II Acto – “… há que ser forte e seguir em frente…”
“Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o triunfo pertence a quem se atreve e a vida é muito curta para ser insignificante” – Charles Chaplin
— Chegaram mesmo a tempo… acabei de tirar a carne do forno — elucidou a tia Amélia enquanto lhes abria a porta de casa.
Era uma senhora já na meia-idade, com um curto cabelo grisalho, alta e robusta, possuidora de uns encantadores olhos azuis e com um rostinho redondo e simpático. A mesa já se achava posta no jardim, à sombra, envolta num ambiente acolhedor e tipicamente mediterrâneo. O pastor alemão, Nero, ziguezagueava atrás da sua cauda, sendo atentamente observado pelas duas roliças e indolentes gatas. Como som de fundo ouvia-se o chilrear dos pássaros e os ABBA, que tocavam no rádio.
— Onde está a D. Maria? — indagou Camilla ao ver que mais ninguém se achava presente.
D. Maria era a patroa da sua tia, uma senhora já de idade, para quem Amélia trabalhara lealmente por mais de dez anos.
— Foi passar uns dias à casa do irmão — esclareceu a tia, abrindo o frigorífico. — Queres uma cerveja, Gustavo?
Ele ia responder, mas Camilla cortou-lhe a palavra.
— Não, tia, ele bebe sumo! P’ra já ele vai conduzir e vai trabalhar e depois… dê álcool e música — apontou para o rádio —, a um irlandês e ele só vai parar de beber quando tiver em coma.
A tia encaminhou-se para a mesa, rindo. Até o próprio Gustavo riu do gracejo que algo se assemelhava com a realidade, embora no que tocasse à bebida, os escoceses conseguissem bater os irlandeses.
Sentaram-se, serviram-se e ficaram algum tempo conversando, até que…
— Dona Amélia — disse Gustavo —, por acaso não sabe de nenhum apartamento para alugar? Tenho uma prima que vêm morar para cá porque conseguiu trabalho e anda à procura de casa. Ela já arranjou uma colega com quem dividir a casa, o problema é que não encontram nada assim em conta e a minha mãe lá na Agência ‘tá cheia de turistas que querem alugar casas e por isso não tem tempo p’ra ver isso.
— Hmmm — pensou ela —… tenho sim. — Dona Maria era dona de um prédio, o qual Amélia administrava — No quinto andar, os Silva foram-se embora e o apartamento ‘tá p’ra alugar.
— Foram-se embora?! — exclamou Camilla que conhecia grande parte dos moradores daquele prédio por ter lá passado grande parte da sua vida. — Eu gostava dos miúdos…
— Sim, eram simpáticos — comentou a tia limpando os cantos da boca com o guardanapo. — Apesar de terem andado por aí a dizer que eu os recriminava por eles terem computadores e telemóveis topo de gama…
— E isso é verdade? — perguntou Gustavo. — Quer dizer, as pessoas inventam muita coisa…
— Não é verdade mas também não é mentira… Diz-me lá, Gustavo, de que é que adianta ter um computador ou telemóvel moderno se depois no talho deves cem, na mercearia deves cinquenta, se atrasas a renda…
— Então eles usavam o dinheiro nos lugares errados? — concluiu ele e a senhora acenou afirmativamente com a cabeça.
— As pessoas às vezes tem as prioridades todas trocadas — disse Camilla.
— Pois é — concordou a tia. — Andavam todos bem vestidos, sempre com coisas novas, mas na caixa do correio era um monte de coisas para pagar e depois ainda se metiam a comprar coisas às prestações, contavam com o ovo no cu da galinha e ficavam com mais dívidas ainda, e depois ainda se metem em créditos que são uns autênticos agiotas, enfim, só sei é que tiveram de sair da casa porque estão afundados em dívidas.
— Quem diria! — exclamou Camilla.
— Eu, sinceramente, prefiro mil vezes ir trabalhando e colocando algum dinheiro de parte para comprar alguma coisa do que comprar às prestações e ir pagando todos os meses, imagina que acontece um imprevisto e não tenho o dinheiro! Não, nem pensar, prefiro chegar ao lugar e comprar a coisa com o dinheiro já na mão… é muito mais seguro — opinou a tia.
— Sim, mas isso vai depender também daquilo que pretende comprar — disse Gustavo. — Pode demorar algum tempo até conseguir esse dinheiro.
— Pois pode, mas sabias que o melhor mesmo de querer uma coisa é exactamente o querer, porque tu ficas pensando no que vais fazer para a ter, então vais trabalhando, mentalizado de que queres aquilo e pronto, quando consegues ficas «e agora?», porque já tens o querias. Mas acreditem, não há nada melhor do que encostar a cabeça no travesseiro e pensar «eu consegui isso com o meu trabalho».
Os jovens entreolharam-se, dado que ambos trabalhavam.
— Sabem, meninos, eu aprendi que se queremos ser alguém na vida ou se queremos ter alguma coisa para nós, só vamos conseguir isso através do trabalho… e não nos podemos contentar a trabalhar só as oito horas de trabalho, porque nessas oito horas ganhas o teu ordenado e depois, acham que serve? Quem quer ter as coisas faz horas extra, tem vários trabalhos. Existe algo melhor do que isso? Ter a força para ir à luta pelo que se quer, mas há luta honesta… é muito melhor do que viver aperreado, contando os tostões porque se quer ter a cabeça maior que o chapéu.
Eles pareciam os dois ávidos daqueles sábios conhecimentos que a senhora lhes transmitia. No fundo era assim, na vida tudo se conseguia com esforço e era preciso ser forte e ir à luta ao invés de ficar sentado aguardando que as coisas caiam do céu, pois no primeiro caso enquanto quem espera sempre alcança, no segundo quem espera desespera.
— Tem razão, Dona Amélia — admitiu Gustavo. — Eu sinto-me muito melhor por não ter que pedir dinheiro à minha mãe para comprar o que quero.
— É isso mesmo — anuiu ela, satisfeita. — O trabalho nunca matou ninguém, antes pelo contrário. Desde que sejamos honestos e nunca desistamos dos nossos sonhos, é assim que os podemos alcançar. E vejam o exemplo da Dona Maria. Trabalhou a vida toda, construiu o império dela e agora ‘tá a desfrutar desses anos de trabalho, numa casa confortável, viajando… garanto-vos que não há nada melhor do que isso.
— Ah, então vou já delinear as minhas metas — brincou Camilla. — Assim já me imagino no futuro, trabalhando arduamente mas vivendo num apartamento moderno nos subúrbios de uma cidade europeia, com um cãozinho que vai buscar o jornal e um filho brilhante — eles riram. — Mas o engraçado é que quando penso nisso não me vejo ao lado de nenhum homem, e muito menos ao lado de uma mulher — e novamente eles riram. — Sinceramente acho que essas relações normais não são para mim… prefiro uma ao estilo Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir… mas sem os menáges estranhos.
— Oh, essa era a melhor parte da relação deles — riu Gustavo que era um existencialista nato.
— As coisas que vocês dizem! — disse Dona Amélia que já tinha a cara rosada de tanto rir. — Querem sobremesa… tenho melancia e uma tarte de whisky que comprei ontem, muito boa…
— P’ra mim não — recusou Gustavo. — Não se esqueça que o whisky pode ser recessivo ao meu sangue irlandês e a minha hora de almoço ‘tá a acabar e é provável que hoje peça ao Mário p’ra fazer umas horas extra — brincou.
— É isso, meu filho, trabalha que só assim é que consegues as coisas, através do esforço aconselhou a tia. — Gustavo, quando saíres fecha o portão por causa do Nero — ia-se encaminhando par a cozinha, mas parou e disse. — E não se esqueçam que, em todos os aspectos, “a vida é fantástica senão tivermos medo dela”.
— Charles Chaplin! — disseram eles em uníssono.
Com um último sorriso a senhora encaminhou-se para a cozinha.
— Adoro a tua tia!
— Também eu, é uma espécie de segunda mãe.
— Eu vou andando, depois de saíres do trabalho queres ir dar uma volta ou assim?
— Pode ser.
Ele levantou-se da sua mesa mas lembrou-se de algo.
— Sabes, Boyle, se a gente vivesse numa ditadura, ias ser das primeiras pessoas a ser executada.
— Porquê? — estranhou ela.
— Porque fazes demasiadas perguntas!
Os dois riram.
— OK! ‘Tamos quites… nunca mais ofendo o teu sangue irlandês!
“Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o triunfo pertence a quem se atreve e a vida é muito curta para ser insignificante” – Charles Chaplin
— Chegaram mesmo a tempo… acabei de tirar a carne do forno — elucidou a tia Amélia enquanto lhes abria a porta de casa.
Era uma senhora já na meia-idade, com um curto cabelo grisalho, alta e robusta, possuidora de uns encantadores olhos azuis e com um rostinho redondo e simpático. A mesa já se achava posta no jardim, à sombra, envolta num ambiente acolhedor e tipicamente mediterrâneo. O pastor alemão, Nero, ziguezagueava atrás da sua cauda, sendo atentamente observado pelas duas roliças e indolentes gatas. Como som de fundo ouvia-se o chilrear dos pássaros e os ABBA, que tocavam no rádio.
— Onde está a D. Maria? — indagou Camilla ao ver que mais ninguém se achava presente.
D. Maria era a patroa da sua tia, uma senhora já de idade, para quem Amélia trabalhara lealmente por mais de dez anos.
— Foi passar uns dias à casa do irmão — esclareceu a tia, abrindo o frigorífico. — Queres uma cerveja, Gustavo?
Ele ia responder, mas Camilla cortou-lhe a palavra.
— Não, tia, ele bebe sumo! P’ra já ele vai conduzir e vai trabalhar e depois… dê álcool e música — apontou para o rádio —, a um irlandês e ele só vai parar de beber quando tiver em coma.
A tia encaminhou-se para a mesa, rindo. Até o próprio Gustavo riu do gracejo que algo se assemelhava com a realidade, embora no que tocasse à bebida, os escoceses conseguissem bater os irlandeses.
Sentaram-se, serviram-se e ficaram algum tempo conversando, até que…
— Dona Amélia — disse Gustavo —, por acaso não sabe de nenhum apartamento para alugar? Tenho uma prima que vêm morar para cá porque conseguiu trabalho e anda à procura de casa. Ela já arranjou uma colega com quem dividir a casa, o problema é que não encontram nada assim em conta e a minha mãe lá na Agência ‘tá cheia de turistas que querem alugar casas e por isso não tem tempo p’ra ver isso.
— Hmmm — pensou ela —… tenho sim. — Dona Maria era dona de um prédio, o qual Amélia administrava — No quinto andar, os Silva foram-se embora e o apartamento ‘tá p’ra alugar.
— Foram-se embora?! — exclamou Camilla que conhecia grande parte dos moradores daquele prédio por ter lá passado grande parte da sua vida. — Eu gostava dos miúdos…
— Sim, eram simpáticos — comentou a tia limpando os cantos da boca com o guardanapo. — Apesar de terem andado por aí a dizer que eu os recriminava por eles terem computadores e telemóveis topo de gama…
— E isso é verdade? — perguntou Gustavo. — Quer dizer, as pessoas inventam muita coisa…
— Não é verdade mas também não é mentira… Diz-me lá, Gustavo, de que é que adianta ter um computador ou telemóvel moderno se depois no talho deves cem, na mercearia deves cinquenta, se atrasas a renda…
— Então eles usavam o dinheiro nos lugares errados? — concluiu ele e a senhora acenou afirmativamente com a cabeça.
— As pessoas às vezes tem as prioridades todas trocadas — disse Camilla.
— Pois é — concordou a tia. — Andavam todos bem vestidos, sempre com coisas novas, mas na caixa do correio era um monte de coisas para pagar e depois ainda se metiam a comprar coisas às prestações, contavam com o ovo no cu da galinha e ficavam com mais dívidas ainda, e depois ainda se metem em créditos que são uns autênticos agiotas, enfim, só sei é que tiveram de sair da casa porque estão afundados em dívidas.
— Quem diria! — exclamou Camilla.
— Eu, sinceramente, prefiro mil vezes ir trabalhando e colocando algum dinheiro de parte para comprar alguma coisa do que comprar às prestações e ir pagando todos os meses, imagina que acontece um imprevisto e não tenho o dinheiro! Não, nem pensar, prefiro chegar ao lugar e comprar a coisa com o dinheiro já na mão… é muito mais seguro — opinou a tia.
— Sim, mas isso vai depender também daquilo que pretende comprar — disse Gustavo. — Pode demorar algum tempo até conseguir esse dinheiro.
— Pois pode, mas sabias que o melhor mesmo de querer uma coisa é exactamente o querer, porque tu ficas pensando no que vais fazer para a ter, então vais trabalhando, mentalizado de que queres aquilo e pronto, quando consegues ficas «e agora?», porque já tens o querias. Mas acreditem, não há nada melhor do que encostar a cabeça no travesseiro e pensar «eu consegui isso com o meu trabalho».
Os jovens entreolharam-se, dado que ambos trabalhavam.
— Sabem, meninos, eu aprendi que se queremos ser alguém na vida ou se queremos ter alguma coisa para nós, só vamos conseguir isso através do trabalho… e não nos podemos contentar a trabalhar só as oito horas de trabalho, porque nessas oito horas ganhas o teu ordenado e depois, acham que serve? Quem quer ter as coisas faz horas extra, tem vários trabalhos. Existe algo melhor do que isso? Ter a força para ir à luta pelo que se quer, mas há luta honesta… é muito melhor do que viver aperreado, contando os tostões porque se quer ter a cabeça maior que o chapéu.
Eles pareciam os dois ávidos daqueles sábios conhecimentos que a senhora lhes transmitia. No fundo era assim, na vida tudo se conseguia com esforço e era preciso ser forte e ir à luta ao invés de ficar sentado aguardando que as coisas caiam do céu, pois no primeiro caso enquanto quem espera sempre alcança, no segundo quem espera desespera.
— Tem razão, Dona Amélia — admitiu Gustavo. — Eu sinto-me muito melhor por não ter que pedir dinheiro à minha mãe para comprar o que quero.
— É isso mesmo — anuiu ela, satisfeita. — O trabalho nunca matou ninguém, antes pelo contrário. Desde que sejamos honestos e nunca desistamos dos nossos sonhos, é assim que os podemos alcançar. E vejam o exemplo da Dona Maria. Trabalhou a vida toda, construiu o império dela e agora ‘tá a desfrutar desses anos de trabalho, numa casa confortável, viajando… garanto-vos que não há nada melhor do que isso.
— Ah, então vou já delinear as minhas metas — brincou Camilla. — Assim já me imagino no futuro, trabalhando arduamente mas vivendo num apartamento moderno nos subúrbios de uma cidade europeia, com um cãozinho que vai buscar o jornal e um filho brilhante — eles riram. — Mas o engraçado é que quando penso nisso não me vejo ao lado de nenhum homem, e muito menos ao lado de uma mulher — e novamente eles riram. — Sinceramente acho que essas relações normais não são para mim… prefiro uma ao estilo Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir… mas sem os menáges estranhos.
— Oh, essa era a melhor parte da relação deles — riu Gustavo que era um existencialista nato.
— As coisas que vocês dizem! — disse Dona Amélia que já tinha a cara rosada de tanto rir. — Querem sobremesa… tenho melancia e uma tarte de whisky que comprei ontem, muito boa…
— P’ra mim não — recusou Gustavo. — Não se esqueça que o whisky pode ser recessivo ao meu sangue irlandês e a minha hora de almoço ‘tá a acabar e é provável que hoje peça ao Mário p’ra fazer umas horas extra — brincou.
— É isso, meu filho, trabalha que só assim é que consegues as coisas, através do esforço aconselhou a tia. — Gustavo, quando saíres fecha o portão por causa do Nero — ia-se encaminhando par a cozinha, mas parou e disse. — E não se esqueçam que, em todos os aspectos, “a vida é fantástica senão tivermos medo dela”.
— Charles Chaplin! — disseram eles em uníssono.
Com um último sorriso a senhora encaminhou-se para a cozinha.
— Adoro a tua tia!
— Também eu, é uma espécie de segunda mãe.
— Eu vou andando, depois de saíres do trabalho queres ir dar uma volta ou assim?
— Pode ser.
Ele levantou-se da sua mesa mas lembrou-se de algo.
— Sabes, Boyle, se a gente vivesse numa ditadura, ias ser das primeiras pessoas a ser executada.
— Porquê? — estranhou ela.
— Porque fazes demasiadas perguntas!
Os dois riram.
— OK! ‘Tamos quites… nunca mais ofendo o teu sangue irlandês!


5 comentários:
LOOL ninguem se mete com o meu sangue celta xD. E os escosseces são muito piores, acredita.
Gostei do texto e da mensagem que passa mas só vou-te poder responder aquela pergunta quando ler o último acto, mas tou a gostar desta tragédia.
Oi. Passando rapidinho pra lhe desejar uma boa semana. Mais tarde volto, e leio todo o post. Bjus.
http://so-pensando.blogspot.com
estou a gostar sa história, espero pelo III acto ;)
*
estou a gostar sa história, espero pelo III acto ;)
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ADOREI!
e desculpe nao ter vindo antes, mais é por que eu tava mto sem tempo por causa da porcaria da escola!
Destesto, acho que teria que ter 6 meses de ferias, e 6 meses de aula!
Nada melhor né?
;)
E concordo com tudo que tu disse em numero e grau!
e que tipo de musica tu curte!?
e pode linkar sim, tbm te linkarei viu?!
beeeeijo grande!
ótimo escrito!
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