
Hoje, no dia 25 de Abril, vamos falar de liberdade. Até os mais leigos devem saber que esta data foi importante para Portugal. Foi o final da ditadura do Estado Novo, o dia em que a vida de muitas pessoas mudou, em que se recuperou a liberdade (e por esta altura o relógio contava para a minha família ser “convida a sair” de Moçambique mas não entremos por aí). Sim, liberdade é um termo muito aprazível, tantas vezes empregue em pomposos discursos de dirigentes políticos, tantas vezes utilizado em discussões corriqueiras sobre relações ou o quotidiano… enfim… a liberdade é um conceito extremamente abrangente e, ao mesmo tempo, bastante ambíguo. Senão vejamos…
Na época que antecedeu ao 25 de Abril, a queixa principal era a falta de liberdade, tão comum em regimes ditatoriais (sejam eles de esquerda ou de direita): as pessoas não podiam falar abertamente sobre o que pensavam, não podiam expressar os seus ideais políticos ou, caso contrário, eram perseguidos pela PIDE e brutalmente espancados em Caxias e por aí afora. Quando se deu o 25 de Abril, esse direito básico foi recuperado e hoje em dia podemos estar confortavelmente sentados num café a insultar o governo e a chamar o nosso primeiro-ministro José Sócrates (vulgo “Pinóquio”) numa lista nada recomendável de obscenidades. Sim, para a maioria das pessoas, a liberdade significa poder dizer e fazer o que se tem vontade, sem ter que ser controlado pelo Estado (poder insultar o governo, poder expressar a sua opinião política, poder usar minissaia ou fazer piercings e não ter que participar daqueles desfiles ridículos da Mocidade Portuguesa, e por aí vai…) e ficam-se por aí… mas seremos tão livres como pensamos, mesmo vivendo numa república democrática (isto pode ser discutível). Apercebi-me disso quando li o livro “Alternativas Socialistas” de Paul Sweezy e Leo Huberman.
As constituições de todo o mundo estão recheadas de alíneas que dizem uma lista interminável de coisas que temos o direito e que podemos fazer, mas este livro chamou-me à atenção para uma coisa interessante, a qual passo a citar: «O simples facto de nenhuma lei proibir uma pessoa de fazer uma determinada coisa não significa que se possa fazê-la.». E ainda exemplificam: «É-se livre de ir ao aeroporto mais próximo e apanhar um avião para Nova Orleães, ou Chicago ou Hollywood, mas não é realmente livre de fazê-lo se não se tiver dinheiro para o bilhete». Compreendem onde quero chegar? «De que serve ter-se um direito se não se tem condições para exercê-lo?».
Um político americano que admiro muito, e dos poucos presidentes americanos que fez alguma coisa que preste, Franklin Roosevelt, disse: «Homens necessitados não são homens livres», o que só serve para provar o quão limitado é o nosso conceito de liberdade.
Podemos muito bem dizer o que pensamos, correndo, claro, o risco de sermos processados por difamação… podemos vestirmo-nos da maneira que entendemos, correndo, claro, o risco de sermos olhados de lado na rua… podemos muito bem votar em quem quisermos, embora não convenha falar disso em público pois pode-se correr o risco de ser destituído de funções no local de trabalho… actualmente temos eleições livres, temos liberdade de expressão, liberdade de imprensa, tudo o que não existia na época de Salazar… isso TODOS têm, mas o que só MUITO POUCOS têm é a liberdade de ter pão, lazer, segurança, educação, saúde… etc. Liberdade é muito mais do que a ausência de restrição!
Para Huberman e Sweezy, a liberdade «significa viver a vida na sua máxima plenitude – a capacidade económica de satisfazer as necessidades do corpo no que respeita a alimentação, vestuário e alojamento adequados, mais a oportunidade efectiva de cultivar o espírito, desenvolver a personalidade e afirmar a individualidade».
Vezes sem conta discuto com a minha tia sobre regimes ditatoriais. Quem segue lealmente este blog sabe ela tem ideias algo conservadoras em determinados aspectos e ela disse-me «preferes ter a liberdade de dizer o que pensas e o frigorífico vazio ou o ficar calada mas teres comida na mesa?». Eu pensei para mim: «se as pessoas têm a liberdade de dizerem o que pensam, também têm a liberdade de lutar para ter comida na mesa» … mas depois conclui: quem têm fome quer uma solução bem mais rápida… por isso é que muitas vezes são presas fáceis para políticos corruptos.
«Se os que têm a barriga cheia disserem aos que têm a barriga vazia que do que eles mais precisam no Mundo é de eleições livres, eles não ouvirão; eles sabem outra coisa, sabem que o que lhes é preciso é pão, sapatos, uma escola para os filhos, assistência médica, vestuário condigno, casa decente. Todas estas necessidades da vida, mas a dignidade que o seu usufruto acarreta, isso é o que para eles é a liberdade», disseram os autores… Quem nos dias que correm pode-se dar ao luxo de viver assim, senão a cada vez mais reduzida e endividada classe média e a opulenta e oligárquica classe de burgueses neoliberais?
«Será livre um desempregado com fome? Será livre um homem em constante receio de perder o emprego? Será livre uma pessoa iletrada e ignorante, excluída do mundo dos livros e da cultura? Será livre uma pessoa dotada de talento que não tem acesso à escolaridade que faria brotar o seu talento? Na sociedade capitalista, só os ricos podem gozar da liberdade no seu sentido mais amplo de abundância, segurança, lazer. Os pobres não são livres!».
Ontem a minha amiga Ana tinha na frase do msn: «Onde foi que te perdeste, liberdade?». Sim, oiço muitas vezes dizer que os ideais do 25 de Abril se perderam, que precisamos de outro 25 de Abril, que as pessoas não dão valor ao que muitos tiveram de dar a vida para eles ter: a liberdade. Hoje em dia as pessoas banalizam um direito importantíssimo e cada vez menos intervêm politicamente. É verdade que não fazem uso de um direito seu mas há outra coisa que se perdeu e que é também realmente importante.
O 25 de Abril permitiu melhores condições de vida a muitas pessoas que vivam na precariedade durante a ditadura fascista… concedeu a liberdade no seu sentido mais amplo aos mais pobres… foi uma revolução alicerçada em ideais socialistas… ideias esses que se perderam, basta olhara para o dito Partido Socialista, que defende ideais neoliberais, contrários à doutrina socialista Não será essa uma das maiores perdas ao longo destes anos? Um partido com um nome de facha defender algo totalmente divergente da sua raiz? Um partido que deveria de apoiar os pobres e que até agora nada disso tem feito?
Sou a favor de que precisamos de um novo 25 de Abril, mas também precisamos de um novo Partido Socialista… talvez até precisemos de uma nova definição de liberdade, pois, na minha opinião, esta é somente uma utopia… Quem é que, nos dias de hoje pode dizer que é livre?
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Parece que voltei… talvez até com algum texto que vale realmente a pena ler. E estou feliz por Susan Boyle ter ensinado uma grande lição ao mundo inteiro… é uma Boyle e basta!
Na época que antecedeu ao 25 de Abril, a queixa principal era a falta de liberdade, tão comum em regimes ditatoriais (sejam eles de esquerda ou de direita): as pessoas não podiam falar abertamente sobre o que pensavam, não podiam expressar os seus ideais políticos ou, caso contrário, eram perseguidos pela PIDE e brutalmente espancados em Caxias e por aí afora. Quando se deu o 25 de Abril, esse direito básico foi recuperado e hoje em dia podemos estar confortavelmente sentados num café a insultar o governo e a chamar o nosso primeiro-ministro José Sócrates (vulgo “Pinóquio”) numa lista nada recomendável de obscenidades. Sim, para a maioria das pessoas, a liberdade significa poder dizer e fazer o que se tem vontade, sem ter que ser controlado pelo Estado (poder insultar o governo, poder expressar a sua opinião política, poder usar minissaia ou fazer piercings e não ter que participar daqueles desfiles ridículos da Mocidade Portuguesa, e por aí vai…) e ficam-se por aí… mas seremos tão livres como pensamos, mesmo vivendo numa república democrática (isto pode ser discutível). Apercebi-me disso quando li o livro “Alternativas Socialistas” de Paul Sweezy e Leo Huberman.
As constituições de todo o mundo estão recheadas de alíneas que dizem uma lista interminável de coisas que temos o direito e que podemos fazer, mas este livro chamou-me à atenção para uma coisa interessante, a qual passo a citar: «O simples facto de nenhuma lei proibir uma pessoa de fazer uma determinada coisa não significa que se possa fazê-la.». E ainda exemplificam: «É-se livre de ir ao aeroporto mais próximo e apanhar um avião para Nova Orleães, ou Chicago ou Hollywood, mas não é realmente livre de fazê-lo se não se tiver dinheiro para o bilhete». Compreendem onde quero chegar? «De que serve ter-se um direito se não se tem condições para exercê-lo?».
Um político americano que admiro muito, e dos poucos presidentes americanos que fez alguma coisa que preste, Franklin Roosevelt, disse: «Homens necessitados não são homens livres», o que só serve para provar o quão limitado é o nosso conceito de liberdade.
Podemos muito bem dizer o que pensamos, correndo, claro, o risco de sermos processados por difamação… podemos vestirmo-nos da maneira que entendemos, correndo, claro, o risco de sermos olhados de lado na rua… podemos muito bem votar em quem quisermos, embora não convenha falar disso em público pois pode-se correr o risco de ser destituído de funções no local de trabalho… actualmente temos eleições livres, temos liberdade de expressão, liberdade de imprensa, tudo o que não existia na época de Salazar… isso TODOS têm, mas o que só MUITO POUCOS têm é a liberdade de ter pão, lazer, segurança, educação, saúde… etc. Liberdade é muito mais do que a ausência de restrição!
Para Huberman e Sweezy, a liberdade «significa viver a vida na sua máxima plenitude – a capacidade económica de satisfazer as necessidades do corpo no que respeita a alimentação, vestuário e alojamento adequados, mais a oportunidade efectiva de cultivar o espírito, desenvolver a personalidade e afirmar a individualidade».
Vezes sem conta discuto com a minha tia sobre regimes ditatoriais. Quem segue lealmente este blog sabe ela tem ideias algo conservadoras em determinados aspectos e ela disse-me «preferes ter a liberdade de dizer o que pensas e o frigorífico vazio ou o ficar calada mas teres comida na mesa?». Eu pensei para mim: «se as pessoas têm a liberdade de dizerem o que pensam, também têm a liberdade de lutar para ter comida na mesa» … mas depois conclui: quem têm fome quer uma solução bem mais rápida… por isso é que muitas vezes são presas fáceis para políticos corruptos.
«Se os que têm a barriga cheia disserem aos que têm a barriga vazia que do que eles mais precisam no Mundo é de eleições livres, eles não ouvirão; eles sabem outra coisa, sabem que o que lhes é preciso é pão, sapatos, uma escola para os filhos, assistência médica, vestuário condigno, casa decente. Todas estas necessidades da vida, mas a dignidade que o seu usufruto acarreta, isso é o que para eles é a liberdade», disseram os autores… Quem nos dias que correm pode-se dar ao luxo de viver assim, senão a cada vez mais reduzida e endividada classe média e a opulenta e oligárquica classe de burgueses neoliberais?
«Será livre um desempregado com fome? Será livre um homem em constante receio de perder o emprego? Será livre uma pessoa iletrada e ignorante, excluída do mundo dos livros e da cultura? Será livre uma pessoa dotada de talento que não tem acesso à escolaridade que faria brotar o seu talento? Na sociedade capitalista, só os ricos podem gozar da liberdade no seu sentido mais amplo de abundância, segurança, lazer. Os pobres não são livres!».
Ontem a minha amiga Ana tinha na frase do msn: «Onde foi que te perdeste, liberdade?». Sim, oiço muitas vezes dizer que os ideais do 25 de Abril se perderam, que precisamos de outro 25 de Abril, que as pessoas não dão valor ao que muitos tiveram de dar a vida para eles ter: a liberdade. Hoje em dia as pessoas banalizam um direito importantíssimo e cada vez menos intervêm politicamente. É verdade que não fazem uso de um direito seu mas há outra coisa que se perdeu e que é também realmente importante.
O 25 de Abril permitiu melhores condições de vida a muitas pessoas que vivam na precariedade durante a ditadura fascista… concedeu a liberdade no seu sentido mais amplo aos mais pobres… foi uma revolução alicerçada em ideais socialistas… ideias esses que se perderam, basta olhara para o dito Partido Socialista, que defende ideais neoliberais, contrários à doutrina socialista Não será essa uma das maiores perdas ao longo destes anos? Um partido com um nome de facha defender algo totalmente divergente da sua raiz? Um partido que deveria de apoiar os pobres e que até agora nada disso tem feito?
Sou a favor de que precisamos de um novo 25 de Abril, mas também precisamos de um novo Partido Socialista… talvez até precisemos de uma nova definição de liberdade, pois, na minha opinião, esta é somente uma utopia… Quem é que, nos dias de hoje pode dizer que é livre?
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Parece que voltei… talvez até com algum texto que vale realmente a pena ler. E estou feliz por Susan Boyle ter ensinado uma grande lição ao mundo inteiro… é uma Boyle e basta!












