
Presentemente estou lendo mais um livro da Agatha Christie que, para quem não sabe, é a minha escritora favorita. A sua escrita, a maneira como nos mantém presos ao enredo a capacidade de manter incógnita até ao final a identidade do assassino bem como o seu vasto conhecimento sobre a natureza humana tornam os seus livros deliciosos. Hoje, enquanto viajava de autocarro (ônibus) para ir visitar a minha tia, li a seguinte passagem:
“As razões que levam as mulheres mais encantadoras a entusiasmar-se pelos homens mais execrandos foi um mistério que nunca consegui resolver.
Sabia, instintivamente, que Allerton era um patife e nove em dez homens experientes seriam da minha opinião. Em contrapartida, nove em dez mulheres enamorar-se-iam dele imediatamente.”
Examinando isto em função dos casos que conheço terei de concordar. Quantas amigas minhas já não perdoaram as traições dos namorados por motivos que eu mesma desconheço? E o mesmo acontece ao contrário, também há os rapazes encantadores que acabam namorando com grandes rameiras (e eu estou sendo bem simpática empregando este adjectivo), o que é absolutamente detestável porque depois a moça parte o coração dele e ele acaba virando um “cachorrão” e assim se forma o ciclo vicioso, temos assim lançado um enredo ideal para uma futura novela de grande audiências da Globo, que apesar da sua história cliché é adorada pelo povo alienado (e mais uma vez estou evitando utilizar termos pejorativos). De qualquer maneira é um mistério…
Há uns aninhos atrás fui ao médico e lembro-me de ler um artigo daquelas revistas que se amontoam numa pilha instável na sala de espera e que somos praticamente obrigados a ler enquanto aguardamos tediosamente que nos atendam, que se centrava neste assunto. Ao que parecia J. K. Rowling estava indignada porque a grande maioria das suas leitoras preferiam o Draco Malfoy ao invés do Harry Potter, e ao que todos sabemos, o primeiro é um pequeno rufia. Porém, isto parecia atrair as leitoras. Existe uma visão romântica e absurda por detrás disto, as mulheres normalmente tendem a preferir os mauzões porque acham que os poderão alterar e torná-los bonzinhos através do seu amor, o que raramente acaba por acontecer pois “pau que nasce torto nunca se endireita”. E o mesmo é válido para os homens. Se querer citar nomes, um amigo da família deixou a sua esposa para se juntar com uma prostituta, numa cópia muito mal feita do “Pretty Woman” (um sonho de mulher) tendo em conta que a mulher em questão nada tem a ver com a Júlia Roberts e o homem está muito longe de se parecer com o Richard Gere, mas de qualquer maneira, nunca consegui compreender bem isto, até a minha mãe me responder em tom de brincadeira: «Para ele deve ser animador andar por aí dizendo que ela largou aquela vida por causa dele, que ele fez ela mudar…». Sim, no fundo toda a gente quer viver o seu conto de fadas e não querendo desvalorizar a prostituta, porque, afinal é uma pessoa como outra qualquer, ainda me custa um pouco a acreditar que alguém possa ter deixado um casamento com uma mulher tão simpática por conta de uma aventura. O bom Gustavo poderia dizer, com o seu habitual sarcasmo, que ela não correspondia à primeira parte da velha frase popular «Todo o homem quer uma vadia na cama e uma senhora na rua».
Todavia, também sou um pouco suspeita por falar disto porque eu mesma também já namorei com um rufia. Confesso que dá uma certa adrenalina, primeiro de tudo porque estes “mauzões” tendem a ser estupidamente bonitos, depois devido ao facto de serem rufias acaba por fazer com que a nossa vida ande aos altos e baixos como uma tortuosa volta de montanha russa, o que acaba por abalar um pouco a banalidade da nossa vida e também dos relacionamentos. Além do que também era entusiasmante ouvir as pessoas dizer: «Oh, é a Camilla, a namorada do…», sim, eu também era “respeitada”. Uma coisa é certa, nos quatro meses que namorámos o nosso relacionamento nunca caiu na rotina (às vezes até se parecia com um melodrama mexicano).
E depois há aquele rapazinho adorável que nos enche de presentes e de atenções mas de quem raramente gostámos porque estamos enamorados do rufia. E então dizemos «ai o “Fulano tal” é tão fofinho, tão simpático, mas o que é que eu posso fazer… não consigo gostar dele…». Sim, o mundo dos relacionamentos é injusto.
Mais à frente no livro o Poirot deu uma explicação para o caso:
“— Dir-lhe-ei apenas que é um homem muito atractivo… para as mulheres.
Satisfez-me verificar que mantínhamos uma identidade de opiniões.
— Como as mulheres podem ser idiotas! — exclamei. — Que diabo podem elas ver num tipo como aquele?
— Sabe-se lá» Mas é sempre assim. O mauvais sujet… as mulheres são sempre atraídas por essa espécie de energúmenos.
— Mas porquê? — insisti.
Poirot encolheu os ombros.
— Talvez vejam neles qualquer coisa que nós somos incapazes de discernir.
— Mas o quê?
Após uma breve pausa, declarou:
— Perigo, possivelmente… Todas as pessoas buscam um pouco de perigo, como se fosse uma especiaria para excitar a vida. Algumas procuram-no em espetáculos, como as touradas. Outras, lêem livros acerta de situações emotivas; outras ainda, procuram a excitação do perigo, nos cinemas. As mulheres têm mais razão do que os homens em procurarem esses derivativos indirectos, porque, enquanto eles correm perigos sob vários aspectos, elas só podem encontrá-los, na generalidade, em enredos de sexo. Talvez seja por isso que sentem atracção pelo bafo do tigre; que ousam roçar-se pelos espinhos da Primavera. O parceiro sadio que daria um excelente e afeiçoado marido, passam por ele desinteressadamente.”
Em dezanove anos de vida constatei isto muitas vezes. O perigo, a imprevisibilidade da relação, as emoções à flor da pele são uma válvula de escape para a rotina entediante e é sempre algo emocionante e confere um toque romântico à vida. Quantas desilusões amorosas não poderiam ser poupadas se assim não fosse, mas fazer o quê se queremos sempre provar mais e mais deste “gostoso veneno”. Eu cá para mim continuou a preferir como casal preferido a Bonnie e o Clyde, os dois grandes mafiosos americanos foram sim a combinação perfeita desta perigosidade porque ambos o eram, mas seria completamente diferente se só um fosse e por exemplo o Clyde fosse um menino do coro ou a Bonnie uma inocente bibliotecária… Oh Admirável Mundo!
“As razões que levam as mulheres mais encantadoras a entusiasmar-se pelos homens mais execrandos foi um mistério que nunca consegui resolver.
Sabia, instintivamente, que Allerton era um patife e nove em dez homens experientes seriam da minha opinião. Em contrapartida, nove em dez mulheres enamorar-se-iam dele imediatamente.”
Examinando isto em função dos casos que conheço terei de concordar. Quantas amigas minhas já não perdoaram as traições dos namorados por motivos que eu mesma desconheço? E o mesmo acontece ao contrário, também há os rapazes encantadores que acabam namorando com grandes rameiras (e eu estou sendo bem simpática empregando este adjectivo), o que é absolutamente detestável porque depois a moça parte o coração dele e ele acaba virando um “cachorrão” e assim se forma o ciclo vicioso, temos assim lançado um enredo ideal para uma futura novela de grande audiências da Globo, que apesar da sua história cliché é adorada pelo povo alienado (e mais uma vez estou evitando utilizar termos pejorativos). De qualquer maneira é um mistério…
Há uns aninhos atrás fui ao médico e lembro-me de ler um artigo daquelas revistas que se amontoam numa pilha instável na sala de espera e que somos praticamente obrigados a ler enquanto aguardamos tediosamente que nos atendam, que se centrava neste assunto. Ao que parecia J. K. Rowling estava indignada porque a grande maioria das suas leitoras preferiam o Draco Malfoy ao invés do Harry Potter, e ao que todos sabemos, o primeiro é um pequeno rufia. Porém, isto parecia atrair as leitoras. Existe uma visão romântica e absurda por detrás disto, as mulheres normalmente tendem a preferir os mauzões porque acham que os poderão alterar e torná-los bonzinhos através do seu amor, o que raramente acaba por acontecer pois “pau que nasce torto nunca se endireita”. E o mesmo é válido para os homens. Se querer citar nomes, um amigo da família deixou a sua esposa para se juntar com uma prostituta, numa cópia muito mal feita do “Pretty Woman” (um sonho de mulher) tendo em conta que a mulher em questão nada tem a ver com a Júlia Roberts e o homem está muito longe de se parecer com o Richard Gere, mas de qualquer maneira, nunca consegui compreender bem isto, até a minha mãe me responder em tom de brincadeira: «Para ele deve ser animador andar por aí dizendo que ela largou aquela vida por causa dele, que ele fez ela mudar…». Sim, no fundo toda a gente quer viver o seu conto de fadas e não querendo desvalorizar a prostituta, porque, afinal é uma pessoa como outra qualquer, ainda me custa um pouco a acreditar que alguém possa ter deixado um casamento com uma mulher tão simpática por conta de uma aventura. O bom Gustavo poderia dizer, com o seu habitual sarcasmo, que ela não correspondia à primeira parte da velha frase popular «Todo o homem quer uma vadia na cama e uma senhora na rua».
Todavia, também sou um pouco suspeita por falar disto porque eu mesma também já namorei com um rufia. Confesso que dá uma certa adrenalina, primeiro de tudo porque estes “mauzões” tendem a ser estupidamente bonitos, depois devido ao facto de serem rufias acaba por fazer com que a nossa vida ande aos altos e baixos como uma tortuosa volta de montanha russa, o que acaba por abalar um pouco a banalidade da nossa vida e também dos relacionamentos. Além do que também era entusiasmante ouvir as pessoas dizer: «Oh, é a Camilla, a namorada do…», sim, eu também era “respeitada”. Uma coisa é certa, nos quatro meses que namorámos o nosso relacionamento nunca caiu na rotina (às vezes até se parecia com um melodrama mexicano).
E depois há aquele rapazinho adorável que nos enche de presentes e de atenções mas de quem raramente gostámos porque estamos enamorados do rufia. E então dizemos «ai o “Fulano tal” é tão fofinho, tão simpático, mas o que é que eu posso fazer… não consigo gostar dele…». Sim, o mundo dos relacionamentos é injusto.
Mais à frente no livro o Poirot deu uma explicação para o caso:
“— Dir-lhe-ei apenas que é um homem muito atractivo… para as mulheres.
Satisfez-me verificar que mantínhamos uma identidade de opiniões.
— Como as mulheres podem ser idiotas! — exclamei. — Que diabo podem elas ver num tipo como aquele?
— Sabe-se lá» Mas é sempre assim. O mauvais sujet… as mulheres são sempre atraídas por essa espécie de energúmenos.
— Mas porquê? — insisti.
Poirot encolheu os ombros.
— Talvez vejam neles qualquer coisa que nós somos incapazes de discernir.
— Mas o quê?
Após uma breve pausa, declarou:
— Perigo, possivelmente… Todas as pessoas buscam um pouco de perigo, como se fosse uma especiaria para excitar a vida. Algumas procuram-no em espetáculos, como as touradas. Outras, lêem livros acerta de situações emotivas; outras ainda, procuram a excitação do perigo, nos cinemas. As mulheres têm mais razão do que os homens em procurarem esses derivativos indirectos, porque, enquanto eles correm perigos sob vários aspectos, elas só podem encontrá-los, na generalidade, em enredos de sexo. Talvez seja por isso que sentem atracção pelo bafo do tigre; que ousam roçar-se pelos espinhos da Primavera. O parceiro sadio que daria um excelente e afeiçoado marido, passam por ele desinteressadamente.”
Em dezanove anos de vida constatei isto muitas vezes. O perigo, a imprevisibilidade da relação, as emoções à flor da pele são uma válvula de escape para a rotina entediante e é sempre algo emocionante e confere um toque romântico à vida. Quantas desilusões amorosas não poderiam ser poupadas se assim não fosse, mas fazer o quê se queremos sempre provar mais e mais deste “gostoso veneno”. Eu cá para mim continuou a preferir como casal preferido a Bonnie e o Clyde, os dois grandes mafiosos americanos foram sim a combinação perfeita desta perigosidade porque ambos o eram, mas seria completamente diferente se só um fosse e por exemplo o Clyde fosse um menino do coro ou a Bonnie uma inocente bibliotecária… Oh Admirável Mundo!


7 comentários:
LOL maldito humor negro e depois sou eu que sou sarcastico! Se queres que te diga nunca entendi isso muito bem, as moças andavam sempre atrás dos piores, mas desde que fiz o piercing e a tatuagem vieram logo todas ter comigo! devo ter cara de rufia também xD
LOL Menina, e não é que a coisa deve ser verdade, mesmo?
Eu, mesma, numa época, namorei um desses - nem tanto porque o amava de paixão (sequer existia), ou porque era um amigo e tanto (muito menos!), mas porque todos o tinham como o "garanhão" do bairro e... era lindo! Meu irmão ficou furioso, mas como eu era mais convincente que ele, venci a parada e continuei o namoro até o dia que ele começou a controlar o que eu fazia... Daí eu percebi que, nessa história, o inseguro era ele e não iria ter graça alguma. Bravo, Poirot!
Ah , acho que Poirot tem razão : os " canalhas " têm um certo sex appeal a mais ... como as prostitutas pra os homens.
É besteira mas vc aprendo com o tempo...
obs: cá estou eu tentando entender que raios é LOL ...kkk
Os "errados", independentemente da questão homem e mulher, tem um fascínio a mais sim. Toda mulher ou já se envolveu ou irá se envolver com um cafajeste (ou bad boys); assim como o homem já teve ou terá um caso com uma "galinha". A coisa toda é não deixar-se envolver, aproveitar sexualmente e depois largar, pois se houver paixão... Fera tudo! Bjus e bom final de semana.
http://so-pensando.blogspot.com
Olá Camilla, visito o seu blog para agradecer o seu comentário. Quanto aos canalhas, o melhor é fugir deles, viver com intensidade e otimismo, sem esperar muito do outro.
Abraços!
achei muito instrutivo,e agradeço por não ter colocado nenhuma frase minha no texto.Para os que desejarem entender mesmo tudo qu se passa nesse sujo mundo das cachorras e dos cafagestes recomendo a leitura de um livro chamado "a arte da sedução" do mesmo autor do "as 48 leis do poder" um livro bem mafioso mas com muita verdade.
eu também AMO os livros da Agatha. aliás, se na hora de nascer me fosse permitido um pedido, pediria pra nascer com o charme cerebral dela.
E acredito que essa questão mulheres encantadoras/ homens execrantes cai naquela velha teoria da atração entre os opostos. Ah... vamos reconhecer, os mauzões são bem mais interessantes, né? E olha que eu nem sou tão boazinha assim...
ADOREI o texto.
Beijão!
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