"Crónica de Costumes"

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“TRAGÉDIA” EM TRÊS ACTOS – EPISÓDIOS DA VIDA MODERNA


III Acto – “… porque cada acontecimento encerra uma lição”.

“Os erros são os portais da descoberta.” – James Joyce

— Porquê que ‘tás tão chateada? — perguntou ele enquanto apressava o passo para tentar alcança-la.

Já passava da meia-noite e ele tinha-a ido buscar a casa para os dois irem beber qualquer coisa a um bar de karaoke ali perto. Encontrara-a bastante irritadiça e sem dirigir-lhe palavra, ela começou a andar apressadamente para o bar com ele a correr atrás dela, sem saber ao certo o que se passava. Ela entrou abruptamente dentro do bar onde um casal de ingleses cantava a música “Unforgetable” do Frank Sinatra. Gustavo entrou logo em seguida, também bruscamente e foi sentar-se junto dela, o que levou o empregado de mesa a olhar para eles com a sobrancelha arqueada.

— Então, vais-me dizer o que é que tens? — perguntou ele, respirando com dificuldade pois viera a correr.

Ela ia abrir a boca para responder, quando o empregado de mesa se aproximou para tirar o pedido.

— Uma Magners p’ra mim e um Baileys p’ra ela — pediu Gustavo para o tentar despachar, mas ainda assim o empregado ainda permaneceu ali, olhando-os com curiosidade, quase como se estivesse a bisbilhotar. — É só!

E finalmente afastou-se…

— Então?
— Foi um idiota que veio falar comigo no Msn.
— Ele disse-te alguma coisa que te ofendeu?
— Não, foi mais pelo facto de ter vindo falar comigo.
— O que é que isso tem de mal?

— Oh, Gus, porque ele é daquele tipo de pessoas que dás Graças a Deus se nunca mais tiveres de lhe falar. Ele magoou-me muito, acredita e só de olhar p’ra cara dele ou de falar com ele, dá-me nojo, por isso é que fico tão chateada quando ele vem falar comigo.
— Sim… e quando é que ‘tás a pensar dizer-me o que é que ele te fez?

O empregado trouxe-lhes as bebidas, olhando-os com curiosidade e depois afastou-se.

— Bem, foi assim… uma amiga minha apresentou-nos, ele demonstrava muito interesse em mim e isso, e sabes como é, quando sabes que tens alguém interessado em ti, ou ficas interessado também ou nem sequer te importas… comigo foi mais o primeiro, fiquei interessada também e o meu erro deve ter sido esse, ter-lhe dito que gostava dele… quer dizer, é uma coisa que não se deve fazer com os rapazes porque eles podem-se aproveitar disso, já percebi que vocês gostam de ser maltratados… de qualquer maneira perguntei-lhe se tinha oportunidades e ele disse que sim, disse que queria muito ‘tar comigo e essas coisas todas, que gostava de mim e bla bla bla, e quando finalmente íamos ‘tar juntos, ele disse que já não queria nada, que tinha confundido as coisas e que nunca tinha gostado de mim daquela maneira…

What an asshole! Porquê que não me contas-te nada?
— Porque tu és homem e pensei que lhe pudesses dar razão porque secalhar quem estragou tudo fui eu…

— Isso não quer dizer nada! Posso ser homem mas também há coisas que os homens fazem que não concordo. Quem estragou tudo foi ele que não sabia o que queria e andou a brincar com os teus sentimentos.
— Exactamente — concordou Camilla enquanto abanava o seu copo e observava as pedras de gelo. — Já viste o que é darem-te falsas esperanças e assim do nada dizerem «ups, acho que não é isto que eu quero». Gus, nem imaginas como me senti.
Gustavo bebeu um grande golo da sua Magners.

— Devias de ter-me contado que eu tinha partido a cara desse imbecil! Eu farto-me depressa das moças com que ando, mas pelo menos digo-lhes logo do início que não quero nada sério, sou sempre sincero e só cai quem quer, mas quando quero brincar com pessoas, jogo o The Sims, pelo menos ninguém sai magoado…

— Pois, mas ai ‘tá a diferença entre tu e ele… tu és boa pessoa… a minha amiga diz que ele até é boa pessoa, mas depois disto que ele me fez a mim… não quero nem saber que tipo de pessoa ele é, só sei que tenho nojo dele.

— Bem, Boyle… secalhar devias de fazer aquilo que falta à minha tia e que conversamos hoje no carro… perdoar o passado e esquecer isso, até os maus acontecimentos têm lições p’ra ensinar.

— Sim, e este teve — notava-se algum rancor na voz. — Ensinou-me a ser mais cuidadosa quanto tiver de mostrar os meus sentimentos… mas se queres que te diga, depois disto acho que fiquei um pouco fechada p’ra balanço, o meu coração foi de férias ou assim…

— Às vezes eu acho que o meu reformou-se — brincou Gustavo. — Mas e perdoar, não?

— Gus, é difícil, neste caso, como é que perdoas alguém que andou a brincar contigo? Por mais que a gente tente não dá p’ra perdoar tudo, neste caso eu prefiro agir como se nunca tivesse existido, não perdoar, mas simplesmente riscar da minha memória, e fico bem, mas depois ele vem falar comigo como se nada tivesse acontecido, nem sequer pediu desculpas pelo que aconteceu e ainda se faz de vítima… — bebeu sofregamente do seu Baileys.

— Deixa ‘tar, Boyle… tu perdes-te tempo, mas ele perdeu uma grande mulher.

Camilla sorriu e deu-lhe um beijo na bochecha.

— Mas é só isso que te ‘tá a chatear?
— Pfff, nem por sombras, quando um mal vem, nunca vem só.
— Que aconteceu?

— Oh, sou eu que nunca aprendo com os erros. Fui cair outra vez na tentação de apresentar pessoas e a coisa deu pró torto e agora ‘tão-me a meter no meio da confusão. Já devia de saber que isso não dá certo, o ano passado apresentei pessoas totalmente diferente e qual foi o resultado: a minha festa de anos foi uma merda! Desta vez, apresentei um moço e uma moça, eles envolveram-se e agora andam p’ra lá numas confusões e ‘tão-me a puxar, querem que interceda por um, pelo outro, só que já sabes que se saírem chateados posso perder dois amigos de uma vez.

— Boyle, a tua vida tem dramas suficientes p’ra escrever uma colectânea — riu Gustavo. — Mas em que consiste esta crise?

— Bem, Gus, eu conheço pessoas tão diferentes que apresentá-las é sempre um erro. Fui apresentar um mulherengo a uma ciumenta compulsiva, mas também nunca pensei que se fossem envolver, mas pronto, envolveram-se e agora ‘tamos assim, ele não quer nada sério e faz p’ra lá umas coisas que eu sei mas que não posso contar porque ele é meu amigo e ela ‘tá sempre a mandar-lhe mensagens, obsessivamente, como um filme de terror, e depois encosta-me à parede e pergunta-me se sei de alguma coisa… imaginas o dilema em que ‘tou… a minha tia disse-me pra não me envolver, mas é difícil porque me puxam sempre lá p’ra dentro.

Gustavo riu.

— Ai, as pessoas nunca aprendem com os erros.

— Sim, mas no meio desta “tragédia” toda nem sei quem é que cometeu os erros. Se eu que fui me armar em parva e apresentá-los, se ele que acha que dormindo com toda a gente que ninguém vai sair magoado disto tudo, ou se ela, que acha que sufocando-o com atenções que vai conseguir alguma coisa.

— Bem, eu acho que tu não tens culpa… ele tem que aprender que não é usando as mulheres como terapia que se vai safar e ela tem que aprender que os homens precisam do seu próprio espaço! I mean, pelo menos eu não gosto de gente peganhenta e muito menos de coisas muito fáceis, perdes a vontade de lutar por elas e deve ser por isso que me farto depressa… see, eles é que cometeram os erros, não foste tu, mas deixa ‘tar que a vida vai-se encarregar de lhes ensinar a aprender com os erros deles… what goes around, comes back around.

Ficaram algum tempo a ouvir uma brasileira que cantava no karaoke uma música da Alcione, até que o telemóvel de Camilla tocou.

— Oh, não, aquele idiota mandou-me uma mensagem. “Achei que ias gostar de saber que o Chullage vêm cá”. O que é que ele quer com isto?

Só p’ra ter alguém, que vive sempre ao seu dispor, por um segundo de amor — cantou a moça.

— Talvez queria isto — zombou Gus apontando para o karaoke. — Ou talvez queria ser simpático, sei lá, ele é estranho…

— Pois é, e fiquei a saber que lhe tinham feito o mesmo que ele me fez a mim, que brincaram com os sentimentos dele e então ele deve ter ficado feliz por ter alguém que gostasse dele e fez isso e depois fartou-se e deitou fora… é nojento, não é, ele sabe o que custou quando foi com ele e depois fez o mesmo… não dá p’ra perdoar, o melhor mesmo é ignorar.

A vida é a melhor escola, os erros os melhores professores, mas há pessoas que são péssimos alunos — disse Gustavo. — Deixa lá, Boyle, tens a consciência limpa e é isso que importa. És uma grande mulher e mereces um grande homem, não uma amostra!


Sim, há pessoas que não sabem viver... apenas existem.

5 comentários:

Tatah Marley's Confissões disse...

Adoreio texto todo, mais o final me urpreendeu!
Adorei a frase do final..
Cosciencia limpa eh fundamental!
Um cara anda queimando meu filme em altos blogs que eu visito falando que eu disse coisas sem noção sendo que é mentia.. mai pel fato deu tá com a consciencia beem tranquila, nem ligo!
quem me conhece sabe que nao sou assim né nao ?

e ese atentado.. cara.. foi pra mim, o pior que o mundo já presenciou!
X/

Anónimo disse...

"Sim, há pessoas que não sabem viver... apenas existem". Concordo em n.º, gênero e grau. Bjus e belíssimo texto.

http://so-pensando.blogspot.com

Anónimo disse...

" A vida é a melhor escola, os erros os melhores professores, mas há pessoas que são péssimos alunos "

final perfeito... :)
adorei tudo*

Anónimo disse...

Este foi o meu acto preferido e o meu desempenho nele foi muito bom. Tás de parabens, Boyle =)

Camilla K. Boyle disse...

Aprender com os erros é sem duvida uma maneira de nos corrigirmos e tornarmonos pessoas melhores, para aprendermos a viver "é preciso viver, não apenas existir". Fico feliz por ver que gostaram =D