"Crónica de Costumes"

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

III Acto – Sobre as Famílias Adoptivas

O pêndulo do relógio de parede balançava indolentemente e Alberto Fonseca o seguia com os olhos, como se estivesse a ser hipnotizado. Tinha o cérebro a trabalhar a mil à hora, sentia-se nervoso e ao mesmo tempo impaciente com a espera. Tamborilava distraidamente com os dedos num cartão de visitas que lhe haviam dado...

Pierre Fernandes
Advogado


James, o seu colega inglês lá do hospital havia-lhe recomendado aquele homem...

- É muito bom, para um francês – dizia James. – É especialista em Menores... desde divórcios, a adopções, abusos sexuais... nada lhe escapa. Foi o meu advogado quando me separei da mãe da Becky, mas tem cuidado, ele é um bocadinho caro... Oh yes... já sei que ele vai enfiar a faca, por isso, my friend, be careful.

E lá estava Alberto naquele momento. Na sala de espera do escritório de advogados onde trabalhava o senhor Pierre. Pareciam ser todos muitos procurados porque desde uma hora que ele se achava ali à espera de ser chamado. A fila ia diminuindo gradualmente e ele seria o próximo a ser atendido.

Sentia-se extremamente nervoso, queria logo dar um fim naquela situação que o aterrorizava a cada segundo da sua existência... era um pesadelo que não queria terminar.

Algumas cadeiras ao seu lado uma senhora gorducha lia aquelas revistas já fora da data que os advogados, médicos, cabeleireiros, insistiam em colocar para os clientes se entreterem a ler, no seu lado direito uma outra senhora que parecia ter saído de uma revista sobre celebridades, ao mesmo tempo que também parecia ter sido paga para andar com a roupa da D&G, Alberto desconfiava se ela não teria feito uma plástica.

Estranhou estarem ali só mulheres, até a secretária que mascava pastilha e limava as unhas enquanto lia uma série de e-mails engraçados e soltava uma ou outra gargalhada que ecoava por todo o vestíbulo. O choque havia atingido toda a família, mas ele, por ser homem, tinha quer ser mais forte, tinha de consolar a sua esposa e preparar-se para a guerra, por isso decidira ele mesmo ir ao advogado para começar a tratar de tudo.

Um telemóvel tocou a senhora do jet set e atendeu, falando tão alto que Alberto chegou a pensar que ela teria algum problema de audição.

- Ah, olá querida. Estou aqui no advogado, mas isto demora tanto, espero bem não passar aqui o resto da tarde, prometi que levava o João ao ténis... sim ele anda no ténis, com aquele amiguinho dele que participou naquela novela que os miúdos adoram ver... sou amiga de longa data da família, sempre topei que o rapaz tinha talento, ele adora-me... chama-me tia, imagina lá.

Alberto sentiu vergonha pela mulher. Nada mais o irritava do pessoas que falavam alto e diziam conhecer pessoas famosas, como se eles mesmos fossem pessoas influentes... se a mulher soubesse o papelão que estava a fazer... a secretária franziu as sobrancelhas e a senhora gorducha abanou a cabeça em sinal de repreensão. Havia de facto muitas pessoas que precisavam de ser educadas, uma sala como aquela não era propriamente o local ideal para ter aquele tipo de conversa... e durante os cinco minutos que o telefonema durou, Alberto ficou a saber quase todos os pormenores da vida da mulher. Odiava aquilo!

A porta abriu-se e um casal saiu, a secretária consultou os seus papéis e...

- Sr. Fonseca, pode entrar, Monsieur Pierre o aguarda.

Levantou-se e inspirou, como se esperasse que confiança entrasse pelas suas narinas, ao invés de ar. Entrou na sala e lá estava o famoso Pierre Fernandes.

Reparou logo no nariz abatatado, no cabelo grisalho pregado precariamente à cabeça oval, na pêra que terminava em caracol. Era muito alto e transpirava França por todos os poros do seu corpo.

- Bonjour – saudou ele no seu sotaque francês. – Sr. Fonseca, pressumo.
- Sim, foi o James que me sugeriu o senhor.... James Brown.
- Ah sim, o médico sovina... tão agarrado ao dinheiro... tipicamente inglês.

Alberto sorriu por educação, não estava para aturar aquela antipatia entre ingleses e franceses, queria ir directo ao assunto. Sentou-se na cadeira que o doutor indicara e quando Pierre se sentou, sem meias medidas começou a história.
- Bem, vim aqui para me aconselhar com o senhor porque o James disse que era especialista em casos com Menores, e eu preciso da ajuda de alguém mesmo muito bom...
- Agradeço a confiança, prossiga...

- Amo a minha mulher – no entanto sentiu-se estúpido, parecia que não começara bem aquela história e assemelhava-se mais a alguém que começava uma carta para a secção de dúvidas sexuais de uma revista barata -, no entanto não podemos ter filhos... uma tragédia, devo dizer... e a adopção sempre nos pareceu o mais adequado... há tantas crianças por aí a precisar de amor... pois bem, fomos a uma instituição e encontramos a criança ideal... o Tomás estava lá há um ano... foi abandonado pelos pais, os dois da mais péssima laia, drogados, enfim... o pequenote também desde cedo que gostou de nós... fomos visitá-lo muitas vezes e começamos a tratar dos papéis para a adopção, mas já se sabe que estas coisas demoram muito tempo... como a maior parte das coisas que necessitam da justiça deste país... mas finalmente conseguimos e o rapazinho agora vive connosco...tem tudo do bom e do melhor... e acima de tudo... tem amor... algo que nunca teve naquela instituição... agora está na escola e já tem sete aninhos... muito maroto, mas adorável... Até podia ser uma história com final feliz, mas eles voltaram... os pais biológicos... querem o miúdo de volta, dizem que têm direito porque são os pais de verdade... laços de sangue, dizem eles que é importante... nunca deram ao miúdo aquilo que ele realmente precisava e agora querem levá-lo como se tivesse esse direito... por isso vim aqui falar consigo... não quero que isso aconteça!!!

Terminou... não fora tão fiel aos detalhes como desejara ser, não contara a satisfação que tivera quando o processo de adopção havia sido aceite, quando Tomás fora morar lá para casa e todas as alegrias que ele havia proporcionado àquele casal... e muito menos encontrara palavras para descrever toda a tristeza e desespero que tomaram conta dele quando os pais de Tomás haviam reaparecido... no entanto, ao ver o olhar pensativo do advogado, como quem digere algo, sentiu que fizera um relato suficientemente bom para o colocar a pensar.

- Ah, pois é – suspirou por fim o advogado. – É um grande erro! Um erro fatal... devolver crianças às famílias biológicas é quase como entregar a galinha numa bandeja às raposas...

Alberto anuiu com a cabeça...

- Os casais colocam os filhos no orfanato – prossegiu Pierre - e depois vão lá vê-los de vez em quando, acho que de ano a ano, e os orfanatos têm problemas para possibilitar que estas crianças sejam adoptadas. Quando finalmente conseguem, surge logo a família biológica a dizer que querem as crianças de volta para formarem uma família e blá, blá blá… A lei cai sempre no erro de devolver as crianças aos pais biológicos porque a lei protege muito a família. Geralmente um dos pais biológicos é desequilibrado e o outro é alcoólico e a partir do momento em que a criança volta para eles é espancada, queimada com cigarros, violada e até morta… é triste mas é a realidade. Essa gente só o faz por maldade, acho que nunca gostaram da criança, mas a partir do momento em que sabem que há uma família interessada em adoptá-la, aparecem a dizer que estão muito arrependidos de a ter abandonado e que a querem de volta porque foram eles que a fizeram. Mas na minha opinião pai é quem cria e não quem faz.

Ele sentiu que de facto o advogado percebia do assunto.

- Acha que temos possibilidade de ganhar o caso?
- É muito complicado, meu amigo... sou sincero. A lei é tremendamente estúpida, e mais estúpidos são aqueles que a julgam. Pode ser quase tão claro como a água que o senhor e a sua esposa são a melhor influência para o pequeno Tomás, mas o sangue parece que fala mais alto na cabeça dos ilustres juízes... pobres ingénuos ainda acreditam em milagres... é pena que com essa inginuidade quem sofra é a criança....
- Quer dizer que não há saída?
- Mas é claro que há! Vai deixar-se render tão cedo?! Sem sequer lutar?! Coragem, homem, coragem! Temos uma longa luta pela frente, é verdade, mas também podemos ganhar se tivermos um bom naipe de argumentos.
- Que serão?
- Podemos alegar que o Tomás tem todo o conforto do mundo na vossa companhia, trazer cá testemunhas, se for preciso até organizamos uma manifestação – Alberto sorriu, aquele advogado era particularmente teatral, mas sabia que apenas o estava a fazer rir para o ajudar a descomprir daquela situação difícil. – Podemos usar como exemplo uma série de casos que aconteceram, talvez os chame de volta à realidade. Porque estes casos estão sempre a passar na televisão, mas como sempre, fechar os olhos à realidade é a melhor forma de alegar que não existe. É urgente revogar estas leis, sabe... é que se protege muito as famílias em detrimento das crianças... imagino como deva ser a vida destas crianças, em instituições onde, apesar de receber comida e cama quente, não têm aquilo que as crianças mais precisam: amor. E aquelas que vivem pulando de famílias de acolhimento então... muito pior. Não deve ser nada saudável andar em casas diferentes, a conviver com modos de vida diferente sem saber se há alguém que gosta verdadeiramente de nós.
- E acontece todos os dias – concluiu Alberto, estarrecido com o discurso do advogado, parecia humano demais para a profissão que exercia. Alberto sempre imaginara os advogados como homens sem escrúpulos, sedentos de fazer dinheiro, mesmo que isso implicasse defender algum criminoso.
- Sim, mas estão todos mais preocupado em fazer leis para impedir que se fume em cafés, enquanto estes casos precisam de especial atenção... enfim, é o Admiravel Mundo Moderno em que vivemos...
- É.

Olharam-se momentaneamente. Alberto sabia que tinha ali um aliado e Pierre sentiu necessidade em ajudar aquele homem e em particular aquela criança.... a adopção era ainda um mundo que necessitava de ser explorado e todos os preconceitos neste âmbito deviam de ser quebrados e em especial os pudicos e opositores da adopção deviam de ser conscientizados de que nem sempre a família biológica era o melhor para a criança e do que dependesse dele, iria ajudar nessa luta.

- Haveremos de conseguir tocar no coração dos juízes... por debaixo daquela batina negra deve haver algum sentimento... recorreremos as vezes que forem necessárias... até iremos a tribunal de júri se for necessário... há casos em que o senso comum é mais correcto que a própria justiça... e pelo que imagino os progenitores de certeza que não vão querer ir mais longe... não terão dinheiro suficiente para prosseguir com esta loucura, mas certamente que tencionam viver do abono que o Estado dá às crianças. Lastimável!
- Nem sei como lhe agradecer, senhor. Sinto-me mais confiante agora que falei consigo.
- Limite-se a pagar os honorários e prepare-se para uma luta, meu amigo, muito desgastante.

Alberto sorriu novamente. Despediu-se do advogado com um prologando aperto de mãos, não tinha palavras para dizer o quanto lhe estava grato... era de pessoas como ele que necessitava.

Deixou um cheque na mesa da secretária e mandou uma mensagem à esposa, avisando-a que iriam jantar fora com o pequeno Tomás, e quando saiu do edíficio e começou a caminhar até junto do seu carro, nem fez caso do frio invernal que levava as pessoas a aconchegaram as gabardinas junto a sim, do seu peito emanava um calor que o tornava alheio à temperatura... era o calor da esperança....

3 comentários:

Poisongirl disse...

O que achei?!
Que vou ter mais histórias além das da bruxinha para acompanhar...
Camilla vim aqui agradecer teu comentário e conhecer vc e teu blog...me pareceu bem intressante.
Amiga de Mirian e Daniel é minha tbm.

Anónimo disse...

Adoro de paixão essas suas história. Você tem uma criatividade que me impressiona. Bjus e parabéns pelo texto.

Mirian Martin disse...

Menina, esta história poderia ter ocorrido aqui no Brasil... E o final é sempre triste...