
I Acto – “Por mais doloroso que tenha sido o passado…”
“A felicidade não se pode alimentar apenas das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro” – Jorge Amado (in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá).
— Fuck! Se soubesses o quanto odeio estes malditos mecânicos! — desabafou Gustavo, exasperado, enquanto ligava o seu carro.
Estavam os dois sentados no carro dele. Ela tinha-o ido buscar à Agência de Publicidade onde ele trabalhava para assim os dois poderem ir almoçar.
— Então, onde é que vamos almoçar? — indagou ele tamborilando distraidamente com os dedos no volante.
— À casa da minha tia Amélia — ela esclareceu. — Ela fez Picanha e ‘tá à nossa espera!
— Já reparaste — disse ele enquanto fazia as manobras para tirar o carro do parque de estacionamento —, que todas as famílias têm uma tia solteirona? Se queres saber, acho-lhes piada. Normalmente são as que apaparicam os sobrinhos e se queres que te diga, senão conseguir manter uma relação por mais de dois meses, provavelmente vou-me tornar um tio solterião…
— Bom, pelo menos as minhas relações chegam até aos quatro meses — brincou Camilla. — Ganhei-te! Mas, tu também tens uma tia solteirona?
— Bem, da família do meu pai não, ele é filho único. O meu avô morreu num acidente de trabalho e a minha avó é daquelas pessoas que quando o marido morre enterra-se juntamente com ele, só voltou a casar com um irlandês quando o meu pai tinha 25 anos, o que explica muita coisa… E bem, na parte da minha mãe…
— Sim…
A menos que os olhos não lhe estivessem a trair, Gustavo parecia pouco à vontade.
— Também tenho uma tia, não é das melhores pessoas, se queres saber. Bloody cow! Não gosto nada dela.
Camilla riu.
— Tens uma língua afiada, Gus. Porquê que não gostas da tua tia?
— Também não ias gostar dela se a conhecesses. Ela parece uma raposa manhosa, sempre de guarda, olhando pacientemente à espera de alguma coisa para depois te puder tramar.
— Tenho a certeza que ‘tás a exagerar!
— Não ‘tou! Ela é bastante desagradável. Sempre a pavonear-se de que pode comprar coisas caras e que pode viajar ao Dubai, às Canárias ou p’ró raio que a parta! É tudo mentira porque ela não tem onde cair morta. No fundo, ela tem é inveja da minha mãe!
Camilla arregalou os olhos com o choque.
— E porquê isso?
— Bem, primeiro de tudo porque ela é a mais velha e acha que devia de ser aquela a quem todos deviam de pedir conselhos, mas a verdade é que os meus tios e os meus primos preferem a minha mãe. Também, não é de admirar, ela é muito mais simpática e divertida!
— Sim, Gus, mas isso não quer dizer nada, lá porque a tua tia ‘tá sempre com a cara fechada não quer dizer que seja má pessoa.
— Dizes isso porque não a conheces, toda a gente sabe disto. Primeiro de tudo, ela tem inveja da minha mãe porque ela fez um bom casamento com o meu pai, eles ainda estão juntos! Depois, a minha mãe já viveu em Paris e na Irlanda enquanto ela nunca saiu daquele buraco! Ela tem um bom trabalho na Agência Imobiliária e tem um filho brilhante como eu — os dois riram. — E olha p’ra ela, não tem nada!
— Secalhar a culpa não é dela, Gus…
— Acredita que é, Boyle, eu conheço-a melhor que tu. Ela podia ter seguido em frente como todas as pessoas fazem quando passam por coisas más, mas ela não o fez, ficou sempre a remoer «porque não eu? Porque não eu?». Pessoalmente odeio pessoas invejosas. Porquê que ela tem de procurar nos outros algo que pode encontrar dentro dela?
— Eu acho que ela não soube lidar bem com as adversidades do passado. Somos aquilo que a vida faz de nós, para bem e para o mal…
Ele parou o carro nos semáforos.
— Não é bem assim. Toda a gente passa por coisas más na vida e porquê que uns se tornam boas pessoas e outros se tornam psicopatas nojentos? See, Boyle, toda a gente têm os seus fracassos, os seus traumas, episódios que quer esquecer, mas acho que eles existem para nos ensinar a perdoar. Perdoar o passado! A vida é agora, não o que aconteceu há anos atrás! Porquê que ela ‘tá sempre a chafurdar no facto de ninguém a ter querido no Liceu? No facto de nunca ter encontrado um homem decente? Se ela soubesse seguir em frente e parasse de olhar para o que os outros têm, acredita que teria sido muito mais feliz…
— Ela tem baixa auto-estima?
— Acho que ela é mesmo louca, isso sim. Essa coisa da auto-estima tem muito que se lhe diga. As pessoas com baixa auto-estima querem sempre parecer que são coitadinhas, inofensivas, bla bla bla. Ah, give me a break! A minha mãe sempre me disse «nunca deixes que sintam pena de ti!». E ela tem razão! Essas pessoas querem sempre festinhas na cabeça mas há uma hora que tu te fartas de lhes fazer festas porque começas a perceber que eles gostam de estar nesse estado decrépito. Além disso, tu que gostas tanto da Agatha Christie, deves ‘tar careca de saber que na maior parte dos casos o assassino é aquele mais quietinho, que tinha o complexo de inferioridade que achava que tinha de compensar isso matando alguém, para se puder sentir alguma coisa que preste! São todos assim, as pessoas que perdem tempo com intrigas também, precisam de compensar com alguma coisa!
— Ah, isso lembrou-me uma lá do meu curso. A “intriguista-mor”, como lhe chamamos. Uma vez perguntaram-lhe porquê que ela não falava com a colega de casa e ela respondeu «porque ela é feliz demais». Sim — ela ressaltou quando viu a expressão na cara dele —, ela disse exactamente isso.
— Tal como a minha tia. Não são felizes, nem querem que os outros sejam. Ela queria tanto ser feliz que tem inveja de ver alguém a rir alegremente.
Camilla recostou a cabeça no assento do carro.
— As pessoas são estranhas! Às vezes os problemas são tão fáceis de resolver, porquê que fazem um bicho-de-sete-cabeças?
— Porque remoem, remoem, remoem! That’s the point! Ela agora está com uma depressão — Gustavo tossiu sarcasticamente. — Ás vezes não são os problemas que vêem atrás de nós, somos nós que vamos atrás deles. Seria tão fácil se ela compreendesse que nada dura p’ra sempre, que as desilusões não matam. E quanto a ti, com o teu “pseudo-complexo de inferioridade” que eu nunca percebi muito bem porque o tens, ainda bem que tens pessoas como eu, a tua mãe ou a tua tia por perto p’ra te dar nas orelhas, senão ias-te tornar numa dessas pessoas insuportáveis. «A gente só ajuda quem quer ser ajudado», é o que diz a minha avó.
— Ela tinha razão! E não é complexo de inferioridade — Camilla corou. — É só insegurança em relação às minhas capacidades… e aos rapazes…
Gustavo deu-lhe um pequeno soco na perna e ela sorriu.
— É melhor ligares à tua tia a dizer que ‘tamos a chegar… I’m starving!
Ela começou a procurar o seu telemóvel na sua bolsa. Gustavo sempre se perguntava como é que as mulheres conseguiam trazer a sua vida toda dentro de um pequeno utensílio. Ela tirou alguns objectos de lá de dentro… caderno de anotações… mp3, pacote de lenços… um livro…
— Que ‘tás a ler? — perguntou ele ao ver na capa do livro a foto do último Czar da Rússia e da sua família.
— The Kitchen Boy — disse ela segurando o livro e olhando também a foto. — Sobre os últimos dias de vida dos Romanov… — permaneceu algum tempo em silêncio, observando a foto. — Sabes, Gus — disse por fim —, às vezes temos que conhecer bem o passado para poder entender o presente e quem sabe prever o futuro…
“A felicidade não se pode alimentar apenas das recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro” – Jorge Amado (in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá).
— Fuck! Se soubesses o quanto odeio estes malditos mecânicos! — desabafou Gustavo, exasperado, enquanto ligava o seu carro.
Estavam os dois sentados no carro dele. Ela tinha-o ido buscar à Agência de Publicidade onde ele trabalhava para assim os dois poderem ir almoçar.
— Então, onde é que vamos almoçar? — indagou ele tamborilando distraidamente com os dedos no volante.
— À casa da minha tia Amélia — ela esclareceu. — Ela fez Picanha e ‘tá à nossa espera!
— Já reparaste — disse ele enquanto fazia as manobras para tirar o carro do parque de estacionamento —, que todas as famílias têm uma tia solteirona? Se queres saber, acho-lhes piada. Normalmente são as que apaparicam os sobrinhos e se queres que te diga, senão conseguir manter uma relação por mais de dois meses, provavelmente vou-me tornar um tio solterião…
— Bom, pelo menos as minhas relações chegam até aos quatro meses — brincou Camilla. — Ganhei-te! Mas, tu também tens uma tia solteirona?
— Bem, da família do meu pai não, ele é filho único. O meu avô morreu num acidente de trabalho e a minha avó é daquelas pessoas que quando o marido morre enterra-se juntamente com ele, só voltou a casar com um irlandês quando o meu pai tinha 25 anos, o que explica muita coisa… E bem, na parte da minha mãe…
— Sim…
A menos que os olhos não lhe estivessem a trair, Gustavo parecia pouco à vontade.
— Também tenho uma tia, não é das melhores pessoas, se queres saber. Bloody cow! Não gosto nada dela.
Camilla riu.
— Tens uma língua afiada, Gus. Porquê que não gostas da tua tia?
— Também não ias gostar dela se a conhecesses. Ela parece uma raposa manhosa, sempre de guarda, olhando pacientemente à espera de alguma coisa para depois te puder tramar.
— Tenho a certeza que ‘tás a exagerar!
— Não ‘tou! Ela é bastante desagradável. Sempre a pavonear-se de que pode comprar coisas caras e que pode viajar ao Dubai, às Canárias ou p’ró raio que a parta! É tudo mentira porque ela não tem onde cair morta. No fundo, ela tem é inveja da minha mãe!
Camilla arregalou os olhos com o choque.
— E porquê isso?
— Bem, primeiro de tudo porque ela é a mais velha e acha que devia de ser aquela a quem todos deviam de pedir conselhos, mas a verdade é que os meus tios e os meus primos preferem a minha mãe. Também, não é de admirar, ela é muito mais simpática e divertida!
— Sim, Gus, mas isso não quer dizer nada, lá porque a tua tia ‘tá sempre com a cara fechada não quer dizer que seja má pessoa.
— Dizes isso porque não a conheces, toda a gente sabe disto. Primeiro de tudo, ela tem inveja da minha mãe porque ela fez um bom casamento com o meu pai, eles ainda estão juntos! Depois, a minha mãe já viveu em Paris e na Irlanda enquanto ela nunca saiu daquele buraco! Ela tem um bom trabalho na Agência Imobiliária e tem um filho brilhante como eu — os dois riram. — E olha p’ra ela, não tem nada!
— Secalhar a culpa não é dela, Gus…
— Acredita que é, Boyle, eu conheço-a melhor que tu. Ela podia ter seguido em frente como todas as pessoas fazem quando passam por coisas más, mas ela não o fez, ficou sempre a remoer «porque não eu? Porque não eu?». Pessoalmente odeio pessoas invejosas. Porquê que ela tem de procurar nos outros algo que pode encontrar dentro dela?
— Eu acho que ela não soube lidar bem com as adversidades do passado. Somos aquilo que a vida faz de nós, para bem e para o mal…
Ele parou o carro nos semáforos.
— Não é bem assim. Toda a gente passa por coisas más na vida e porquê que uns se tornam boas pessoas e outros se tornam psicopatas nojentos? See, Boyle, toda a gente têm os seus fracassos, os seus traumas, episódios que quer esquecer, mas acho que eles existem para nos ensinar a perdoar. Perdoar o passado! A vida é agora, não o que aconteceu há anos atrás! Porquê que ela ‘tá sempre a chafurdar no facto de ninguém a ter querido no Liceu? No facto de nunca ter encontrado um homem decente? Se ela soubesse seguir em frente e parasse de olhar para o que os outros têm, acredita que teria sido muito mais feliz…
— Ela tem baixa auto-estima?
— Acho que ela é mesmo louca, isso sim. Essa coisa da auto-estima tem muito que se lhe diga. As pessoas com baixa auto-estima querem sempre parecer que são coitadinhas, inofensivas, bla bla bla. Ah, give me a break! A minha mãe sempre me disse «nunca deixes que sintam pena de ti!». E ela tem razão! Essas pessoas querem sempre festinhas na cabeça mas há uma hora que tu te fartas de lhes fazer festas porque começas a perceber que eles gostam de estar nesse estado decrépito. Além disso, tu que gostas tanto da Agatha Christie, deves ‘tar careca de saber que na maior parte dos casos o assassino é aquele mais quietinho, que tinha o complexo de inferioridade que achava que tinha de compensar isso matando alguém, para se puder sentir alguma coisa que preste! São todos assim, as pessoas que perdem tempo com intrigas também, precisam de compensar com alguma coisa!
— Ah, isso lembrou-me uma lá do meu curso. A “intriguista-mor”, como lhe chamamos. Uma vez perguntaram-lhe porquê que ela não falava com a colega de casa e ela respondeu «porque ela é feliz demais». Sim — ela ressaltou quando viu a expressão na cara dele —, ela disse exactamente isso.
— Tal como a minha tia. Não são felizes, nem querem que os outros sejam. Ela queria tanto ser feliz que tem inveja de ver alguém a rir alegremente.
Camilla recostou a cabeça no assento do carro.
— As pessoas são estranhas! Às vezes os problemas são tão fáceis de resolver, porquê que fazem um bicho-de-sete-cabeças?
— Porque remoem, remoem, remoem! That’s the point! Ela agora está com uma depressão — Gustavo tossiu sarcasticamente. — Ás vezes não são os problemas que vêem atrás de nós, somos nós que vamos atrás deles. Seria tão fácil se ela compreendesse que nada dura p’ra sempre, que as desilusões não matam. E quanto a ti, com o teu “pseudo-complexo de inferioridade” que eu nunca percebi muito bem porque o tens, ainda bem que tens pessoas como eu, a tua mãe ou a tua tia por perto p’ra te dar nas orelhas, senão ias-te tornar numa dessas pessoas insuportáveis. «A gente só ajuda quem quer ser ajudado», é o que diz a minha avó.
— Ela tinha razão! E não é complexo de inferioridade — Camilla corou. — É só insegurança em relação às minhas capacidades… e aos rapazes…
Gustavo deu-lhe um pequeno soco na perna e ela sorriu.
— É melhor ligares à tua tia a dizer que ‘tamos a chegar… I’m starving!
Ela começou a procurar o seu telemóvel na sua bolsa. Gustavo sempre se perguntava como é que as mulheres conseguiam trazer a sua vida toda dentro de um pequeno utensílio. Ela tirou alguns objectos de lá de dentro… caderno de anotações… mp3, pacote de lenços… um livro…
— Que ‘tás a ler? — perguntou ele ao ver na capa do livro a foto do último Czar da Rússia e da sua família.
— The Kitchen Boy — disse ela segurando o livro e olhando também a foto. — Sobre os últimos dias de vida dos Romanov… — permaneceu algum tempo em silêncio, observando a foto. — Sabes, Gus — disse por fim —, às vezes temos que conhecer bem o passado para poder entender o presente e quem sabe prever o futuro…


6 comentários:
What happens in the past, stays in the past! Tás a ficar expert nas "Tragédias", e eu estou a gostar de ser personagem delas xD
Remoer as coisas, é realmente pior!
Péssima sugestão pra aliviar problemas esse mau costume que costumamos ter.. \õ/
adorei a historia!
bom texto mesmo!
beeijo
;*
Bem, Gus, eu acho que a resposta para muitas coisas do presente está no passado. É por isso que gosto de História =). Se bem que, é claro, há pessoas que se aproveitam disso.
Tatah, remoer é o pior, mesmo. Só acaba fazendo mal para o espírito. Que bom que gostou do texto. Volte sempre =)
gostei muito :)
voltarei!
*
Sim...sim eu li!Com esforços....texto grande!! kkkkkk
Gostei...Esperando o segundo Ato.
:*
ahhhh enfim comentei!
adorei.muita informação em um pequeno texto,grandes filosofias....adorei!
;*
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