"Crónica de Costumes"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Emigração a quanto me obrigas...

Inicialmente tinha pensando em dedicar o post de hoje a outro tema, porém o Mundo Moderno é tão Admirável que nos dá a possibilidade de colher inspiração a partir do momento em que colocamos os pés fora de casa... e isso aconteceu-me hoje quando me encaminhava para o Terminal Rodoviário para apanhar um autocarro (ou ônibus se preferirem) para ir para a Faculdade.

Moro numa zona nos subúrbios da cidade de Albufeira que se intitula de Montechoro, contudo, nós residentes desta zona adoptamos um nome mais inovador, vanguardista e real: Brasilândia. Sim, Brasilândia! Isto porque a zona do Montechoro é habitada maioritariamente por famílias de nacionalidade brasileira, ficando os africanos com o segundo lugar, os ingleses e os imigrantes de leste rivalizam entre o terceiro lugar (mas aqui também existe um bairro onde moram muitos imigrantes de leste, pelo que chamamos a zona de União Soviética [é incrível como a imaginação dos adolescentes funciona])... e agora perguntam pelos portugueses, já que estamos em Portugal, convém que existam portugueses não é... bem, os portugueses são escassos aqui na nossa querida Brasilândia.

Eu recordo-me de que vim para Portugal numa altura em que os brasileiros eram como as notas de 500 euros, muito difíceis de encontrar, contudo, com as inúmeras vagas de emigração que têm assolado Portugal, começo a pensar que é mais fácil encontrar um brasileiro do que um português. O Montechoro, por exemplo, costumava ser um local de eleição pelos ingleses e alguns portugueses abastados que vinham de férias para a cidade, mas agora, com o elevado número de emigrantes que vivem nesta zona, alguns problemas começaram a surgir, como o da criminalidade e tudo mais e o preço das casas desceu consideravelmente e as imobiliárias chegam mesmo a queixar-se de não existir muitas pessoas (portugueses, claro) interessadas em comprar casa nesta zona, pois alegam que «o Montechoro é um lugar violento». Cá por mim nunca me aconteceu nada aqui na minha querida Brasilândia.

Confesso que sempre fui muito patriota e quando olho para os meus conterrâneos não deixo de esboçar um ligeiro sorriso... adoro o povo brasileiro, principalmente aqueles que vêem para Portugal tentar a sua sorte e tentar vencer todas as adversidades deste país, é que a situação já está complicada para os portugueses, imagino como estarão os brasileiros. Quer dizer, até imagino, eu bem sei, convivo de perto com situações assim, basta só abrir a porta de casa.

Eu sei que os portugueses não morrem de amor pelos brasileiros, isto tudo derivado aos preconceitos já enraizados na sociedade portuguesa, e para meu desalento por vezes os brasileiros comportam-se de tal maneira que eu dou por mim com a face ruborizada de vergonha, desde o falar alto nos transportes públicos, ao usar os trajes de banho que chamam à atenção na praia (está bem que as portuguesas também têm vindo a aderir aos reduzidos bikinis, mas uma brasileira é sempre uma brasileira, meus amigos), quando passam pela rua com a música do carro bem alta e estão escutando algum forró ou funk (que pronto, nós já sabemos como é a letra), ah, e há que mencionar as cantadas dos brasileiros que trabalham nas obras «e ai gostosa» e por ai adiante, são tantas coisas que dava para escrever um post só sobre isso. São tantas as situações que já damos por nós a dizer «têm que ter sempre um brasileiro no meio».

Mas mesmo assim os portugueses até gostam dos brasileiros que eu sei, e não é só porque o Felipão treina agora a selecção deles. Têm como não rir das piadas de um brasileiro? Ainda me recordo de quando fui ao banco e encontrei uma fila tão grande que por momentos pensei em desistir e voltar para casa, mas lá fiquei e então um brasileiro que se achava na fila disse «Afff, esta fila está mais demorada que sorte de pobre». Conseguem imaginar o resto? Foi rir até não poder mais no banco, até as pessoas que lá trabalhavam tiveram de se controlar para não perder o seu profissionalismo. E como aqui em Portugal existem muitos brasileiros que trabalham na restauração, eu sei que serei sempre bem atendida quando for a um restaurante, embora os meus caros compatriotas não sejam muito dados ao domínio da língua inglesa (que é crucial aqui em Albufeira), eles nos recebem sempre com um sorriso e sentido de humor tipicamente brasileiro, tanto que dá até gosto de abrir a carteira e deixar uma gorjeta bem gratificante para o empregado de mesa.

Mas como todo na vida, esta emigração também tem o seu lado negativo, e esse lado é difícil de não negligenciar quando está tão perto de nós. Várias vezes me levantei de manhã, mas mesmo ao amanhecer, quando somente os homens da recolha do lixo andam na rua, e vi brasileiras empurrando carrinhos com bebés para os deixar nas amas ou em casa de algum amigo ou familiar... um frio gélido na rua que vai perfurando os ossos e dificulta à respiração. Às oito da manhã vejo crianças de sensivelmente nove, dez anos, pegando nas mãos dos irmãos mais novos para os conduzir à escola, possivelmente porque os pais estão trabalhando e os irmão mais velhos são assim incumbidos de zelar pela segurança dos mais novos, sendo porém a diferença de idades quase nenhuma. Conheço brasileiras que chegam a ter dois a três trabalhos, chegando ao ponto de assim que terminam um terem que ir a correr para entrar no outro. Vejo brasileiros que dividem entre si apartamentos de pequenas assoalhadas, todos amontoados e sem condições, de tal maneira que certos prédios do Montechoro já sofrem de uma sobrelotação (na zona mais alta do bairro, a que alguns chamam de “Morro”, se diz que se atirar uma bomba só iremos ver brasileiros a pular pelas janelas).

Mas sem dúvida a cena que mas me chamou à atenção foi uma vez no supermercado quando eu estava na zona dos iogurtes e uma menininha disse assim à mãe «mãe, podemos levar este iogurte? Deve ser bom, né» ao que a mãe respondeu «leva sim filha, aqui a gente têm condições para comprar, lá no Brasil a gente só via esse iogurte nas fotos». Nem vale a pena dizer mais nada, eu creio.

Andei a volta da questão mas ainda não mencionei a razão que me levou a escrever sobre este tema. Hoje vi que a polícia fizera mais uma rusga aos prédios em construção para ver se encontrava lá emigrantes ilegais, e lá estavam também os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Já estava algo que habituada, porque quando a polícia passa pela Brasilândia, há sempre um ou outro que se esconde atrás de alguma coisa para não ser visto, não fizeram mal a ninguém, são somente ilegais! Levantam-se muito, mas mesmo muito cedo para trabalhar, viajam naquelas carrinhas cheias de pessoas que estão na mesma situação que eles, trabalham de sol a sol, ajudam a construir prédios onde futuramente não os deixarão entrar, ajudam a construir a cidade, são explorados e por vezes nem chegam a ver a cor do dinheiro... mas hoje a polícia levou a melhor, estavam a fazer uma grande detenção e havia lá um emigrante que ate já chorava. Senti inúmeras sensações ao mesmo tempo, mas sabia que aquelas pessoas não haviam feito mal a ninguém, exceptuando talvez as cantadas ridículas, mas de resto, iam agora pagar a sua falta de sorte sendo deportadas de voltara para o seu país de origem, a sua Pátria, que ao invés de mãe se revelara uma maldosa madrasta.

E ao presenciar esta cena senti-me incapaz de deixar de pensar com os meus botões em como a sorte é mesmo macabra. Certamente o homem que explorava estes imigrantes iria sair ileso, e claro, os emigrantes seria os piores prejudicados, pois seriam deportados e os seus conterrâneos que cá ficam terão de ser alvos de comentários desnecessários por parte dos portugueses. Sempre que oiço algum português a dizer que os brasileiros são preguiçosos e marginais sinto vontade de os mandar levantar bem cedo para ver como os meus compatriotas acordam e trabalham durante mais do que oito horas, o sol a queimar-lhes a nuca enquanto carregam pesados baldes de cimento. E mesmo assim ainda há críticas mordazes afirmando que estes brasileiros que cá estão são os que vieram das «favelas» e não se sabem comportar, são arruaceiros, marginais e prostitutas! Por amor de Deus, será que eles não vêem aquilo que eu vejo? Ou será que querem fechar os olhos para não ver? Já diria o bom Asterix «são loucos estes lusitanos».

Eles podem não ver o que eu vejo, mas sempre que me cruzo com um dos meus compatriotas eu recordo-me do motivo pelo qual sou tão patriota... sei que existem brasileiros e brasileiras que não vêem para cá para trabalhar, mas como os que trabalham são em maioria mais notória, eu deixo-me guiar pelos bons exemplos... porque são estes trabalhadores que se sujeitam as obrigações da emigração que fazem valer a expressão «sou brasileiro e não desisto».

1 comentário:

Mirian Martin disse...

Em todos os restaurantes que fui em Lisboa tinha um brasileiro. A minha prima, que aí está, hoje em condiçào legal, já trabalhou muito mesmo para poder simplesmente voltar ao Brasil em férias por duas semanas. Ama o Brasil. Ama Portugal. Ela é uma das poucas que foi para Portugal para ser alguém, sem ajuda próxima da família. Se fez, trabalhando em restaurante, e hoje junto a um advogado e casada com um ucraniano. Para ela nunca faltou iogurte, brinquedos, mimos, viagens, luxo. Faltava, simplesmente, a liberdade de ser ela mesma, que ela encontrou em Portugal.