"Crónica de Costumes"

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Uma mão lava a outra (e as duas estragam o País)


Há umas quantas semanas atrás (quando eu ainda tinha tempo para pensar na morte da bezerra), fui ao cinema com uma grande amiga minha: Rafaela Ribeiro (fomos ver “O Cavaleiro das Trevas” com o Heth Ledger, filme esse que me surpreendeu bastante pela positiva). Enquanto jantávamos, conversávamos sobre empregos. Rafaela já concluiu o seu curso de Gestão e já ingressou no Mundo Real, e como para o ano será a minha vez, ela dava-me algumas dicas (felizmente estou-me saindo bem na área do Turismo e, se Deus quiser, não vou ter que ir para nenhuma das saídas profissionais que a minha droga de curso me dá). Sim, o meu curso é uma droga por dois motivos: primeiro porque se faz totalmente o contrário do que nos ensinam (humildade, tolerância, respeito pelo próximo, o que é isso?) e segundo porque as saídas profissionais ou são voluntariado (em que não ganhas nada e para sustentares os teus gastos é bom teres um papá rico, o que não é o meu caso), ou então ir trabalhar para uma Câmara Municipal… sim, e então o assunto recaiu sobre as Câmaras Municipais.

As Câmaras Municipais são autênticos ninhos de cobras onde ganha quem tiver mais veneno. Antigamente eu pensava que eles não faziam nada porque tinham um horário de trabalho daqueles de sonho (das 9 da manhã às 15 da tarde) e que não sabiam trabalhar porque sempre que temos um assunto para tratar eles dizem sempre «ah, isso não é no meu departamento». Agora acho que fiquei sem quaisquer dúvidas.

A mãe da Rafaela trabalha numa Câmara Municipal, um daqueles ambientes em que só entra quem tiver cunhas. Consta que quando ela fez as provas de colocação, ela saiu-se bem, e no entanto ficou em segundo lugar, o que ela, obviamente estranhou, porque o primeiro colocado era um bronco de primeira. Então ela pediu para ver a prova. A princípio alegaram que ela proibido mas com um advogado pelo meio ela pode então ver a sua prova e qual não foi o seu espanto ao ver que tinha lá uma resposta que não tinha sido ela a dar?! Exactamente, colocaram corrector na prova dela e depois escreveram a resposta com uma letra totalmente diferente da dela, só para que ela não fosse a primeira colocada e pudesse entrar quem eles queriam. Sinistro, não? Mas só de pensar que isto foi feito por pessoas que supostamente deviam de governar o nosso Município.

Tenho, ocasionalmente reparado, que a sinalização do trânsito em Albufeira (cidade onde vivo), é caótico. Passadeiras para os peões à entrada e saída de rotundas; passadeiras ao virar de curvas, etc. E então contaram-me que o homem responsável pelo Departamento de Trânsito não percebe nada daquilo… uma vez mais, só entrou lá porque o senhor Vereador o conhece, porque é primo da sobrinha da vizinha dele! Como diria o Gustavo: give me a break! Onde supostamente deviam de colocar pessoas competentes e responsáveis, e também entendidas no assunto, colocam pessoas tacanhas, lentas e incompetentes, tudo por causa das cunhas.

Certa vez, conversando com a minha tia, perguntei-lhe porquê que algumas empresas como a da água, da luz, dos transportes, não passavam a ser geridas pelo Estado. E então ela respondeu-me que era melhor entregá-las a entidades privadas para não acontecerem casos de abuso de poder ou as famosas cunhas como nós já bem conhecemos nos sectores públicos. Então, nesse mesmo jantar perguntei a Rafa como funcionava nas grandes empresas (dado que ela está a estagiar na filial de uma Companhia de Seguros americana em Lisboa), se também existem cunhas. Ela disse-me que em empresas mais pequenas, familiares, talvez possa acontecer, mas em grandes empresas ou até mesmo em multinacionais, a mentalidade é outra: contratam-se licenciados, com boas notas, com um bom currículo, que façam um bom trabalho. Pode ocorrer um ou outro caso do «quero que “fulano tal” entre para este cargo», mas são muito esporádicos.

As empresas privadas, as multinacionais têm a mentalidade correcta, de contratar gente competente, então porquê que nas Câmaras não se faz o mesmo, porquê que «só entra quem eu quero». Ou porque é filha da minha vizinha, ou porque é do mesmo Clube de Futebol, ou porque é do mesmo Partido político. E depois são aqueles escândalos de corrupção que já bem conhecemos. Uma mão lava a outra (e as duas estragam o país). Pessoalmente prefiro mil vezes trabalhar para uma empresa privada, apesar dos funcionários públicos terem inúmeras regalias (regalias essas que também são questionáveis), mas viver num ambiente assim, tão semelhante à Máfia, é de embrulhar o estômago.

Certa vez, num livro sobre a Máfia, li a seguinte frase: «Polícias, juízes, advogados e todos os outros ‘tão tão metidos em esquemas como eu. A única diferença é que eles se fazem de santos. Eu por mim prefiro os criminosos, ao menos são honestos».

7 comentários:

Leticia disse...

Camilla somos 2 .
E eu , filha de funcionário federal , ouço muito : por que vc não faz um concurso público?!
Porque não quero estar no meio da lama , ora.

É difícil , complicado até pq meu pai está inserido no meio e por isso sei das tramóias ...prefiro trabalhar mais , a ser corruptível.

O bom profissional sempre é reconhecido.

Esyath disse...

Camilla,


está excelente o texto! Articulado e franco! É sério! Menina, aqui existem concursos públicos - sonho de consumo de quase todo mundo - porque é vitalício, se trabalha apenas as seis horas diárias e + benefícios como plano de saúde...
Mas mesmo sendo concurso, sempre tem o QI - quem indique...
Para cargos comissionados nem se fala...
E nos concursos, tem gente que já chega com a prova...
Algumas empresas aqui foram privatizadas, como a de energia, isso é ruim para a nação porque nos deixa a mercê das corporações... Mas como dizia o poeta... "enfim".
Estudo Direito, me graduo em Dezembro, mas no fundo, não sou tão direita quanto deveria ser... sempre há um incentivo a burlação da lei...
Aqui é por conta da burocratização... Exagerada... Se você não tiver uma rede de contatos para adiantar teu lado, nada anda...
Mas eu O-D-E-I-O o nepotismo, porque desfavorece pessoas qualificadas, para empregar gente incompetente... Haja Paciência!
Como disse o Gustavo... seja lá quem ele for...
GIVE ME A BREAK!

Beijos (Des)conexos!

Anónimo disse...

Não sabe quem é o Gustavo! Que blasfemia! xD

Gostei do texto! Acho que ja sabemos porque o pais nao avança e também, enquanto nas empresas os funcionarios sao pagos com o dinheiro da empresa, no sector publico sao pago com o nosso dinheiro, o que explica muita coisa. Ja ouvi dizer que alguns casos de cunhas atéd criam cargos descenecários para empregar as pessoas que querem.

Give me a break!

Tatah Marley's Confissões disse...

VOCE É FOOOOOOODA!
Poderia falar inumeras coisas com relação ao seu post, mais nenhuma palavra significaria tanto quanto o que tu escreveu flor!
E o final, disse tudo..
a diferença mesmo, é que os poderosos, filhos da puta, se fazem de santo, e muito pobre coitado sem instrução acredita..E depois ainda reclamam das favelas.. dos assaltantes.. é tudo fruto nosso mesmo!
CACHORRADA, esse é o nome.
;*

Anónimo disse...

Como disse a Letícia, o bom funionário é sempre reconhecido. O funionalismo público tras estabilidade funcional, contudo, o salário pago é muito inferior. Muitos, que querem crescer na vida rapidamente, usam seus cargos e se conrompem, "facilitando" a vida da clientela, principalmente nas repartições que lidam com licitação. Bjus.

http://so-pensando.blogspot.com

Anónimo disse...

Há ambientes em que, se tivermos de entrar, melhor tomar antes o soro antiofídico.
Beijos do João

Camilla K. Boyle disse...

Pois, um bom funcionário é sempre reconhecido, nem que seja pela inveja dos outros. Acho que as regalias dos sectores públicos não compenssam as dores de cabeça =)

Beijinhos leitores