"Crónica de Costumes"

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sábado, 25 de abril de 2009

Uma utopia chamada liberdade


Hoje, no dia 25 de Abril, vamos falar de liberdade. Até os mais leigos devem saber que esta data foi importante para Portugal. Foi o final da ditadura do Estado Novo, o dia em que a vida de muitas pessoas mudou, em que se recuperou a liberdade (e por esta altura o relógio contava para a minha família ser “convida a sair” de Moçambique mas não entremos por aí). Sim, liberdade é um termo muito aprazível, tantas vezes empregue em pomposos discursos de dirigentes políticos, tantas vezes utilizado em discussões corriqueiras sobre relações ou o quotidiano… enfim… a liberdade é um conceito extremamente abrangente e, ao mesmo tempo, bastante ambíguo. Senão vejamos…

Na época que antecedeu ao 25 de Abril, a queixa principal era a falta de liberdade, tão comum em regimes ditatoriais (sejam eles de esquerda ou de direita): as pessoas não podiam falar abertamente sobre o que pensavam, não podiam expressar os seus ideais políticos ou, caso contrário, eram perseguidos pela PIDE e brutalmente espancados em Caxias e por aí afora. Quando se deu o 25 de Abril, esse direito básico foi recuperado e hoje em dia podemos estar confortavelmente sentados num café a insultar o governo e a chamar o nosso primeiro-ministro José Sócrates (vulgo “Pinóquio”) numa lista nada recomendável de obscenidades. Sim, para a maioria das pessoas, a liberdade significa poder dizer e fazer o que se tem vontade, sem ter que ser controlado pelo Estado (poder insultar o governo, poder expressar a sua opinião política, poder usar minissaia ou fazer piercings e não ter que participar daqueles desfiles ridículos da Mocidade Portuguesa, e por aí vai…) e ficam-se por aí… mas seremos tão livres como pensamos, mesmo vivendo numa república democrática (isto pode ser discutível). Apercebi-me disso quando li o livro “Alternativas Socialistas” de Paul Sweezy e Leo Huberman.

As constituições de todo o mundo estão recheadas de alíneas que dizem uma lista interminável de coisas que temos o direito e que podemos fazer, mas este livro chamou-me à atenção para uma coisa interessante, a qual passo a citar: «O simples facto de nenhuma lei proibir uma pessoa de fazer uma determinada coisa não significa que se possa fazê-la.». E ainda exemplificam: «É-se livre de ir ao aeroporto mais próximo e apanhar um avião para Nova Orleães, ou Chicago ou Hollywood, mas não é realmente livre de fazê-lo se não se tiver dinheiro para o bilhete». Compreendem onde quero chegar? «De que serve ter-se um direito se não se tem condições para exercê-lo?».

Um político americano que admiro muito, e dos poucos presidentes americanos que fez alguma coisa que preste, Franklin Roosevelt, disse: «Homens necessitados não são homens livres», o que só serve para provar o quão limitado é o nosso conceito de liberdade.

Podemos muito bem dizer o que pensamos, correndo, claro, o risco de sermos processados por difamação… podemos vestirmo-nos da maneira que entendemos, correndo, claro, o risco de sermos olhados de lado na rua… podemos muito bem votar em quem quisermos, embora não convenha falar disso em público pois pode-se correr o risco de ser destituído de funções no local de trabalho… actualmente temos eleições livres, temos liberdade de expressão, liberdade de imprensa, tudo o que não existia na época de Salazar… isso TODOS têm, mas o que só MUITO POUCOS têm é a liberdade de ter pão, lazer, segurança, educação, saúde… etc. Liberdade é muito mais do que a ausência de restrição!

Para Huberman e Sweezy, a liberdade «significa viver a vida na sua máxima plenitude – a capacidade económica de satisfazer as necessidades do corpo no que respeita a alimentação, vestuário e alojamento adequados, mais a oportunidade efectiva de cultivar o espírito, desenvolver a personalidade e afirmar a individualidade».

Vezes sem conta discuto com a minha tia sobre regimes ditatoriais. Quem segue lealmente este blog sabe ela tem ideias algo conservadoras em determinados aspectos e ela disse-me «preferes ter a liberdade de dizer o que pensas e o frigorífico vazio ou o ficar calada mas teres comida na mesa?». Eu pensei para mim: «se as pessoas têm a liberdade de dizerem o que pensam, também têm a liberdade de lutar para ter comida na mesa» … mas depois conclui: quem têm fome quer uma solução bem mais rápida… por isso é que muitas vezes são presas fáceis para políticos corruptos.

«Se os que têm a barriga cheia disserem aos que têm a barriga vazia que do que eles mais precisam no Mundo é de eleições livres, eles não ouvirão; eles sabem outra coisa, sabem que o que lhes é preciso é pão, sapatos, uma escola para os filhos, assistência médica, vestuário condigno, casa decente. Todas estas necessidades da vida, mas a dignidade que o seu usufruto acarreta, isso é o que para eles é a liberdade», disseram os autores… Quem nos dias que correm pode-se dar ao luxo de viver assim, senão a cada vez mais reduzida e endividada classe média e a opulenta e oligárquica classe de burgueses neoliberais?

«Será livre um desempregado com fome? Será livre um homem em constante receio de perder o emprego? Será livre uma pessoa iletrada e ignorante, excluída do mundo dos livros e da cultura? Será livre uma pessoa dotada de talento que não tem acesso à escolaridade que faria brotar o seu talento? Na sociedade capitalista, só os ricos podem gozar da liberdade no seu sentido mais amplo de abundância, segurança, lazer. Os pobres não são livres!».

Ontem a minha amiga Ana tinha na frase do msn: «Onde foi que te perdeste, liberdade?». Sim, oiço muitas vezes dizer que os ideais do 25 de Abril se perderam, que precisamos de outro 25 de Abril, que as pessoas não dão valor ao que muitos tiveram de dar a vida para eles ter: a liberdade. Hoje em dia as pessoas banalizam um direito importantíssimo e cada vez menos intervêm politicamente. É verdade que não fazem uso de um direito seu mas há outra coisa que se perdeu e que é também realmente importante.

O 25 de Abril permitiu melhores condições de vida a muitas pessoas que vivam na precariedade durante a ditadura fascista… concedeu a liberdade no seu sentido mais amplo aos mais pobres… foi uma revolução alicerçada em ideais socialistas… ideias esses que se perderam, basta olhara para o dito Partido Socialista, que defende ideais neoliberais, contrários à doutrina socialista Não será essa uma das maiores perdas ao longo destes anos? Um partido com um nome de facha defender algo totalmente divergente da sua raiz? Um partido que deveria de apoiar os pobres e que até agora nada disso tem feito?

Sou a favor de que precisamos de um novo 25 de Abril, mas também precisamos de um novo Partido Socialista… talvez até precisemos de uma nova definição de liberdade, pois, na minha opinião, esta é somente uma utopia… Quem é que, nos dias de hoje pode dizer que é livre?

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Parece que voltei… talvez até com algum texto que vale realmente a pena ler. E estou feliz por Susan Boyle ter ensinado uma grande lição ao mundo inteiro… é uma Boyle e basta!

terça-feira, 31 de março de 2009

Destino (?!)


Desde tenra idade que tenho ouvido nas novelas, séries e outros enredos melodramáticos vindos da Pátria Amada, que o destino (ou se preferirem a vida) é quem faz as coisas acontecerem. Quase como se, à partida, quando nascemos, colocassem o nosso destino no nosso pescoço, delineando logo como será o nosso percurso. É como se fossemos personagens de alguma trama e o nosso caminho já estivesse previamente planejado, sendo todas as nossas tentativas em desviarmo-nos do caminho estipulado, infrutíferas e nos voltassem a colocar de novo no caminho para nós delineado.

Oiço inúmeras vezes os mais velhos dizer, num daqueles seus discursos a roçar o sermão enfadonho, que as coisas acontecem na hora certa, que o que é nosso está guardado. É, às vezes parece que por mais que queiramos fazer as coisas acontecer, elas pura e simplesmente correm ao contrário, somente porque alguém transcendente não quis que assim fosse, quase como se existisse uma entidade paralela que chefia tudo isto, como se fossemos Sims e alguém nos comandasse a seu bel-prazer.

Mas no meio disto tudo, onde é que fica o livre arbítrio? A vontade de cada um? Não dizia Jean-Paul Sartre que o homem está condenado à liberdade? Mas então como é que teremos esse direito de escolha, se à partida já estamos condicionados, na medida em que por mais que tentemos agir, as coisas não darão certo porque não é assim que está estipulado. É como jogar um jogo viciado! Onde estará a famosa liberdade, então?

Uma vez mais, esse filósofo francês que tanto admiro, disse: «o importante não é o aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós». Penso que seja aqui que resida o livre arbítrio. Por vezes, na nossa vida, acontecem coisas que estão fora do nosso alcance, que não temos como explicar, que nos fazem perder a fé e querer desistir. De quem é a culpa? Falta de sorte? Destino? A liberdade reside no facto de cada um poder fazer a escolha a partir de um acontecimento que o destino coloca na sua vida. Nós podemos passar o resto da vida deprimidos ou encontrar forças dentro de nós e seguir em frente. Talvez seja neste sentido que temos a liberdade de escolher.

No fundo acabo percebendo que não somos totalmente donos da nossa vida, somos personagens de algum enredo e temos de agir conforme a história que para nós escreveram. Agora, mais do que nunca, compreendo frases com «não tinha que acontecer», «vai acontecer quando tiver que ser», «o que é teu está guardado» e «foi melhor assim». Mas eu continuo sem perceber a vida… vou-me contentando com mais uma das afirmações do existencialista Sartre: «as questões existenciais nunca terão uma resposta definitiva».

Ps: Meus textos estão perdendo (a pouca) qualidade que tem.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Manifesto anti-neoliberalismo

Desde o início deste tortuoso terceiro ano académico que tenho vindo a ser embriagada por ideias subversivas que contestam o sistema político/económico que temos em vigor nos dias que correm: o neo-liberalismo. De facto, basta olhar em volta para se detestar esta forma de governo oligárquica. O crescente número de desempregados face ao reduzido número de ricos, as multinacionais que exploram as riquezas de outros países, a privatização e o aumento dos cortes em sectores públicos como a saúde e a educação são alguns dos acontecimentos que temos vivenciado desde que, das “cabecinhas luminosas” de Reagan e Tatcher, saiu esta ideia de construir uma forma de governo que tornasse os ricos mais ricos, para que, por sua vez, através deles os pobres pudessem ser menos pobres. Todavia, o contrário tem vindo a acontecer. As desigualdades acentuaram-se e todos os dias somos bombardeados com notícias de fábricas que encerram ou despedimentos que vêem engrossar a lista de desempregados, ou seja, mais gente dependente do Estado.

E por falar em Estado, o neoliberalismo coloca à tona qual deve ser o verdadeiro papel do Estado. Enquanto Constituições de todo o mundo defendem que todos têm direito à saúde, à educação e a todo esse bla bla bla utópico, o neoliberalismo vem defender que o Estado deve intervir o mínimo possível. Vemos, nos dias de hoje, direitos essenciais como a saúde, a educação, a tornarem-se mercadorias onde só quem paga é que pode aceder. A competitividade de que os neoliberais são tão apologistas não é, nada mais, nada menos, do que uma farsa. «É necessário estudar muito, estar preparado para competir com outros indivíduos. Quem tiver melhor preparação académica estará mais apto para ingressar no mercado de trabalho e quem não tem qualificações a culpa é somente sua, porque o governo coloca à sua disposição as formações, os cursos, etc». É esse o discurso que anda pela ordem do dia. Sim, o Governo coloca as formações ao nosso dispor, mas são pagas, e por vezes em quantias exorbitantes, e então como poderá um desempregado aceder a essas formações para arranjar um emprego? O mesmo acontece com a saúde… os nossos direitos essenciais tornaram-se bens mercantis para enriquecer uma classe de parasitas.

Na verdade o neoliberalismo não quer seres humanos porque nele só sobrevive quem tem super-poderes… aqueles que, nada mais tem a fazer, a não ser trabalhar como escravos para acompanhar o ritmo de competitividade tão fomentado. Produzir é a palavra preferida dos burgueses. Vamos produzir objectos de alta-tecnologia, de vanguarda, futuristas… mas como querem que as pessoas os comprem se estas não têm dinheiro para isso? Se as confiam à dependência do Estado, abrindo fábricas em países subdesenvolvidos para explorarem pobres coitados e enriquecer ainda mais? O que mais me entristece é que as pessoas compram sim esses produtos. Cada vez mais existem pessoas dependentes de créditos, que fazem empréstimos quer seja para estudar, quer seja comprar algo, e depois tornam-se dependentes destes modernos agiotas que cobram juros elevadíssimos, daqueles que seriam necessárias duas vidas na Terra para os conseguir pagar. Sim, está tudo perversamente montado.

As privatizações… também as detesto. Concordo que seja necessário existirem empresas privadas, mas será necessário que estas sejam estrangeiras? Será necessário colocar o país em leilão? Ter aqui centenas de multinacionais que exploram os nossos recursos e cujas receitas nem sequer acabam por ficar no nosso país? De facto, estas multinacionais são excelentes empregadoras de mão-de-obra, mas de que valerá isso se no fim acabar-se-ão por mudar para o Bangladesh ou para a China, para explorarem crianças e mulheres por um dólar por dia? Todo esse progresso económico que aparece nos discursos de defensores do neoliberalismo, valerá de muito? Valerá de muito esse desenvolvimento económico em nome do progresso se no final tudo se resume a crises cíclicas cuja guerra se avizinha como única esperança de revigorar uma economia em decadência? Não seria o papel do Estado assegurar o bem-estar comum? E conseguirá dormir descansado um rico empresário cuja incontável fortuna foi adquirida através da exploração laboral? Sou a favor, sim senhor, do enriquecimento através do trabalho, mas somente quando esta fortuna é conseguida de uma maneira justa e não por meio da exploração.

No entanto, tenho a certeza de que todos estes problemas sociais não foram esquecidos por aqueles que fazem esta política oligárquica. O descontentamento de muita gente levou a que se implementassem inúmeras políticas sociais, ditas de esquerda, mas que no fundo são envernizadas com pensamentos de direita. Por isso vemos nos dias de hoje partidos, supostamente, de cariz “socialistas” a adoptarem medidas que fazem o pobre Marx dar voltas no túmulo. Veja-se o caso do Partido Socialista Português! Parece, a muitos, que os neoliberais estão a acordar e finalmente preocupam-se com as pessoas comuns. Será? É cada vez maior a busca de uma Terceira Via que garanta um sincretismo entre o mercado e o Estado promotor do bem-estar social. Deve ser por isso que se fala tanto em dar oportunidade a todos… balelas… toda essa preocupação é maquilhada, na verdade, com interesses económicos e egoístas de enriquecimento burguês.

Porém, não é só necessário criticar este sistema inseguro, é necessário fazer propostas e encontrar possíveis soluções. É certo e sabido que concordo com muitas das teorias socialistas de Marx, embora discorde exactamente no mesmo ponto que Bernstein discordou. Como li na Wikipedia: “Bernstein defendia a melhoria gradual e constante das condições de vida dos trabalhadores (dar-lhes meios para ascender à classe média), tinha dúvidas quanto à necessidade de nacionalizações em massa de empresas e recusava a via da violência revolucionária para atingir o socialismo (como o socialismo era inevitável por motivos morais, não era necessário derramar sangue por ele − acabaria por chegar um dia). Vimos isso em muitos países europeus, depois da Segunda Guerra Mundial. Países como o Reino Unido que abraçaram a ideologia Social-Democrata. O famoso Estado Providência assegurava o bem-estar social “do berço à sepultura”, podemos vê-lo isso… basta falar com muitos ingleses para saber que os anos que procederam à guerra, até à crise petrolífera de 70, que estes foram os anos gloriosos. As nações escandinavas levaram esse modelo ao extremo e basta reparar que eles têm dos níveis de vida mais elevados do mundo. É necessária, sim, uma intervenção do Estado para assegurar o bem-estar comum. O livre mercado, defendido pelos liberais, é uma utopia, pois sem controlo este mesmo mercado acaba por violar direitos humanos, recorre à exploração infantil. Sem controlo quem detém o poder deste mercado pode fazer o que bem entender sem ter de prestar contas por isso. Quem critica este modelo, afirma que ele é paternalista demais, que deixa as pessoas dependentes do Estado e que sobrecarrega este mesmo Estado. Porém, eu acredito que mais vale um pai super-protector do que um cruel padrasto como o neo-liberalismo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O que veio primeiro, a economia ou a política?


“Economia é a arma. Política é saber quando se deve apertar o gatilho” – Michael Corleone

Hurra, voltei! Parece que a minha vontade de escrever foi mais forte que a minha pseudo-misantropia, portanto cá estou eu com a cabeça fervilhando de ideias. Mas pulando esta parte enfadonha que envolve a minha vida pessoal mais atribulada que um melodrama latino, hoje, na minha aula de Políticos Sócio-Educativas no Contexto Europeu (sim, eu tenho disciplinas super interessantes) e enquanto enumerávamos aquilo que compõe a política, e então a professora disse que a política é que define a economia, mas eu dei por mim a pensar: será mesmo assim? Ou será que é a economia que define a política?

Quando estava no carro com a minha tia e conversávamos sobre as eleições americanas, manifestei a opinião de que talvez o Obama seja eleito, então a minha tia disse: «Será eleito? Será eleito se deixarem? Quem manda são os grandes homens de negócios». E eu penso que assim seja. Quem é têm mais dinheiro? Quem é que comanda os sectores mais importantes da economia? Claro está que são os homens de negócios ( e também já está mais do que provado que os negócios funcionam melhor quando entregues a entidades privadas). Com tanto poder, obviamente que eles podem comandar o país e definir qual a política que mais os convém. E nisto pergunto-me então: será que valemos alguma coisa no meio deste jogo todo? Será que aquele que elegemos não passa de um marionete nas mãos dos grandes homens de negócios. O mundo moderno é mais complexo do que eu poderia imaginar! Alguém que não é a favor desta minha opinião? Aceitam-se contraposições...

Ps: Eu sei que não é dos melhores regressos, mas enfim....

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Medo da Morte


Consta que uma vez Epicuro disse:

“Porque é que haveríamos de ter medo da morte? Porque enquanto existimos, a morte não está aqui, e logo que ela vem, nós não existimos”.

Mas ainda assim, acho que é humanamente normal sentir medo da morte. Quantos de nós já não pensou como seria a nossa vida se algum ente querido falecesse? Outros menos receosos podem dizer que o que os assusta é o modo como irão morrer e todos preferem que seja com o mínimo de sofrimento possível. E depois há aqueles como eu, cuja vida é ainda um esboço e não querem morrer deixando este retrato inacabado, que ainda tem muitos sonhos para realizar e não querem morrer sem conhecer as coisas deste mundo fora…

E ainda que digam que a morte é a libertação deste mundo cão, é impossível não ter medo, nem que seja do desconhecido, do que estará para lá da luzinha ao fim do túnel e então penso que Epicuro está errado… vivemos sempre com medo da única certeza que temos nesta vida: a morte.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Lei da Oferta e da Procura

Ok, devo ir escrever agora um perfeito disparate. A verdade é que não sou grande entendida em Economia. Gosto de ler e debater certas ideias e talvez por isso estou aqui disposta a partilhar com os prezados leitores esta minha teorizinha e de modo a aprender algo, também.

Num dos almoços comuns com a minha tia (obs: tenho várias tias, Letícia, mas a tia de quem sempre falo é a minha tia Amélia) falávamos sobre negócios e a dada altura, e sem nos apercebermos, a conversa foi dar a famosa lei da oferta e da procura. Esta famosa lei é a relação que se estabelece entre a procura a determinado produto e o preço que se oferece por este. Ou seja, quando o produto é mais procurado, o preço deste tende a aumentar.

Ao analisar isto mediante a minha lógica, concluí que talvez a lei esteja ao contrário, porque o produto devia de ser mais barato quando é mais procurado, assim podemos garantir que é mais vendido, afinal, mais vale vender muito mas barato, a um preço que seja acessível, do que pouco a um preço elevado. E quando o preço aumenta, o que acontece é que o poder de compra nem sempre o acompanha, ou seja, o poder de compra diminui e há uma “superprodução”, não é possível vender tudo o que se produziu.

Analisando isto a partir de um exemplo: O antigo cabeleireiro onde eu ia tinha preço em conta, mas à medida que a sua clientela foi aumentado, ele aumentou também os preços, o que levou a que muitas pessoas optassem por mudar de cabeleireiro, que procurassem algo mais barato.

Fazer o quê se queremos sempre o mais barato? Eu sou da opinião que esta lei da oferta e da procura está um pouco errada, mas estou aberta a ouvir a opinião dos leitores, embora o mais provável é vocês pensarem, depois de ler este texto: “Camilla, nunca penses em abrir um negócio!” Hehehe
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quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Origem do Mundo - Filosofia Barata no Carro


Ler “O Mundo de Sofia” deu completamente a volta aos meus miolos. Ter um melhor amigo que adora filosofia e é um admirador afincado de Jean Paul Sartre também. E para finalizar, uma mãe que acha que Deus explica tudo pode-se dizer que é a cereja em cima de tamanha insanidade que daqui provém. Duas pessoas com visões opostas sobre o mundo e uma jovem que vive incansavelmente procurando por respostas dá no que pensar. Por isso é que estas viagens de carro são tão interessantes. Por isso é que escrevi este texto. Algumas coisas aconteceram, outras não, outras são mistura com episódios anteriormente vividos, são aqueles pequenos toques que fazem o escritor sorrir interiormente…

— Peço imensa desculpa por lhe estar a dar este incómodo, tia Telma, mas o meu carro só volta do mecânico na terça-feira — desculpou-se Gustavo enquanto eles entravam no carro.

A mãe de Camila, uma senhora de aparência jovem apesar da idade com que já contava preparava-se para levar a filha e o melhor amigo dela à praia. Era um solarengo dia de Verão, com um sol abrasador que convidada a um refúgio fresco. Camila envergava um vestido branco e trazia consigo uma pequena sacola de praia, enquanto o jovem Gustavo, com os seus calções de banho e uma T-shirt, carregava às costas uma mochila vermelha e nas mãos segurava cuidadosamente a sua preciosa máquina fotográfica.

Entraram no carro e passaram os primeiros minutos conversando sobre os adereços espalhafatosos que os turistas usavam. Telma gostava muito do jovem, conquanto ainda olhasse com alguma apreensão para o piercing que ele tinha no lábio ou para o seu braço direito totalmente tatuado, à parte do seu visual que relembra um guitarrista de uma banda de rock, Gustavo era um jovem excêntrico e dotado de uma inteligência admirável.

— Gus, amanhã temos que ir comer a este novo restaurante mexicano que abriu — Camilla anunciou. — Dizem que a comida é boa…

— Ah, então já não ‘tás mais com intenções de pegar a mochila às costas e fugir? — indagou Telma, ainda que com algum sarcasmo na voz.

O silêncio reinou. Não foi preciso Camilla dizer nada para Gustavo perceber que ela não gostara nada daquela pergunta, há pessoas que se compreendem tão bem que um simples olhar serve para espelhar o que vai na alma e entre estes dois assim o era, já se conheciam há tempo suficiente.

— Temos andado a pensar nisso — respondeu ele para dar uma ajuda. — Num futuro próximo, talvez…

— Eu não me importo que viajem — revelou Telma. — Desde que a Camilla não use isso como fuga, aliás, nem sei do que é que ela pode querer fugir… ela tem tudo, quando eu tinha a idade dela não tinha nem metade das coisas que ela tem e ainda assim queixa-se… — olhou para a filha que roía impacientemente as unhas como sempre fazia quando se achava nervosa. — Camilla, tu podias morar no paraíso que mesmo assim ias-te queixar! O que queres, afinal?

— O paraíso é uma seca — brincou Gustavo. — Um sítio onde tudo é perfeito, não há acção nem vícios e não temos nada para satirizar — bocejou teatralmente — boring! — Gustavo é irlandês. — Pelo menos, Adão e Eva só conseguiram ser felizes quando foram expulsos de lá…

Camilla riu da audácia dele, mas tanto quanto sabia, a sua mãe, religiosa como era, não deveria de ter gostado muito da piada sobre Adão e Eva e por isso decidiu falar.

— Eu não me ‘tou a queixar de nada! Eu só queria compreender a vida. Saber a razão porque estamos aqui, qual o nosso objectivo, qual o objectivo da nossa existência…

A mãe dela esbugalhou os olhos de tal maneira como se a sua filha tivesse acabado de revelar que sofria de alguma doença perigosa.

— O homem que pensou isso acabou ficando louco — disse ela, preocupada. No banco de trás Gustavo sufocou o riso. — Camilla, vive a vida um dia de cada vez e não penses tanto nessas perguntas porque vais ‘tar perdendo o teu tempo com coisas que nunca vais conseguir compreender… a vida foi feita p’ra ser vivida e não p’ra ser entendida…

— Bem, o Sartre poderia simplificar isso com o seu existencialismo — entreviu Gustavo, empolgado, dado o facto de ser um grande admirador do filósofo em questão. — Somos nós que damos significado à nossa vida. “Existir é criar a nossa própria existência”, não está escrito em nenhum livro como é que tens de existir, és tu que realizas esse filme e vives a tua vida em função dos teus objectivos e sonhos.

— Parece interessante — disse Camilla. — Eu sei que é assim, mas às vezes dou por mim a pensar involuntariamente nisto, em porque motivo a vida é assim, porque existimos, porquê isto… porquê aquilo…

Telma suspirou.

— Bem que diziam que ia chegar uma altura em que as pessoas iam-se começar a questionar sobre tudo, sem fé, achando que a vida não tem mais sentido…

Gustavo desta vez teve que tossir para disfarçar o riso mas Telma percebeu.

— Não acreditas em Deus, pois não, Gustavo?

— Eu não sou ateu, não. Sou agnóstico. Não acredito em nada como fazem os ateus mas também não acredito em tudo como os crentes. Acho um pouco impossível provar que Deus existe ou não, é uma questão de fé, é preciso acreditar cegamente em algo mas nunca podemos confiar totalmente em alguma coisa porque…

— Não existem verdades absolutas — finalizou Camilla com um sorriso.

In deed — ele retribuiu o sorriso.

— Como é que não acreditas em Deus? — Telma parecia escandalizada. — Como é que explicas, então, o facto de existir o mundo?

Well, não lhe posso responder a isso, há séculos que se procura essa resposta mas nunca ninguém a encontrou, faz parte da caixinha de perguntas sem resposta… Mas seguindo a lógica de que Deus criou o mundo, às tantas temos que nos perguntar «então quem criou Deus?» «Será que Deus se criou a si mesmo?» «Ou terá sido Deus a criação dos humanos?». Sabe, é que desde o tempo dos homens das cavernas que há necessidade de se explicar os fenómenos da natureza e a razão de existirmos e as pessoas começaram a criar histórias sobre isso, os tais mitos e lendas, e quando não conhecemos algo e contam-nos uma história sobre isso acabamos por acreditar, não é assim, basta termos fé nisso. Podemos acreditar nas histórias que nos contam sobre isso, mas custa-me também a acreditar que nascemos todos de Adão e Eva e na história de mares que se abrem ao meio ou arcas com animaizinhos, parece digno do “Senhor dos Anéis”. However, pensar que descendemos dos macacos também é um pouco duvidoso, ‘tá bem que anda por aí gente que parece chimpanzé ou gorila — Camilla riu do gracejo. — Mas então e os que ainda ‘tão na selva, são homens que ainda estão por evoluir? Sim, são duas teorias complicadas e então podemos dizer que o mundo sempre existiu, mas como é que uma coisa pode existir desde sempre sem ter tido um começo? E se o mundo tem um início, como é que surgiu? Do nada? Mas alguma poisa pode surgir do nada?... — fez uma pausa. — Dá que pensar…

Ela sentiu vontade de aplaudir o discurso, mas a sua mãe não parecia muito convencida.

— Eu acredito em Deus — disse Camilla. — Mas não acredito nas Igrejas. Acho que as igrejas usam Ele para poder controlar as pessoas. É preciso ter fé e acreditar em algo transcendente, temos essa necessidade de procurar algo em que acreditar, mas até disso servem para nos manipular, a maior parte das coisas que a Igreja diz que não devemos fazer são só para manter a ordem social. Tenho fé sim, porque é preciso ter algo em que acreditar, apesar de não existirem verdades absolutas. Eu sinto, por vezes, que a vida é muito mais do que estes vícios e virtudes que temos aqui na terra, sabes, que há algo mais, e certos fenómenos mostram que existe algo mais para além daquilo que realmente vemos…

— Isto aqui é só uma passagem — acrescentou Telma. — É importante ter algo em que acreditar, deve ser vazia a vida de alguém que não acredita em nada, apesar de tu, Gustavo, também não acreditares em tudo, mas isto aqui é só uma passagem, temos felicidades, provações, que nos ajudam a preparar para a vida que teremos depois, de que adianta essa vida curta se teremos a eternidade para encontrar essas resposta…

Parecia algo romântica aquela frase, todavia, transmitia alguma esperança, pensar que para além da vida mundana haveria algo mais esperando-os e que então talvez algumas perguntas teriam respostas ou então o ser humano estaria assim, predestinado a procurar incansavelmente essas respostas. Não era uma verdade e tampouco uma mentira, pelo menos, ainda ninguém havia regressado à vida para provar o contrário.

Tinham conversado tanto sobre aquilo que nem se aperceberam que haviam chegado à praia. Telma estacionou num lugar estratégico para deixar sair a sua filha e o jovem amigo.

— Vá, vão lá — ela disse. — E não pensem nisso. Vivam um dia de cada vez. O segredo da vida é vivê-la, é por isso que aqui estamos. E nunca perder a fé, porque se acreditar-mos muito numa coisa acreditem que ela acontece mesmo.

— OK — anuiu Gustavo. — Nós vamos viver o momento e comportarmo-nos como pessoas normais da nossa idade.

— Não era mau pensado — riu Telma. — Vocês precisam é de ocupar as vossas cabeças com outras coisas! A tua namorada, Gustavo?

Gustavo encolheu os ombros. — Acabámos! Fartei-me! Era fácil demais!

Telma riu.

— O Gustavo é um diletante até na hora de amar — brincou Camilla enquanto saía do carro, mas tanto quanto podia ver pela cara da sua mãe, ela não tinha percebido bem o que isso era.

Eles despediram-se e ela arrancou com o carro, deixando-os ali junto dos turistas que se encaminhavam para a praia com as suas roupas espalhafatosas e deixando atrás de si o aroma de protector solar.

— O quê é que é um diletante? — questionou Gustavo arqueando o sobrolho.

Foi a vez de Camilla olhar para ele com a sobrancelha arqueada.

— Um diletante é alguém que se apaixona por um assunto, pesquisa sobre ele e do nada desiste e interessa-se por outra coisa totalmente diferente. São pessoas que se interessam por arte, mas de uma forma ligeira, não querem aprofundar tanto como os especialistas nessa arte, porque acham que a arte é um prazer e não um trabalho… Já sabes como é que isso pode ser utilizado na hora de amar — Camilla estacou à frente dele com um sorriso de escárnio. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ele fez-lhe um gesto obsceno com os dedos e aproximou-se de umas flores que se achavam num canteiro junto a um café com a máquina fotográfica a postos. Camilla, por sua vez, inspirou com emoção e olhou em volta, vendo as pessoas caminhando, os pássaros que chilreavam e lá ao fundo um tapete azul ao qual chamamos mar.

— Como é que as pessoas vivem sem nunca se perguntarem como é que isto tudo surgiu? — suspirou ela.

— Acabaram-se acostumando ao mundo — respondeu ele examinando de perto as flores. — Não se deixam surpreender com coisas banais como a razão para a galinha cacarejar ou andarmos em duas patas, só iriam estranhar se vissem uma vaca a andar em duas patas ou a bronzear-se na praia, apesar de existirem muitas vacas que fazem isso — satirizou ele novamente. — È essa a diferença entre as pessoas normais e os filósofos ou pessoas como nós. Somos como crianças que ainda se surpreendem com coisas óbvias.

— Graças a Deus que nasci assim, então! A vida das pessoas normais deve ser uma seca autêntica!

— O importante é que são felizes… vivem para o momento, não ficam com cabelos brancos de tanto pensar.

— Mas diz-me, Gus, como é que eu faço p’ra deixar de pensar nessas coisas se no fundo tenho algo dentro de mim que acaba sempre por fazer essas perguntas sem eu querer?

— Não podes lutar contra a tua natureza, és assim e ainda bem, mas também tens que perceber que há limites para o conhecimento e que não podes saber toda a verdade sobre o universo e a vida… Tens que ler Kant ou Sartre… como ele diz, as verdades existenciais nunca terão uma resposta definida… — disparou o flash da máquina e ficou algum tempo a olhar a foto que tirara. — Anda cá ver a foto que tirei!

Ela aproximou-se e viu somente um malmequer.

— É só uma flor, Gus!

Ele olhou para ela com uma mescla de riso e de seriedade.

— É só uma flor, sim, mas se fizer zoom — e fez zoom com a máquina e o ecrã da máquina acabou por se centrar numa joaninha que estava no caule do malmequer, fazia um contraste engraçado e era até uma foto bonita, Camilla teve de admitir. — Tão inteligente para umas coisas e para outras…

Ela riu, mas nem lhe respondeu nada, simplesmente deu-lhe um beijo na bochecha gorducha, agradecendo-lhe. Havia coisas que davam significado à vida, e uma boa amizade era sem dúvida uma delas… Ele sorriu… mas foram interrompidos por um grupo de velhotas inglesas com chapéus exóticos, rostinho bonacheirão que davam risadinhas enquanto olhavam para eles e diziam:

So cutes!

sábado, 12 de julho de 2008

Regresso à natureza


“O estribilho "regresso à natureza!" provém de Jean-Jacques Rousseau. Ele explicou que a natureza era boa e por isso o homem também era bom "por natureza". Todo o mal residia na sociedade civilizada que afastava o homem da sua natureza. Por isso, Rousseau queria também deixar viver as crianças no seu estado "natural" de inocência tanto tempo quanto possível”

In O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder

Tenho de concordar. Digamos que a vida em sociedade está mais carregada de vícios do que propriamente de virtudes. Certa vez passei de carro por um acampamento cigano e a minha mãe disse: «Os ciganos podem ser o que for mas nunca ouves falar de pedofilia entre eles, são muito mais civilizados que muito homem de gravata». Mais uma vez tenho de concordar, é curioso que aqueles a quem os homens civilizados chamam de “selvagens” são os que têm comportamentos mais correctos. Os índios não conhecem a corrupção, a pedofilia, a violência doméstica, o vício de estupefacientes e nem cometem crimes psicóticos daqueles que achamos que só acontecem no CSI. Então penso, de que adianta todo esse progresso do homem se no fundo ele acaba por aniquilar a “bondade” com que nasceu. Sabem, custa-me um pouco a acreditar que uma pessoa já nasce com um cérebro mal formado e uma predisposição para o cometer actos hediondos. Talvez prefira ser ingénua e pensar que a maldade é algo que o indivíduo adquire ao longo da vida, porque nascer com ela, é assustador.

Sabem, sou muito mente aberta, mas quando se trata de progresso tecnológico, sou algo que “conservadora”. De que adianta o homem inventar tanta tecnologia para acabar escravo dela e totalmente dependente, tornando cada vez mais comodista. Será verdadeiramente importante um MP3 com GPS, câmara de filmar e que faça torradas tudo incorporado? No fundo acho que esta tecnologia toda acaba por corromper o homem. Pensemos que muitos dos crimes que se cometem agora são muito piores do que se cometiam há séculos atrás. Bom, tirando é claro o período Romano e o Período da Inquisição. Acho que estou a começar a acreditar no Huxley quando escreveu o “Admirável Mundo Novo”. Acabaremos vítimas do nosso próprio progresso, basta olharmos em volta para constatá-lo.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sentido da vida

“— É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
 Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente aquilo que dá sabor e relevo à vida — a paixão.
— Muitas outras coisas dão valor à vida… Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…
 Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim…
— Creio que não — disse Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato ou sem sabor…
— Resumo: não vale a pena viver…
— Depende inteiramente do estômago! — atalhou Ega.”


(Para quem é novo e ainda não sabe, eu adoro “Os Maias”, tenho o livro sempre presente e consulto-o muitas vezes, como uma Bíblia pessoal. Bendito Eça!)

Sei no que estão a pensar… até parece que esta pobre adolescente de 19 anos está perto de um precipício sem fim, afundada em analgésicos espirituais que lhe permitam abstrair-se desta ignóbil existência humana, procurando um significado para a vida… (choro e violinos de fundo) … bem, a situação não é tão drástica nem tão digna de se tornar um filme francês daqueles que dificilmente percebemos, mas a verdade é que a jovem tem andando a debruçar-se sobre o significado da vida.

Sabem quando têm aquelas crises existenciais e se deparam com o facto da vida ser inutilmente banal? É assim que tenho me sentido… Penso que adianta a viver se a vida é somente uma passagem e daqui nada levamos, no fundo, que fazemos aqui, qual o nosso papel?

E o que dará verdadeiro sabor à vida? Será um amor? Uma conta choruda? Uma pequena alegria… já está mais do que provado que tudo é efémero e que não nos contenta, então o que dará o verdadeiro sabor à vida?

Falando especificamente no meu caso, por vezes viver irrita-me (estejam descansados, não ando com pensamentos suicidas nem nada que se assemelhe) … sabem quando a vida começa a cair na mesmice e a roçar o banal? Parece que busco sempre algo mais que não sei concretamente o que é, como diria Lispector «Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome» … e eis que me sinto amputada por uma força maior que não me permite procurar a resposta para a razão da minha existência… somos constantemente condicionados e no fundo vivemos em função daquilo que esperam de nós… a realidade que vivo sacia este meu desejo cada vez menos… busco algo mais que não sei concretamente o que é… enfado-me com as conversas banais da humanidade… dou bocejos por entre os «ai, aquele rapaz é tão giro» e o «’tou a pensar seriamente em tirar a carta de condução», pensando que a vida é muito mais do que esta mundaneidade, muito mais do que um namoro feliz, do que uma lista de planos, do que uma conversa trivial sobre o historial de uma semana enfadonha… tenho uma sede infindável, uma curiosidade fervilhante de descobrir algo novo, de debater sobre literatura, artes, cinema, filosofia, política… de procurar novos horizontes… de enriquecer a minha bagagem cultural e masturbar-me mentalmente… a minha incapacidade e intolerância perante temas comuns da existência humana dificultam-me a vida e impedem-me de manter uma conversa com pessoas ditas “normais”… pura e simplesmente aborrece-me os temas comuns das conversas humanas… busco mais e se a vida humana se resume a um namoro feliz que resultará num casamento ainda mais feliz, com reuniões aos domingos com churrasco, cervejas, risadas e um escândalo no final da festa… num emprego odioso, numa conversa de mal dizer sobre o que a vizinha trazia vestido na semana passada… ah, então abnego-me de tudo, porque a existência humana tem que ser algo mais do que isto… será este o sentido da vida para grande maioria da população? Abnego-me!!! Quero mais do que isto…. Quero saber o que dará o verdadeiro sentido à vida!!! Quero algo que não sei!!!

Ps: Este texto faz algum sentido???

Notas finais: Hoje fui ao oftalmologista e consta que a minha vista piorou, além do que agora descobri que tenho miopia. Ler e escrever são os meus dois maiores vícios, mas porém fizeram com que a minha vista piorasse… ora então porquê que todo o acontecimento tem que ter os dois lados? O bom e o mau? Não quero acabar usando óculos de fundo de garrafa!!! Ó existência humana!!!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Escolhas


"São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades" - Albus Dumbledore

Fugindo um pouco ao usual deste blog resolvi postar esta foto, tirada à saída do Complexo Pedagógico da minha Universidade (sim, essa magrela da foto sou eu). Essa obra de arte foi feita pelos alunos de Artes Visuais (o curso rival do meu Amor Platónico). Simplesmente amei o resultado da foto! A vida nos dá vários caminhos e serão os percursos que a gente tomar que irão definir quem nós realmente somos... mas às vezes é tão complicado! Porque acabamos por constatar qual seria o caminho certo muito depois de já estarmos em outro percurso: "Quando achamos que temos todas as respostas vêem a vida e muda todas as perguntas"... Mas acreditam que tem a sua piada cometer erros? Porque seguindo sempre no caminho certo deve ser algo enfadonho... Sim, não deve ser muito alegre a vida daqueles que se guiam sempre pela razão, esforçando-se por não sair dos limites impostos... há por aí tantos erros para se cometer...


Ps: Já só falta uma semana de aulas e estes próximos dias vão ser vividos com os nervos em franja, por isso talvez me ausente um pouco do mundo virtual, até porque ainda tenho outro Admirável Mundo para ler (o mundo do Huxley), mas voltarei, em princípio, depois de dia 20 (a menos que o meu cérebro queira mesmo deitar algo cá para fora) e colocarei a leitura dos blogs em dia.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Preconceitos


"Não tenho preconceitos raciais. Não tenho preconceitos religiosos. Não tenho preconceitos culturais. Posso adaptar-me a qualquer sociedade. A única coisa que me interessa é que o Homem é um Ser Humano - isso é o suficiente para mim - ele não pode ser pior do que isso".



Mark Twain


segunda-feira, 19 de maio de 2008

Os números santificam...

Voltei (sim, ela está viva). Estive fora da blogsfera durante uns tempos devido à famosa semana dos universitários: a Semana Académica. Álcool, concertos, convívio, a formatura dos mais velhos... a vida é fantástica quando se tem 19 anos...!

Os números santificam, ora vejam só:


"A morte de uma pessoa é uma tragédia. A de milhões, uma estatística" - Estaline

"Uma morte faz um assassino, milhões fazem um herói" - Monsieur Verdoux [filme do Charlie Chaplin]


Sim, os números acabam mesmo por santificar. Estas duas citações fazem-me pensar que por vezes a vida humana não é tão valorizada quanto devia. Já dizia o meu professor de História: «nós somos números»... sim, números, estatísticas, taxas... que Admirável!
Sim, o post está uma miséria (para não usar outra palavra que começa por «m» e acaba em «a»), mas a falta de tempo e de inspiração é revoltante...

sábado, 19 de abril de 2008

Já dizia Proudhon...

"Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude... Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos e anotada, registrada, catalogado em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade publica e do bem comum. Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados. Isso é o governo, essa é a sua justica e sua moralidade! ... Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar a tamanha sujeiçao durante sessenta seculos?" - Pierre Joseph Proudhon

Como me idenfico com esta ideologia! Como detesto ser controlada! Como detesto aquilo em que o mundo está se tornando! Por vezes quando viajo de autocarro (ônibus, se preferirem), fico pensando como seria o mundo se as coisas tivessem evoluído de maneira diferente, senão houvesse dinheiro, se as pessoas não estivessem que estar sempre lutando para conseguir ter algo melhor do que outro... e então vocês respondem: «seria um caos total». Sim, e olham para mim com uma expressão de comiseração e dizem «isso é da idade, quando chegares aos 40 anos já não pensas assim». Não, meus amigos! Detesto controlo, detesto manipulação, repreesão e todas as outras armas que a sociedade usa para nos condicionar... quero liberdade plena!!! Senão pego em mim e fujo para o Alaska como fez o Chris McCandless (para entenderem a piada leiam "O Lado Selvagem"). O mundo poderia ter sido diferente, poderia ter sido verdadeiramente Admirável... pelo menos quando fecho os olhos para mim ainda é...

* Anarchy for free humanity *

Ps: Preciso urgentemente de ler "A Utopia" do Thomas Moore

sexta-feira, 28 de março de 2008

Conquistas e Derrotas

Certa vez estava lendo um policial da Agatha Christie quando encontrei a seguinte citação:

“As pessoas revoltadas com o mundo são sempre perigosas. Parecem pensar que a vida está em dívida para com elas”.

Coleccionei a citação, afinal é a mais pura verdade. Foi retirada de uma das histórias em que entra a Miss Marple, e verdade seja dita, esta velha solteirona tem um profundo conhecimento da natureza humana.

Esta citação pôs-me a pensar em inúmeras coisas e a concluir que efectivamente as pessoas revoltadas são perigosas. Que serão os ladrões, os assassinos, senão pessoas revoltadas? E porque serão eles revoltadas? Porque a vida não lhes sorriu? Talvez por inúmeros motivos… porém também me ensinaram que não devemos julgar os outros.

Uma vez, quando fui visitar uma das minhas tias a um bairro social, estava na companhia da minha tia Amélia, notámos que os prédios estavam maltratados, cheios de graffitis, escadas partidas, etc. Então a minha tia disse-me «já viste como as coisas são? Deram-lhes casa e vê como eles tratam as coisas? As coisas quando são oferecidas muito raramente são estimadas. Como eles não souberam o que custou lutar para ter a casa, tratam as coisas assim. A tua mãe faz isso com a casa?». Ao comparar o que a minha tia disse com a realidade, apercebi-me que ela tinha razão. Pensei então que a Segurança Social tende a cometer um erro crasso. Acho que em vez de darem “esmolas” às pessoas, deviam de arranjar empregos para que elas por si mesmas possam fazer as suas conquistas.

Anteriormente eu pensava que as riquezas deviam de ser divididas, que não deviam de existir ricos e que todos deviam de ter as mesmas coisas… mas agora que cresci passei a ver as coisas de maneira diferente e digamos que em parte a minha tia ajudou. Se os ricos são hoje ricos foi porque lutaram por isso. Eu pensava que a herança era um roubo, tal como dizia o Proudhon, porém, se o meu pai trabalhou toda a vida, eu seguramente que devo ter direito a herdar a fortuna que ele arduamente batalhou para ter. E as pessoas que nada têm? Para essas acredito que devam existir apoios, mas no sentido de as dotar de condições para que elas por si só consigam as coisas… uma vez o Seu Madruga, no programa do Chaves, disse: «Dar acostuma as pessoas à vadiagem». E o que pode ser mais delicioso do que o sabor da vitória? Lembro-me de como me sentia alegre quando no final do mês recebia o meu salário, o fruto do meu trabalho… era muito bom, e eu passei a valorizar as coisas que tinha porque sabia o quanto me custou para ter aquele dinheiro… E então, uma vez enquanto conversava com a minha tia sobre o comunismo, em que todos trabalhamos para o bem da comunidade, a minha tia me disse: «Então e diz-me lá porque que eu tenho de trabalhar para sustentar «aquele» se «ele» não quer trabalhar? Porquê que ele tem de ganhar o mesmo que eu se não faz nada». E uma vez mais a minha tia tinha razão, cada um deve receber mediante o trabalho que faz.

A vida é engraçada, e eu gosto por vezes de a comparar ao jogo do Super Mário. O jogo não teria piada se o Mário não tivesse que enfrentar tantos obstáculos para salvar a princesa… confesso que às vezes o jogo me enervava porque parecia que eu nunca mais chegava ao fim, mas no final sabia sempre bem passar mais um nível e saber que estava cada vez mais perto de salvar a princesa. E a vida é assim… que graça ela teria se fosse tudo tão fácil? A minha mãe até me disse uma vez: «Olha para os filhos dos «ricos», vê a Britney Spears, vê como ela está agora… a maioria acaba tudo na droga ou com os problemas que ela tem agora justamente por isso… porque conseguiram as coisas facilmente, porque não sabem o que é lutar para ter as coisas, têm tudo fácil e parece que para eles a vida não têm qualquer sentido».

E o que isto tem a ver com as pessoas revoltadas? Existem aquelas pessoas que sempre reclamam da vida e nada fazem para remediar… queixar é sempre mais fácil, dá menos trabalhos mas nada resolve… como eu ouvi uma vez numa música dos Racionais Mc’s «onde estiver seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce flor». E foi como me ensinaram… sempre que a vida não estiver a nosso favor, devemos de lutar, ter fé, e nunca desistir, porque «o sofrimento alimenta mais a coragem».

E como Agatha Christie uma vez afirmou:

"Eu gosto de viver! Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar viva é sensacional!"