"Crónica de Costumes"

domingo, 6 de janeiro de 2008

Para os Órfãos de Pais Vivos...

(Nota: A ideia para esta história surgiu de uma conversa que tive com o meu amigo Jadson e com a minha tia Amélia. Embora o texto não seja auto-biográfico, qualquer semelhança entre as personagens e indíviduos da vida real é a mais pura coincidência).
Acontecera! Eles estavam finalmente frente-a-frente e sentia-se uma certa perigosidade no ar. O silêncio reinava na sala, sendo por vezes abalado por fortes rajadas de vento forte que fustigavam as folhas das árvores.

Joana olhou pela janela e viu que o céu adquirira um cálido brilho vermelho, pronuncio de que estava quase a anoitecer. Ela tinha à sua frente o homem que, embora fosse seu pai, ela já não reconhecia. Já não era o mesmo homem que a embalara em seus braços, o mesmo homem que a levava a passear na garupa da bicicleta, o mesmo homem que lhe contava história antes de dormir... era como estar defronte de um desconhecido... desde os seus sete anos, quando os seus pais se divorciaram, que as coisas haviam mudado. A sua mãe insistia sempre que ela devia de ver o pai, e ele por vezes ia visitá-la, apático, cabisbaixo, algo deprimido por causa da separação, mas mesmo assim com aquele olhar reconfortante que sempre transmitira confiança à filha... todavia, desde que a Sônia entrara na vida do pai as coisas haviam mudado... lá estava a madrasta. Joana deixara de interessar ao pai e ele raramente a ia ver, a distância foi-se tornando tão grande que ela passara a ser ex-filha... mais uma coisa que ele havia deixado para trás, uma mera recordação do seu primeiro casamento... agora só lhe interessava a nova vida, a nova mulher, os filhos que ela já tinha e quem sabe os futuros filhos que viriam a ter... e que lugar Joana ocupava na vida do pai. As visitas foram diminuindo drasticamente com o passar dos anos até pura e simplesmente deixaram de existir.

A falta de um pai havia-se tornando bastante visível quando Joana começou a entrar na puberdade... todas aquelas mudanças no sue corpo, sentia-se estranha. Sabia que tinha a mãe para a ajudar em tudo o resto... mas o pai?! Também precisara muito dele, da confiança que aqueles olhos sempre lhe haviam transmitido, porém ela já não tinha mais isso, não tinha quem a protegesse dos rapazes nem quem lhe transmitisse segurança, sabia que tinha a mãe, uma mulher batalhadora, mas era uma pessoa insegura... faltava-lhe uma figura masculina.

Ela tivera uma pré adolescência bastante conturbada e acusava sempre a falta do pai por tudo de mal que lhe acontecia. Começou a misturar-se com más companhias, baixou as notas e repetiu um ano, fez piercings e tatuagens às escondidas da mãe e chegou mesmo a começar a fumar... parecia que a sua rebeldia não tinha limites. Ela fazia aquilo tudo para chamar à atenção da mãe, queria que ela tivesse pena dela, que se preocupasse com ela... toda àquela insegurança pela falta de um pai tinha de ser suprimida por uma atenção extra por parte da sua mãe, tinha de ter a certeza que a mãe a amava já que o pai parecia não gostar dela. Dona Maria, a mãe de Joana, não sabia o que fazer... sabia que o facto de a filha ter crescido sem pai a estava a tornar numa adolescente revoltada e ela tinha que por um termo a isso. Colocou a filha num psicólogo e mudou-a de escola, ela precisava urgentemente de sair de perto daqueles arruaceiros ou sua filha ingressaria por um caminho que provavelmente não teria volta....

Na escola nova o comportamento de Joana havia melhorado bastante... ela tinha novos amigos, os professores gostavam dela e as suas notas haviam melhorado tanto que a mãe até já estava a retirar-lhe muitos castigo... fora também na nova escola que ela descobrira o seu talento para a representação (estava agora num grupo de teatro) e que conhecera Gustavo (lembram-se do Gustavo da outra história xD), que embora um ano mais novo que ela, era um rapaz interessante e ela gostava muito de conversar com ele. Parecia que as coisas estavam a melhorar na vida dela, mas mesmo assim, sozinha na segurança do seu quarto, Joana chorava e sentia-se profundamente triste: o pai não a amava... ela não conseguia entender porquê! Estivera sempre a culpá-lo pela sua ausência e isso não era nada saudável para ela... precisava de respostas urgentemente para poder seguir em frente, chafurdar no passado só lha causava dor...

E hei-los ali naquele momento... cara a cara. A irmã de Pedro, o pai de Joana, havia implorado ao irmão para se encontrar com a filha... Joana contara à tia que precisava urgentemente de falar com pai, contara à tia tudo o que lha afligia e Pedro arranjara um tempo para ir à casa da ex-mulher ver a filha e saber o que se passava. Teve um choque momentâneo quando olhou para uma adolescente de dezasseis anos, alta e de estatura média, com um piercing no queixo e outro transversal na orelha e um cabelo preto com madeixas cor-de-rosa que se apresentava num corte extremamente excêntrico, como se Joana o tivesse cortado ela mesma num momento de grande fúria...

O silêncio mantinha-se e Joana decidiu falar... era agora ou nunca... precisava das resposta. Respirou fundo, era quase como estar a representar junto de uma plateia extremamente hostil.

- Pai, eu preciso de lhe fazer uma pergunta...
- Força... estou aqui para te dar a resposta...
- O senhor esteve afastado de mim estes anos todos... o senhor... – a sua voz vacilou, temia a resposta – o senhor não gosta de mim?
A menos que os seus olhos a estivessem a trair, ela sentiu o seu pai estremecer na cadeira.
- Mas que pergunta!! É claro que gosto... és minha filha! Foste o melhor que a tua mãe me deu... és tudo o que eu tenho nesta vida...
Joana sentiu uma súbita vontade de rir, que hipócrita!
- Então porque que não demonstra? Nunca me telefonou para saber como eu estava! Nunca me ligou a desejar Feliz Aniversário ou Feliz Natal... nunca me ajudou nos trabalhos de casa...nunca esteve por perto quando eu não conseguia dormir... nunca perguntou se eu precisava de ajuda... se eu passei fome... nada!!! Precisei de si estes anos todos e nada...
Pedro engoliu em seco.
- Bem, eu não tinha dinheiro no telemóvel...
- Pai, o senhor ficou oito anos sem dinheiro no telemóvel!?
- Eu também não tinha muito para te dar...
- Pai eu não queria dinheiro, eu só queria a sua atenção, o seu carinho, estar consigo!
- Mas eu no princípio convidava-te para vires comigo... e com a Sônia. Ela também nunca entendeu porquê que não gostavas dela... ela sempre disse que se quisseses podias ir passear connosco... ela não fazia distinção entre ti e os filhos dela... se quissesses podias ter ido passear connosco! Já fomos a tantos lugares da Europa... mas não, tu implicaste com ela de uma forma que eu nunca percebi muito bem...
- Pai, eu não tenho que gostar dela! Eu vejo o que ela está a fazer ao senhor, a sugar o seu dinheiro, mas seja como for, eu já existia antes dela aparecer... sou sua filha! Não é capaz de tirar cinco minutos do seu tempo para ‘tar comigo?!
- Sim... tens razão! Eu sei que tenho sido um péssimo pai e no fundo já estava a espera que me puxasses as orelhas! Eu bem mereço... sempre fui desleixado...
- Sim mas na hora que me fez de certeza que não foi! Já ‘ta na hora de assumir as suas responsabilidades, não acha?
- Tens razão! – Pedro esboçou um ténue sorriso. – No próximo domingo, que tal ir-mos almoçar? Mas só nós os dois, claro – acrescentou ele ao ver o olhar da filha.
- ‘Tá bem... a tia deu-lhe o meu número... eu vou ficar à espera que me ligue, nem lhe vou telefonar.
- Acredita que ligo...

E Pedro aproximou-se da filha e deu-lhe um abraço, Joana sentiu uma vontade imensa de chorar... à tanto tempo que não sentia o calor e o conforto que aquele abraço lhe transmitia... e no seu coração a vela da esperança acendeu-se, uma ténue chama que lhe aquecia o peito e ela acreditou no pai.
- Só espero que ela não se decepcione – disse Maria que, inevitavelmente, escutara atrás da porta. Queria o melhor para a filha mas não sabia até que ponto o melhor para ela seria voltar a aproximar-se do pai... tinha medo que a filha se voltasse a decepcionar com ele novamente e o pesadelo recomeça-se...

No domingo combinando Joana esperava pacientemente na casa da tia Catarina. A jovem adorava aquela tia solteirona que tinha um gosto refinado para as artes... era professora de História da Arte no Liceu e pintava quadro para a Galeria de Artes da cidade, às vezes até escrevia alguns poemas e crónicas para o jornal local. Durante todos aqueles anos a tia Catarina dera a Joana o carinho que supostamente deveria pertencer ao seu irmão Pedro... nem ela conseguia compreender ao certo porquê de o irmão se comportar daquela maneira... Joana era uma jovem adorável, embora Catarina nutrisse alguma repulsa pelos piercings e o cabelo artisticamente desgrenhado. A senhora não deixou de sentir um aperto no coração ao ver a expectativa com que a sobrinha estava em se encontrar com o pai...

Mas a hora de almoço passara e nem sinal dele... Catarina tentou servir-lhe um pouco de arroz de pato mas Joana não quis... «acho que foi o trânsito, deve ser algum engarrafamento».

Duas da tarde... três... quatro... e ele não aparecia... Joana sentiu a chama a diminuir lentamente a escuridão a tomar conta dela... quando no relógio soaram as cinco horas e a tia se sentou em frente dela com uma chávena de chá, Joana não aguentou e começou a chorar...

- Ele não vêm, tia! Eu já devia de saber!!! Ele nunca vai mudar!! Prefere a outra e os filhos dela... ele nunca gostou de mim...

Aquela senhora, já de meia idade fitou a sobrinha, começava já a sentir os olhos a querer lacrimejar.

- Sou mesmo burra! Como é que fui acreditar?! Nunca mais quero saber dele! Odeio-o, ele também me odeia! Tenho nojo de ser filha dele...

E sentiu uma vontade enorme de partir algo, de descarregar a sua raiva em algo. Tentara acreditar no pai mas de nada valera... era somente mais uma desilusão para somar a todas as outras com que tinha de conviver.

Catarina colocou a chávena de chá em cima da mesa de pé-de-galo, levantou e fitou a sobrinha.

- Joana, tu és igual ao teu pai?
- Não, não sou nem nunca quero ser igual a ele... tenho nojo de ser filha dele...
- Então... não é porque ele te faz todas essas coisas que deves fazer igual. Não estou a dizer para o abraçares e tudo mais... – Catarina fez questão de acrescentar isso quando sentiu que a fúria da sobrinha estava prestes a imergir com as palavras que ela proferira. – Apenas estou a dizer isso porque não vale a pena ficares com esse ódio, essa vontade de vingança no teu coração.

Joana fungou, não compreendia o que a tia lhe queria dizer. Queria que ela deixasse de lado o desprezo por parte do pai e o tratasse com cordialidade como se fosse um velho amigo de escola?

- Joana, eu olho para ti e vejo uma adolescente brilhante! Tivestes aqueles problemas todos mas conseguistes ultrapassá-los... tens tantos amigos que gostam de ti, as tuas notas estão tão boas e quem sabe vais ter uma óptima carreira como actriz... Cresces-te e ainda estás a crescer... aprendeste, erraste e tudo sem ele. Joana, tu venceste! Acredito que o Pedro, quando olhou para ti, viu uma mulher vencedora! Criaste-te e fizeste-te por ti mesma. Eu acredito que ele pense nisto... e tu... tu tens a consciência limpa porque nunca desprezaste nem fizeste mal a ninguém... agora diz-me, para quê esse ódio todo? Tens agora dezasseis anos e um longo caminho pela frente, passaste grande parte da tua vida sem a presença dele e mais anos virão e tu serás sempre a mesma pessoa. Não é melhor passar esse longo caminho com a consciência limpa, perdoando os outros, do que estares sempre a remoer o facto de o teu pai não te ter amado e tudo mais...
- No fundo ele não me ama, não é, tia?

Catarina suspirou.
- Ama sim, Joana, mas da maneira dele. No fundo o teu pai sempre foi aquele que mais deu trabalho à tua avó... por ter boa índole sempre se deixou influenciar pelos outros e como encontrou alguém mais forte que ele deixou-se guiar por ela... só tenho pena de a Sônia ser a influência que é na vida dele.

Custava-lhe imenso estar a dizer aquilo à sobrinha, mas ela já tinha dezasseis anos, já estava na altura de compreender algumas coisas e curar algumas feridas que não queriam parar de sangrar.

- Joana, ele fez o que fez e tu vais passar a vida inteira com isso e mesmo assim vais ser feliz... vais ter as tuas emoções, a tua vida... já passaste por todas as dificuldades mas venceste! Se por acaso o encontrares, fala com ele, se ele não perguntar como estás, pergunta tu, se ele não te deu os parabéns, dá tu... se ele não te fez, faz tu. Vais ver como vais te sentir melhor. Imagina o velho Pedro, ele deve pensar «eu nunca dei para ela, nunca fiz nada por ela e ela trata-me desta maneira». Joana, não há melhor resposta que esta.
- Mas tia... eu vou estar quase que oferecendo a outra face para ele bater e ele vai-me pisar mais ainda... vou fazer figura de otária!
- Joana eu vou-te contar uma história que eu ouvi quando viajei até Pernambuco.

Catarina voltou a sentar-se, agarrou na chávena de chá e ficou a observar o fumo que provinha da bebida.

Eles eram muito pobres, jovens e amavam-se profundamente. Casaram-se e tiveram 8 filhos, porém, ela começou a beber... batia nas crianças e um dia saiu de casa e não mais voltou. Deixou o marido para trás, sozinho e com oito filhos para sustenta e criar. Ele sofreu muito, ficou desesperados e chegou mesmo a pensar em se matar. Mas logo se lembrou... 8 filhos! Ele recuperou... começou a trabalhar o dia todo para sustentar aquelas crianças... eram 8 e ele trabalhava incansavelmente, e todos os dias ele pensava na mulher que o deixou. Ele estava revoltado com a vida, contudo ele amava os filhos, e trabalhava, trabalhava... só fazia questão que os filhos estudassem, para serem alguém na vida.
Os anos foram passando, passando... ele sofria, vivia em favor dos filhos... anos e anos... o tempo passou e os filhos cresceram e se formaram... advogado, engenheiro, médico... um orgulho atrás do outro.
Até que num Natal, o pai e todos os seus filhos estavam reunidos... todos viviam bem... numa casa boa, com tudo do bom e então bateram à porta.
Todos ficaram em silêncio e o pai foi ver quem era. Quem poderia ser... ninguém imaginava...
Mas heis que bate à porta... A Mãe!!! A mulher que deixou o pai sozinho... ele passou a vida inteira trabalhando, amargurado por ela ter deixado. Ele tinha todos os motivos do mundo para chegar ao extremo de fazer alguma coisa com aquela mulher...
E o pior... ela disse que estava pobre... na miséria... dormia na rua e não sabia mais o que fazer diante daquilo tudo e eles eram as únicas pessoas que poderiam ajudá-la.
E o que pai fez? ~
Podia a ter matado, espancado, batido a porta na cara dela, a ter tdesprezado... mas Não! Ele simplesmente disse
-Entra! Entra na casa de onde voce nunca devia ter saído!!!
A mulher não aguentou. Chorou e abraçou o pai, que não se moveu, também ele segurava as lágrimas.
Eles deram tudo para ela! Cama quente, comida farta, uma vida de rainha naquela casa... uma semana depois ela adoeceu... vomitava, tossia, doía-lhe a cabeça e um mês depois ela morreu com cancêr no fígado...
Ela não aguentou aquela situação... aquela vergonha das pessoas que ela tanto maltratou... as pessoas que ela havia deixado, foram justamente aquelas que a ajudaram...


Catarina bebeu o chá enquanto a história que ela contara surtia efeito na sua sobrinha... quase que sentia o cérebro dela a digerir a história que acabara de contar.
- Não adianta de nada pagar da mesma moeda – disse por fim Joana.

A velha senhora sorriu.

- Tu venceste, Joana! Quem vive de passado é museu, e se estiveres sempre a tocar na ferida ela nunca parará de sangrar. Se perdoares o teu pai e fizeres aquilo que ele nunca fez vais-te tornar uma pessoa melhor. Não podes mudar o passado... mas o futuro? Podes... porque o futuro é consequência do presente... A vida continua minha querida...

Joana sentiu as lágrimas a correm-lhe pela face.

- Posso lhe dar um abraço?

Catarina levantou-se e abriu os braços e apertou a sobrinha com força contra ela... só tinha dezeseis anos, pensou para consigo, que longa caminhada ainda tinha pela frente.

Ficaram abraçadas durante instantes até um barulho proveninente do estômago de Joana quebrar o silêncio... lembrou-se de que ainda não almoçara.

- Ainda queres o arroz de pato?

Joana sorriu e aceitou a refeição...

Sentia-se leve, como se tivesse tirado um grande peso de cima dos ombros e que daí para à frente ia ser diferente... podia ser mais uma “órfã de pai vivo”... mas fizera grandes conquistas... e muitas mais aguardava por ela...

sábado, 5 de janeiro de 2008

Humor...

Porque uma imagem vale mais que mil palavras xD


sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Desabafo...

Podia bem fazer isto pessoalmente... telefonar a um amigo, convidá-lo para ir tomar um cappuccino (ou qualquer outra substância líquida que contenha cafeina [composto químico essencial para a minha sobrevivência xD]) e começar a filosofar sobre todos os problemas que me vêem aflingindo, mas como isto certamente iria terminar num monólogo em que o meu ouvinte estaria a abanar afirmativamente com a cabeça em concordância com tudo o que eu digo (embora não estive a prestar atenção minimamente nenhuma) e resolvi escrever este post na esperança de que alguma alma caridosa e corajosa o leia até ao fim.

Sempre tive uma certa dificuldade (para além das coisas que habitualmente já considero difícil) em fazer com que as pessoas olhassem para mim com alguma credibilidade. Sempre julguei que estivesse relacionado com o motivo de ser uma pessoa reservada que passa quase sempre despercida. Sim, concordo que sou uma pessoa reservada (o que no entanto só acontece quando estou entre pessoas com quem não me sinto à vontade), porém uma coisa que aprendi quando fui para a universidade foi a manter-me calada (não só por estar num grupo de mulheres onde «tudo o que disseres pode ser usado contra ti» [no sentido literal da expressão]) mas porque tudo o que sempre dizia ou pruponha era encarado como descasbido e colocado de lado (contudo mais tarde vinha-se a comprovar que eu, evidentemente, tinha razão). Por vezes cheguei a pensar se eu só dizia barbaridades e que me devia auto-mutilar colocando malagueta na boca (como se faz às crianças)... mas pouco a pouco me fui apercebendo de que a minha maneira de ser era o principal motivo para ser ostracisada pelas minhas colegas. Ou era porque nas aulas mencionavam um livro ou um filme que eu conheciam e olhavam para mim com aquele olhar fulminante como se eu tivesse dito algo extremamente ordinário ou porque quando chegavam ao bar da escola e me encontravam debruçada sobre a leitura de um livro ou sobre as ideias para os meus livros ou até mesmo quando, antes de estabelecer amizade com elas, preferia a segurança da biblioteca e dos livros.

Mas mesmo após estabelecer aquilo que se pode chamar de amizade as críticas mordazes não cessaram. Tudo o que dizia voltava novamente a ser encarado como descabido... quantas vezes não cheguei a pensar que estava a ficar louca! Que só dizia baboseiras e que no fundo estava era no curso errado. Por essas e por outras é que sempre me considerei o "génio socialmente imcompreendido". Bem, nunca fui uma pessoa que se tivesse a si mesma em grande conta para me dar ao luxo de poder me auto-proclamar como "génio", mas costumo escrever muito e ter ideias engraçadas (faculdades que pelos vistos tenho vindo a perder vertiginosamente). Diga-mos que ao meu jeito estranho e peculiar de ser eum sou o "geniozinho socialmente incompreendido" do meu mundo surreal (felizmente há pessoas que ainda tem a paciência e coragem para me aturar xD)..


É por isto que sempre preferi ser o mais diferente possível delas, elas não me entendem e eu também não as entendo. Cada um no seu lugar.


"Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual...eu do meu lado aprendo a ser louco, um maluco total, na loucura real..." (Raul Seixas)

Ps: Tenho saudades dos tempos de Liceu!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Os pais são de Marte e os filhos de Saturno


Desconheço a existência de um livro com este nome, mas não seria nada mau pensado se se escrevesse algo deste género. A verdade é que o mundo dos pais é totalmente distinto do dos seus filhos e por vezes (muitas vezes até) entra em colisão. É que os pais, embora já tenham passado pela idade dos filhos, sentem uma certa dificuldade em entender porque causa, motivo, razão ou circunstância os seus filhos agem de uma determinada maneira, assim como os filhos também sentem essa mesma dificuldade e questionam-se frequentemente porquê que os pais os estão constantemente a repreender. Isso acontece maioritariamente (para não dizer totalmente) na adolescência, afinal os adolescentes adoram contestar tudo, principalmente as ordens dos pais, e tal acontece com mais frequência do que na infância (as crianças podem espernear, jogar-se para o chão e fazer escândalos mas acabam sempre por obedecer aos pais, basta usar o argumento «olha, senão fores um bom menino o Pai Natal não te dá prendas»), pois é nesta fase da vida que damos preferência aos amigos do que à família, e muitas das vezes o que aprendemos com os amigos choca (e quase drasticamente) com a maneira de pensar dos nossos pais.

«Pais, quem precisa deles?», quantas vezes eu não discuti isso com os meus amigos! Ao contrário do que nós, adolescentezinhos, possamos pensar, os pais não são um mal necessário, antes pelo contrário, eles são os nossos melhores amigos e verdadeiros fãs (embora escolham as piores alturas para manifestar essa admiração, como por exemplo quando levamos amigos lá a casa e eles começam a contar histórias sobre nós [aquelas histórias que por acaso até queremos levar para a caixão connosco]). Os pais querem desempenhar até ao final das suas vidas a dura tarefa de fazer de nós indivíduos respeitáveis… assim como eles também tentam ensinar o cão a fazer as necessidades no quintal ou o gato a não afiar as unhas no sofá, mas com os filhos eles gostam sempre de saber que obterão algum êxito. É claro que a nós, adolescentes, incomoda o constante bombardeio de questões como «já fizeste os trabalhos de casa?» ou «que tal andam as notas da escola?». Mas sabe que ao mesmo tempo que nos irrita que estejam constantemente a perguntar pela escola também iríamos ficar extremamente deprimidos se eles não perguntassem: «Os meus pais não querem saber das minhas notas! Não se preocupam comigo! Não gostam de mim! etc., etc., etc.,» (regra número um: não se dêem ao trabalho de entender a mente dos adolescentes porque nem eles mesmos entendem).

Uma coisa que fui notando ao longo da minha adolescência é que os pais e os filhos comentem erros, que apesar de tudo são inevitáveis. Os pais e os filhos falam línguas diferentes (e não me refiro ao «abreviatuarês» que usamos nos telemóveis e na Internet [juntam-se a mim aqueles que já mandaram uma mensagem para o telemóvel da mãe e que depois teve de ouvir um sermão sobre o assassinato ao português «O quê! Que raio de linguagem é esta? “Pensamento” com “X”?! Não é assim que se escreve! Como andam as tuas notas a português?»], é que pouco a pouco os pais também vão dominando este “idioma”. O que falta, em primeiro lugar, aos filhos, é a falta de tacto… é que nós escolhemos sempre as piores alturas para pedir as coisas aos pais, como por exemplo quando a nossa mãe acaba de se sentar no sofá, cansada depois do trabalho e perguntamos «Mãe, podes passar as minhas calças a ferro? Olha, o frigorifico está vazio, o que vai ser o jantar? Podes dar-me dinheiro para ir ao cinema?». Bem, acabamos de acender o rastilho e daqui até a bomba estourar pouco falta. Qualquer outra pessoa iria perceber o erro que acabamos de comer, mas nós, adolescentes, na perfeita ingenuidade da nossa existência “egoísta” (salvo seja) ignoramos o cansaço físico e mental dos nossos pais, o que faz com que não nos consigamos colocar no lugar deles (assim como os pais também não conseguem entender quando nós dizemos que vamos para a escola com a principal razão de conviver com os nossos amigos e que a escola é a única droga que não vicia. «O que?! Devias de dar graças a Deus por estares a estudar! Onde é que já se viu, não fazem nada da vida e só reclamam!»). Deve de ser difícil para eles depois de um dia de trabalho chegar a casa e ter que aturar o seu rebento, que não arrumou nada em casa, a tentar extorquir-lhe um monte de favores. E se a nossa mãe nos gritasse depois deste episódio, o que faríamos? Provavelmente trancávamo-nos no quarto e ligava-mos a nossa melhor amiga para reclamar da nossa mãe. Os pais às vezes também nos querem de proibir de fazer certas coisas (como ir acampar com os amigos durante um fim-de-semana), mas o que sentimos dificuldade de compreender é que eles fazem isso para o nosso próprio bem.

Sim, mas os pais também sentem dificuldade me perceber porque que às vezes os filhos mais velhos não se dão bem com os irmãos mais novos. Eles que experimentem o que é ter alguém constantemente a mexer nas nossas coisas, a experimentar a nossa maquilhagem, a tentar ler o nosso diário, etc! Eles também não entendem porque razão o nosso quarto é tão desarrumado. Podemos alegar que «Oh mãe, mas eu gosto do meu quarto assim, pelo menos sei onde as coisas estão» (ou cantar aquela parte da música do Danni Carlos «Eu gosto do meu quarto, do meu desarrumado. Ninguém sabe mexer na minha confusão»), mas ela não vai gostar particularmente disto depois de ter ganho coragem para se aventurar nas limpezas ao nosso quarto e ter encontrado uma meia malcheirosa debaixo da cama, etc. (ela também não irá entender porque motivo ficamos irritados depois de ela limpar o quarto «Oh não, mãe, mudaste as coisas todas de lugar. Onde é que tão os meus CDs?»).

E as críticas? Ninguém gosta quando os pais dizem «Vais sair assim dessa maneira? Pareces um palhaço!» (ouvir isto depois de termos passado horas intermináveis na casa de banho a arranjarmo-nos para ir ao cinema com o rapaz que gostamos não é particularmente animador).

Aqui em casa as dificuldades em perceber a linguagem que falamos são constantes. Tipo, quando eu acordo tarde e apareço na sala de pijama e cabelo desgrenhado e a minha mãe me diz «Isto são horas de acordar, Camila? É quase uma da tarde! Eu já fui ao banco, já limpei o escritório da D. Teresa, já deixei a tua irmã na escola, já salvei o planeta de um meteorito, impedi o descarrilamento de um comboio e vou agora fazer o almoço» (é incrível a quantidade de coisas que as mães conseguem fazer num curto espaço de tempo); «Aposto que tiveste outra vez na Net até as tantas da madrugada. Já viste as tuas olheiras? A noite foi feita para dormir» (bla bla bla) «Vais aonde? Tomar o café da manhã, na hora do almoço? Depois admiras-te que não engordes, não fazes as refeições às horas certas» (isto é assim tão relevante?). «Olha, podes ir comigo ao supermercado? Não?! Porque vais ficar a ver a Betty Feia?! É que nem pensar. Esses actores já têm a vida ganha, vê lá se eles vêem te trazer alguma coisa à porta de casa» (será que ela nunca gostou de algum programa quando tinha a minha idade?).

Enfim… dois mundos paralelos que no fundo se completam. É como o mundo dos homens e das mulheres, são tão diferentes, por vezes chocam mas no fundo precisam uns dos outros. Ninguém é mais inteligente que ninguém nem suficientemente importante que não precise de ninguém. Uma coisa que aprendi com o passar dos anos é que os nossos pais (no meu caso a minha mãe) são os nossos melhores amigos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Jantar de Família

(Nota: Quando iniciei a minha adolescência, a minha mãe ofereceu-me uma série de livros didácticos e de auto-ajuda para nos ajudar a resolver as controvérsias desta fase da nossa vida. Sem dúvida a autora que mais me marcou foi Kathryn Lamb, com o seu sentido de humor peculiar no que diz respeito à análise das mais diversas situações que para nós, adolescentes, parece o fim do mundo. É baseado nos livros desta brilhante escritora que escrevei textos de cariz semelhante a este).

O relógio da cozinha anunciava as sete horas, fazendo Angélica Gomes sobressaltar-se. Tinha somente uma hora para terminar de preparar o sumptuoso jantar e arranjar-se. Era o seu aniversário do seu sogro e ela prontificara-se para fazer um jantar em homenagem a ele, via nessa ocasião uma oportunidade de impressionar a sua nada impressionável sogra. As panelas fumegavam ao lume e a mesa da cozinha estava atafulhada de deliciosas sobremesas, aquela tarte de maça de dois andares, recheada de chantily e frutos secos que pareciam prestes a ruir caso ninguém os comesse rapidamente. Angélica escondera o vestido por detrás de avental azul, procurando salvaguardá-lo das nódoas de gordura; o cabelo aloirado estava igualmente escondido por uma touca de banho que contrastava com o vestido elegante que ela envergava e dava um ar quase caricato à cena.
Pela janela da cozinha viu o marido, Eduardo, a estacionar o carro, pisando com as rodas suavemente sobre a relva que Angélica tivera o cuidado de cortar durante o fim de semana (os seus olhos arregalaram-se de raiva ao ver a cena, porém, o som do microondas fez-lhe esquecer a cena, deixando a repreensão que iria dar ao marido agendada para mais tarde).
Eduardo entrou pela porta da cozinha com um estúpido sorriso desenhando nos lábios, o que fez a raiva de Angélica tornar a erguer-se, qual uma cobra prestes a atacar: como poderia ele estar tão alegre com a quantidade de trabalho que ainda havia para fazer.
- Então querida, como vão os preparativos para o jantar?
- Está quase tudo pronto – respondeu Angélica, procurando esconder o seu cansaço. Queria mostrar ao marido que conseguia fazer o trabalho sozinha e também não via em quê que ele podia ajudar. Sempre fora muito individualista quando se tratava de governar a cozinha. Não gostava de ter pessoas a espreitar por cima do seu ombro a ver o que estava a fazer e muito menos que lhe estivessem constantemente a perguntar «e agora, queres que faça o quê?» - Trouxe o teu fato (obs: no Brasil seria um terno) da lavandaria, está em cima da cama.
- Obrigado, querida. Vou tomar um duche e procurar aquela garrafa de vinho que o Antunes nos ofereceu, o velho Francisco adora um bom vinho do porto. Onde estão as crianças?
O casal tinha três filhos. Filipe (de dezoito anos, que estava prestes a entrar para a Universidade), Gustavo (um adolescente de quinze anos, daqueles mesmo adolescentes) e Cláudia (a pestinha de nove anos). Apesar dos dois filhos estarem já na adolescência, Eduardo insistia em chamá-los de crianças.
- O Filipe está no quarto a acabar um relatório da escola, vai lá e diz-lhe para se arranjar. Ah, querido, passa-me a manteiga, por favor.
Eduardo foi ao frigorifico e tirou de lá a manteiga, beijou a esposa na bochecha e dirigiu-se para a casa de banho, desapertando a gravata que o sufocava. Angélica abriu a caixa da manteiga e teve que torcer o nariz em profunda aversão: Gustavo voltara novamente a usar a mesma faca para barrar a geléia e a manteiga, deixando ali uma mistura repulsiva, deixando a mãe profundamente enojada.
A porta voltou a abrir-se e Angélica sobressaltou-se ao ouvir os gritos que provinham do átrio de entrada. Parecia que estavam a estrangular alguém. Encaminhou-se para lá. O seu filho Gustavo puxava a irmãzinha mais nova pelo braço e estava gritava, a cara cheia de baba e ranho.
- Gustavo, o que passa aqui? Disse-te p’ra ires buscar a tua irmã à escola, não p’ra tentar degolá-la.
Gustavo largou o braço da irmã. Era um jovem peculiar que se contrastava do resto da família. Gordinho e de estatura média, usava roupas num estilo alternativo elaborado por ele mesmo, o seu cabelo preto espetava numa crista de galo e tinha um piercing na cara e um alargador na orelha esquerda (quando lá aparecera em casa com estas duas artes no corpo tivera de aguentar com a fúria dos pais, é que para além de ter feito algo que eles abominavam ainda lhes tinha falsificado a assinatura da autorização que lhe exigiam na Freak Shop. Angélica chorara o dia todo, temendo o que os vizinhos e o resto da família iriam pensar do filho, Eduardo passara uma semana a dar um sermão a Gustavo, qual uma entediante palestra).
- Sim e fui buscá-la. A gente parou na Sandomania p’ra comer uma sandes de frango com ananás...
- Ei, vocês comeram antes de cá vir p’ra casa? – indagou Angélica, alarmada. Passara o dia todo na cozinha e o seu filho acabara de lhe dizer que comera uma comida qualquer num daqueles restaurantezecos de comida de plástico. Era o suficiente para a deixar frustada.
- Sim... e depois ‘tavam lá uns amigos meus do basquete e a Claudiazinha querida fez o favor de começar a dizer coisas sobre mim. Fartaram-se de rir de mim e aposto que vão contar a toda a gente. Não quero mais ir à escola!
- Não sejas tolo, Gustavo. A tua irmã não fez isso por mal, não tem noção de que te estava a embaraçar, só tem nove anos não é!
Gustavo não acreditou muito nisso, sabia que a irmã adorava fazer aquelas cenas propositadamente para o embaraçar.
- Espero que não tenham enchido a barriga a comer porcarias, é o jantar de anos do vosso avô. Vão trocar de roupa e depois venham para baixo.
E lá foram eles. Cláudia ainda a fungar e Gustavo arrastando os pés indolentemente, preferia mil vezes ficar no quarto a ouvir musica e a navegar na Internet do que a jantar com os avós. Angélia despachou-se rápido, pôs a mesa com a loiça que ganhara no seu casamento e foi para o seu quarto para acabar de se arranjar e compor o marido. Colocava maquilhagem quando ouviu um berro vindo do quarto de Gustavo, Angélica fechou os olhos e suspirou profundamente, tentando procurar paciência dentro de si. Tarefa difícil essa de ser mãe! Eduardo que se penteava, fez sinal a mulher e foi ele mesmo ver o que passava.
- Gustavo, o que foi agora?
- Pai, a Claudia mergulhou a minha Playstation Portátil na banheira!! – berrou Gustavo com a cara vermelha de raiva.
- É que eu queria ver se era mesmo à prova de água, papá. P’ra usá-la como submarino numa missão especial.
- Vês! Vês! – bramiu Gustavo apontando um dedo acusador para a irmã que ostentava uma expressão angelical. – Porquê que não a doam p’ra Santa Casa juntamente com as roupas velhas?
- Porque é tua irmã, Gustavo. Os teus avós vêem ai, mas quando eles se forem embora resolvemos isto. Agora não façam mais escândalos e vão acabar de se arranjar.
Quando o relógio soou as oito horas, a família Gomes estava toda reunida na sala para aguardar os pais de Eduardo que, há boa pontualidade britânica bateram na porta de entrada. O sr. Gomes foi abrir a porta e abraçou os seus pais com carinho.
- Parabéns, pai.
- Mais um aninho, não é. E vocês, não vão abraçar o avô?
Um por um eles encaminharam-se até ao idoso que se achava de braços abertos e um sorriso alegre de orelha a orelha. Gustavo foi o último, abraçou o avô e a avó que não resistiu a deixar um comentário ao seu aspecto.
- Ai Gustavo, esses furos, pareces uma peneira... no meu tempo nem se pensava em aparecer assim em casa! Se o teu bisavô te visse assim...
- Avó, os meus pais aceitaram e é isso que me interessa – respondeu abruptamente Gustavo.
- Beatriz, lá porque o rapaz tem esses brincos não quer dizer que tenha mau carácter, não te podes deixar levar pelas aparência – defendeu Francisco Gomes, olhando com carinho para o neto, também já se habituara a ver o neto daquela maneira.
- Sim, mas e quando ele for à procura de emprego, achas que lhe vão contratar c esses furos todos – contrapôs Beatriz.
- Então, e que tal irmos jantar? – propôs Eduardo para findar a discussão que estava prestes a começar. – A Angélica fez um banquete e tanto.
- Espero bem que não tenhas abusado nos condimentos, Angélica – disse Beatriz enquanto eles se encaminhavam para a sala de jantar. – Sabes que eu tenho problemas com o colestrol, não sou grande apreciadora desses temperos exóticos que tu usas.
- Ah, eu fiz um prato especial p’ra si, Beatriz – respondeu Angélica com um sorriso forçado. Se pudesse enfiava a cara da sogra no molho do lombo de porco que havia preparado, mas por respeito ao marido que tanto amava, não o fez.
O jantar decorreu com a normalidade do costume. Angélica fizera um salmão cozido para a sogra e para os restantes um lombo de porco no forno. Francisco felicitou a nora pelo brilhante cozinhado e pelo vinho que o filho havia escolhido, Beatriz fez questão de notar que as batatas estavam cozidas demais.
Filipe, o filho mais velho estava sentado ao lado do avô, conversando alegremente sobre política. Gustavo nutria por ele uma particular antipatia, pelos modos pomposos e entediantes do irmão. Filipe era alto e extremamente magro, o rosto com acne e uns óculos redondos sobre o nariz adunco, tinha uma maça de Adão proeminente (Gustavo dizia que era o seu cérebro que lá estava alojado). Tinha sempre notas brilhantes e a avó adorava-o, era bom em quase tudo o que fazia, excepto no desporto. Agora que esta prestes a entrar para a Universidade, passava a maior parte do tempo a estudar.
Quando Angélica serviu a sobremesa, a conversa recaiu sobre a escola e o futuro dos netos.
- Aqui o Filipe anda a dar-se muito bem com as notas – elucidou Francisco dando uma palmadinha nas costas do neto. – Uma carreira na política, hein. Acho que te vais dar bem.
- O Lipinho é muito bom rapaz – arrebatou Beatriz. – Porquê que não haverias de ser como ele, Gustavo.
Lá estavam os adultos com a mania das perseguições, com as comparações. Porque queriam tanto que ele se parecesse com o irmão? Não lhe haviam ensinado que cada um devia de ser como era? O problema de lidar com pessoas ambiciosas como os seus avós, e até mesmo os seus pais, era o facto de ser muito difícil agradar-lhes uma vez que eles se empenhavam no sucesso deles e queriam que eles fossem bons em todas as áreas que eles consideravam importantes, independentemente da inteligência do neto. Gustavo tinha um particular talento para a fotografia, a avó estava constantemente a recriminá-lo por isso, dizia que isso não dava dinheiro. Os pais limitavam-se a encorajar esse talento ao filho, fora o que o director de turma lhes havia recomendado depois de Gustavo ter revelado uma fraca aptidão para as outras disciplinas.
- Porque ele é um idiota, anti-social e não ia ser como ele nem que me pagasse – respondeu Gustavo maldosamente. Estava agora a vestir a pele do irmão mais novo. Era a sua vez de embaraçar o irmão.
Eduardo engasgou-se com vinho que tinha na boca e Angélica deu um pontapé no joelho do filho do meio por debaixo da mesa. Filipe corou ligeiramente. Claudia abafou o risinho e Beatriz pareceu chocada. Francisco achou piada à situação.
- Hahah, o Gustavo, sempre com o seu sentido de humor. O que queres ser quando fores grande, meu menino?
Gustavo sorriu. Podia dizer algo que chocasse particularmente a sua família, era o que ele mais gostava de fazer. Podia dizer que queria levar uma vida alternativa num acampamento hippie e viver do cultivo de legumes biológicos, mas achou que se o fizesse a sua avó teria um enfarte e ele não queria estragar o aniversário do avô. Sentiu os pais a estremecer nas suas cadeiras, os seus corações a bater como se fossem bombas relógios prestes a explodir.
- Eu quero ser uma pessoa responsável – disse Gustavo com uma certa ironia -, trabalhar num banco como o tio Henrique, ter uma vida respeitável, uma família adorável e uns filhinhos lindos.
Podia sentir-se uma certa perigosidade no ar após a resposta de Gustavo.
- Bem, com esse aspecto, meu querido, vais levar o banco à falência mais rápido do que uma crise na bolsa – atirou Beatriz mordazmente.
- Querem mais vinho – ofereceu Angélica, para desviar o assunto. Mas já era tarde demais, a bomba já tinha rebentado.
- Pai, lembrei-me agora que tenho de ir fazer aquele trabalho de História sobre a influência do tratado de Winston na alteração sócio-geográfica do império austro-hungaro – havia misturado tudo o aprendera nas aulas de História para dar aquele impacto de que estava a fazer um trabalho impressionante, sabia que Filipe iria contestar, mas viu que impressionara a avó. – Sabe, avó, tenho andando a pensar em ingressar na carreira de designer gráfico especializado em Lay out em HTML.
Viu os seus avós soltar um sonoro «Oooh» pois estavam muito impressionados com o que o neto acabara de dizer. O seu pai sorriu de agradecimento e deixou o filho subir para a tranquilidade do seu quarto. Serviram o bolo de aniversário, Beatriz bebera um pouco demais e já não estava tão desagradável.
- Que figura, este Gustavo – disse Francisco, sorrindo, enquanto comia uma fatia de bolo.
- Pois é, que figura, o Gustavo – disse Eduardo, à mulher. Os dois achavam-se já deitados na cama. Os seus pais tinham-se ido embora e os filhos estavam já deitados. Ajudara a mulher na cozinha e também ele estava cansado. – Não deve ser nada fácil ser irmão do meio...