“— É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente aquilo que dá sabor e relevo à vida — a paixão.
— Muitas outras coisas dão valor à vida… Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim…
— Creio que não — disse Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato ou sem sabor…
— Resumo: não vale a pena viver…
— Depende inteiramente do estômago! — atalhou Ega.”
(Para quem é novo e ainda não sabe, eu adoro “Os Maias”, tenho o livro sempre presente e consulto-o muitas vezes, como uma Bíblia pessoal. Bendito Eça!)
Sei no que estão a pensar… até parece que esta pobre adolescente de 19 anos está perto de um precipício sem fim, afundada em analgésicos espirituais que lhe permitam abstrair-se desta ignóbil existência humana, procurando um significado para a vida… (choro e violinos de fundo) … bem, a situação não é tão drástica nem tão digna de se tornar um filme francês daqueles que dificilmente percebemos, mas a verdade é que a jovem tem andando a debruçar-se sobre o significado da vida.
Sabem quando têm aquelas crises existenciais e se deparam com o facto da vida ser inutilmente banal? É assim que tenho me sentido… Penso que adianta a viver se a vida é somente uma passagem e daqui nada levamos, no fundo, que fazemos aqui, qual o nosso papel?
E o que dará verdadeiro sabor à vida? Será um amor? Uma conta choruda? Uma pequena alegria… já está mais do que provado que tudo é efémero e que não nos contenta, então o que dará o verdadeiro sabor à vida?
Falando especificamente no meu caso, por vezes viver irrita-me (estejam descansados, não ando com pensamentos suicidas nem nada que se assemelhe) … sabem quando a vida começa a cair na mesmice e a roçar o banal? Parece que busco sempre algo mais que não sei concretamente o que é, como diria Lispector «Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome» … e eis que me sinto amputada por uma força maior que não me permite procurar a resposta para a razão da minha existência… somos constantemente condicionados e no fundo vivemos em função daquilo que esperam de nós… a realidade que vivo sacia este meu desejo cada vez menos… busco algo mais que não sei concretamente o que é… enfado-me com as conversas banais da humanidade… dou bocejos por entre os «ai, aquele rapaz é tão giro» e o «’tou a pensar seriamente em tirar a carta de condução», pensando que a vida é muito mais do que esta mundaneidade, muito mais do que um namoro feliz, do que uma lista de planos, do que uma conversa trivial sobre o historial de uma semana enfadonha… tenho uma sede infindável, uma curiosidade fervilhante de descobrir algo novo, de debater sobre literatura, artes, cinema, filosofia, política… de procurar novos horizontes… de enriquecer a minha bagagem cultural e masturbar-me mentalmente… a minha incapacidade e intolerância perante temas comuns da existência humana dificultam-me a vida e impedem-me de manter uma conversa com pessoas ditas “normais”… pura e simplesmente aborrece-me os temas comuns das conversas humanas… busco mais e se a vida humana se resume a um namoro feliz que resultará num casamento ainda mais feliz, com reuniões aos domingos com churrasco, cervejas, risadas e um escândalo no final da festa… num emprego odioso, numa conversa de mal dizer sobre o que a vizinha trazia vestido na semana passada… ah, então abnego-me de tudo, porque a existência humana tem que ser algo mais do que isto… será este o sentido da vida para grande maioria da população? Abnego-me!!! Quero mais do que isto…. Quero saber o que dará o verdadeiro sentido à vida!!! Quero algo que não sei!!!
Ps: Este texto faz algum sentido???
Notas finais: Hoje fui ao oftalmologista e consta que a minha vista piorou, além do que agora descobri que tenho miopia. Ler e escrever são os meus dois maiores vícios, mas porém fizeram com que a minha vista piorasse… ora então porquê que todo o acontecimento tem que ter os dois lados? O bom e o mau? Não quero acabar usando óculos de fundo de garrafa!!! Ó existência humana!!!


6 comentários:
O texto roça o existencialismo, sra. De Beavouir.
Gostei do texto. Somos nos que damos o sentido à vida, naquilo que buscamos e quando nao se sabe o que se procura, inventa-se (és perita nisso, pah!) Queres discutir ainda mais filosifia e arte do que já discutimos! Louvada genia incompreendida, mas eu entendo, às vezes até eu me farto do mundo, por isso que vivemos num mundo à parte!
Le tigre dá uma alegria ao teu blog!!!
Mas sabes o que acho engraçado? Detestas a banalidade mas escreves sobre situaçoes comuns, mas é incrivel como nos livros tudo se torna mais animador e menos enfadonho
Também gosto de mais Dos Maias. Bem, o ser humano passa a sua existência toda procurando um sentido de vida. Muitos atribuem a religião, outros aos negócios, enfim, cada um busca o que lhe é plausível. Mas acredito que um significado real e definitivo não há, mesmo para aqueles que já tenham certa idade, afinal, enquanto vivemos, estamos em constante aprendizagem, e por conseguite, em constante evolução e mudanças internas. Bjus e bom final de semana.
http://so-pensando.blogspot.com
Menina, hoje, finalmente, sento para comentar o seu post, já que desde domingo anterior estou indo e vindo de hospital por causa de meu sogro.
Então, deparo-me com a questão: qual o verdadeiro sentido da vida!
Hoje vi uma mãe receber a notícia de que o filho não iria sobreviver. E uma outra, que o filho continuaria em coma sabe-se lá até quando. E dois velhinhos, recém-operados, todos felizes, porque as cirurgias foram um sucesso e logo teriam alta.
Qual o verdadeiro sentido da vida?
Meus dois irmãos mais novos morreram - um com 17 anos e outro com 24 anos. E minha avó,que estava adoentada, morreu com 98 anos.
Qual o verdadeiro sentido da vida?
Sabe de uma coisa? Acho que a melhor coisa da vida é viver e saber viver. Experimentar os sabores da vida - doces e amargos e até mesmo os insípidos. É experimentar seus limites e entregar-se àquilo que mais prezamos e amamos - a própria vida.
Beijinhos!
É quando episodios assim que a gente pergunta a nós mesmos qual será o sentido da vida e como a vida é injusta... acho que no fundo a vida foi feita pra ser vivida e não entendida...
Mil e uma informações a sair ao mesmo tempo desse cerebro. Simplesmente, adoro as tuas crises existenciais. <3
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