"Crónica de Costumes"

segunda-feira, 23 de março de 2009

Individualismo e afins


Depois do meu longo retiro espiritual/intelectual em que estive trabalhando num projecto que há muito tenho pensado e no qual conclui o livro que estava escrevendo, retornei novamente à blogsfera, esperando também que ainda se lembrem de mim e agradecendo como sempre pelo carinho de todos vocês.

O tema de hoje é actual e foi tratado no livro que escrevi: o individualismo. Já estamos, provavelmente, mais do que saturados de ouvir este vocábulo empregue em discursos evasivos e subversivos à política déspota, neoliberal e globalizada que se faz sentir por todo o mundo. Mas afinal o que é o individualismo?

Segundo a Wikipédia (e eu às vezes até tenho medo de tirar informação daqui porque tem sempre algum terrorista que comete algum atentado intelectual a determinado artigo), o individualismo é “um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e liberdade do indivíduo frente a um grupo, especialmente à sociedade e ao Estado. Usualmente toma-se por base a liberdade no que concerte a propriedade privada e à limitação do poder do Estado. O individualismo em si, opõe-se a toda a forma de autoridade ou controle sobre os indivíduos e coloca-se como antítese do colectivismo”.

Sim, tem os seus lados maus porque esta total liberdade do indivíduo leva a que milhares de pessoas vivam em péssimas condições de vida para que outros possam andar em carros de luxo e tudo mais. Mas não é disso que vou falar hoje… deixemos de lado a propriedade privada, o colectivismo e tantos outros conceitos tipicamente marxista e vamos falar de outras coisas.

Hoje em dia diz-se que as pessoas vivem centradas em si mesmas, são egoístas, são individualistas. Se for assim, bem então confesso que também sou individualista (odeiem-me se quiserem!). Numa das minhas conversas com a minha tia, ela disse-me: «não há nada que possas fazer, o ser humano é individualista por natureza. Por mais que queira ajudar os outros, a partir do momento em que começa a faltar para si, esquece o altruísmo». Verdade ou mentira que não é assim? Podemos muito bem ajudar os outros, mas quando vemos que isso que isso nos prejudica a nós, fechamos logo a torneira. E porquê que isso é tão criticado? Porque vivemos num mundo onde é errado querermos o melhor para nós mesmos, porque isso é considerado egoísta. Quem é que vai ser hipócrita ao ponto de dizer que não quer o melhor para si? Acho que, pessoalmente, não há nada de mal com isso. O problema é que muitas vezes, nessa de querermos o melhor para nós, acabamos prejudicando os outros. Lá está a velha historia do «a minha liberdade começa onde a tua acaba». Olhe para a sala em que está, provavelmente bem equipada, com televisão, electricidade, computador com Internet e por aí a fora… já passou vos pela cabeça que nós, aqui no mundo ocidental (em muitas partes do mundo oriental) vivemos confortavelmente às custas do sofrimento de muita gente em África, na Ásia e na América Latina? Será que alguma vez já paramos para pensar verdadeiramente nisto?

Creio que, das termos que mais caracterizam o homem moderno: «indiferença» seria a palavra certa. Quantas vezes as pessoas andam pelas ruas e não se deixam intimidar pelos sem-abrigo ou pelas pessoas pedindo esmola nos semáforos? Ou pessoas comendo confortavelmente à mesa enquanto assistem a crianças definhando de fome em África? Uma vez mais a minha tia tratou de explicar: «As pessoas ajudam uma ou duas vezes, mas começam a ver que há muita gente que se aproveita da pobreza e que se faz de pedinte e claro, as pessoas não gostam de ser enganadas, por isso deixam de ajudar». Quantos não andam por ai a pedir esmolas, dizendo que perderam os braços, quando na verdade estão a mentir?

Eu sou individualista, justamente pelo mesmo motivo que muitas outras pessoas: perdi a fé na humanidade. Aliás, antes disto sou ainda apologista da total liberdade do indivíduo face à sociedade (porque sou weirdo e uma outsider e detesto as regras que a sociedade nos impõe). E sim, perdi a fé na humanidade. Actualmente vivemos num mundo onde, por mais que se queira ajudar os outros, as pessoas nunca aceitam a nossa ajuda e preferem somente pensar em si mesmas. A competitividade anda pela ordem do dia e cada um quer sobreviver a todo o custo nesta selvajaria. Senão pensarmos em nós mesmos, neste mundo, acreditem que ninguém vai parar para o fazer por nós. Então o que fazemos? Paramos de pensar nos outros para pensarmos em nós mesmos, para nos defendermos neste mundo onde é cada um por si. É uma faca de dois gumes: o mundo faz-nos individualistas e nós fazemos o mundo do individualismo.

Talvez tenha sido a minha personalidade esquizóide e misantropa a falar, mas a verdade é que no final somos todos humanos…

Ps: este não é dos meus melhores textos, mas vou ter que recuperar o hábito para voltar a actividade xD

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Curtas - Coisas de Criança

Para a Gabi, que faz hoje 9 aninhos.

— Ora, queria meio quilo de fígado, uns quatro bifes de peru, duas mãos cheias de carne picada… de porco, por favor… e um frango inteiro! — leu ela para o homem do açougue, que a observava atentamente, de cutelo na mão e avental ensanguentado. O homem tratou de providenciar o seu pedido e ela achou melhor desviar o olhar… a vitrina de um talho não é propriamente uma visão agradável, principalmente quando nela se podem ver orelhas e patas de porco («que nojo, aquilo são pêlos?») ou coelhos e lebres “depilados” e inteiros, de olhos abertos e cara expressando um forte sentimento de dor.

Para se distrair, olhou para o seu lado direito, onde se deparou com o seu amigo Gustavo abrindo caminho por entre a multidão de solteiros e universitários que se aglomerava na secção de congelados. Do seu lado esquerdo lá estava, a sua mãe, juntamente com tantas outras matriarcas, que davam especial atenção à secção do «leve três pague dois» (o que é pura propaganda enganosa, porque o produto em questão passará de validade dentro de dois dias e como a mãe leva sempre caixas e caixas porque «’tava tão barato!», ela e o Gustavo que lá vai todos os dias, vão ter que passar o dia todo a comer iogurtes com pedaços de frutas e bolachas de água e sal). O supermercado é um centro de estudos fascinante!

Voltou novamente a olhar para o homem do talho, que agarrava agora num gordo frango sem cabeça, penas e membros.

— Aa… podia arrancar o couro do frango? — pediu ela. Ordens da mãe! A mãe está sempre a repetir as coisas milhentas vezes porque, sabem como é, mãe adora falar!

— Mana — era Gabriela, a sua irmã mais nova, que olhava de olhos esbugalhados para o homem do talho enquanto este arrancava a pele do frango —, é isto que tu me vais fazer quando dizes «vou arrancar o teu couro, Gabriela!».

As pessoas que estavam na fila viraram todas a cabeça para ela. Uma velhota de óculos exageradamente graduados abanava a cabeça, provavelmente já a pensar «pobre criança mal tratada, chamem a Comissão de Protecção! Chamem a Justiça! Chamem a TVI!». O açougueiro riu a seu bel-prazer.

— Crianças! — disse Camilla em tom de desculpa, enquanto com um sorriso tentava disfarçar a vergonha que se apoderara dela. Estava vermelha como um pimentão.

Pois, crianças… dizem sempre as coisas mais inapropriadas nos momentos mais inoportunos, principalmente se isso implicar o constrangimento do irmão mais velho!


Ps: Estou passando rapidíssimo hoje só para postar este texto, amanhã colocarei as leituras em dia. Tenho estado ausente da blogsfera uma vez que estou ajudando o Gus numa pesquisa sociológica, ao mesmo tempo que escrevo uma história… além disso: The Sims 2 Vida no Apartamento é completamente viciante! (Deus, já devo estar a deitar sangue dos olhos!)

Nota do texto: A TVI (referida no texto) é, na opinião geral, o pior canal de televisão português. Tudo bem, tem investido em produções nacional e blá blá blá, mas que tal mandarem primeiro para a universidade o pessoal que escreve aqueles melodramas de quinta e os pseudo-actores que saíram de uma agência de modelos? Além dos guiões a roçar o horrible e a performance degradante dos actores/modelos, a TVI também é conhecida por ser sensacionalista e dramatizar todo o tipo de notícias (quase com violinos de fundo e pessoas a chorar como aqueles bonecos chineses. Normalmente quando acontece algo catastrófico (no sentido irónico, é claro), há sempre alguém que diz «Oh não, chamem a TVI» e de certeza que esse acontecimento passará no Jornal Nacional e com direito a comentários de especialistas! (Peço desculpa se feri susceptibilidades).

Pss: O meu nacionalismo está no auge enquanto o meu rádio toca incessantemente NX Zero (ok, eles são emos, são um lixo e uma poluição sonora). They rock!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Somos todos precários!


Tirei uma semana dos meus 30 e muitos dias de férias para fazer uma pausa do blog que me permitisse descansar e reorganizar a minha vida social (sim, finalmente tenho a minha vida social de volta!!!), no entanto, acho que esta interrupção esteve muito longe de ser tranquila. Todas as vezes que eu tentava ver alguma coisa na televisão, as primeiras coisas que me apareciam à frente eram as fatídicas notícias sobre os despedimentos massificados que temos verificado ao longo do começo deste ano; nos jornais era a mesma coisa «fábricas que fecham, empregados que vão para a rua e o Obama falando do seu pacote anti-crise»; convido amigos para ir beber café e conversar sobre temas soft tipo música, cinema ou literatura, mas eis que a palavra «crise» volta a ser vociferada por pessoas com um ar desanimado e sem disposição para gastar as suas parcas poupanças em cafés (e felizmente o preço do café ainda não aumentou… God, acho que matava alguém se isso acontecesse!). De tantas vezes ouvir esta palavra acabei por concluir que era necessário dar o meu parecer sobre este tema e aqui estou eu para criticar o sistema neoliberal (coisa que eu faço com bastante gosto).

Não sei se o Huxley previu isso no Admirável Mundo ou se o Nostredamus profetizou algo assim, mas a verdade é que estamos vivendo tempos difíceis, e desta vez isto não é somente a sinopse de um filme americano ou de um romance de Steinbeck, é a mais pura realidade. Sinceramente esta verdade começa a assustar-me cada vez mais, dado que daqui a uns tempos terminarei o meu curso e serei lançada aos leões.

Acho que os meus olhos são demasiado keynesianos para entender a lógica neoliberal, abertamente acho-a com mais buracos que um campo de golfe (uma comparação algo estúpida, mas enfim). O actual sistema económico incentiva, entre outras coisas, o consumo desenfreado, e num mundo onde tudo o que temos hoje em uma semana acaba passando de moda, penso que as pessoas também entraram nesse catálogo e acabaram-se tornando descartáveis. As grandes empresas (expressão delicada para «uma-cambada-de-filhos-da-mãe-que-possui-o-monopólio-de-determinado-sector-e-que-se-está-a-“cagar”-para-o-resto-das-pessoas») fomentam essa própria flexibilidade em poder-se livrar de tudo, senão vejamos. Uma das tarefas mais difíceis para um recém-licenciado é encontrar emprego. Mandas o teu currículo para todo o lado, vais a entrevistas, às tantas desesperas e em todo o lado a única coisa que te dizem é «Pois, meu amigo, nós queremos pessoas com experiência», mas então como é que vamos algum dia ter experiência se ninguém nos dá trabalho? Ou então, empregam-te como estagiário, ganhas um bom dinheiro e quando o estágio está prestes a terminar pensar «bom, como gostaram do meu trabalho, de certeza que me vão deixar ficar», mas meu amigo, sai do mundo faz-de-conta e coloca os pés na terra: hoje em dia os patrões preferem ter estagiários que são muito menos dispendiosos do que um trabalhador a tempo inteiro. E o que acontece contigo? Vais para o fundo de desemprego, receber uns míseros euros, aguardando que um trabalho chova do céu.

Do outro lado da pirâmide etária as coisas também não estão fáceis. Mais e mais têm ido para o olho da rua trabalhadores com anos e anos de serviço. Parece que a época do «pleno emprego» fomentado pelo Estado Providência já chegou ao fim. E para estes trabalhadores é ainda mais difícil arranjar trabalho. Poderíamos pensar que seria fácil, uma vez que têm muita experiência e sabem fazer na perfeição aquele trabalho ao qual dedicaram tantos anos da sua vida. Mas qual quê? «Pedimos imensa desculpa, mas queremos pessoas jovens, os empregados são a cara da nossa empresa, somos uma empresa virada para o futuro e só empregamos gente jovem. Lamento imenso mas as múmias só ficam bem no museu». Pois é, se para um jovem já é difícil arranjar emprego, imagine-se para uma pessoa com já 50 anos? Mesmo com operações plásticas e liftings, duvido muito que tenham sorte.

O que isto tudo provoca? Mais gente desempregada, a viver na precariedade e dependente dos fundos de desemprego. Supostamente é a população em actividade laboral que, através dos seus impostos, financia o dinheiro utilizado para os fundos de desemprego, mas com o agravamento acentuado do desemprego, pergunto-me se haverá gente suficiente para sustentar tantas pessoas sem trabalho. Ainda nesta linha, tanto quanto sei um dos pressupostos do actual sistema de mercado é produzir, produzir, produzir e produzir, mas então quem é que vai comprar esses mesmos produtos se as pessoas agora contam todos os tostões que gastam? O que acontece? Excesso de produção, a empresa perde dinheiro e onde tem que cortar? Nos empregados… mais gente para a rua. As pessoas não têm emprego, não tem como pagar as suas dívidas, o que acontece? Os bancos rebentam pelas costuras com endividamentos. Parece cíclico, não?

A minha mãe contou-me no outro dia que o hotel onde ela trabalha começou a despedir pessoas com 12, 13 ou mais anos de casa. Perguntei-lhe porquê e ela disse «porque o hotel agora está a apostar nos extras. Sai muito mais barato. O extra chega lá, trabalha durante uns meses e depois vai embora. Enquanto a um trabalhador normal, seria necessário pagar subsídios de férias, vencimentos. As empresas não querem vínculos com os trabalhadores». Claro, as empresas querem é ter flexibilidade em empregar e despedir pessoas. Colocando-me no lugar de um rico empregador, o cenário até parece perfeito, com tanta gente desempregada têm-se muito por onde escolher: podes contratar uns quantos, depois manda-os embora e contratas mais uns quantos e por aí vai. É um paraíso, não é? Pois, para gente que senta todos os dias o traseiro numa cadeira giratória de cabedal e tem que gerir uma empresa parece óptimo, mas para quem trabalha como um cão, tem bilhões de contas para pagar e uma família para sustentar, ir para o desemprego é quase o mesmo que ir para o tronco levar umas chibatadas. É claro que isso não interessa muito, dado que vivemos num mundo em que adoramos objectos e usamos as pessoas (sinceramente só espero que o Reagan tenha sido um bom actor em Hollywood, porque ele como político foi uma trampa [uma forma delicada de dizer «merda»]).

«Despedimentos» e «crise» são duas palavras que não param de ecoar na minha cabeça. A empresa está a produzir pouco e por isso, para não ter despesas, tem que mandar gente para a rua. E eu que pensava que em tempos de crise o que seria mais sensato era criar postos de trabalhos para combater o desemprego, não foi esse um dos pontos do New Deal de Roosevelt? Olhem, eu não sei para onde isto caminha, a única coisa que sei é que neste momento «somos todos precários»!.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Amor...

"O amor é um narcótico extremamente nocivo e eu, pessoalmente, odeio drogas!" - C.K. Boyle

Posto isto só tenho a declarar a minha ignorância no que toca a assuntos de cariz sentimental.
Por ser a minha última semana de aulas e estar a nadar em trabalho, agendo para a próxima segunda o meu retorno pleno à blogsfera.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escravatura


Acabei, recentemente, de ler um livro de Miguel Sousa Tavares (escritor que acrescentei ao meu top ten), o Equador (obra que está a ser adaptada aceitavelmente para telenovela pela TVI, embora a performance dos actores consiga ser quase tão boa como aqueles vídeos idiotas que vemos por esse youtube a fora). De entre os inúmeros temas do livro, o que mais me intrigou foi a escravatura. Não querendo ser spoiler e estragar o prazer que é ler este livro (ao invés de ver a novela), o livro basicamente desenrola-se numa colónia portuguesa em África, São Tomé e Príncipe, durante um período conturbado da monarquia portuguesa, que foi o reinado do ilustríssimo D. Carlos, e centra-se, essencialmente, sobre a temática da escravatura, embora tenho outras histórias paralelas, ou caso contrário o livro não seria mais do que um daqueles calhamaços históricos, maçudos, cheios de factos que ficam a ganhar pó nas bibliotecas até que alguém o vá pegar, nem que seja para fazer pesquisa bibliográfica.

Bom, mas chegando onde pretendo, porque afinal o Tavares não me paga para servir de agente publicitária, li no livro a seguinte citação:

“— Já se imaginou no lugar deles?
— No lugar deles…?
— Sim, já se imaginou ali, a trabalhar dez horas por dia na plantação, a levantar-se quando o sino toca e a adormecer quando o sino manda, e a ganhar dois reis e cinquenta centavos por mês?
— Bem, senhor governador, isso nem parece conversa do senhor. Cada um tem o seu lugar, não fomos nós que fizemos o mundo, foi Deus. Foi ele, que eu saiba, que fez os brancos e os pretos, os ricos e os pobres”.

Esta passagem trouxe à luz uma das coisas com que mais tenho reparado ao longo desta tortuosa existência. Na maior parte dos casos, as pessoas preferem pensar que todos os males do mundo são fruto da providência divina e que temos que aceitar tudo passivamente porque Ele assim o quis. Enfim… bullshit. Numa das inúmeras pseudo-soirées com chocolate quente e conversas de diletante que costumo ter com a minha tia, falamos sobre a escravatura. Claro que a minha tia é a pessoa ideal para representar Portugal numa Conferência de Berlim, se estivéssemos nessa época, e apesar da sua visão colonialista das coisas, ela acaba sempre por me fazer refutar todas as verdades que eu até então considerava acertadas. Nessa tarde ela disse-me que a escravatura existe desde que o mundo é mundo é daquelas coisas quase tão antigas quanto a prostituição. Na verdade, parece que existe no ser humano esse desejo insaciável de exercer poder sobre os mais fracos. «O problema», como disse a minha tia, «é que nos dias de hoje a escravatura que se pratica é muito pior do que a que se praticava à uns anos atrás». Com efeito, na opinião da minha tia, antigamente só os homens negros, fortes é que eram postos a trabalhar em plantações, naquelas condições deploráveis que tão bem conhecemos das aulas de História. Hoje em dia, até crianças já são escravizadas (advento da Industrialização, na minha opinião). Outro ponto focado pela minha tia e que me deixa seriamente a pensar é sobre os povos que exercem a escravatura. Ela disse «mais facilmente compreendo um branco ou um árabe que escravize um povo de outra cultura do que um negro escravizando um negro». Na opinião da minha tia, os negros são responsáveis pela sua própria escravatura, visto que, durante a época dos Descobrimentos, os escravos vendidos para as colónias eram prisioneiros de guerras entre tribos que eram vendidos aos brancos, ou seja «não eram os brancos que entrava no meio do mato à procura dos negros, eram os próprios negros que se vendiam uns aos outros». Bom, na minha opinião, essa história de que os negros são racistas uns com os outros é igualmente válido para os brancos, dado que esses conflitos nos Balcãs, que ainda estou para compreender, estão inerentes a ódios reprimidos à centenas de anos. Porém, e como a minha tia afirmou, hoje a escravatura é ainda pior porque além de venderem pessoas da mesma etnia, também vemos pais vendendo os próprios filhos, como algumas vezes vi em reportagens. «África é, sem dúvida, um caso muito difícil de entender», verbalizei eu. E continua sendo…

A escravatura ainda hoje subsiste, e continuará sempre a existir, quer seja de forma encapotada por interesses filantrópicos de um burguês que diz que abrindo uma fábrica da Nike na China está a ajudar o povo a desenvolver-se e arranja postos de trabalho, quando na verdade o seu interesse principal é explorar o máximo de recursos e pagar o mínimo de salários de forma a juntar mais uns zeros à sua monstruosa conta bancária; quer seja na forma de um proxeneta que obrigada uma série de mulheres a prostituir-se; quer seja na forma de imigração ilegal, em que os imigrantes ilegais são explorados e cujos documentos muitas vezes são roubados pela entidade empregadora, havendo ameaças de denúncia aos serviços competentes caso estes não cumpram o seu trabalho. OK, a escravatura continua a ser uma realidade que se mantêm até hoje, mas a questão principal é o porquê?
Será a vontade de Deus? Ou não será daqueles sentimentos humanos desprezíveis que fazem a minha misantropia aumentar consideravelmente? Simplesmente sou daquelas pessoas que não consegue admitir que os factos da história sejam somente factos e que devemos de os aceitar tal como são. Uau, sendo assim o Hitler existiu porque há sempre um louco metido a besta que acaba chegando ao poder. Enfim…

Gostei, no entanto de outra passagem que encontrei mais à frente no livro:

Quem fez o mundo foi Deus e não os homens. Foi ele que fez ricos e pobres, pretos e brancos, e certas coisas, na obra divina, não está na mão dos homens alterar. Com efeito: certas coisas não poderiam nunca ser mudadas. Mas também, «com efeito – como declara na Assembleia Francesa o seu ídolo Victor Hugo – declaro que haverá sempre infeliz, mas que é possível deixar de haver miseráveis»”.

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Bem, este texto talvez não seja das melhores formas de começar o ano, mas acabo sempre por deixar-me levar pelos meus impulsos, e algo me dizia para escrever esta treta. De qualquer forma, quero felicitar os leitores e desejar-lhes um Feliz Ano de 2009, com tudo de bom. Quero, igualmente agradecer-lhes pela leal companhia aqui no Admirável Mundo. Confesso que, graças a vocês, comecei a ficar viciada na blogsfera e começo a achar que, afinal, até escrevo algo de jeito. A todos vocês um muitíssimo obrigado (sim, isto ‘tá a roçar o pomposo de uma forma que até me dá voltas aos estômago).

Este ano de 2009 será decisivo para mim por dois motivos. Primeiramente porque vou-me formar e estarei pronta para enfrentar o mundo real que espera por mim com um cutelo atrás das costas, pronto para me decepar e também porque, no final do ano estarei viajando para o Brasil, a fim de passar umas merecidas férias. Talvez nos consigamos encontrar…