II Acto – Debate sobre as famílias modernas
(Nota: a ideia para este texto surgiu de uma conversa com o meu amigo Jadson. Dedico o post de hoje ao professor Luís (de História) e à professora Maria (de alemão), sem dúvida os dois professores que mais me marcaram pela positiva ao longo deste incasável percurso escolar)
Ingrid Thorsten achava-se naquele momento na sala de professores debruçada sobre a correcção dos exames que havia distribuído naquela manhã. Estava pasmada por haver tantos erros… decididamente aqueles alunos não eram nada dados a aprender a beleza da língua alemã. Era descendente de imigrantes alemães, judeus, que, aquando da Segunda Guerra Mundial, haviam fugido das perseguições hitlerianas. Era uma mulher de mente aberta, já na casa dos quarenta, era uma excêntrica por natureza, amante da ideologia hippie e todo o seu guarda-roupa parecia remontar à gloriosa década de sessenta. Não era casada e nem tinha filhos, apenas vivia com um alemão, Tobias. A grande maioria dos professores costumava olhar para ela com um ar incrédulo, principalmente quando ela falava da grandeza da Alemanha, para todos eles a Alemanha era uma terra de racistas. Pobrezinhos, pensava Ingrid de si para consigo, a maior parte deles nem tinha viajado e falava fazendo eco de coisas que ouviam dizer. «Com professores assim não admira que os jovens sejam como são»
A porta da sala abriu-se (Ingrid optara pela sala de não fumadores, primeiramente porque detestava aquele cheiro horrível a tabaco e o fumo causava-lhe comichão nos olhos e como aquela sala de fumadores era quase sempre tão barulhenta, ela decidira ficar pela sala de não fumadores, bem mais sossega e propícia para a correcção de testes) e Bernardo Campos, o professor de Economia, entrou.
Era um homem gordo, com uma cabeça redonda que assentava directamente em cima dos ombros, pelo que o pescoço se encontrava escondido pelos seus múltiplos queixos, o seu cabelo grisalho apresentava-se uniformemente penteado e o professor usava sempre uns suspensórios para que as suas calças ficassem seguras sobre a sua considerável barriga.
- Ora viva, Ingrid, por aqui? – saudou Bernardo.
- Sim, tenho que corrigir estes testes – elucidou Ingrid que não se dera ao trabalho de erguer a cabeça para ver quem era. – Campos, espero bem que não venhas fumar o teu charuto para aqui.
- Não, não. Só quero um pouco de sossego, o Carlos pediu-me para escrever uns quantos textos para o jornal da escola e sabes como é, naquele barulho todo é difícil.
- O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Gosto particularmente desta citação do Huxley – disse Ingrid com a sua atenção ainda virada para as provas.
- Ah sim!
Campos abanou a cabeça. Decididamente ela era louca. Sentou-se e puxou de um pequenino bloco de notas, começando a escrever.
Uns dez minutos depois a porta voltou a abrir-se e Catarina, a tia de Joana entrou.
- Ah, Cat, ainda bem que chegaste – Ingrid e Catarina dava-se realmente muito bem. – Já estou farta de dar negativas e uma pausa entre os «insuficientes» e os «péssimos» não me ia fazer nada mal.
Catarina riu, adorava a jovialidade de Ingrid.
- Que tal um chá? – sugeriu Catarina.
- Cat, meine Liebe, eu sou alemã, não inglesa. Mas aceito um chocolate quente com muito gosto.
- Ah, só tu Ingrid. Como vai o casamento?
As professoras costumavam brincar uma com a outra devido ao facto de ambas não se terem casado e nem terem filhos.
- Oh, wunderbar. Uma eterna lua-de-mel! E os teus filhos, Cat?
- São uns santos de altar, não dão trabalho nenhum.
E riam as duas em uníssono.
- Vocês devem ser as únicas pessoas que se vangloriam de não ter casado e de não terem tido filhos – Campos disse. Ingrid sobressaltou-se, esquecera-se completamente que ele estava na sala.
- Eu tenho muito medo da solidão, Campos – disse Ingrid. – Por isso é que não me caso. Sou muito feliz e não precisei de me casar. Essa velha opinião de que uma mulher só é feliz quando se casa já tem as barbas tão compridas como as do Pai Natal.
- Sim, mas e os filhos? – Campos parecia chocado. – Os filhos dão verdadeiro sentido à vida!
- Isso depende de pessoa para pessoa – disse Catarina. – Conheço pessoas que teriam dado tudo para não terem os filhos que têm….
- Vocês não sentem necessidade de serem amadas? Os filhos são quem mais nos amam nesta vida!!
- Se me disseres que os pais amam os filhos mais do que tudo nesta vida sou capaz de acreditar – retaliou Catarina. – Alguns filhos são os primeiros a culpar os pais por tudo de mal que lhes aconteceu na vida. Se isto é amor, Campos…
- Realmente não vos compreendo. Que sentido pode ter a vida de alguém que não tem filhos, não é casado? Vivem em função de quem? De que vos valeu a passagem pela terra? Que fizeram de bom?
As duas mulheres entreolharam-se. Que mente tão fechada!
- Campos, tu dizes que casar, chegar a casa depois do trabalho e aturar os teus filhos é fazer algo de bom por alguém? – disse Catarina. – É a mais pura das normalidades e eu tenho pavor a tudo o que seja normal. Diz-me lá, para além dos teus rebentos, quem mais se vai lembrar de ti? Que contributo fizeste tu? Eu e a Ingrid, por exemplo, costumamos fazer coisas pela comunidade e contribuímos para o sorriso de crianças desfavorecidas. Sim, eu sei que há muitas pessoas casadas que o fazem, mas não me venhas dizer que as pessoas que não tem filhos não têm sentido nenhum, porque é sem dúvida a maior baboseira que eu ouvi, e olha que eu sou professora. Não menosprezo quem tenha filhos e nem detesto crianças, simplesmente foi a opção que eu fiz para a minha vida!
Campos murmurou algo que não foi perceptível ao ouvido das professoras.
- Campos, não percas o teu tempo a tentar compreender a vida dos outros – aconselhou Ingrid. – Creio que a tua vida de casado e os teus filhos é que precisam que tu as compreendas.
E antes que Campos pudesse abrir a boca para ripostar, a porta abriu-se novamente: o professor Carlos, que leccionava História, acabava de entrar, trazendo debaixo do braço um jornal. Sorriu ao ver Ingrid e Catarina. De todos os professores daquela escola aquelas duas eram sem dúvida com quem melhor Carlos se relacionava. É que embora ele tivesse casado há pouco tempo, também ele não tinha filhos.
- Ah, Carlos, sê bem-vindo – saudou pomposamente Catarina. – Estávamos aqui a confessar ao Campos o quão vazia é a nossa vida sem filhos. E que bons ventos te trazem?
- Bah, estou farto daquela ala – explicou Carlos, puxando uma cadeira e sentando-se. – Estão p’ra ali a discutir o facto daquele aluno, o tal Paulo, viver com o pai que é gay e vive com outro homem.
- Pessoas inteligentes discutem sobre ideias, pessoas normais discutem sobre coisas e pessoas fúteis discutem sobre pessoas – filosofou sabiamente Ingrid. – Já sabes como é que as coisas funcionam por aqui, meine Freund.
- Eu já sou contra a homossexualidade, quanto mais ao facto de uma criança viver com dois gays – opinou Campos, como se alguém o tivesse consultado.
Os três professores entreolharam-se, mas foi Carlos quem falou num tom de voz calmo.
- Ai sim Campos, então porquê?
- Deus fez o homem e a mulher – principiou Campos, mas os três professores soltaram um sono “Aaaahhh”, as suas dúvidas haviam sido esclarecidas -… para eles viverem juntos.
- Deus fez o homem e a mulher para estes serem felizes – contrapôs Carlos. – Cada um tem a sua noção de felicidade, não é. Para algumas pessoas a felicidade é ter saúde, para outras é ter dinheiro. Algumas acham que é ter uma família numerosa e outras que é viajar pelo mundo e não ter filhos – trocou um olhar significativo com as professoras. – E para algumas pessoas essa felicidade pode ser conviver com alguém do mesmo sexo…
- Quem somos nós para julgar quem quer que seja? – concluiu por fim Ingrid.
- E quem pode julgar? – perguntou Campos, os seus ânimos começavam a exaltar-se.
- E p’ra quê julgar? – contrapôs Catarina.
- Sim, e não me venhas com religião – pediu Carlos. – Também cresci numa aldeia no meio do nada e ia todos os domingos à missa e nem por isso tenho uma visão retrógrada do assunto, Campos. Sou uma pessoa religiosa e tenho muitos amigos homossexuais, pessoas maravilhosas, eu devo dizer. Isso que estás p’ra aí a dizer é puro fundamentalismo.
- Eu não sou contra os homossexuais – disse Campos. – Sou contra a homossexualidade, o acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo.
- Campos, Campos – disse Catarina em tom pesaroso – conheces o velho provérbio de que quem cospe para cima acaba sempre por se molhar? Tu tens filhos! Que ias fazer se eles te dissessem que eram homossexuais?
- Eu ia querer a felicidade deles, mas não ia concordar com a opção.
- Porquê? – perguntaram os três ao mesmo tempo. Era quase como estar a bater com a cabeça na parede.
- Eu não sou contra os homossexuais! Sou contra a homossexualidade! O acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo. Eu às vezes ponho-me a pensar como estariam as coisas se a homossexualidade fosse normal há uma data de anos atrás, como estaria a humanidade.
- Ela sempre existiu – explicou Carlos. – E se bem sei, se ela fosse vista como “normal” talvez as pessoas tivessem uma mente mais aberta. Sabias que às vezes há pessoas que nasceram com o corpo errado, ou com mais hormonas masculinas do que femininas e vice-versa? Vão fazer o quê? Trancar-se em casa? Todos temos direito ao amor.
- QUÊ?! Que disparates são esses de hormonas femininos?! Homossexualidade é opção, meu amigo. Não têm nada a ver com formação humana! Opção, opção, opção – disse isto com tanto dogmatismo que Carlos franziu as sobrancelhas de admiração.
- Ai sim, foi a opção de um homem que de repente se cansou de comer mulheres? – troçou Ingrid, já estava a ficar irritada com o comportamento de Campos.
- Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto – justificou-se Campos. – Mas eu tenho os meus princípios e sei muito bem o que a homossexualidade na vida de uma pessoa.
- E o que pode provocar? – quis saber Catarina.
- A extinção humana!!
Os três professores entreolharam-se. Aquilo haveria sido, sem qualquer margem para dúvida, o maior disparate que Campos alguma vez proferira.
- Mein Gött! – exclamou Ingrid. – O Hitler sempre tem mais seguidores do que eu pensava.
- E vocês ainda se metem para aí a falar de homossexuais a adoptarem crianças – Campos continuou, ignorando o espanto de Ingrid. – Uma criança precisa é de um pai e de uma mãe, não de dois homens que se cansaram de comer mulheres – sorriu cinicamente para Ingrid.
- Bem, estás mas é a comparar a homossexualidade com a lepra, meu caro – disse Carlos. – A homossexualidade não é uma doença e nem é contagiosa. Eu não preciso de ser pai para saber que nem sempre os filhos imitam os pais. Tu podes passar a vida toda a dizer aos teus filhos para não fumarem e do nada eles agarram num cigarro e começam a fumar. Se fosse por seguir os exemplos dos pais então não havia homossexuais, já que no teu ponto de vista é tudo uma questão de imitação. Por favor Campos basta ligares a televisão e veres documentários sobre crianças que vivem com gays e lésbicas. Elas dizem que são felizes e têm muitas probabilidades de se tornarem pessoas com mente aberta. Mas no teu ponto de vista temos é que deixar os homossexuais em casa trancados e crianças a precisar de amor em instituições.
- Chega, Carlos – disse Campos. – Estás coma visão bem ingénua sobre o assunto – Catarina e Ingrid soltaram sonoras gargalhada.
- Abre a tua mente, Campos!!!
- Pfff, mente mais aberta que a minha não vais encontrar! Vocês é que ainda não viram o quão complexo este assunto é e de certeza que estão a apresentar esses argumentos todos baseados na opinião de pessoas que não têm opinião nenhuma sobre o assunto. Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto…
- Eu normalmente costumo mostrar respeito por aquilo que não conheço, Campos – disse Carlos já irritado.
- Como é que eu posso respeitar um homem que… bah! Até partidos políticos eles querem fazer! É tudo merchandising. Vocês nunca iriam perceber o quanto isto iria alterar as concepções de casamento, adopção, família…
Aquilo pareceu ser a gota de água que fez transbordar o copo. Os três professores já estavam saturados de tentar conversar com alguém que não mostrava qualquer abertura face ao tema e era uma pena que se tratasse de um professor, só iria ajudar propagandear ainda mais a versão e a discriminação a homossexuais.
- É normal, é normal! Não me venham com história que não é!
- Sabes que mais, Campos, tens razão – acabou por concordar Carlos. – Pega neles e enfia-os a todos numa câmara de gás.
E abriu o jornal, começando a ler as notícias. Não estava para continuar a discutir com alguém tão desprovido de inteligência. Campos tinha razão, a sua mente era tão aberta que pelos vistos o seu cérebro devia de ter caído!
(Nota: a ideia para este texto surgiu de uma conversa com o meu amigo Jadson. Dedico o post de hoje ao professor Luís (de História) e à professora Maria (de alemão), sem dúvida os dois professores que mais me marcaram pela positiva ao longo deste incasável percurso escolar)
Ingrid Thorsten achava-se naquele momento na sala de professores debruçada sobre a correcção dos exames que havia distribuído naquela manhã. Estava pasmada por haver tantos erros… decididamente aqueles alunos não eram nada dados a aprender a beleza da língua alemã. Era descendente de imigrantes alemães, judeus, que, aquando da Segunda Guerra Mundial, haviam fugido das perseguições hitlerianas. Era uma mulher de mente aberta, já na casa dos quarenta, era uma excêntrica por natureza, amante da ideologia hippie e todo o seu guarda-roupa parecia remontar à gloriosa década de sessenta. Não era casada e nem tinha filhos, apenas vivia com um alemão, Tobias. A grande maioria dos professores costumava olhar para ela com um ar incrédulo, principalmente quando ela falava da grandeza da Alemanha, para todos eles a Alemanha era uma terra de racistas. Pobrezinhos, pensava Ingrid de si para consigo, a maior parte deles nem tinha viajado e falava fazendo eco de coisas que ouviam dizer. «Com professores assim não admira que os jovens sejam como são»
A porta da sala abriu-se (Ingrid optara pela sala de não fumadores, primeiramente porque detestava aquele cheiro horrível a tabaco e o fumo causava-lhe comichão nos olhos e como aquela sala de fumadores era quase sempre tão barulhenta, ela decidira ficar pela sala de não fumadores, bem mais sossega e propícia para a correcção de testes) e Bernardo Campos, o professor de Economia, entrou.
Era um homem gordo, com uma cabeça redonda que assentava directamente em cima dos ombros, pelo que o pescoço se encontrava escondido pelos seus múltiplos queixos, o seu cabelo grisalho apresentava-se uniformemente penteado e o professor usava sempre uns suspensórios para que as suas calças ficassem seguras sobre a sua considerável barriga.
- Ora viva, Ingrid, por aqui? – saudou Bernardo.
- Sim, tenho que corrigir estes testes – elucidou Ingrid que não se dera ao trabalho de erguer a cabeça para ver quem era. – Campos, espero bem que não venhas fumar o teu charuto para aqui.
- Não, não. Só quero um pouco de sossego, o Carlos pediu-me para escrever uns quantos textos para o jornal da escola e sabes como é, naquele barulho todo é difícil.
- O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Gosto particularmente desta citação do Huxley – disse Ingrid com a sua atenção ainda virada para as provas.
- Ah sim!
Campos abanou a cabeça. Decididamente ela era louca. Sentou-se e puxou de um pequenino bloco de notas, começando a escrever.
Uns dez minutos depois a porta voltou a abrir-se e Catarina, a tia de Joana entrou.
- Ah, Cat, ainda bem que chegaste – Ingrid e Catarina dava-se realmente muito bem. – Já estou farta de dar negativas e uma pausa entre os «insuficientes» e os «péssimos» não me ia fazer nada mal.
Catarina riu, adorava a jovialidade de Ingrid.
- Que tal um chá? – sugeriu Catarina.
- Cat, meine Liebe, eu sou alemã, não inglesa. Mas aceito um chocolate quente com muito gosto.
- Ah, só tu Ingrid. Como vai o casamento?
As professoras costumavam brincar uma com a outra devido ao facto de ambas não se terem casado e nem terem filhos.
- Oh, wunderbar. Uma eterna lua-de-mel! E os teus filhos, Cat?
- São uns santos de altar, não dão trabalho nenhum.
E riam as duas em uníssono.
- Vocês devem ser as únicas pessoas que se vangloriam de não ter casado e de não terem tido filhos – Campos disse. Ingrid sobressaltou-se, esquecera-se completamente que ele estava na sala.
- Eu tenho muito medo da solidão, Campos – disse Ingrid. – Por isso é que não me caso. Sou muito feliz e não precisei de me casar. Essa velha opinião de que uma mulher só é feliz quando se casa já tem as barbas tão compridas como as do Pai Natal.
- Sim, mas e os filhos? – Campos parecia chocado. – Os filhos dão verdadeiro sentido à vida!
- Isso depende de pessoa para pessoa – disse Catarina. – Conheço pessoas que teriam dado tudo para não terem os filhos que têm….
- Vocês não sentem necessidade de serem amadas? Os filhos são quem mais nos amam nesta vida!!
- Se me disseres que os pais amam os filhos mais do que tudo nesta vida sou capaz de acreditar – retaliou Catarina. – Alguns filhos são os primeiros a culpar os pais por tudo de mal que lhes aconteceu na vida. Se isto é amor, Campos…
- Realmente não vos compreendo. Que sentido pode ter a vida de alguém que não tem filhos, não é casado? Vivem em função de quem? De que vos valeu a passagem pela terra? Que fizeram de bom?
As duas mulheres entreolharam-se. Que mente tão fechada!
- Campos, tu dizes que casar, chegar a casa depois do trabalho e aturar os teus filhos é fazer algo de bom por alguém? – disse Catarina. – É a mais pura das normalidades e eu tenho pavor a tudo o que seja normal. Diz-me lá, para além dos teus rebentos, quem mais se vai lembrar de ti? Que contributo fizeste tu? Eu e a Ingrid, por exemplo, costumamos fazer coisas pela comunidade e contribuímos para o sorriso de crianças desfavorecidas. Sim, eu sei que há muitas pessoas casadas que o fazem, mas não me venhas dizer que as pessoas que não tem filhos não têm sentido nenhum, porque é sem dúvida a maior baboseira que eu ouvi, e olha que eu sou professora. Não menosprezo quem tenha filhos e nem detesto crianças, simplesmente foi a opção que eu fiz para a minha vida!
Campos murmurou algo que não foi perceptível ao ouvido das professoras.
- Campos, não percas o teu tempo a tentar compreender a vida dos outros – aconselhou Ingrid. – Creio que a tua vida de casado e os teus filhos é que precisam que tu as compreendas.
E antes que Campos pudesse abrir a boca para ripostar, a porta abriu-se novamente: o professor Carlos, que leccionava História, acabava de entrar, trazendo debaixo do braço um jornal. Sorriu ao ver Ingrid e Catarina. De todos os professores daquela escola aquelas duas eram sem dúvida com quem melhor Carlos se relacionava. É que embora ele tivesse casado há pouco tempo, também ele não tinha filhos.
- Ah, Carlos, sê bem-vindo – saudou pomposamente Catarina. – Estávamos aqui a confessar ao Campos o quão vazia é a nossa vida sem filhos. E que bons ventos te trazem?
- Bah, estou farto daquela ala – explicou Carlos, puxando uma cadeira e sentando-se. – Estão p’ra ali a discutir o facto daquele aluno, o tal Paulo, viver com o pai que é gay e vive com outro homem.
- Pessoas inteligentes discutem sobre ideias, pessoas normais discutem sobre coisas e pessoas fúteis discutem sobre pessoas – filosofou sabiamente Ingrid. – Já sabes como é que as coisas funcionam por aqui, meine Freund.
- Eu já sou contra a homossexualidade, quanto mais ao facto de uma criança viver com dois gays – opinou Campos, como se alguém o tivesse consultado.
Os três professores entreolharam-se, mas foi Carlos quem falou num tom de voz calmo.
- Ai sim Campos, então porquê?
- Deus fez o homem e a mulher – principiou Campos, mas os três professores soltaram um sono “Aaaahhh”, as suas dúvidas haviam sido esclarecidas -… para eles viverem juntos.
- Deus fez o homem e a mulher para estes serem felizes – contrapôs Carlos. – Cada um tem a sua noção de felicidade, não é. Para algumas pessoas a felicidade é ter saúde, para outras é ter dinheiro. Algumas acham que é ter uma família numerosa e outras que é viajar pelo mundo e não ter filhos – trocou um olhar significativo com as professoras. – E para algumas pessoas essa felicidade pode ser conviver com alguém do mesmo sexo…
- Quem somos nós para julgar quem quer que seja? – concluiu por fim Ingrid.
- E quem pode julgar? – perguntou Campos, os seus ânimos começavam a exaltar-se.
- E p’ra quê julgar? – contrapôs Catarina.
- Sim, e não me venhas com religião – pediu Carlos. – Também cresci numa aldeia no meio do nada e ia todos os domingos à missa e nem por isso tenho uma visão retrógrada do assunto, Campos. Sou uma pessoa religiosa e tenho muitos amigos homossexuais, pessoas maravilhosas, eu devo dizer. Isso que estás p’ra aí a dizer é puro fundamentalismo.
- Eu não sou contra os homossexuais – disse Campos. – Sou contra a homossexualidade, o acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo.
- Campos, Campos – disse Catarina em tom pesaroso – conheces o velho provérbio de que quem cospe para cima acaba sempre por se molhar? Tu tens filhos! Que ias fazer se eles te dissessem que eram homossexuais?
- Eu ia querer a felicidade deles, mas não ia concordar com a opção.
- Porquê? – perguntaram os três ao mesmo tempo. Era quase como estar a bater com a cabeça na parede.
- Eu não sou contra os homossexuais! Sou contra a homossexualidade! O acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo. Eu às vezes ponho-me a pensar como estariam as coisas se a homossexualidade fosse normal há uma data de anos atrás, como estaria a humanidade.
- Ela sempre existiu – explicou Carlos. – E se bem sei, se ela fosse vista como “normal” talvez as pessoas tivessem uma mente mais aberta. Sabias que às vezes há pessoas que nasceram com o corpo errado, ou com mais hormonas masculinas do que femininas e vice-versa? Vão fazer o quê? Trancar-se em casa? Todos temos direito ao amor.
- QUÊ?! Que disparates são esses de hormonas femininos?! Homossexualidade é opção, meu amigo. Não têm nada a ver com formação humana! Opção, opção, opção – disse isto com tanto dogmatismo que Carlos franziu as sobrancelhas de admiração.
- Ai sim, foi a opção de um homem que de repente se cansou de comer mulheres? – troçou Ingrid, já estava a ficar irritada com o comportamento de Campos.
- Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto – justificou-se Campos. – Mas eu tenho os meus princípios e sei muito bem o que a homossexualidade na vida de uma pessoa.
- E o que pode provocar? – quis saber Catarina.
- A extinção humana!!
Os três professores entreolharam-se. Aquilo haveria sido, sem qualquer margem para dúvida, o maior disparate que Campos alguma vez proferira.
- Mein Gött! – exclamou Ingrid. – O Hitler sempre tem mais seguidores do que eu pensava.
- E vocês ainda se metem para aí a falar de homossexuais a adoptarem crianças – Campos continuou, ignorando o espanto de Ingrid. – Uma criança precisa é de um pai e de uma mãe, não de dois homens que se cansaram de comer mulheres – sorriu cinicamente para Ingrid.
- Bem, estás mas é a comparar a homossexualidade com a lepra, meu caro – disse Carlos. – A homossexualidade não é uma doença e nem é contagiosa. Eu não preciso de ser pai para saber que nem sempre os filhos imitam os pais. Tu podes passar a vida toda a dizer aos teus filhos para não fumarem e do nada eles agarram num cigarro e começam a fumar. Se fosse por seguir os exemplos dos pais então não havia homossexuais, já que no teu ponto de vista é tudo uma questão de imitação. Por favor Campos basta ligares a televisão e veres documentários sobre crianças que vivem com gays e lésbicas. Elas dizem que são felizes e têm muitas probabilidades de se tornarem pessoas com mente aberta. Mas no teu ponto de vista temos é que deixar os homossexuais em casa trancados e crianças a precisar de amor em instituições.
- Chega, Carlos – disse Campos. – Estás coma visão bem ingénua sobre o assunto – Catarina e Ingrid soltaram sonoras gargalhada.
- Abre a tua mente, Campos!!!
- Pfff, mente mais aberta que a minha não vais encontrar! Vocês é que ainda não viram o quão complexo este assunto é e de certeza que estão a apresentar esses argumentos todos baseados na opinião de pessoas que não têm opinião nenhuma sobre o assunto. Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto…
- Eu normalmente costumo mostrar respeito por aquilo que não conheço, Campos – disse Carlos já irritado.
- Como é que eu posso respeitar um homem que… bah! Até partidos políticos eles querem fazer! É tudo merchandising. Vocês nunca iriam perceber o quanto isto iria alterar as concepções de casamento, adopção, família…
Aquilo pareceu ser a gota de água que fez transbordar o copo. Os três professores já estavam saturados de tentar conversar com alguém que não mostrava qualquer abertura face ao tema e era uma pena que se tratasse de um professor, só iria ajudar propagandear ainda mais a versão e a discriminação a homossexuais.
- É normal, é normal! Não me venham com história que não é!
- Sabes que mais, Campos, tens razão – acabou por concordar Carlos. – Pega neles e enfia-os a todos numa câmara de gás.
E abriu o jornal, começando a ler as notícias. Não estava para continuar a discutir com alguém tão desprovido de inteligência. Campos tinha razão, a sua mente era tão aberta que pelos vistos o seu cérebro devia de ter caído!


1 comentário:
Eu acho que, por fim, eu tomaria a mesma atitude de Carlos. Pegar o jornal e ignorar... Tem certas pessoas que não tem jeito...
Enviar um comentário