«Não é nada pessoal... são apenas negócios» afirmam eles... La Cosa Nostra ou se preferirem: a Máfia... essa organização que se esconde por detrás de um véu de secretismo para operar perfidamente na vida quotidiana. Estamos familiarizados com ela graças aos filmes com os Al Pacinos e os De Niros de Hollywood e também graças a romances à la Mario Puzo... ficção esta que somente ajuda a pincelar de tons alegres toda a escuridão que na verdade envolve os membros desta organização... afinal, todos os Al Capones, Lucky Lucianos e John Gottis deste mundo gostam que se pensem neles à imagem e semelhança do Don Corleone, que mesmo sendo muito afável não deixou de ser um criminoso sem escrúpulos. A Máfia e o modo como opera é tão surreal e ao mesmo tempo tão real que nos leva a acreditar na ficção e a pensar neles como uns Robins dos Bosques... e na verdade, quantos de nós estevimos frente-a-frente com um mafioso siciliano para saber como ele é na realidade?Confesso que sempre nutri um certo interesse (salvo seja) pela Máfia Italiana, o que me levou a adquirir uma série de material a seu respeito e que hoje colore a minha biblioteca pessoal. Debruço-me hoje sobre este tema porque a Máfia encerra em si uma série de problemas que povoam o Admirável Mundo Moderno...
«A Máfia é opressão, arrogância, ganância, enriquecimento próprio, poder e hegemonia acima e por cima de todos os outros. Não é um conceito abstracto, um estado de espírito ou um termo literário... É uma organização criminosa, regida por regras não-escritas, mas inexoráveis e implacáveis... O mito de um “homem de honra” corajoso e generso tem de ser destruído, porque um mafioso é exactamente o oposto» - proferiu Cesare Terranova, um magistrado italiano [in os Maiores Gangsters da História, da autoria de Lauren Carter]. Mas a Máfia representará na realidade a falha da sociedade em gerir os seus problemas ou o produto da mente deturpada de alguns indivíduos?
Basta pensarmos no motivo que levou muitos dos jovens, filhos de imigrantes italianos, a ingressar neste estilo de vida. Alegaram todos que se sentiam fascinados ao ver alguns dos seus compatriotas desfilando com roupas elegantes, jóias, grandes carros e mulheres bonitas... estes jovens viviam a dura realidade dos bairros miseráveis... os seus pais mostravam-se relutantes em se adaptarem ao país em que agora viviam, e este país também não mostrava grande interesse em aceitar estes novos cidadãos. A maioria dos jovens também não se sentia atraída com os programas leccionados na escola, o que conduziu ao abandono da mesma... foi nas ruas que encontraram o seu refúgio e optaram pela vida fácil. «A minha vida ditou todos os rumos que tomei. Nunca tive escolha. No meu tempo, todas as portas estavam fechadas», afirmou John Gotti.
Sim, agora podíamos apontar uma série de dedos acusadores aos Governos, responsáveis pelo caminho que estes jovens seguiram, responsáveis por não terem possibilitado uma melhor qualidade de vida... no entanto, existe sempre a resiliência (tema que eu aliás já tinha debatido com Mirian) e isto não deve ser utilizado como desculpa para todos os crimes hediondos cometidos pelos mafiosos.
A Máfia adora vangloriar-se de defender valores como a honra e a lealdade, embora o faça por motivos diferentes. A honra é lavada com sangue, e se alguém desrespeita um mafioso, este não terá meias medidas em descarregar toda a sua artilharia em cima daquele que o ofendeu... afinal o respeito é uma coisa muito bonita e todos nós gostamos, não é... e a lealdade rege-se pelo código do silêncio da Máfia: Omerta. Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada... ninguém pode ser “dedo-duro”... o que pode ser mais desprezível do que aquele queixinhas que vai contar ao professor quem é que se portou mal quando o docente saiu momentaneamente da sala? Os mafiosos cresceram nesta crença... e todos os que quebram este código de honra pagam com a morte... é que quando se entra para uma família siciliana deve-se fazer o juramento que consiste em abrir uma ferida no dedo de modo a que esta sangre ligeiramente, enquanto se queima a imagem de um santo e se diz «que a minha carne queime como este santo se eu trair a Família»... Quando se faz um acordo com a Máfia este só termina quando morremos...
La Cosa Nostra explora o que de mais hediondo existe na natureza humana, enquanto muitos de nós sentimos arrependimento e um peso na consciência quando cometemos algo de errado (e nenhum de nós anda por aí assaltar bancos e a matar a torto e a direito) o mesmo não parece acontecer com estes indíviduos... não sentem peso não consciência por matarem, por explorarem outras pessoas, assaltarem e fazerem em somente uns meses a quantidade de dinheiro que provavelmente nunca iríamos fazer nem que passássemos por este mundo umas quinhentas vezes (tirando o Michael Corleone [que afinal foi criado pelo caro Mario Puzo] não estou a ver mais nenhum mafioso a ajoelhar-se a pedir perdão pelos seus pecados [e acreditem que seriam precisos vários rolos de papel higiénico para registrar todos eles]). «Foi a vida que escolhi», afirmam, e devemos nós, comuns mortais, aceitar que nos matemos a trabalhar enquanto um mafioso lava mais de não sei quantos biliões de dólares só por traficar cocaína, comandar bordéis, fazer desfalques em bancos, chantagem, burla, extorsão, traficar seres humanos, órgãos, e etc. etc. etc. E isto acaba-se tornando um ciclo vicioso... por exemplo... a polícia para prender John Gotti, o último dos chefes da família Gambino (uma das famílias mafiosas mais poderosas dos EUA), contou com o apoio do seu braço direito Sammy Gravano... tudo bem, o Gotti foi para a prisão e morreu recentemente, ao Gravano foi dada a possibilidade de reconstituir a sua vida noutro estado, sobre um novo nome e tudo mais, bem à maneira americana, e o que fez Gravano? Foi apanhado mais tarde nos negócios ilegais... o que dizer disto? Enfim... é como diz Al Capone: «quando entras para os negócios ilícitos é para sempre».
Mas os mafiosos não se cingem somente ao comum mafioso de bairro que fica nas ruas a fazer o trabalhinho sujo... há o grande chefe... aquele que fica confortavelmente sentado na sua cadeira a contar maços de notas e a fumar gordos charutos... aquele que de dia é o respeitável Sr. Não-sei-quê e de noite, sentado na mesa redonda com os outros da sua laia, discute porque motivo têm que eliminar não sei quem. Era assim que devia de ser o verdadeiro chefe mafioso, esconder-se por detrás da máscara de cavalheiro respeitável que faz doações à igreja... era o que advogavam grandes chefes como Gambino e Genevosse. Este é, na minha opinião o mais desprezível dos chefes mafiosos... consegue até ser mais desprezível do que os Zés Pequenos deste mundo. Gostei particularmente do último filme de O Padrinho (no Brasil se chama “O Poderoso Chefão”) porque explora um pouco deste lado legal da Máfia... é que até os Bispos e outros tantos (perdoem-me mas não pesco grande coisa de hierarquia religiosa) estão envolvidos com negócios ilegais.
«Por detrás de cada grande fortuna oculta-se um crime» de Balzac e «Não compreendo quem segue o caminho do crime quando há tantas formas legais de se ser desonesto» de Al Capone servem para reforçar a ideia que anteriormente expus. Desde o árbitro que aceita o suborno, o político que desvia o dinheiro, o polícia que encobre o tráfico das drogas até ao comum mafioso de rua que chula as prostitutas... são todos farinha do mesmo saco... mas o mais desprezível é quando alguém que, supostamente devia de zelar pelos nosso bem-estar, se deixa seduzir pelo doce aroma do dinheiro sujo. Finalizo com esta citação do livro Al Capone e o seu gang: «Os polícias e o juízes estão tão metidos no esquema como eu. A única diferença é que eles se fazem de santinhos! Eu cá prefiro mil vezes os criminosos. Ao menos são honestos».
Deve ser quebrado o pudor de se falar em Máfia, não somente na Máfia Italiana que usei aqui por exemplo, mas todo o tipo de organização criminosa que se sirva de meios hediondos e ilegais para subir na vida. Não devemos fechar os olhos à corrupção e lidar como se fosse algo que não nos afectasse porque na verdade afecta, e muito e nem devemos de louvar a facilidade com que consegue as coisas (salvo seja) porque tudo nesta vida é consigo com esforço, não é...
A Máfia é muito “bonita” e tem o seu glamour sim, mas é nas páginas de um romance ou numa tela de cinema, não no mundo real...


2 comentários:
Hey :D
Pode ler e comentar o quanto quiser
Também passarei aqui sempre
Posso te linkar?
:*
É interessante como deixamos a Máfia como se fosse somente uma "personagem" de um filme e fingimos não perceber o que está à nossa volta...
Resiliência... Menina, você foi tirar a conversa do fundo do baú! rsrsss
Enviar um comentário