"Crónica de Costumes"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

I Acto – Famílias Monoparentais

O sol reluzia nos óculos de Ivan enquanto ele, sentado descontraidamente no banco do jardim, observava o seu amigo Gustavo a andar de skate. As aulas já haviam terminado e os jovens aproveitavam aquele momento de lazer para confraternizar. Eram grandes amigos, desde o tempo de infância, e agora que estavam na adolescência, esta amizade revelara-se de uma importância acrescida. Estavam quase sempre juntos e faziam sempre algo na companhia do outro, desde ir ao cinema, ao salão de jogos a concertos e até dormiam na casa um do outro. No entanto, Ivan sempre preferia dormir na casa de Gustavo por gostar muito da família dele. Era para Ivan totalmente diferente das famílias que ele conhecia. Todas tinham quase sempre somente um pai ou uma mãe, ou em alguns casos já havia um padrasto ou uma madrasta e filhos de outros casamentos. O próprio Ivan conhecia essa realidade, as sucessivas decepções amorosas que a sua mãe tivera enquanto jovem haviam-na levado a escolher ser mãe solteira, pelo que ela recorrera à inseminação artificial. Era algo que havia feito imensa confusão na cabeça de Ivan quando, ao fazer onze anos, a mãe lhe explicou porque motivo ele não tinha pai. Ivan não era um jovem revoltado, antes pelo contrário. Tinha uma vida confortável e a sua mãe tinha um emprego estável, tinha bons amigos, no entanto faltava-lhe uma figura masculina. O seu avô morrera cedo e ele não tinha tios, da sua família somente lhe restavam a sua mãe e a sua avó. Já a família do Gustavo era tão grande, tantos tios, primos, e Gustavo tinha irmãos, e o mais importante, tinha um pai, Ivan não sabia o que era isso. Estava sempre tão rodeado de mulheres que às vezes as dúvidas explodiam-lhe na cabeça como fogo de artificio, no entanto não tinha com quem falar sobre isso… Daria tudo o que tinha para conhecer o pai.

Naquela tarde haviam falado de quase tudo: desporto, as aulas, música, filmes, garotas e até haviam feito para planos para o fim-de-semana. E agora que o assunto parecia estar esgotado, permaneciam os dois em silêncio, aguardando por Joana e a sua amiga Rebeca, que estavam prestes a sair da aula de teatro.

- Então, Gus, como ‘tão as cenas com a Joana? – indagou Ivan enquanto observava o amigo. Era um rapaz alto, de cara redonda e cabelo preto encaracolado.

Gustavo desequilibrou-se ligeiramente no skate.

- ‘Tão normais, como é que querias que tivessem? Somos só amigos.
- Infelizmente, né? – Ivan riu-se, uma vez que o amigo começava a ficar ligeiramente envergonhado.

- Cala-te, ela é mais velha que eu. Não ia querer nada comigo!

- Ela vêm aí, porquê que não lhe perguntas?

Evidentemente Joana acabara de chegar, com seu cabelo artisticamente desgrenhado. Trazia consigo a sua amiga Rebeca, de nacionalidade inglesa. Rebeca, ou Becky, como Joana lhe chamava, era uma menina gorducha com um comprido cabelo ruivo e sardas na cara. Joana, habitualmente, a chamava, com carinho, de Bolinha.

- Então, rapazes, de que falavam? – perguntou Joana, saudando-os com um largo sorriso. Estava muito mais feliz desde que recebera aqueles conselhos da tia Catarina.

- Da vida amorosa do Gustavo – esclareceu Ivan com um sorriso maroto, adiantando-se ao amigo que ia dizer que não estava a conversar sobre nada.

Joana corou ligeiramente. Somente Receba sabia que ela gostava do Gustavo. Ela passava muito tempo a conversar com o amigo, no entanto temia que ele descobrisse e se afastasse dela… não queria perder aquela amizade.

- É qual é o balanço que fazes dela? – perguntou Joana, o seu sorriso desvanecera-se consideravelmente. Será que o Gustavo gostava de alguém?

- Ele chegou a conclusão que a vida amorosa dele é quase tão vazia como a minha carteira – disse Ivan e as meninas começaram a rir. Gustavo fez-lhe um gesto obsceno com os dedos. Interiormente Joana sentiu-se aliviada.

- Que tal correu o ensaio? – perguntou Gustavo, para desviar as atenções do tema relativo à sua vida amorosa.

- Ah, normal – disse Rebeca com a habitual acentuação inglesa. – O Ricardo, p’ra variar, atrapalhou as cenas. Ele nunca estuda os textos em casa e depois atrapalha-se nas falas.

- Ya – acabou por dizer Gustavo. Estava à espera que fosse Joana a responder. – Já acabaram o texto que a stôra de Geografia pediu?

- “Explique porque motivo as taxas de divórcios têm vindo a crescer em detrimento das taxas de casamentos” – Joana fez uma perfeita imitação do tom de voz afectado da professora de Geografia. Os jovens começaram a rir. – Que mulher mais chata! Sei lá porquê que as pessoas se divorciam! Cada um tem o seu motivo.

- Olha, os meus divorciaram-se por falta de tempo – disse Rebeca. – O meu pai é médico e ‘tá quase sempre no Hospital. A minha mãe ficou tão farta que o mandou passear.

- Os teus pais são divorciados, Becky? – quis saber Gustavo.

- Ya. Mas dão-se muito bem, acho que melhor do que quando ‘tavam casados. Costumam ir jantar todos os sábados p’ra falarem sobre mim. Acho que o meu padrasto não gosta muito da ideia, mas ele que se lixe. Apesar de ser um bocado totó a minha mãe gosta dele, e eu também, costuma levar-nos a passear, mais do que o meu pai.

- E os teus velhos voltaram-se a casar?

- Sim, o meu pai já tinha uma filha do primeiro casamento dele, mas ‘tá em Bristol, com a mãe. Agora que ele se casou de novo, tem outra filha também, a Amanda. E a minha mãe tem um filho com o meu padrasto, o Andrew. É fixe, porque tenho duas casas e quando me chateio com a minha mãe posso ir p’ra casa do pai e ao contrário também. Assim nunca me farto!

- Sim, mas mesmo assim, tens outras pessoas a mandarem em ti. Eu não era capaz. Se às vezes nem obedeço aos meus pais, quanto mais aos outros.

- Oh, mas eles nem mandam muito em mim – esclareceu Rebeca. – O meu padrasto quase que nem se mete. E a minha madrasta quer-se meter mas eu corto-lhe logo as asinhas. Mando-a à merda, se for preciso. O meu pai fica sempre do meu lado, sou a menina dos olhos dele. Mas de resto a minha madrasta não faz mais nada, no fundo até é boa pessoa e o meu pai gosta dela. Acho que à terceira ele acertou! – e esboçou um largo sorriso.

- Eu não tenho padrasto – disse Joana. – Mas a minha madrasta é uma cabra, não gosto mesmo nada da mulher. E o meu pai, vocês já sabem como é – Joana fez uma curta pausa. Era tudo relativamente recente e no seu inconsciente ouviu a voz da tia Catarina, dando-lhe forças para continuar a falar. – Mas pelo menos também não se intromete e a minha mãe nunca o consulta p’ra tomar as decisões. Eles separam-se porque o meu pai tinha um caso com uma lá do trabalho e era muito ciumento… até compreendo o lado da minha mãe.

- Isso é muito porco – disse Gustavo lançando um olhar reconfortante à amiga. – Fazem as merdas e os filhos é que sofrem sempre com essas cenas das separações. Tenho uns tios que quando se separaram ‘tavam sempre a discutir sobre quem é que ia ficar com os meus primos. Os miúdos passaram uns tempos lá em casa p’ra não verem as cenas… eram mesmo de baixo nível. Estas coisas são sempre muito estranhas, quando ‘tavam casados eram «queridinho» «amorzinho» e agora quase que se matam um ao outro.

- Oh, se até nós nos fartamos às vezes, imagina os adultos. A vida deles é uma seca! Trabalhar, trabalhar, trabalhar e tomar conta dos putos – disse Joana. – Namorar já é complicado, imagina então viver na mesma casa e isso tudo.

- Mas os meus pais dão-se super bem – relembrou Gustavo. – Ás vezes até parece que têm a nossa idade… e as ás vezes também se chateiam e o meu pai vai dormir pró sofá da sala, mas no fim fazem sempre as pazes.

- Bem, nas novelas dizem que temos uma alma gémea, não é – explicou Rebeca em tom de brincadeira. – Com os teus pais foi fácil, encontram-se logo. A alma gémea da minha mãe pelos vistos é o meu padrasto… a do meu pai é a chata da Bianca.

- Sim, mas quem paga por esse procura são os filhos – voltou a dizer Gustavo que ainda não compreendia muito bem aquela situação. – Sei lá, p’ra mim isso é estranho.

- Bah, nem é muito – disse Joana. – A vida é feita de altos e baixos, e sempre se aprende alguma coisa. Acreditem, isto é tão normal que nem vale a pena fazer um bicho-de-sete-cabeças. É muito melhor quando os pais tão separados do que ‘tarmos a aturar as discussões deles.

Acabaram todos por chegar a conclusão de que Joana tinha razão e Gustavo não conseguiu deixar de sentir a sua admiração por aquela moça a crescer ainda mais. No entanto Ivan era o único que permanecia calado, facto que os outros notaram.

- E tu, Ivan – disse Rebeca. – Vives com os teus pais?

Ivan fitava os seus ténis, estava ligeiramente abatido.

- Nunca conheci o meu pai – disse por fim. Rebeca e Joana entreolharam-se, Gustavo nada fez, já conhecia a história.

- Porquê? Ele morreu?

- Nah, a minha mãe é que quis ser mãe solteira. Fez uma cena qualquer super estranha e nasci eu.
Disse aquilo com tanta normalidade que os jovens ficaram chocados. Já haviam estudado nas aulas de Ciências que era possível engravidar sem qualquer relação sexual, bastava somente recorrer à inseminação artificial, mas eles achavam aquilo tão surreal e digno de um filme de ficção científica que sentiram-se escandalizados por saber que tinham um caso assim tão perto.

- Bem… - Joana não sabia o que dizer – mas vê o lado positivo, tens a tua mãe. Tipo, eu vivo só com a minha e adoro. Ela dá-me conselhos, eu dou conselhos a ela. Ela é super liberal, falamos de tudo mesmo.

- Sim, ma é mais fácil para uma mulher ser mãe solteira quando tem uma filha do que quando tem um filho – opinou Ivan. – Agora uma mãe solteira com filho é mau é pró filho.

- Sim, mas nós mulheres também sentimos falta de um pai – contrapôs Joana. – Por exemplo eu, nunca tive uma figura masculina… e eu antes pensava que se tivesse uma figura masculina ia aprender a ser mais confiante em mim mesma. Sempre achava que não tinha muita sorte com os rapazes por causa disso – olhou para Rebeca e para Gustavo – vocês sabem como é que foi o meu namoro com o Victor. Eu pensava «como é que o Victor podia gostar de mim se nem o meu próprio pai gosta».

- Nah, mas isso não foi culpa tua ou da falta do teu pai – disse Gustavo. – Era mesmo o Victor que era estúpido.

- Pfff – fez Ivan indiferente ao que Joana dissera. – Se fosses um moço é que não ias ter confiança nenhuma. Vê tipo, nos bairros sociais, os miúdos acabam por ir pró crime porque faltava lá em casa um pai. Quem melhor para acalmar um homem do que outro homem?

- Por acaso é verdade – concordou Gustavo. – Tipo a minha mãe não consegue por limites em mim. Eu faço asneiras, revolto-me, parto as coisas, até me zango com ela. Mas com o meu pai a história já é outra…

- Tu fazes isso com a tua mãe – interrompeu Joana, escandalizada.

- Somos pessoas diferentes.

- Sim, mas também é mau da tua parte – repreendeu Joana e Gustavo deu por ele a corar. – Eu também sou diferente da minha mãe, mas sempre obedeço ela. Não tenho mais ninguém!

- Ya – foi a vez de Ivan falar. – Mas se quiseres aprender a andar em saltos altos tens lá a tua mãe. Quando querias aprender a usar sutiãs, tinhas lá a tua mãe. Quando queres usar maquilhagem também tens a tua mãe. Agora um homem?! Como é que uma mãe vai ensinar um filho a jogar à bola? A andar de bicicleta? É complicado, pessoal.

Ficaram um pouco em silêncio.

- Lembras-te quando disseste que também querias ser mãe solteira, Jo? – disse Gustavo. Lembrava-se de uma vez, enquanto falava no Messenger com a Joana, de ela, num ataque de raiva por o pai não se preocupar com ela, ter dito que queria ser mãe solteira. – Eu lembrei-me do caso do Ivan e digo-te… não faças isso… só se não puderes mesmo evitar…

- É verdade – continuou Ivan. – Mulher e mulher até funciona… agora mulher e homem é p’ra esquecer. Como é que eu falo sobre assuntos sexuais com a minha mãe? Quem é que me vai levar aos jogos de futebol? Acho que a minha mãe não pensou nisto quando me quis ter.

- Essa história da tua mãe é um pouco marada – opinou Rebeca. – Ela deve ter tido um desgosto mesmo grande p’ra querer ter sido mãe solteira…

- Sim, mas os desgostos ultrapassam-se, não é – relembrou Joana. – Afinal as desilusões não matam, ensinam a viver.

- E a tua mãe nunca mais arranjou namorado? – perguntou Rebeca, curiosa.

- P’ra quê? – Ivan sobressaltou-se. – Ela não precisa! Eu sei tomar conta dela, ok!

- Calma, meu – acalmou Gustavo. – Como ‘tavas a dizer que precisavas de um homem lá em casa…

- Sim, mas era o meu pai, não um homem qualquer… o mal agora também já ‘tá feito, não é? Já tenho quinze anos!

Joana sentiu que o Ivan estava era a precisar de uma boa conversa com a tia Catarina para esclarecer as dúvidas que lhe consumiam.

- Os filhos têm que ter mãe e pai - disse Ivan. – Tu tens um bom exemplo feminino em casa, Joana. A tua mãe é batalhadora. A Becky e o Gus também tem bons exemplos. Agora eu! Gosto muito da minha mãe, mas sei lá… esta cena toda é super estranha.

E Gustavo pensou para si mesmo que de facto era tudo muito estranho. A mãe de Ivan era uma mulher estranha. Gostava muito do filho, era verdade, mas era uma mulher extremamente severa, raramente ria e não era muito dada a conversas. E isso notava-se na maneira de ser do próprio Ivan. Ele era um rapaz muito inibido e retraído, às vezes Gustavo tinha que puxar por ele para saber o que ele tinha, parecia que toda aquela atmosfera negativa que consumia a mãe do Ivan havia passado para o filho e então Gustavo concluiu que… estejam casados ou divorciados, todos os filhos tinham mesmo de ter um pai e uma mãe…

2 comentários:

Mirian Martin disse...

Só eu faço novelas,né?
Está ficando bom!
Mas, tadinho do Ivan... Nem um tio?! As porcarias dos meus moleques, quando André ficava longe por tempo demais, sempre adotavam o vizinho, o dono do bar, o diretor da escola... Daí eu intimava o André para arranjar casa logo, onde ele estava, que estava fazendo as malas para todos estarmos juntos. Um sufoco! Mas, eles sempre dão um jeito de arranjar a bendita figura masculina - boa ou ruim, mas arranjam! rsrsss

Camilla K. Boyle disse...

Rsrsrrs ta parecendo novela mexicana, neh. Qualquer dia ainda vou pra globo rsrsrs. Eu também procurei uma figura masculina nos meus tios e resultou, foi so pra dar o toque dramático à história. Os leitores [geralmente] até gosta xD