"Crónica de Costumes"

sábado, 6 de dezembro de 2008

Manifesto anti-neoliberalismo

Desde o início deste tortuoso terceiro ano académico que tenho vindo a ser embriagada por ideias subversivas que contestam o sistema político/económico que temos em vigor nos dias que correm: o neo-liberalismo. De facto, basta olhar em volta para se detestar esta forma de governo oligárquica. O crescente número de desempregados face ao reduzido número de ricos, as multinacionais que exploram as riquezas de outros países, a privatização e o aumento dos cortes em sectores públicos como a saúde e a educação são alguns dos acontecimentos que temos vivenciado desde que, das “cabecinhas luminosas” de Reagan e Tatcher, saiu esta ideia de construir uma forma de governo que tornasse os ricos mais ricos, para que, por sua vez, através deles os pobres pudessem ser menos pobres. Todavia, o contrário tem vindo a acontecer. As desigualdades acentuaram-se e todos os dias somos bombardeados com notícias de fábricas que encerram ou despedimentos que vêem engrossar a lista de desempregados, ou seja, mais gente dependente do Estado.

E por falar em Estado, o neoliberalismo coloca à tona qual deve ser o verdadeiro papel do Estado. Enquanto Constituições de todo o mundo defendem que todos têm direito à saúde, à educação e a todo esse bla bla bla utópico, o neoliberalismo vem defender que o Estado deve intervir o mínimo possível. Vemos, nos dias de hoje, direitos essenciais como a saúde, a educação, a tornarem-se mercadorias onde só quem paga é que pode aceder. A competitividade de que os neoliberais são tão apologistas não é, nada mais, nada menos, do que uma farsa. «É necessário estudar muito, estar preparado para competir com outros indivíduos. Quem tiver melhor preparação académica estará mais apto para ingressar no mercado de trabalho e quem não tem qualificações a culpa é somente sua, porque o governo coloca à sua disposição as formações, os cursos, etc». É esse o discurso que anda pela ordem do dia. Sim, o Governo coloca as formações ao nosso dispor, mas são pagas, e por vezes em quantias exorbitantes, e então como poderá um desempregado aceder a essas formações para arranjar um emprego? O mesmo acontece com a saúde… os nossos direitos essenciais tornaram-se bens mercantis para enriquecer uma classe de parasitas.

Na verdade o neoliberalismo não quer seres humanos porque nele só sobrevive quem tem super-poderes… aqueles que, nada mais tem a fazer, a não ser trabalhar como escravos para acompanhar o ritmo de competitividade tão fomentado. Produzir é a palavra preferida dos burgueses. Vamos produzir objectos de alta-tecnologia, de vanguarda, futuristas… mas como querem que as pessoas os comprem se estas não têm dinheiro para isso? Se as confiam à dependência do Estado, abrindo fábricas em países subdesenvolvidos para explorarem pobres coitados e enriquecer ainda mais? O que mais me entristece é que as pessoas compram sim esses produtos. Cada vez mais existem pessoas dependentes de créditos, que fazem empréstimos quer seja para estudar, quer seja comprar algo, e depois tornam-se dependentes destes modernos agiotas que cobram juros elevadíssimos, daqueles que seriam necessárias duas vidas na Terra para os conseguir pagar. Sim, está tudo perversamente montado.

As privatizações… também as detesto. Concordo que seja necessário existirem empresas privadas, mas será necessário que estas sejam estrangeiras? Será necessário colocar o país em leilão? Ter aqui centenas de multinacionais que exploram os nossos recursos e cujas receitas nem sequer acabam por ficar no nosso país? De facto, estas multinacionais são excelentes empregadoras de mão-de-obra, mas de que valerá isso se no fim acabar-se-ão por mudar para o Bangladesh ou para a China, para explorarem crianças e mulheres por um dólar por dia? Todo esse progresso económico que aparece nos discursos de defensores do neoliberalismo, valerá de muito? Valerá de muito esse desenvolvimento económico em nome do progresso se no final tudo se resume a crises cíclicas cuja guerra se avizinha como única esperança de revigorar uma economia em decadência? Não seria o papel do Estado assegurar o bem-estar comum? E conseguirá dormir descansado um rico empresário cuja incontável fortuna foi adquirida através da exploração laboral? Sou a favor, sim senhor, do enriquecimento através do trabalho, mas somente quando esta fortuna é conseguida de uma maneira justa e não por meio da exploração.

No entanto, tenho a certeza de que todos estes problemas sociais não foram esquecidos por aqueles que fazem esta política oligárquica. O descontentamento de muita gente levou a que se implementassem inúmeras políticas sociais, ditas de esquerda, mas que no fundo são envernizadas com pensamentos de direita. Por isso vemos nos dias de hoje partidos, supostamente, de cariz “socialistas” a adoptarem medidas que fazem o pobre Marx dar voltas no túmulo. Veja-se o caso do Partido Socialista Português! Parece, a muitos, que os neoliberais estão a acordar e finalmente preocupam-se com as pessoas comuns. Será? É cada vez maior a busca de uma Terceira Via que garanta um sincretismo entre o mercado e o Estado promotor do bem-estar social. Deve ser por isso que se fala tanto em dar oportunidade a todos… balelas… toda essa preocupação é maquilhada, na verdade, com interesses económicos e egoístas de enriquecimento burguês.

Porém, não é só necessário criticar este sistema inseguro, é necessário fazer propostas e encontrar possíveis soluções. É certo e sabido que concordo com muitas das teorias socialistas de Marx, embora discorde exactamente no mesmo ponto que Bernstein discordou. Como li na Wikipedia: “Bernstein defendia a melhoria gradual e constante das condições de vida dos trabalhadores (dar-lhes meios para ascender à classe média), tinha dúvidas quanto à necessidade de nacionalizações em massa de empresas e recusava a via da violência revolucionária para atingir o socialismo (como o socialismo era inevitável por motivos morais, não era necessário derramar sangue por ele − acabaria por chegar um dia). Vimos isso em muitos países europeus, depois da Segunda Guerra Mundial. Países como o Reino Unido que abraçaram a ideologia Social-Democrata. O famoso Estado Providência assegurava o bem-estar social “do berço à sepultura”, podemos vê-lo isso… basta falar com muitos ingleses para saber que os anos que procederam à guerra, até à crise petrolífera de 70, que estes foram os anos gloriosos. As nações escandinavas levaram esse modelo ao extremo e basta reparar que eles têm dos níveis de vida mais elevados do mundo. É necessária, sim, uma intervenção do Estado para assegurar o bem-estar comum. O livre mercado, defendido pelos liberais, é uma utopia, pois sem controlo este mesmo mercado acaba por violar direitos humanos, recorre à exploração infantil. Sem controlo quem detém o poder deste mercado pode fazer o que bem entender sem ter de prestar contas por isso. Quem critica este modelo, afirma que ele é paternalista demais, que deixa as pessoas dependentes do Estado e que sobrecarrega este mesmo Estado. Porém, eu acredito que mais vale um pai super-protector do que um cruel padrasto como o neo-liberalismo.

7 comentários:

Anónimo disse...

Camila, óptimo texto! Bastante educativo e esclarecedor para quem o lê. Estás de Parabéns!

Anónimo disse...

Olha li até ao fim e achei fantástico. Acho que veio dissipar uma certa espinha entalada sobre o assunto da neo-política. Eu não acredito na política e não faria melhor. Se calhar iria encontrar as mesmas dificuldades que todos encontraram, mas devaneios à parte, achei uma certa frase de "Será necessário colocar o país em leilão?" do qual respondo: Percebe-se que esse engenheiro de caneta, o Sócrates, quis implementar aquela medida magnífica de gastar para depois receber lucro. Seria uma boa ideia se não fosse ele gastar em 10 anos, continuamente, e só depois receber lucro em muito mais pequenas parcelas do que gastou. E mais, eu acho que ele ainda não percebeu que nós atraímos os estrangeiros porque estamos bem servidos na entrada para a Europa, como os aviões do EUA na base das lajes nos açores, a importação do mais variado material (até droga, mas isso...). Claro está que depois de nos usarem para entrarem noutras vertentes europeias e asiáticas, podem-se ir embora. O desemprego é fachada disso tudo. E haver trabalho há, as pessoas é que não o querem fazer muitas vezes.

Anónimo disse...

Uau! Menina, vou te dizer, agora você se superou! Abaixo a esse sistema escravatório, que faz ricos ficarem mais ricos e pobres miseráveis. Chegará o dia em que enxergarão que a única forma justa é o Comunismo, contudo, este tem que ser revisto, adequado as necessidades do proletariado do século 21. É isso ái! Abaixo a esses ratasanas. Bjus e bfs.

http://so-pensando.blogspot.com

Daniel Vilhas disse...

Uau!Menina, vou te dizer, agora você se superou![2]

Camilla, fantástico, muito legal.

Daniel F. Gontijo disse...

ganha-se em tecnologia e perde-se em humanidade! e não somos nem de perto mais felizes que há 100 mil anos atrás.
escrevi um pouco sobre a influência do modelo neoliberal na constituição dos laços afetivos do homem pós-moderno, em especial sobre como vivemos o amor nos dias de hoje. se se animar de dar uma conferida...

um abraço! seu texto ficou ótimo!

Anónimo disse...

Menina, sua reflexão é das mais profundas. E dá o que pensar. Do "trabalho alienado" à condição ultracapitalista dos dias de hoje, nos países assim assumidos... e a exploração pseudo-comunista de alguns outros Estados (nação politicamente organizada), eis-nos aí, aprendendo a (con)viver com as dificuldades da política econômica em desenvolvimento.
Vou voltar para ler de novo, pois há muito o que se pensar, aqui.
Beijinhos carinhosos do João

HelianaBastos disse...

Camilla,sou sua fã...adoro a maneira cm vc escreve!
sempre passo por aqui e vejo suas novidades.
e quanto a politica neoliberialista...HUm...prefiro nem comentar...até pq aqui no Brasil temos um Reprsentante que ninguémmmm merece!¬¬

Bjoookas