
(baseado em factos reais)
— Então, como é que foi o trabalho na Agência? — perguntou ele quanto observava a amiga cortando a fatia de Tarte de Natas que lhe destinava.
— Foi bom — respondeu ela vagamente, mordiscava a língua enquanto tentava fazer a acrobacia de colocar a fatia no prato sem deixar cair uma mísera migalha de bolacha ralada. — Eles são simpáticos… o trabalho é fácil… atender telefones… tirar fotocópias, arquivar documentos… nada do outro mundo… ‘Tá bom assim?
— ‘Tá óptimo — ele agarrou no bule e encheu as canecas deles com chocolate quente. — E pagam-te bem?
A jovem que tinha na sua frente, exibindo agora o seu mais excêntrico corte de cabelo (uma mescla de punk style com “i’m so blasé, darling”), olhou-o por cima das lentes dos seus óculos de armação negra.
— O salário foi o que mais me chocou! Pagam-me cinco euros à hora! Ganho 20 euros por dia!
— E chocou-te porquê? Achas pouco?
— Pouco, Gustavo? Acho até muito! 5 Euros à hora é o que ganha a minha mãe nas limpezas e eu só tenho que atender telefones e guardar documentos em dossiers, não faço nem metade do que ela faz… pensei que me fossem pagar menos… o pessoal do McDonalds ganha 2.50 por hora e têm um trabalho e tanto!
— Nem queiras comparar, Boyle! Eles agora pagam-te pelos teus conhecimentos! Tens que ter em conta que sabes falar inglês e alemão, percebes de informática e ‘tás quase a terminar a licenciatura, obrigatoriamente pagam-te mais! A maior parte das pessoas que trabalha nas limpezas ou no McDonalds não tem grandes habilitações literárias!
— Sim, eu sei disso, mas não é nenhum trabalho especial! Atender telefones, Gus, por favor! Em uma hora a minha mãe faz o dobro do esforço, varre o chão, limpa mesas e tira os lixos dos baldes e eu nessa mesma hora só tenho o trabalho de levantar o auscultador ou de carregar no botão da fotocopiadora… — fez uma pausa enquanto brincava com um pedaço da tarte com a colher — Sei lá! Acho injusto.
Gustavo molhou os lábios no chocolate quente e depois de se certificar que este estava adocicado ao seu gosto, disse: — E desde quando é que o mundo é justo?
— Sabes o que é que eu acho, Gus? — mas nem esperou pela resposta dele. — Que deveria de haver salários iguais. Vamos a ver bem, tem muita boa gente engravatada por aí que não fez nem metade do que um varredor de rua faz numa hora e ganha três vezes mais… As pessoas deviam de ganhar em função daquilo que produzem e…
— Ah, o Proudhon desceu à terra — gracejou o jovem Gustavo enquanto soprava o seu chocolate para este arrefecer. — Isso, Boyle, seria desvalorizar o trabalho intelectual… às vezes pode não ser tão visível como o trabalho físico mas é tanto ou mais importante… Isso também não seria justo! Pensa bem! Um dos incentivos para as pessoas trabalharem é justamente o facto de existirem diferentes salários… se tu souberes que ao seres promovida vais ganhar mais, obviamente que te vais esforçar por isso… isso também acontece com os diferentes empregos! Se um engenheiro, arquitecto, médico, enfim… se esforçou mais, estudou mais, claro que deve ganhar mais do que um varredor de ruas ou um empregado de mesa. Achas que um estudante teria vontade de estudar se soubesse que sendo varredor de ruas ia ganhar o mesmo que um médico?
Ela reflectiu alguns momentos enquanto fitava o fumo da sua chávena de chocolate quente.
— Tens razão, Gus… eu também penso assim, em parte… mas… tu sabes que eu acho o trabalho intelectual muito importante, mas também acho mal existir essa diferença assim tão grande entre os salários de uns e de outros… sei lá, p’ra quem tem filhos para sustentar, renda a pagar, um só trabalho não chega e…
— E então porque achas que a tua mãe tem dois empregos? Justamente para poder dar esse conforto a ti e a tua irmã… Então, Boyle, tens um exemplo disso dentro de casa… a vida não ‘tá fácil p’ra ninguém… é preciso batalhar por isso… e verdade seja dita, não podes querer que toda a população vá p’ra universidade e se ponha p’ra aí a falar de Sartre, de Marx ou da teoria da relatividade… ‘Tá bem que todos devem ter acesso à educação, mas nem todos vão querer continuar… sim, há aqueles que não tiveram oportunidade p’ra isso mas também há aqueles que pura e simplesmente desistiram de estudar porque não se interessavam ou porque tinham mais jeito para os trabalhos manuais… De que é que adianta um país feito só de médicos ou engenheiros? Também precisamos de padeiros, empregados de mesa, varredores de rua…
— Sim, mas então é feita a selecção! Os inteligentes vão p’ra um lado e ganham bem os “burrinhos” vão p’ra outro e ganham mal!
— ‘Tou a ver que tenho de andar de olho no que andas a ler! A nossa sociedade valoriza o esforço, Boyle… bem pelo menos em grande parte dos casos!
— Mas então achas bem que o jogador de futebol ganhe os rios de dinheiro que ganha?
— Não! Mas isso é o futebol! É um mundo à parte! No mundo real as pessoas esforçam-se, fazem-se a si mesmas, são self-made men… tu própria és uma, sabes bem o que isso é, mas às vezes, quando ouves John Lennon ou te perdes pelos anos 60 parece que te esqueces disso! É necessário haver mais justiça, sim! Mas uma sociedade precisa de tudo, de todo o tipo de empregos! E cada um ganha de acordo com aquilo que estudou!
Ela olhou bem no fundo dos olhos verdes do amigo.
— Tu ‘tás completamente dentro do sistema!
Ele riu do gracejo.
— Às vezes! Outras vezes saio fora porque é chato e conservador de mais… mas às vezes quando ando contigo sinto-me como aqueles miúdos que atiram coktails de molotov e fazem manifestações… — riu novamente. — Boyle, Boyle, faz parte da idade teres todos os teus ideais e sonhares com o Proudhon, Che Guevara ou Marx… é normal! Eu é que acho que pulei essa parte, mas enfim… quando cresceres… sim, nós adolescentes odiamos quando dizem isso… mas quando cresceres vais ver que o mundo não é bem assim, que apesar de tudo este é o mais justo que pode haver em comparação com outros regimes. Pobres e ricos sempre haverão! Há alturas em que os pobres podem se tornar ricos e os ricos se tornar pobres, mas sempre haverá essa diferença… podes-te perguntar porquê mas é tão complicado! Acredita que funciona melhor assim do que se fosse uma Anarquia! É preciso ordem, Boyle! As pessoas precisam de desempenhar diferentes funções e todas são importantes… numa colmeia… a colmeia não sobrevive se faltar a rainha ou se faltar as operárias, todos são importantes! Ricos e pobres! Todos!
Camilla uniu as pontas dos dedos e fechou os olhos, mergulhando em seus pensamentos. Mas então como se estabelecia logo essa diferenciação? Eram as pessoas que se auto-excluíam, alegando que não queriam estudar mais, ou haveria uma força perversa e com segundas intenções que as encaminhava nessa direcção e que depois as punia com um escasso salário por não terem tido a ousadia de prosseguir nos estudos académicos… era uma questão profunda!
— Sabes o que eu acho? — perguntou ele.
Ela abriu os olhos e inquiriu-o com o olhar, na esperança que ele revelasse algo que poderia ser uma resposta para este complicado problema
— Acho que te preocupas demais…
— Então, como é que foi o trabalho na Agência? — perguntou ele quanto observava a amiga cortando a fatia de Tarte de Natas que lhe destinava.
— Foi bom — respondeu ela vagamente, mordiscava a língua enquanto tentava fazer a acrobacia de colocar a fatia no prato sem deixar cair uma mísera migalha de bolacha ralada. — Eles são simpáticos… o trabalho é fácil… atender telefones… tirar fotocópias, arquivar documentos… nada do outro mundo… ‘Tá bom assim?
— ‘Tá óptimo — ele agarrou no bule e encheu as canecas deles com chocolate quente. — E pagam-te bem?
A jovem que tinha na sua frente, exibindo agora o seu mais excêntrico corte de cabelo (uma mescla de punk style com “i’m so blasé, darling”), olhou-o por cima das lentes dos seus óculos de armação negra.
— O salário foi o que mais me chocou! Pagam-me cinco euros à hora! Ganho 20 euros por dia!
— E chocou-te porquê? Achas pouco?
— Pouco, Gustavo? Acho até muito! 5 Euros à hora é o que ganha a minha mãe nas limpezas e eu só tenho que atender telefones e guardar documentos em dossiers, não faço nem metade do que ela faz… pensei que me fossem pagar menos… o pessoal do McDonalds ganha 2.50 por hora e têm um trabalho e tanto!
— Nem queiras comparar, Boyle! Eles agora pagam-te pelos teus conhecimentos! Tens que ter em conta que sabes falar inglês e alemão, percebes de informática e ‘tás quase a terminar a licenciatura, obrigatoriamente pagam-te mais! A maior parte das pessoas que trabalha nas limpezas ou no McDonalds não tem grandes habilitações literárias!
— Sim, eu sei disso, mas não é nenhum trabalho especial! Atender telefones, Gus, por favor! Em uma hora a minha mãe faz o dobro do esforço, varre o chão, limpa mesas e tira os lixos dos baldes e eu nessa mesma hora só tenho o trabalho de levantar o auscultador ou de carregar no botão da fotocopiadora… — fez uma pausa enquanto brincava com um pedaço da tarte com a colher — Sei lá! Acho injusto.
Gustavo molhou os lábios no chocolate quente e depois de se certificar que este estava adocicado ao seu gosto, disse: — E desde quando é que o mundo é justo?
— Sabes o que é que eu acho, Gus? — mas nem esperou pela resposta dele. — Que deveria de haver salários iguais. Vamos a ver bem, tem muita boa gente engravatada por aí que não fez nem metade do que um varredor de rua faz numa hora e ganha três vezes mais… As pessoas deviam de ganhar em função daquilo que produzem e…
— Ah, o Proudhon desceu à terra — gracejou o jovem Gustavo enquanto soprava o seu chocolate para este arrefecer. — Isso, Boyle, seria desvalorizar o trabalho intelectual… às vezes pode não ser tão visível como o trabalho físico mas é tanto ou mais importante… Isso também não seria justo! Pensa bem! Um dos incentivos para as pessoas trabalharem é justamente o facto de existirem diferentes salários… se tu souberes que ao seres promovida vais ganhar mais, obviamente que te vais esforçar por isso… isso também acontece com os diferentes empregos! Se um engenheiro, arquitecto, médico, enfim… se esforçou mais, estudou mais, claro que deve ganhar mais do que um varredor de ruas ou um empregado de mesa. Achas que um estudante teria vontade de estudar se soubesse que sendo varredor de ruas ia ganhar o mesmo que um médico?
Ela reflectiu alguns momentos enquanto fitava o fumo da sua chávena de chocolate quente.
— Tens razão, Gus… eu também penso assim, em parte… mas… tu sabes que eu acho o trabalho intelectual muito importante, mas também acho mal existir essa diferença assim tão grande entre os salários de uns e de outros… sei lá, p’ra quem tem filhos para sustentar, renda a pagar, um só trabalho não chega e…
— E então porque achas que a tua mãe tem dois empregos? Justamente para poder dar esse conforto a ti e a tua irmã… Então, Boyle, tens um exemplo disso dentro de casa… a vida não ‘tá fácil p’ra ninguém… é preciso batalhar por isso… e verdade seja dita, não podes querer que toda a população vá p’ra universidade e se ponha p’ra aí a falar de Sartre, de Marx ou da teoria da relatividade… ‘Tá bem que todos devem ter acesso à educação, mas nem todos vão querer continuar… sim, há aqueles que não tiveram oportunidade p’ra isso mas também há aqueles que pura e simplesmente desistiram de estudar porque não se interessavam ou porque tinham mais jeito para os trabalhos manuais… De que é que adianta um país feito só de médicos ou engenheiros? Também precisamos de padeiros, empregados de mesa, varredores de rua…
— Sim, mas então é feita a selecção! Os inteligentes vão p’ra um lado e ganham bem os “burrinhos” vão p’ra outro e ganham mal!
— ‘Tou a ver que tenho de andar de olho no que andas a ler! A nossa sociedade valoriza o esforço, Boyle… bem pelo menos em grande parte dos casos!
— Mas então achas bem que o jogador de futebol ganhe os rios de dinheiro que ganha?
— Não! Mas isso é o futebol! É um mundo à parte! No mundo real as pessoas esforçam-se, fazem-se a si mesmas, são self-made men… tu própria és uma, sabes bem o que isso é, mas às vezes, quando ouves John Lennon ou te perdes pelos anos 60 parece que te esqueces disso! É necessário haver mais justiça, sim! Mas uma sociedade precisa de tudo, de todo o tipo de empregos! E cada um ganha de acordo com aquilo que estudou!
Ela olhou bem no fundo dos olhos verdes do amigo.
— Tu ‘tás completamente dentro do sistema!
Ele riu do gracejo.
— Às vezes! Outras vezes saio fora porque é chato e conservador de mais… mas às vezes quando ando contigo sinto-me como aqueles miúdos que atiram coktails de molotov e fazem manifestações… — riu novamente. — Boyle, Boyle, faz parte da idade teres todos os teus ideais e sonhares com o Proudhon, Che Guevara ou Marx… é normal! Eu é que acho que pulei essa parte, mas enfim… quando cresceres… sim, nós adolescentes odiamos quando dizem isso… mas quando cresceres vais ver que o mundo não é bem assim, que apesar de tudo este é o mais justo que pode haver em comparação com outros regimes. Pobres e ricos sempre haverão! Há alturas em que os pobres podem se tornar ricos e os ricos se tornar pobres, mas sempre haverá essa diferença… podes-te perguntar porquê mas é tão complicado! Acredita que funciona melhor assim do que se fosse uma Anarquia! É preciso ordem, Boyle! As pessoas precisam de desempenhar diferentes funções e todas são importantes… numa colmeia… a colmeia não sobrevive se faltar a rainha ou se faltar as operárias, todos são importantes! Ricos e pobres! Todos!
Camilla uniu as pontas dos dedos e fechou os olhos, mergulhando em seus pensamentos. Mas então como se estabelecia logo essa diferenciação? Eram as pessoas que se auto-excluíam, alegando que não queriam estudar mais, ou haveria uma força perversa e com segundas intenções que as encaminhava nessa direcção e que depois as punia com um escasso salário por não terem tido a ousadia de prosseguir nos estudos académicos… era uma questão profunda!
— Sabes o que eu acho? — perguntou ele.
Ela abriu os olhos e inquiriu-o com o olhar, na esperança que ele revelasse algo que poderia ser uma resposta para este complicado problema
— Acho que te preocupas demais…


4 comentários:
Tive um Deja vu! xD O que serias tu sem a tua consciencia para te tirar a cabeça das nuvens? =P
Camilla,
no fundo todos nos preocupamos demais. O problema é que quando somos jovens, somos idealistas, temos a tendência de acharmos que está tudo errado e que podemos mudar, quando ficamos velhos, compreendemos que podemos apenas fazer a nossa parte, mas não mudar todo um sistema...
Quem falava isso era a minha avó... e as vezes devo concordar...
Teu post me recordou também uma antiga música popular...
"O problema é essa cadeia hereditária, quero me mudar desta situação precária.
Onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre."
Mas tudo tem uma exceção, afinal, quantas vezes sabemos do surgimento dos novos - ricos? E dos ricos que caem?
Uma coisa é fato... A sociedade para se manter precisa de uma base braçal, isso não desmerece o trabalho braçal... as pessoas é que são hipócritas demais para assumirem que precisam de braços que as ajudem... É bela a revolução Cami, mas infelizmente... não há mais espaço apenas para idéias bonitas... As pessoas têm que ser práticas e se esforçarem a seu modo para vencerem.
Beijos (Des)conexos!
Acho que voce falou tudo, Esy. E tal como o Gus tinha dito no texto, todos sao necessários numa sociedade e o trabalho braçal é o que suporta uma grande parte da sociedade... esta sociedade capitalista pode ser injusta, mas sempre permite uma grande mobilidade para as pessoas poderem ascender ou perder tudo... Posso defender alguns pontos da anarquia, mas tenho que ter a cabeça nas nuvens e os pés na terra e saber que isso é algo impossível (contraditório, nao?). Ricos e pobres sempre haverá!
Beijinhos, leitores
É, Esyath tem uma certa razão, contudo, ao fazer nossa parte estamos mudando sim o sistema. Agora, a questão toda é que quase nunca fazemos o que é para ser feito. Bjus e boa semana.
http://so-pensando.blospot.com
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