anda no ténis, com aquele amiguinho dele que participou naquela novela que os miúdos adoram ver... sou amiga de longa data da família, sempre topei que o rapaz tinha talento, ele adora-me... chama-me tia, imagina lá.

Alberto sentiu vergonha pela mulher. Nada mais o irritava do pessoas que falavam alto e diziam conhecer pessoas famosas, como se eles mesmos fossem pessoas influentes... se a mulher soubesse o papelão que estava a fazer... a secretária franziu as sobrancelhas e a senhora gorducha abanou a cabeça em sinal de repreensão. Havia de facto muitas pessoas que precisavam de ser educadas, uma sala como aquela não era propriamente o local ideal para ter aquele tipo de conversa... e durante os cinco minutos que o telefonema durou, Alberto ficou a saber quase todos os pormenores da vida da mulher. Odiava aquilo!

A porta abriu-se e um casal saiu, a secretária consultou os seus papéis e...

- Sr. Fonseca, pode entrar, Monsieur Pierre o aguarda.

Levantou-se e inspirou, como se esperasse que confiança entrasse pelas suas narinas, ao invés de ar. Entrou na sala e lá estava o famoso Pierre Fernandes.

Reparou logo no nariz abatatado, no cabelo grisalho pregado precariamente à cabeça oval, na pêra que terminava em caracol. Era muito alto e transpirava França por todos os poros do seu corpo.

- Bonjour – saudou ele no seu sotaque francês. – Sr. Fonseca, pressumo.
- Sim, foi o James que me sugeriu o senhor.... James Brown.
- Ah sim, o médico sovina... tão agarrado ao dinheiro... tipicamente inglês.

Alberto sorriu por educação, não estava para aturar aquela antipatia entre ingleses e franceses, queria ir directo ao assunto. Sentou-se na cadeira que o doutor indicara e quando Pierre se sentou, sem meias medidas começou a história.
- Bem, vim aqui para me aconselhar com o senhor porque o James disse que era especialista em casos com Menores, e eu preciso da ajuda de alguém mesmo muito bom...
- Agradeço a confiança, prossiga...

- Amo a minha mulher – no entanto sentiu-se estúpido, parecia que não começara bem aquela história e assemelhava-se mais a alguém que começava uma carta para a secção de dúvidas sexuais de uma revista barata -, no entanto não podemos ter filhos... uma tragédia, devo dizer... e a adopção sempre nos pareceu o mais adequado... há tantas crianças por aí a precisar de amor... pois bem, fomos a uma instituição e encontramos a criança ideal... o Tomás estava lá há um ano... foi abandonado pelos pais, os dois da mais péssima laia, drogados, enfim... o pequenote também desde cedo que gostou de nós... fomos visitá-lo muitas vezes e começamos a tratar dos papéis para a adopção, mas já se sabe que estas coisas demoram muito tempo... como a maior parte das coisas que necessitam da justiça deste país... mas finalmente conseguimos e o rapazinho agora vive connosco...tem tudo do bom e do melhor... e acima de tudo... tem amor... algo que nunca teve naquela instituição... agora está na escola e já tem sete aninhos... muito maroto, mas adorável... Até podia ser uma história com final feliz, mas eles voltaram... os pais biológicos... querem o miúdo de volta, dizem que têm direito porque são os pais de verdade... laços de sangue, dizem eles que é importante... nunca deram ao miúdo aquilo que ele realmente precisava e agora querem levá-lo como se tivesse esse direito... por isso vim aqui falar consigo... não quero que isso aconteça!!!

Terminou... não fora tão fiel aos detalhes como desejara ser, não contara a satisfação que tivera quando o processo de adopção havia sido aceite, quando Tomás fora morar lá para casa e todas as alegrias que ele havia proporcionado àquele casal... e muito menos encontrara palavras para descrever toda a tristeza e desespero que tomaram conta dele quando os pais de Tomás haviam reaparecido... no entanto, ao ver o olhar pensativo do advogado, como quem digere algo, sentiu que fizera um relato suficientemente bom para o colocar a pensar.

- Ah, pois é – suspirou por fim o advogado. – É um grande erro! Um erro fatal... devolver crianças às famílias biológicas é quase como entregar a galinha numa bandeja às raposas...

Alberto anuiu com a cabeça...

- Os casais colocam os filhos no orfanato – prossegiu Pierre - e depois vão lá vê-los de vez em quando, acho que de ano a ano, e os orfanatos têm problemas para possibilitar que estas crianças sejam adoptadas. Quando finalmente conseguem, surge logo a família biológica a dizer que querem as crianças de volta para formarem uma família e blá, blá blá… A lei cai sempre no erro de devolver as crianças aos pais biológicos porque a lei protege muito a família. Geralmente um dos pais biológicos é desequilibrado e o outro é alcoólico e a partir do momento em que a criança volta para eles é espancada, queimada com cigarros, violada e até morta… é triste mas é a realidade. Essa gente só o faz por maldade, acho que nunca gostaram da criança, mas a partir do momento em que sabem que há uma família interessada em adoptá-la, aparecem a dizer que estão muito arrependidos de a ter abandonado e que a querem de volta porque foram eles que a fizeram. Mas na minha opinião pai é quem cria e não quem faz.

Ele sentiu que de facto o advogado percebia do assunto.

- Acha que temos possibilidade de ganhar o caso?
- É muito complicado, meu amigo... sou sincero. A lei é tremendamente estúpida, e mais estúpidos são aqueles que a julgam. Pode ser quase tão claro como a água que o senhor e a sua esposa são a melhor influência para o pequeno Tomás, mas o sangue parece que fala mais alto na cabeça dos ilustres juízes... pobres ingénuos ainda acreditam em milagres... é pena que com essa inginuidade quem sofra é a criança....
- Quer dizer que não há saída?
- Mas é claro que há! Vai deixar-se render tão cedo?! Sem sequer lutar?! Coragem, homem, coragem! Temos uma longa luta pela frente, é verdade, mas também podemos ganhar se tivermos um bom naipe de argumentos.
- Que serão?
- Podemos alegar que o Tomás tem todo o conforto do mundo na vossa companhia, trazer cá testemunhas, se for preciso até organizamos uma manifestação – Alberto sorriu, aquele advogado era particularmente teatral, mas sabia que apenas o estava a fazer rir para o ajudar a descomprir daquela situação difícil. – Podemos usar como exemplo uma série de casos que aconteceram, talvez os chame de volta à realidade. Porque estes casos estão sempre a passar na televisão, mas como sempre, fechar os olhos à realidade é a melhor forma de alegar que não existe. É urgente revogar estas leis, sabe... é que se protege muito as famílias em detrimento das crianças... imagino como deva ser a vida destas crianças, em instituições onde, apesar de receber comida e cama quente, não têm aquilo que as crianças mais precisam: amor. E aquelas que vivem pulando de famílias de acolhimento então... muito pior. Não deve ser nada saudável andar em casas diferentes, a conviver com modos de vida diferente sem saber se há alguém que gosta verdadeiramente de nós.
- E acontece todos os dias – concluiu Alberto, estarrecido com o discurso do advogado, parecia humano demais para a profissão que exercia. Alberto sempre imaginara os advogados como homens sem escrúpulos, sedentos de fazer dinheiro, mesmo que isso implicasse defender algum criminoso.
- Sim, mas estão todos mais preocupado em fazer leis para impedir que se fume em cafés, enquanto estes casos precisam de especial atenção... enfim, é o Admiravel Mundo Moderno em que vivemos...
- É.

Olharam-se momentaneamente. Alberto sabia que tinha ali um aliado e Pierre sentiu necessidade em ajudar aquele homem e em particular aquela criança.... a adopção era ainda um mundo que necessitava de ser explorado e todos os preconceitos neste âmbito deviam de ser quebrados e em especial os pudicos e opositores da adopção deviam de ser conscientizados de que nem sempre a família biológica era o melhor para a criança e do que dependesse dele, iria ajudar nessa luta.

- Haveremos de conseguir tocar no coração dos juízes... por debaixo daquela batina negra deve haver algum sentimento... recorreremos as vezes que forem necessárias... até iremos a tribunal de júri se for necessário... há casos em que o senso comum é mais correcto que a própria justiça... e pelo que imagino os progenitores de certeza que não vão querer ir mais longe... não terão dinheiro suficiente para prosseguir com esta loucura, mas certamente que tencionam viver do abono que o Estado dá às crianças. Lastimável!
- Nem sei como lhe agradecer, senhor. Sinto-me mais confiante agora que falei consigo.
- Limite-se a pagar os honorários e prepare-se para uma luta, meu amigo, muito desgastante.

Alberto sorriu novamente. Despediu-se do advogado com um prologando aperto de mãos, não tinha palavras para dizer o quanto lhe estava grato... era de pessoas como ele que necessitava.

Deixou um cheque na mesa da secretária e mandou uma mensagem à esposa, avisando-a que iriam jantar fora com o pequeno Tomás, e quando saiu do edíficio e começou a caminhar até junto do seu carro, nem fez caso do frio invernal que levava as pessoas a aconchegaram as gabardinas junto a sim, do seu peito emanava um calor que o tornava alheio à temperatura... era o calor da esperança....

domingo, 20 de janeiro de 2008

Querido Amigo Imaginário (Hoje acordei invulgarmente louca)

(Nota: Finalmente voltei para expor toda a minha diarreia mental. Pensamentos têm vindo a assaltar o meu cérebro e a minha caneta não pára de ejacular todo um leque diversificado de texos que eu tenciono vir aqui partilhar com os prezados leitores. Porém, dando uso à citação de J. K. Rowling [in Harry Potter e os Talismãs da Morte] «o último inimigo que será vencido é a morte», pois eu digo que o meu «último inimigo» é sem dúvida a preguiça!)

Não é de hoje que tenho magicado escrever sobre este assunto. Frases soltas para este texto têm perambulado pelo meu cérebro qual crianças irrequietas e, acreditem, ter algo a "entupir" as nossas celulazinhas cincezentas não é particularmente agradável (especialmente quando tentamos sonhar com o Johnny Deep a contracenar em trajes menores). Acho que já estava na altura de louvar aquelas criaturazecas que só eu vejo e que povoam o meu mundozinho!

Quando olho para trás vejo uma criancinha sossegada que passava horas a fio brincando sozinha com os seus brinquedinhos... ao olhar das pessoas comuns era até uma cena agradável de se ver. Contudo, ela não brincava sozinha. Ela tinha amigos que mais ninguém via (não, ela não via pessoas mortas como o menino do "Sexto Sentido" do Spielberg). Ela tinha amigos imaginários, algo que, na idade dela, é visto pelo senso comum como verdadeiramente normal e que se enquadra na categoria do «ai que fofinho!».

Mas quando crescemos vamos nos apercebendo que temos de abandonar uma data de comportamentos que tinhamos na infância (isto senão queremos ter uma data de pessoas a olhar para nós com o sobrolho arqueado). Porém, eu não abandonei! Os meus amigos imaginários continuam sempre comigo. Na infância há sempre aquele conceito de inocência, de que as criancinhas não têm maldade nenhuma e que adoram brincar ao "faz de conta" e por isso é que criam amigos imaginários... e no caso dos adolescentes?! Bem, aí o cenário torna-se consideravelmente mais negro. A sociedade começa logo a apregoar a nossa insanidade. Advogam que os amigos imaginários são fruto da "deturpação mental" de pessoas que se sentem sozinhas, que não têm ninguém em quem confiar e que devemos de procurar imediatamente a ajuda de um psicólogo/psiquiatra/psicalinista. É incrível que em todas as pesquisas que tenho realizado neste âmbito dizem exactamente o mesmo, o que me leva a pensar que talvez o mal seja mesmo comigo.

Confesso que já fui ao psicólogo. Pensava eu encontrar lá um senhor com as capacidades mentais do grande Freud e uma barba hisurta e afável à là Karl Marx (e um ligeiro toque de insanidade avec Monsieur Salvador Dali), no entanto não deixei de sentir uma certa desilusão quando uma senhora de razoavelmente trinta anos sorriu para mim e me despachou em três tempos (provavelmente porque não estava para aturar uma desvairada como eu).

É que eu também nunca senti necessidade de me livrar deles (digo deles porque eles são muitos mesmo). Acredito que não deva ser nada animador para a minha mãe entrar no quarto e ver-me a falar sozinha, ou quando converso com os meus amigos e menciono um ou outro amigo imaginário como se eles existissem mesmo, mas para mim eles até são um modo de evasão. Gosto de conversar com eles e de ouvir aquilo que eles têm para me dizer, é que eles são quase como a voz que provêm do meu inconsciente. Eu fico magicando interiormente com eles conversas, cenas passam pela minha cabeça como um filme e qual o resultado? Eu pego na caneta e vou escrever tudo o que eles me dizem, tudo o que eles me deixam ver. Eles são um pedaço de mim... ao longo da minha adolescência fui construindo a minha identidade e cada um deles representa um pouco dessas personalidades... é quase como o Fernando Pessoa com os seus heterónimos. E sim, também são um modo de me sentir sozinha, é incrível que eles até me dão conselhos que na praxis funciona muito bem. É quase como ter uma data de cérebro a morar cá dentro! A psicóloga até disse para eu me livrar deles... casá-los... mas não resultaria. Ninguém nunca iria perceber o quão importante eles são para mim! Frutos do meu subconsciente... e eu devo dizer... que eu adoro o meu subconsciente! Porque todos eles, que mais tarde viraram personagens dos meus textos, me marcaram com a sua companhia e ajudaram-me a crescer e a encarar as adversidades do Admirável Mundo Moderno. Um grande Ave, para todos eles.

Aos leitores que provavelmente irão se afastar de mim "acidentalmente de proposito" apenas digo: um toque insanidade dá o seu charme, e qual é a piada de se ser normal? É que pelo menos no meu mundinho eu sou o "centro" e não tenho de viver à sombra de ninguém.... ser o porta-chaves! Ter que ouvir as piadas que eu contei à dez segundos atrás a serem proferidas por uma alma prevertida que a ouviu a contou como sendo dela enquanto os ouvintes riem a bandeiras despregas e os olhares incrédulos ficam para mim. Bah, eu e o meu subconsciente estamos bem um para o outro. Talvez numa próxima época balnear a gente abra para os turistas visitarem este mundinho surreal.

Ps: Amanhã, a pedido de muitas famílias (rrsrsrs) será postado o último acto da Tragédia!

domingo, 13 de janeiro de 2008

E grito...

(Nota: O terceiro e último acto está em construção =D Como esta é a última semana antes do mais que bem-vindo mês de férias que vou ter, os professores estão a redobrar a sua dose habitual de tortura, pelo que sobra muito pouco tempo para escrever [afinal também precisamos de um pouco de vida social]. Deixo simplesmente aqui uma música que melhor reflecte aqueles momentos em que precisamos de nos encontrar, aqueles momentos em que só sentimos vontade de gritar na esperança que alguém nos oiça... quem nunca passou por um momento assim que atire a primeira pedra.)

Pluma - E Grito
Sinto o toque do chão

mergulho na areia fria
Vejo ao longe o céu urgente
está a gritar
Perco as horas
sinto as ondas pulsar de vida
suspeito que é este o meu lugar

(Refrão)

Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma
Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma...
E grito

Sinto sangue fervente

sinto a alma vazia
Respiro fundo e sinto o sal secar-me a pele
É um sopro dormente, quebra a nostalgia
É um mar de riso e choro
quadro de papel

Rasgo a pele

quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma
Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma

Quero fugir

Quero me libertar
Quero sair
Procuro resgatar
O que resta de mim
Quero fugir
Quero me libertar
Quero sair
Procuro resgatar
O que resta de mim

E grito

E grito
E grito
Eu grito

sábado, 12 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

II Acto – Debate sobre as famílias modernas

(Nota: a ideia para este texto surgiu de uma conversa com o meu amigo Jadson. Dedico o post de hoje ao professor Luís (de História) e à professora Maria (de alemão), sem dúvida os dois professores que mais me marcaram pela positiva ao longo deste incasável percurso escolar)

Ingrid Thorsten achava-se naquele momento na sala de professores debruçada sobre a correcção dos exames que havia distribuído naquela manhã. Estava pasmada por haver tantos erros… decididamente aqueles alunos não eram nada dados a aprender a beleza da língua alemã. Era descendente de imigrantes alemães, judeus, que, aquando da Segunda Guerra Mundial, haviam fugido das perseguições hitlerianas. Era uma mulher de mente aberta, já na casa dos quarenta, era uma excêntrica por natureza, amante da ideologia hippie e todo o seu guarda-roupa parecia remontar à gloriosa década de sessenta. Não era casada e nem tinha filhos, apenas vivia com um alemão, Tobias. A grande maioria dos professores costumava olhar para ela com um ar incrédulo, principalmente quando ela falava da grandeza da Alemanha, para todos eles a Alemanha era uma terra de racistas. Pobrezinhos, pensava Ingrid de si para consigo, a maior parte deles nem tinha viajado e falava fazendo eco de coisas que ouviam dizer. «Com professores assim não admira que os jovens sejam como são»

A porta da sala abriu-se (Ingrid optara pela sala de não fumadores, primeiramente porque detestava aquele cheiro horrível a tabaco e o fumo causava-lhe comichão nos olhos e como aquela sala de fumadores era quase sempre tão barulhenta, ela decidira ficar pela sala de não fumadores, bem mais sossega e propícia para a correcção de testes) e Bernardo Campos, o professor de Economia, entrou.

Era um homem gordo, com uma cabeça redonda que assentava directamente em cima dos ombros, pelo que o pescoço se encontrava escondido pelos seus múltiplos queixos, o seu cabelo grisalho apresentava-se uniformemente penteado e o professor usava sempre uns suspensórios para que as suas calças ficassem seguras sobre a sua considerável barriga.

- Ora viva, Ingrid, por aqui? – saudou Bernardo.

- Sim, tenho que corrigir estes testes – elucidou Ingrid que não se dera ao trabalho de erguer a cabeça para ver quem era. – Campos, espero bem que não venhas fumar o teu charuto para aqui.

- Não, não. Só quero um pouco de sossego, o Carlos pediu-me para escrever uns quantos textos para o jornal da escola e sabes como é, naquele barulho todo é difícil.

- O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Gosto particularmente desta citação do Huxley – disse Ingrid com a sua atenção ainda virada para as provas.

- Ah sim!

Campos abanou a cabeça. Decididamente ela era louca. Sentou-se e puxou de um pequenino bloco de notas, começando a escrever.

Uns dez minutos depois a porta voltou a abrir-se e Catarina, a tia de Joana entrou.

- Ah, Cat, ainda bem que chegaste – Ingrid e Catarina dava-se realmente muito bem. – Já estou farta de dar negativas e uma pausa entre os «insuficientes» e os «péssimos» não me ia fazer nada mal.

Catarina riu, adorava a jovialidade de Ingrid.

- Que tal um chá? – sugeriu Catarina.

- Cat, meine Liebe, eu sou alemã, não inglesa. Mas aceito um chocolate quente com muito gosto.

- Ah, só tu Ingrid. Como vai o casamento?

As professoras costumavam brincar uma com a outra devido ao facto de ambas não se terem casado e nem terem filhos.

- Oh, wunderbar. Uma eterna lua-de-mel! E os teus filhos, Cat?

- São uns santos de altar, não dão trabalho nenhum.

E riam as duas em uníssono.

- Vocês devem ser as únicas pessoas que se vangloriam de não ter casado e de não terem tido filhos – Campos disse. Ingrid sobressaltou-se, esquecera-se completamente que ele estava na sala.

- Eu tenho muito medo da solidão, Campos – disse Ingrid. – Por isso é que não me caso. Sou muito feliz e não precisei de me casar. Essa velha opinião de que uma mulher só é feliz quando se casa já tem as barbas tão compridas como as do Pai Natal.

- Sim, mas e os filhos? – Campos parecia chocado. – Os filhos dão verdadeiro sentido à vida!

- Isso depende de pessoa para pessoa – disse Catarina. – Conheço pessoas que teriam dado tudo para não terem os filhos que têm….

- Vocês não sentem necessidade de serem amadas? Os filhos são quem mais nos amam nesta vida!!

- Se me disseres que os pais amam os filhos mais do que tudo nesta vida sou capaz de acreditar – retaliou Catarina. – Alguns filhos são os primeiros a culpar os pais por tudo de mal que lhes aconteceu na vida. Se isto é amor, Campos…

- Realmente não vos compreendo. Que sentido pode ter a vida de alguém que não tem filhos, não é casado? Vivem em função de quem? De que vos valeu a passagem pela terra? Que fizeram de bom?

As duas mulheres entreolharam-se. Que mente tão fechada!

- Campos, tu dizes que casar, chegar a casa depois do trabalho e aturar os teus filhos é fazer algo de bom por alguém? – disse Catarina. – É a mais pura das normalidades e eu tenho pavor a tudo o que seja normal. Diz-me lá, para além dos teus rebentos, quem mais se vai lembrar de ti? Que contributo fizeste tu? Eu e a Ingrid, por exemplo, costumamos fazer coisas pela comunidade e contribuímos para o sorriso de crianças desfavorecidas. Sim, eu sei que há muitas pessoas casadas que o fazem, mas não me venhas dizer que as pessoas que não tem filhos não têm sentido nenhum, porque é sem dúvida a maior baboseira que eu ouvi, e olha que eu sou professora. Não menosprezo quem tenha filhos e nem detesto crianças, simplesmente foi a opção que eu fiz para a minha vida!

Campos murmurou algo que não foi perceptível ao ouvido das professoras.

- Campos, não percas o teu tempo a tentar compreender a vida dos outros – aconselhou Ingrid. – Creio que a tua vida de casado e os teus filhos é que precisam que tu as compreendas.

E antes que Campos pudesse abrir a boca para ripostar, a porta abriu-se novamente: o professor Carlos, que leccionava História, acabava de entrar, trazendo debaixo do braço um jornal. Sorriu ao ver Ingrid e Catarina. De todos os professores daquela escola aquelas duas eram sem dúvida com quem melhor Carlos se relacionava. É que embora ele tivesse casado há pouco tempo, também ele não tinha filhos.

- Ah, Carlos, sê bem-vindo – saudou pomposamente Catarina. – Estávamos aqui a confessar ao Campos o quão vazia é a nossa vida sem filhos. E que bons ventos te trazem?

- Bah, estou farto daquela ala – explicou Carlos, puxando uma cadeira e sentando-se. – Estão p’ra ali a discutir o facto daquele aluno, o tal Paulo, viver com o pai que é gay e vive com outro homem.

- Pessoas inteligentes discutem sobre ideias, pessoas normais discutem sobre coisas e pessoas fúteis discutem sobre pessoas – filosofou sabiamente Ingrid. – Já sabes como é que as coisas funcionam por aqui, meine Freund.

- Eu já sou contra a homossexualidade, quanto mais ao facto de uma criança viver com dois gays – opinou Campos, como se alguém o tivesse consultado.

Os três professores entreolharam-se, mas foi Carlos quem falou num tom de voz calmo.

- Ai sim Campos, então porquê?
- Deus fez o homem e a mulher – principiou Campos, mas os três professores soltaram um sono “Aaaahhh”, as suas dúvidas haviam sido esclarecidas -… para eles viverem juntos.

- Deus fez o homem e a mulher para estes serem felizes – contrapôs Carlos. – Cada um tem a sua noção de felicidade, não é. Para algumas pessoas a felicidade é ter saúde, para outras é ter dinheiro. Algumas acham que é ter uma família numerosa e outras que é viajar pelo mundo e não ter filhos – trocou um olhar significativo com as professoras. – E para algumas pessoas essa felicidade pode ser conviver com alguém do mesmo sexo…

- Quem somos nós para julgar quem quer que seja? – concluiu por fim Ingrid.
- E quem pode julgar? – perguntou Campos, os seus ânimos começavam a exaltar-se.
- E p’ra quê julgar? – contrapôs Catarina.
- Sim, e não me venhas com religião – pediu Carlos. – Também cresci numa aldeia no meio do nada e ia todos os domingos à missa e nem por isso tenho uma visão retrógrada do assunto, Campos. Sou uma pessoa religiosa e tenho muitos amigos homossexuais, pessoas maravilhosas, eu devo dizer. Isso que estás p’ra aí a dizer é puro fundamentalismo.

- Eu não sou contra os homossexuais – disse Campos. – Sou contra a homossexualidade, o acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo.

- Campos, Campos – disse Catarina em tom pesaroso – conheces o velho provérbio de que quem cospe para cima acaba sempre por se molhar? Tu tens filhos! Que ias fazer se eles te dissessem que eram homossexuais?

- Eu ia querer a felicidade deles, mas não ia concordar com a opção.

- Porquê? – perguntaram os três ao mesmo tempo. Era quase como estar a bater com a cabeça na parede.

- Eu não sou contra os homossexuais! Sou contra a homossexualidade! O acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo. Eu às vezes ponho-me a pensar como estariam as coisas se a homossexualidade fosse normal há uma data de anos atrás, como estaria a humanidade.

- Ela sempre existiu – explicou Carlos. – E se bem sei, se ela fosse vista como “normal” talvez as pessoas tivessem uma mente mais aberta. Sabias que às vezes há pessoas que nasceram com o corpo errado, ou com mais hormonas masculinas do que femininas e vice-versa? Vão fazer o quê? Trancar-se em casa? Todos temos direito ao amor.

- QUÊ?! Que disparates são esses de hormonas femininos?! Homossexualidade é opção, meu amigo. Não têm nada a ver com formação humana! Opção, opção, opção – disse isto com tanto dogmatismo que Carlos franziu as sobrancelhas de admiração.

- Ai sim, foi a opção de um homem que de repente se cansou de comer mulheres? – troçou Ingrid, já estava a ficar irritada com o comportamento de Campos.

- Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto – justificou-se Campos. – Mas eu tenho os meus princípios e sei muito bem o que a homossexualidade na vida de uma pessoa.
- E o que pode provocar? – quis saber Catarina.
- A extinção humana!!

Os três professores entreolharam-se. Aquilo haveria sido, sem qualquer margem para dúvida, o maior disparate que Campos alguma vez proferira.

- Mein Gött! – exclamou Ingrid. – O Hitler sempre tem mais seguidores do que eu pensava.

- E vocês ainda se metem para aí a falar de homossexuais a adoptarem crianças – Campos continuou, ignorando o espanto de Ingrid. – Uma criança precisa é de um pai e de uma mãe, não de dois homens que se cansaram de comer mulheres – sorriu cinicamente para Ingrid.

- Bem, estás mas é a comparar a homossexualidade com a lepra, meu caro – disse Carlos. – A homossexualidade não é uma doença e nem é contagiosa. Eu não preciso de ser pai para saber que nem sempre os filhos imitam os pais. Tu podes passar a vida toda a dizer aos teus filhos para não fumarem e do nada eles agarram num cigarro e começam a fumar. Se fosse por seguir os exemplos dos pais então não havia homossexuais, já que no teu ponto de vista é tudo uma questão de imitação. Por favor Campos basta ligares a televisão e veres documentários sobre crianças que vivem com gays e lésbicas. Elas dizem que são felizes e têm muitas probabilidades de se tornarem pessoas com mente aberta. Mas no teu ponto de vista temos é que deixar os homossexuais em casa trancados e crianças a precisar de amor em instituições.

- Chega, Carlos – disse Campos. – Estás coma visão bem ingénua sobre o assunto – Catarina e Ingrid soltaram sonoras gargalhada.

- Abre a tua mente, Campos!!!

- Pfff, mente mais aberta que a minha não vais encontrar! Vocês é que ainda não viram o quão complexo este assunto é e de certeza que estão a apresentar esses argumentos todos baseados na opinião de pessoas que não têm opinião nenhuma sobre o assunto. Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto…

- Eu normalmente costumo mostrar respeito por aquilo que não conheço, Campos – disse Carlos já irritado.

- Como é que eu posso respeitar um homem que… bah! Até partidos políticos eles querem fazer! É tudo merchandising. Vocês nunca iriam perceber o quanto isto iria alterar as concepções de casamento, adopção, família…

Aquilo pareceu ser a gota de água que fez transbordar o copo. Os três professores já estavam saturados de tentar conversar com alguém que não mostrava qualquer abertura face ao tema e era uma pena que se tratasse de um professor, só iria ajudar propagandear ainda mais a versão e a discriminação a homossexuais.

- É normal, é normal! Não me venham com história que não é!

- Sabes que mais, Campos, tens razão – acabou por concordar Carlos. – Pega neles e enfia-os a todos numa câmara de gás.

E abriu o jornal, começando a ler as notícias. Não estava para continuar a discutir com alguém tão desprovido de inteligência. Campos tinha razão, a sua mente era tão aberta que pelos vistos o seu cérebro devia de ter caído!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

I Acto – Famílias Monoparentais

O sol reluzia nos óculos de Ivan enquanto ele, sentado descontraidamente no banco do jardim, observava o seu amigo Gustavo a andar de skate. As aulas já haviam terminado e os jovens aproveitavam aquele momento de lazer para confraternizar. Eram grandes amigos, desde o tempo de infância, e agora que estavam na adolescência, esta amizade revelara-se de uma importância acrescida. Estavam quase sempre juntos e faziam sempre algo na companhia do outro, desde ir ao cinema, ao salão de jogos a concertos e até dormiam na casa um do outro. No entanto, Ivan sempre preferia dormir na casa de Gustavo por gostar muito da família dele. Era para Ivan totalmente diferente das famílias que ele conhecia. Todas tinham quase sempre somente um pai ou uma mãe, ou em alguns casos já havia um padrasto ou uma madrasta e filhos de outros casamentos. O próprio Ivan conhecia essa realidade, as sucessivas decepções amorosas que a sua mãe tivera enquanto jovem haviam-na levado a escolher ser mãe solteira, pelo que ela recorrera à inseminação artificial. Era algo que havia feito imensa confusão na cabeça de Ivan quando, ao fazer onze anos, a mãe lhe explicou porque motivo ele não tinha pai. Ivan não era um jovem revoltado, antes pelo contrário. Tinha uma vida confortável e a sua mãe tinha um emprego estável, tinha bons amigos, no entanto faltava-lhe uma figura masculina. O seu avô morrera cedo e ele não tinha tios, da sua família somente lhe restavam a sua mãe e a sua avó. Já a família do Gustavo era tão grande, tantos tios, primos, e Gustavo tinha irmãos, e o mais importante, tinha um pai, Ivan não sabia o que era isso. Estava sempre tão rodeado de mulheres que às vezes as dúvidas explodiam-lhe na cabeça como fogo de artificio, no entanto não tinha com quem falar sobre isso… Daria tudo o que tinha para conhecer o pai.

Naquela tarde haviam falado de quase tudo: desporto, as aulas, música, filmes, garotas e até haviam feito para planos para o fim-de-semana. E agora que o assunto parecia estar esgotado, permaneciam os dois em silêncio, aguardando por Joana e a sua amiga Rebeca, que estavam prestes a sair da aula de teatro.

- Então, Gus, como ‘tão as cenas com a Joana? – indagou Ivan enquanto observava o amigo. Era um rapaz alto, de cara redonda e cabelo preto encaracolado.

Gustavo desequilibrou-se ligeiramente no skate.

- ‘Tão normais, como é que querias que tivessem? Somos só amigos.
- Infelizmente, né? – Ivan riu-se, uma vez que o amigo começava a ficar ligeiramente envergonhado.

- Cala-te, ela é mais velha que eu. Não ia querer nada comigo!

- Ela vêm aí, porquê que não lhe perguntas?

Evidentemente Joana acabara de chegar, com seu cabelo artisticamente desgrenhado. Trazia consigo a sua amiga Rebeca, de nacionalidade inglesa. Rebeca, ou Becky, como Joana lhe chamava, era uma menina gorducha com um comprido cabelo ruivo e sardas na cara. Joana, habitualmente, a chamava, com carinho, de Bolinha.

- Então, rapazes, de que falavam? – perguntou Joana, saudando-os com um largo sorriso. Estava muito mais feliz desde que recebera aqueles conselhos da tia Catarina.

- Da vida amorosa do Gustavo – esclareceu Ivan com um sorriso maroto, adiantando-se ao amigo que ia dizer que não estava a conversar sobre nada.

Joana corou ligeiramente. Somente Receba sabia que ela gostava do Gustavo. Ela passava muito tempo a conversar com o amigo, no entanto temia que ele descobrisse e se afastasse dela… não queria perder aquela amizade.

- É qual é o balanço que fazes dela? – perguntou Joana, o seu sorriso desvanecera-se consideravelmente. Será que o Gustavo gostava de alguém?

- Ele chegou a conclusão que a vida amorosa dele é quase tão vazia como a minha carteira – disse Ivan e as meninas começaram a rir. Gustavo fez-lhe um gesto obsceno com os dedos. Interiormente Joana sentiu-se aliviada.

- Que tal correu o ensaio? – perguntou Gustavo, para desviar as atenções do tema relativo à sua vida amorosa.

- Ah, normal – disse Rebeca com a habitual acentuação inglesa. – O Ricardo, p’ra variar, atrapalhou as cenas. Ele nunca estuda os textos em casa e depois atrapalha-se nas falas.

- Ya – acabou por dizer Gustavo. Estava à espera que fosse Joana a responder. – Já acabaram o texto que a stôra de Geografia pediu?

- “Explique porque motivo as taxas de divórcios têm vindo a crescer em detrimento das taxas de casamentos” – Joana fez uma perfeita imitação do tom de voz afectado da professora de Geografia. Os jovens começaram a rir. – Que mulher mais chata! Sei lá porquê que as pessoas se divorciam! Cada um tem o seu motivo.

- Olha, os meus divorciaram-se por falta de tempo – disse Rebeca. – O meu pai é médico e ‘tá quase sempre no Hospital. A minha mãe ficou tão farta que o mandou passear.

- Os teus pais são divorciados, Becky? – quis saber Gustavo.

- Ya. Mas dão-se muito bem, acho que melhor do que quando ‘tavam casados. Costumam ir jantar todos os sábados p’ra falarem sobre mim. Acho que o meu padrasto não gosta muito da ideia, mas ele que se lixe. Apesar de ser um bocado totó a minha mãe gosta dele, e eu também, costuma levar-nos a passear, mais do que o meu pai.

- E os teus velhos voltaram-se a casar?

- Sim, o meu pai já tinha uma filha do primeiro casamento dele, mas ‘tá em Bristol, com a mãe. Agora que ele se casou de novo, tem outra filha também, a Amanda. E a minha mãe tem um filho com o meu padrasto, o Andrew. É fixe, porque tenho duas casas e quando me chateio com a minha mãe posso ir p’ra casa do pai e ao contrário também. Assim nunca me farto!

- Sim, mas mesmo assim, tens outras pessoas a mandarem em ti. Eu não era capaz. Se às vezes nem obedeço aos meus pais, quanto mais aos outros.

- Oh, mas eles nem mandam muito em mim – esclareceu Rebeca. – O meu padrasto quase que nem se mete. E a minha madrasta quer-se meter mas eu corto-lhe logo as asinhas. Mando-a à merda, se for preciso. O meu pai fica sempre do meu lado, sou a menina dos olhos dele. Mas de resto a minha madrasta não faz mais nada, no fundo até é boa pessoa e o meu pai gosta dela. Acho que à terceira ele acertou! – e esboçou um largo sorriso.

- Eu não tenho padrasto – disse Joana. – Mas a minha madrasta é uma cabra, não gosto mesmo nada da mulher. E o meu pai, vocês já sabem como é – Joana fez uma curta pausa. Era tudo relativamente recente e no seu inconsciente ouviu a voz da tia Catarina, dando-lhe forças para continuar a falar. – Mas pelo menos também não se intromete e a minha mãe nunca o consulta p’ra tomar as decisões. Eles separam-se porque o meu pai tinha um caso com uma lá do trabalho e era muito ciumento… até compreendo o lado da minha mãe.

- Isso é muito porco – disse Gustavo lançando um olhar reconfortante à amiga. – Fazem as merdas e os filhos é que sofrem sempre com essas cenas das separações. Tenho uns tios que quando se separaram ‘tavam sempre a discutir sobre quem é que ia ficar com os meus primos. Os miúdos passaram uns tempos lá em casa p’ra não verem as cenas… eram mesmo de baixo nível. Estas coisas são sempre muito estranhas, quando ‘tavam casados eram «queridinho» «amorzinho» e agora quase que se matam um ao outro.

- Oh, se até nós nos fartamos às vezes, imagina os adultos. A vida deles é uma seca! Trabalhar, trabalhar, trabalhar e tomar conta dos putos – disse Joana. – Namorar já é complicado, imagina então viver na mesma casa e isso tudo.

- Mas os meus pais dão-se super bem – relembrou Gustavo. – Ás vezes até parece que têm a nossa idade… e as ás vezes também se chateiam e o meu pai vai dormir pró sofá da sala, mas no fim fazem sempre as pazes.

- Bem, nas novelas dizem que temos uma alma gémea, não é – explicou Rebeca em tom de brincadeira. – Com os teus pais foi fácil, encontram-se logo. A alma gémea da minha mãe pelos vistos é o meu padrasto… a do meu pai é a chata da Bianca.

- Sim, mas quem paga por esse procura são os filhos – voltou a dizer Gustavo que ainda não compreendia muito bem aquela situação. – Sei lá, p’ra mim isso é estranho.

- Bah, nem é muito – disse Joana. – A vida é feita de altos e baixos, e sempre se aprende alguma coisa. Acreditem, isto é tão normal que nem vale a pena fazer um bicho-de-sete-cabeças. É muito melhor quando os pais tão separados do que ‘tarmos a aturar as discussões deles.

Acabaram todos por chegar a conclusão de que Joana tinha razão e Gustavo não conseguiu deixar de sentir a sua admiração por aquela moça a crescer ainda mais. No entanto Ivan era o único que permanecia calado, facto que os outros notaram.

- E tu, Ivan – disse Rebeca. – Vives com os teus pais?

Ivan fitava os seus ténis, estava ligeiramente abatido.

- Nunca conheci o meu pai – disse por fim. Rebeca e Joana entreolharam-se, Gustavo nada fez, já conhecia a história.

- Porquê? Ele morreu?

- Nah, a minha mãe é que quis ser mãe solteira. Fez uma cena qualquer super estranha e nasci eu.
Disse aquilo com tanta normalidade que os jovens ficaram chocados. Já haviam estudado nas aulas de Ciências que era possível engravidar sem qualquer relação sexual, bastava somente recorrer à inseminação artificial, mas eles achavam aquilo tão surreal e digno de um filme de ficção científica que sentiram-se escandalizados por saber que tinham um caso assim tão perto.

- Bem… - Joana não sabia o que dizer – mas vê o lado positivo, tens a tua mãe. Tipo, eu vivo só com a minha e adoro. Ela dá-me conselhos, eu dou conselhos a ela. Ela é super liberal, falamos de tudo mesmo.

- Sim, ma é mais fácil para uma mulher ser mãe solteira quando tem uma filha do que quando tem um filho – opinou Ivan. – Agora uma mãe solteira com filho é mau é pró filho.

- Sim, mas nós mulheres também sentimos falta de um pai – contrapôs Joana. – Por exemplo eu, nunca tive uma figura masculina… e eu antes pensava que se tivesse uma figura masculina ia aprender a ser mais confiante em mim mesma. Sempre achava que não tinha muita sorte com os rapazes por causa disso – olhou para Rebeca e para Gustavo – vocês sabem como é que foi o meu namoro com o Victor. Eu pensava «como é que o Victor podia gostar de mim se nem o meu próprio pai gosta».

- Nah, mas isso não foi culpa tua ou da falta do teu pai – disse Gustavo. – Era mesmo o Victor que era estúpido.

- Pfff – fez Ivan indiferente ao que Joana dissera. – Se fosses um moço é que não ias ter confiança nenhuma. Vê tipo, nos bairros sociais, os miúdos acabam por ir pró crime porque faltava lá em casa um pai. Quem melhor para acalmar um homem do que outro homem?

- Por acaso é verdade – concordou Gustavo. – Tipo a minha mãe não consegue por limites em mim. Eu faço asneiras, revolto-me, parto as coisas, até me zango com ela. Mas com o meu pai a história já é outra…

- Tu fazes isso com a tua mãe – interrompeu Joana, escandalizada.

- Somos pessoas diferentes.

- Sim, mas também é mau da tua parte – repreendeu Joana e Gustavo deu por ele a corar. – Eu também sou diferente da minha mãe, mas sempre obedeço ela. Não tenho mais ninguém!

- Ya – foi a vez de Ivan falar. – Mas se quiseres aprender a andar em saltos altos tens lá a tua mãe. Quando querias aprender a usar sutiãs, tinhas lá a tua mãe. Quando queres usar maquilhagem também tens a tua mãe. Agora um homem?! Como é que uma mãe vai ensinar um filho a jogar à bola? A andar de bicicleta? É complicado, pessoal.

Ficaram um pouco em silêncio.

- Lembras-te quando disseste que também querias ser mãe solteira, Jo? – disse Gustavo. Lembrava-se de uma vez, enquanto falava no Messenger com a Joana, de ela, num ataque de raiva por o pai não se preocupar com ela, ter dito que queria ser mãe solteira. – Eu lembrei-me do caso do Ivan e digo-te… não faças isso… só se não puderes mesmo evitar…

- É verdade – continuou Ivan. – Mulher e mulher até funciona… agora mulher e homem é p’ra esquecer. Como é que eu falo sobre assuntos sexuais com a minha mãe? Quem é que me vai levar aos jogos de futebol? Acho que a minha mãe não pensou nisto quando me quis ter.

- Essa história da tua mãe é um pouco marada – opinou Rebeca. – Ela deve ter tido um desgosto mesmo grande p’ra querer ter sido mãe solteira…

- Sim, mas os desgostos ultrapassam-se, não é – relembrou Joana. – Afinal as desilusões não matam, ensinam a viver.

- E a tua mãe nunca mais arranjou namorado? – perguntou Rebeca, curiosa.

- P’ra quê? – Ivan sobressaltou-se. – Ela não precisa! Eu sei tomar conta dela, ok!

- Calma, meu – acalmou Gustavo. – Como ‘tavas a dizer que precisavas de um homem lá em casa…

- Sim, mas era o meu pai, não um homem qualquer… o mal agora também já ‘tá feito, não é? Já tenho quinze anos!

Joana sentiu que o Ivan estava era a precisar de uma boa conversa com a tia Catarina para esclarecer as dúvidas que lhe consumiam.

- Os filhos têm que ter mãe e pai - disse Ivan. – Tu tens um bom exemplo feminino em casa, Joana. A tua mãe é batalhadora. A Becky e o Gus também tem bons exemplos. Agora eu! Gosto muito da minha mãe, mas sei lá… esta cena toda é super estranha.

E Gustavo pensou para si mesmo que de facto era tudo muito estranho. A mãe de Ivan era uma mulher estranha. Gostava muito do filho, era verdade, mas era uma mulher extremamente severa, raramente ria e não era muito dada a conversas. E isso notava-se na maneira de ser do próprio Ivan. Ele era um rapaz muito inibido e retraído, às vezes Gustavo tinha que puxar por ele para saber o que ele tinha, parecia que toda aquela atmosfera negativa que consumia a mãe do Ivan havia passado para o filho e então Gustavo concluiu que… estejam casados ou divorciados, todos os filhos tinham mesmo de ter um pai e uma mãe…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Alcatraz

(Nota 1: Peço desculpa aos meus leitores pela considerável perda de qualidade que os meus posts têm vindo a sofrer [desconheço também se alguma vez tiveram alguma qualidade, mas enfim…]. Com o teste de psicologia à porta toda a minha atenção e todo o meu tempo têm sido direccionados neste sentido. Hoje optei por colocar aqui a letra de uma música, é que com os nervos em franja para a prova de amanhã não consigo transpor para o papel quaisqueres ideias que não estejam relacionadas com formações de impressões, atribuções causais e todo esse palavreado da Psicologia Social. Tenho que aprender com a minha mãe a formula perfeita para fazer várias coisas ao mesmo tempo!)

(Nota 2: Lembro-me muito bem da minha primeira reacção quando comecei a escutar Facção Central. A principio até julguei que eles procuravam dar a pobreza como desculpa para a brutalidade dos crimes cometidos pelos bandidos, mas pouco a pouco me fui apercebendo que o que eles queriam na verdade era alertar para a raiz do problema e a sua possível solução. Apesar das suas letras serem um pouco violentas é através delas que eles reportam a violência vivida nas favelas de São Paulo. Servindo-se de hipérboles, isto é, exagerando um pouco, eles narram a realidade do Brasil. Esta música debruça-se sobre os problemas que um garoto rico e um garoto pobre enfrentam num país de extremos)

(Nota 3: Junto acrescento a música, é só carregar no play e apreciar. Obs: o género musical é o RAP)


Da cobertura eu observo os moleques lá embaixo
chinelo no cotovelo jogando bola descalços
Felizes sem muro com caco de vidro
Sem vigia com Walkie Talkie, camera de vídeo
Indo pra aula sonho atrás da blindagem do Nissan
com pipa, pião, carrinho de rolimã
Tenho 12 até hoje ninguém reclamou em casa
que na minha cobrança de falta eu quebrei sua vidraça
Não tem graça no condomínio minha bike nova
me sinto igual a um Hamster correndo na gaiola
Meu pai nunca me buscou depois da aula
pra eu ver ele só marcando horário com a secretaria
Minha mãe só se preocupa com plástica, jóia
Alta costura, teatro, desfiles de moda
Pra eles foda-se o que o pobre ta comendo, bebendo
Aí eu termino de computador, escargot, só que preso
Não passo de mercadoria, produto pra sequestro
Meu chofer na Blitz falsa é projéctil no cérebro
Pra quem joga sozinho não tem cartucho legal
Sem Internet eu nem teria amigo virtual
FODA-SE o parque aquático, o toboagua
quero a bandeira do meu time, gritar gol na arquibancada
Daria meu kart, minha parte na herança
pra tá no bar do morro jogando fliperama

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(4x)

Daqui debaixo eu observo a cobertura de luxo
como seria abrir a geladeira e ter de tudo
Morar num Ap de 600 de área construída
fim de semana na fazenda, no haras da família
vou pra aula sonhando com um copo de leite
com as prateleiras da Ri-Happy, um ténis sem silver-tape
Ate hoje um frango assado foi meu melhor almoço
esmola do padeiro pra eu não olhar pro seu forno
não tem graça na favela rolê com a minha bike roubada
perto de cadáver, gambé dando cabada
Há, se eu esconder uma camera pra filmar
o que meu pai me bate, vira santa a babá
minha mãe só se preocupa com a escolha do vestido
tem que ser bem fudido pra vender doce no seu vidro
nasci pra ser cobaia, puta que pariu
pra testar com a 9,3-8 terno blindado de 9 mil
Igual ao cão que odeia o gato
gato que odeia o rato
por instinto quer o menino do condomínio enterrado
filho de egoista, que país é turista
praga ruim tem que cedo trombar pesticida
Tem foto em Orlando com Mickey abraçado
e eu pra andar num Vectra é só algemado
Daria até minha automática com dois pentes cheios
Pra nunca mais sonhar com o lanche na hora do recreio

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(4x)

O vinho do meu pai é 12 mil a garrafa
penso no numero de cesta básica o apetite vasa
prevejo que um dia vai ter bomba no motor
virou a chave no contato, adeus Doutor
Dono de loja, famosa, varias filiais
tipo que odeia pobre mas não seus Reais
tem como hobby humilhar a empregada domestica
também pegar o jato e pular de pára-quedas
O mundo é o corpo e ele é o tumor maligno
descende de quem roubou as terras dos índios
Eu nunca vou ter minha carta de Alforria
é que corpo em chamas não é problema da minha família
Meu sonho é ser astro de cinema
mas não ser o ator preto carregando bandeja
quero dar colectiva, ter minha cara fotografada
mas não pra explicar minha fuga cinematográfica
Harvard pra um pivete de patinete no pé
um do tambor pro de isipor vendendo picolé
Sem Game Boy, brinquedo da Tec Toy
no aniversario é só 2 Dolly e um bolo Seven Boys
eu sou a artista plástico pronto pra expor
seu retrato falado no museu da dor
Tem um muro de lágrima entre o bandido e o boy
do lado dourado cresce a vitima
no vermelho seu algoz

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(2x)

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(2x)

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(2x)

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(2x)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Emigração a quanto me obrigas...

Inicialmente tinha pensando em dedicar o post de hoje a outro tema, porém o Mundo Moderno é tão Admirável que nos dá a possibilidade de colher inspiração a partir do momento em que colocamos os pés fora de casa... e isso aconteceu-me hoje quando me encaminhava para o Terminal Rodoviário para apanhar um autocarro (ou ônibus se preferirem) para ir para a Faculdade.

Moro numa zona nos subúrbios da cidade de Albufeira que se intitula de Montechoro, contudo, nós residentes desta zona adoptamos um nome mais inovador, vanguardista e real: Brasilândia. Sim, Brasilândia! Isto porque a zona do Montechoro é habitada maioritariamente por famílias de nacionalidade brasileira, ficando os africanos com o segundo lugar, os ingleses e os imigrantes de leste rivalizam entre o terceiro lugar (mas aqui também existe um bairro onde moram muitos imigrantes de leste, pelo que chamamos a zona de União Soviética [é incrível como a imaginação dos adolescentes funciona])... e agora perguntam pelos portugueses, já que estamos em Portugal, convém que existam portugueses não é... bem, os portugueses são escassos aqui na nossa querida Brasilândia.

Eu recordo-me de que vim para Portugal numa altura em que os brasileiros eram como as notas de 500 euros, muito difíceis de encontrar, contudo, com as inúmeras vagas de emigração que têm assolado Portugal, começo a pensar que é mais fácil encontrar um brasileiro do que um português. O Montechoro, por exemplo, costumava ser um local de eleição pelos ingleses e alguns portugueses abastados que vinham de férias para a cidade, mas agora, com o elevado número de emigrantes que vivem nesta zona, alguns problemas começaram a surgir, como o da criminalidade e tudo mais e o preço das casas desceu consideravelmente e as imobiliárias chegam mesmo a queixar-se de não existir muitas pessoas (portugueses, claro) interessadas em comprar casa nesta zona, pois alegam que «o Montechoro é um lugar violento». Cá por mim nunca me aconteceu nada aqui na minha querida Brasilândia.

Confesso que sempre fui muito patriota e quando olho para os meus conterrâneos não deixo de esboçar um ligeiro sorriso... adoro o povo brasileiro, principalmente aqueles que vêem para Portugal tentar a sua sorte e tentar vencer todas as adversidades deste país, é que a situação já está complicada para os portugueses, imagino como estarão os brasileiros. Quer dizer, até imagino, eu bem sei, convivo de perto com situações assim, basta só abrir a porta de casa.

Eu sei que os portugueses não morrem de amor pelos brasileiros, isto tudo derivado aos preconceitos já enraizados na sociedade portuguesa, e para meu desalento por vezes os brasileiros comportam-se de tal maneira que eu dou por mim com a face ruborizada de vergonha, desde o falar alto nos transportes públicos, ao usar os trajes de banho que chamam à atenção na praia (está bem que as portuguesas também têm vindo a aderir aos reduzidos bikinis, mas uma brasileira é sempre uma brasileira, meus amigos), quando passam pela rua com a música do carro bem alta e estão escutando algum forró ou funk (que pronto, nós já sabemos como é a letra), ah, e há que mencionar as cantadas dos brasileiros que trabalham nas obras «e ai gostosa» e por ai adiante, são tantas coisas que dava para escrever um post só sobre isso. São tantas as situações que já damos por nós a dizer «têm que ter sempre um brasileiro no meio».

Mas mesmo assim os portugueses até gostam dos brasileiros que eu sei, e não é só porque o Felipão treina agora a selecção deles. Têm como não rir das piadas de um brasileiro? Ainda me recordo de quando fui ao banco e encontrei uma fila tão grande que por momentos pensei em desistir e voltar para casa, mas lá fiquei e então um brasileiro que se achava na fila disse «Afff, esta fila está mais demorada que sorte de pobre». Conseguem imaginar o resto? Foi rir até não poder mais no banco, até as pessoas que lá trabalhavam tiveram de se controlar para não perder o seu profissionalismo. E como aqui em Portugal existem muitos brasileiros que trabalham na restauração, eu sei que serei sempre bem atendida quando for a um restaurante, embora os meus caros compatriotas não sejam muito dados ao domínio da língua inglesa (que é crucial aqui em Albufeira), eles nos recebem sempre com um sorriso e sentido de humor tipicamente brasileiro, tanto que dá até gosto de abrir a carteira e deixar uma gorjeta bem gratificante para o empregado de mesa.

Mas como todo na vida, esta emigração também tem o seu lado negativo, e esse lado é difícil de não negligenciar quando está tão perto de nós. Várias vezes me levantei de manhã, mas mesmo ao amanhecer, quando somente os homens da recolha do lixo andam na rua, e vi brasileiras empurrando carrinhos com bebés para os deixar nas amas ou em casa de algum amigo ou familiar... um frio gélido na rua que vai perfurando os ossos e dificulta à respiração. Às oito da manhã vejo crianças de sensivelmente nove, dez anos, pegando nas mãos dos irmãos mais novos para os conduzir à escola, possivelmente porque os pais estão trabalhando e os irmão mais velhos são assim incumbidos de zelar pela segurança dos mais novos, sendo porém a diferença de idades quase nenhuma. Conheço brasileiras que chegam a ter dois a três trabalhos, chegando ao ponto de assim que terminam um terem que ir a correr para entrar no outro. Vejo brasileiros que dividem entre si apartamentos de pequenas assoalhadas, todos amontoados e sem condições, de tal maneira que certos prédios do Montechoro já sofrem de uma sobrelotação (na zona mais alta do bairro, a que alguns chamam de “Morro”, se diz que se atirar uma bomba só iremos ver brasileiros a pular pelas janelas).

Mas sem dúvida a cena que mas me chamou à atenção foi uma vez no supermercado quando eu estava na zona dos iogurtes e uma menininha disse assim à mãe «mãe, podemos levar este iogurte? Deve ser bom, né» ao que a mãe respondeu «leva sim filha, aqui a gente têm condições para comprar, lá no Brasil a gente só via esse iogurte nas fotos». Nem vale a pena dizer mais nada, eu creio.

Andei a volta da questão mas ainda não mencionei a razão que me levou a escrever sobre este tema. Hoje vi que a polícia fizera mais uma rusga aos prédios em construção para ver se encontrava lá emigrantes ilegais, e lá estavam também os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Já estava algo que habituada, porque quando a polícia passa pela Brasilândia, há sempre um ou outro que se esconde atrás de alguma coisa para não ser visto, não fizeram mal a ninguém, são somente ilegais! Levantam-se muito, mas mesmo muito cedo para trabalhar, viajam naquelas carrinhas cheias de pessoas que estão na mesma situação que eles, trabalham de sol a sol, ajudam a construir prédios onde futuramente não os deixarão entrar, ajudam a construir a cidade, são explorados e por vezes nem chegam a ver a cor do dinheiro... mas hoje a polícia levou a melhor, estavam a fazer uma grande detenção e havia lá um emigrante que ate já chorava. Senti inúmeras sensações ao mesmo tempo, mas sabia que aquelas pessoas não haviam feito mal a ninguém, exceptuando talvez as cantadas ridículas, mas de resto, iam agora pagar a sua falta de sorte sendo deportadas de voltara para o seu país de origem, a sua Pátria, que ao invés de mãe se revelara uma maldosa madrasta.

E ao presenciar esta cena senti-me incapaz de deixar de pensar com os meus botões em como a sorte é mesmo macabra. Certamente o homem que explorava estes imigrantes iria sair ileso, e claro, os emigrantes seria os piores prejudicados, pois seriam deportados e os seus conterrâneos que cá ficam terão de ser alvos de comentários desnecessários por parte dos portugueses. Sempre que oiço algum português a dizer que os brasileiros são preguiçosos e marginais sinto vontade de os mandar levantar bem cedo para ver como os meus compatriotas acordam e trabalham durante mais do que oito horas, o sol a queimar-lhes a nuca enquanto carregam pesados baldes de cimento. E mesmo assim ainda há críticas mordazes afirmando que estes brasileiros que cá estão são os que vieram das «favelas» e não se sabem comportar, são arruaceiros, marginais e prostitutas! Por amor de Deus, será que eles não vêem aquilo que eu vejo? Ou será que querem fechar os olhos para não ver? Já diria o bom Asterix «são loucos estes lusitanos».

Eles podem não ver o que eu vejo, mas sempre que me cruzo com um dos meus compatriotas eu recordo-me do motivo pelo qual sou tão patriota... sei que existem brasileiros e brasileiras que não vêem para cá para trabalhar, mas como os que trabalham são em maioria mais notória, eu deixo-me guiar pelos bons exemplos... porque são estes trabalhadores que se sujeitam as obrigações da emigração que fazem valer a expressão «sou brasileiro e não desisto».