"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Nós por cá

Peço desculpa, prezados leitores, mas as seguintes palavras, contrariamente às dos outros milhares de portugueses, não é de alegria pelas consecutivas vitórias no Europeu, mas sim de profunda indignação fase à crise que tem vindo a assolar o país.

É certo e sabido que o preço da gasolina anda pela hora da morte e que tende a aumentar cada vez mais... Nos telejornais assistimos a manifestações feitas com o intuito de abaixar estes preços exuberantes, e Portugal seguiu o exemplo... pois bem, o país encontra-se somente há poucos dias em greve de camionistas e a situação já se encontra caótica... Eu, sinceramente, nunca pensei que uma simples greve de camionistas pudesse paralisar o país de tal maneira. Ora bem, consta que com esta greve de camionistas os supermercados não podem mais ser abastecidos... nas prateleiras já se começa a notar a falta de produtos frescos, mães de colegas minhas que trabalham em supermercados hoje não foram para o trabalho porque não havia frutas para reabastecer, supermercados fecharam mais cedo e produtores de leite tiveram que deitar litros de leite fora porque não tinham quem os transportasse para o supermercado (e quem diz leite diz outras coisas também). Então, durante o dia todo só ouvia as pessoas dizendo «É melhor abastecer-me já no supermercado antes que comece a faltar ainda mais produtos». Até me lembrei daqueles filmes americanos em que as pessoas se preparam para a chegada de um tornado... mas o tornado aqui é diferente...

E a crise não fica por aqui... as bombas de gasolina também decidiram vedar o acesso da população ao conhecido “ouro negro”... sim, nestes dias encontrar uma bomba de gasolina aberta é quase como procurar uma agulha num palheiro... as poucas que ainda se mantém abertas estão congestionadas com filas assustadoras... e ainda se despertam os piores sentimentos nas pessoas... têm sido uma briga descomunal para conseguir gasolina para abastecer o carro e consta, até, que duas mulheres andaram a luta para ver quem seria a última a abastecer o seu carro. Até parece a sinopse de um filme de Guerra, mas não, é a mais pura realidade e começa a assustar um bocado... é que o maldito «ouro negro» move a sociedade de tal forma que nunca antes pensara... com os sectores da economia a parar, será que assistiremos a uma futura crise semelhante à de 1929, mas no entanto com proporções ainda mais drásticas?

Impedidos de nos deslocarmos nos nossos transportes e com os produtos das prateleiras a desaparecer a olhos vistos, como ficaremos nós? Acho que esta manifestação é importante para fazer com que os governantes se apercebam que não é espremendo até ao tutano a classe trabalhadora que o país andará para a frente e, apesar de estar a começar a entrar em pânico com esta situação, sou de acordo.

Porém, acham que este assunto anda pela ordem do dia e faz monopolizar os portugueses? Ah, enganam-se, caros leitores... todos os assuntos que não envolvam futebol estão fora de cogitação, pelo menos até acabar o Europeu... afinal, trazer a taça para casa é bem mais importante, não é... Isto tudo do Europeu faz-me pensar em várias coisas... primeiramente, no facto de os portugueses, com o seu pessimismo em relação ao seu país, subitamente demonstrarem um amor enorme à sua bandeira e acreditarem na potencialidade do seu país só porque vêem o Cristiano Ronaldo atrás de uma bola. Conclui-se então que: as novelas e o futebol são os analgésicos para a realidade. E em seguida, por vezes fico estupefacta ao apoio que dão aos jogadores da selecção, chamando-lhes de talentos, estrelas, e todos esses adjectivos queridinhos, em detritemento de grandes génios que o país tem e todos o sabemos. Digam-me lá porquê que o país valoriza tanto um Deco, um Nuno Gomes, um Luís Figo, e não dá mínima atenção ao seu Nobel da Literatura? Sim, meus amigos, os espanhóis valorizam muito mais José Saramago do que o portugueses! Por exemplo, quando houve a inauguração de uma Casa-Museu em honra do escritor, não esteve presente ninguém o seu país! Se ele soubesse rematar à baliza será que seria diferente?! E há uns dias atrás passou a notícia de um garotinho de sensivelmente dez anos que é um pequeno Chopin, um talento do piano, que teve de ir tentar a sua sorte na Noruega porque aqui não lhe valorizavam o talento... será que se fizesse fintas seria idolatrado? E por aí vai...

Pois é, meus amigos, «o povo gosta de pão e circo». O pão já está a começar a faltar nos supermercados mas o importante é que continue a haver circo e de preferência que este não implique muito o uso das células cinzentas...!

5 comentários:

Leticia disse...

Camilla muito boas as suas palavras e tenho certeza q pertinentes com o que acontece por aí.

Infelizmente as minhas são tristes.

Aqui em sua terra natal , tudo é muito parecido : os escandâlos federais são abafados com Pan , Copa do mundo e assim segue...

A questão , em ano de eleição , é : vai haver uma reação efetiva da população?

Dias difícies...

Menina tem presente pra vc lá no meu blog.

Camilla K. Boyle disse...

Ah, se o povo se juntasse todo por causa desta questão como tem se juntado para torcer pela selecção, acredite que isto seria resolvido em três tempos... quem sabe depois do Europeu eles comecem a sentir a fome apertando.

Anónimo disse...

Hoje, quando nos separamos, fui as compras. Juro que o que vi me assustou e me fez lembrar exactamente o que descreves dos filmes americanos. O pingo Doce simplesmente nao tem mais carne, se quis trazer alguma carne foram hambugers da arca frigorifica dos congelados. Onde vamos parar? Talvez passar fome, deixar de trabalhar, passar necessidade nao seja importante. Mas perder um jogo do europeu? Credo, eu isso nunca!



Tristeza.

DANIEL MORAES disse...

Menina, faço minhas as palavras da Letícia. Aqui no Brasil, graças aos conchavos partidários, mais uma CPI acabou em pizza; A Varig Log virou moeda de troca, tudo bem na vistas do Lula, que claro, nunca vê nada e defende os cumpanheiros, enfim. Há uma solução para Brasil e Portugal: o voto ético. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Letícia C. disse...

Incrível ver que tenham que ser tomadas medidas tão drásticas para se conseguir alguma reação... e fico mais pasma ainda por ver que as pessoas não tratam o assunto com a seriedade devida, por colocar o futebol em primeiro plano. Aqui não seria diferente, do jeito que brasileiro é fanático por futebol.
Também fiquei impressionada com o que voce escreveu sobre a casa-museu em homenagem ao Saramago o_o Poderia acontecer algo semelhante a um dos livro dele quando encontram todos os votos em branco em uma eleição...
Até o/