(Nota: A ideia para esta história surgiu de uma conversa que tive com o meu amigo Jadson e com a minha tia Amélia. Embora o texto não seja auto-biográfico, qualquer semelhança entre as personagens e indíviduos da vida real é a mais pura coincidência).
Acontecera! Eles estavam finalmente frente-a-frente e sentia-se uma certa perigosidade no ar. O silêncio reinava na sala, sendo por vezes abalado por fortes rajadas de vento forte que fustigavam as folhas das árvores.
Joana olhou pela janela e viu que o céu adquirira um cálido brilho vermelho, pronuncio de que estava quase a anoitecer. Ela tinha à sua frente o homem que, embora fosse seu pai, ela já não reconhecia. Já não era o mesmo homem que a embalara em seus braços, o mesmo homem que a levava a passear na garupa da bicicleta, o mesmo homem que lhe contava história antes de dormir... era como estar defronte de um desconhecido... desde os seus sete anos, quando os seus pais se divorciaram, que as coisas haviam mudado. A sua mãe insistia sempre que ela devia de ver o pai, e ele por vezes ia visitá-la, apático, cabisbaixo, algo deprimido por causa da separação, mas mesmo assim com aquele olhar reconfortante que sempre transmitira confiança à filha... todavia, desde que a Sônia entrara na vida do pai as coisas haviam mudado... lá estava a madrasta. Joana deixara de interessar ao pai e ele raramente a ia ver, a distância foi-se tornando tão grande que ela passara a ser ex-filha... mais uma coisa que ele havia deixado para trás, uma mera recordação do seu primeiro casamento... agora só lhe interessava a nova vida, a nova mulher, os filhos que ela já tinha e quem sabe os futuros filhos que viriam a ter... e que lugar Joana ocupava na vida do pai. As visitas foram diminuindo drasticamente com o passar dos anos até pura e simplesmente deixaram de existir.
A falta de um pai havia-se tornando bastante visível quando Joana começou a entrar na puberdade... todas aquelas mudanças no sue corpo, sentia-se estranha. Sabia que tinha a mãe para a ajudar em tudo o resto... mas o pai?! Também precisara muito dele, da confiança que aqueles olhos sempre lhe haviam transmitido, porém ela já não tinha mais isso, não tinha quem a protegesse dos rapazes nem quem lhe transmitisse segurança, sabia que tinha a mãe, uma mulher batalhadora, mas era uma pessoa insegura... faltava-lhe uma figura masculina.
Ela tivera uma pré adolescência bastante conturbada e acusava sempre a falta do pai por tudo de mal que lhe acontecia. Começou a misturar-se com más companhias, baixou as notas e repetiu um ano, fez piercings e tatuagens às escondidas da mãe e chegou mesmo a começar a fumar... parecia que a sua rebeldia não tinha limites. Ela fazia aquilo tudo para chamar à atenção da mãe, queria que ela tivesse pena dela, que se preocupasse com ela... toda àquela insegurança pela falta de um pai tinha de ser suprimida por uma atenção extra por parte da sua mãe, tinha de ter a certeza que a mãe a amava já que o pai parecia não gostar dela. Dona Maria, a mãe de Joana, não sabia o que fazer... sabia que o facto de a filha ter crescido sem pai a estava a tornar numa adolescente revoltada e ela tinha que por um termo a isso. Colocou a filha num psicólogo e mudou-a de escola, ela precisava urgentemente de sair de perto daqueles arruaceiros ou sua filha ingressaria por um caminho que provavelmente não teria volta....
Na escola nova o comportamento de Joana havia melhorado bastante... ela tinha novos amigos, os professores gostavam dela e as suas notas haviam melhorado tanto que a mãe até já estava a retirar-lhe muitos castigo... fora também na nova escola que ela descobrira o seu talento para a representação (estava agora num grupo de teatro) e que conhecera Gustavo (lembram-se do Gustavo da outra história xD), que embora um ano mais novo que ela, era um rapaz interessante e ela gostava muito de conversar com ele. Parecia que as coisas estavam a melhorar na vida dela, mas mesmo assim, sozinha na segurança do seu quarto, Joana chorava e sentia-se profundamente triste: o pai não a amava... ela não conseguia entender porquê! Estivera sempre a culpá-lo pela sua ausência e isso não era nada saudável para ela... precisava de respostas urgentemente para poder seguir em frente, chafurdar no passado só lha causava dor...
E hei-los ali naquele momento... cara a cara. A irmã de Pedro, o pai de Joana, havia implorado ao irmão para se encontrar com a filha... Joana contara à tia que precisava urgentemente de falar com pai, contara à tia tudo o que lha afligia e Pedro arranjara um tempo para ir à casa da ex-mulher ver a filha e saber o que se passava. Teve um choque momentâneo quando olhou para uma adolescente de dezasseis anos, alta e de estatura média, com um piercing no queixo e outro transversal na orelha e um cabelo preto com madeixas cor-de-rosa que se apresentava num corte extremamente excêntrico, como se Joana o tivesse cortado ela mesma num momento de grande fúria...
O silêncio mantinha-se e Joana decidiu falar... era agora ou nunca... precisava das resposta. Respirou fundo, era quase como estar a representar junto de uma plateia extremamente hostil.
- Pai, eu preciso de lhe fazer uma pergunta...
- Força... estou aqui para te dar a resposta...
- O senhor esteve afastado de mim estes anos todos... o senhor... – a sua voz vacilou, temia a resposta – o senhor não gosta de mim?
A menos que os seus olhos a estivessem a trair, ela sentiu o seu pai estremecer na cadeira.
- Mas que pergunta!! É claro que gosto... és minha filha! Foste o melhor que a tua mãe me deu... és tudo o que eu tenho nesta vida...
Joana sentiu uma súbita vontade de rir, que hipócrita!
- Então porque que não demonstra? Nunca me telefonou para saber como eu estava! Nunca me ligou a desejar Feliz Aniversário ou Feliz Natal... nunca me ajudou nos trabalhos de casa...nunca esteve por perto quando eu não conseguia dormir... nunca perguntou se eu precisava de ajuda... se eu passei fome... nada!!! Precisei de si estes anos todos e nada...
Pedro engoliu em seco.
- Bem, eu não tinha dinheiro no telemóvel...
- Pai, o senhor ficou oito anos sem dinheiro no telemóvel!?
- Eu também não tinha muito para te dar...
- Pai eu não queria dinheiro, eu só queria a sua atenção, o seu carinho, estar consigo!
- Mas eu no princípio convidava-te para vires comigo... e com a Sônia. Ela também nunca entendeu porquê que não gostavas dela... ela sempre disse que se quisseses podias ir passear connosco... ela não fazia distinção entre ti e os filhos dela... se quissesses podias ter ido passear connosco! Já fomos a tantos lugares da Europa... mas não, tu implicaste com ela de uma forma que eu nunca percebi muito bem...
- Pai, eu não tenho que gostar dela! Eu vejo o que ela está a fazer ao senhor, a sugar o seu dinheiro, mas seja como for, eu já existia antes dela aparecer... sou sua filha! Não é capaz de tirar cinco minutos do seu tempo para ‘tar comigo?!
- Sim... tens razão! Eu sei que tenho sido um péssimo pai e no fundo já estava a espera que me puxasses as orelhas! Eu bem mereço... sempre fui desleixado...
- Sim mas na hora que me fez de certeza que não foi! Já ‘ta na hora de assumir as suas responsabilidades, não acha?
- Tens razão! – Pedro esboçou um ténue sorriso. – No próximo domingo, que tal ir-mos almoçar? Mas só nós os dois, claro – acrescentou ele ao ver o olhar da filha.
- ‘Tá bem... a tia deu-lhe o meu número... eu vou ficar à espera que me ligue, nem lhe vou telefonar.
- Acredita que ligo...
E Pedro aproximou-se da filha e deu-lhe um abraço, Joana sentiu uma vontade imensa de chorar... à tanto tempo que não sentia o calor e o conforto que aquele abraço lhe transmitia... e no seu coração a vela da esperança acendeu-se, uma ténue chama que lhe aquecia o peito e ela acreditou no pai.
- Só espero que ela não se decepcione – disse Maria que, inevitavelmente, escutara atrás da porta. Queria o melhor para a filha mas não sabia até que ponto o melhor para ela seria voltar a aproximar-se do pai... tinha medo que a filha se voltasse a decepcionar com ele novamente e o pesadelo recomeça-se...
No domingo combinando Joana esperava pacientemente na casa da tia Catarina. A jovem adorava aquela tia solteirona que tinha um gosto refinado para as artes... era professora de História da Arte no Liceu e pintava quadro para a Galeria de Artes da cidade, às vezes até escrevia alguns poemas e crónicas para o jornal local. Durante todos aqueles anos a tia Catarina dera a Joana o carinho que supostamente deveria pertencer ao seu irmão Pedro... nem ela conseguia compreender ao certo porquê de o irmão se comportar daquela maneira... Joana era uma jovem adorável, embora Catarina nutrisse alguma repulsa pelos piercings e o cabelo artisticamente desgrenhado. A senhora não deixou de sentir um aperto no coração ao ver a expectativa com que a sobrinha estava em se encontrar com o pai...
Mas a hora de almoço passara e nem sinal dele... Catarina tentou servir-lhe um pouco de arroz de pato mas Joana não quis... «acho que foi o trânsito, deve ser algum engarrafamento».
Duas da tarde... três... quatro... e ele não aparecia... Joana sentiu a chama a diminuir lentamente a escuridão a tomar conta dela... quando no relógio soaram as cinco horas e a tia se sentou em frente dela com uma chávena de chá, Joana não aguentou e começou a chorar...
- Ele não vêm, tia! Eu já devia de saber!!! Ele nunca vai mudar!! Prefere a outra e os filhos dela... ele nunca gostou de mim...
Aquela senhora, já de meia idade fitou a sobrinha, começava já a sentir os olhos a querer lacrimejar.
- Sou mesmo burra! Como é que fui acreditar?! Nunca mais quero saber dele! Odeio-o, ele também me odeia! Tenho nojo de ser filha dele...
E sentiu uma vontade enorme de partir algo, de descarregar a sua raiva em algo. Tentara acreditar no pai mas de nada valera... era somente mais uma desilusão para somar a todas as outras com que tinha de conviver.
Catarina colocou a chávena de chá em cima da mesa de pé-de-galo, levantou e fitou a sobrinha.
- Joana, tu és igual ao teu pai?
- Não, não sou nem nunca quero ser igual a ele... tenho nojo de ser filha dele...
- Então... não é porque ele te faz todas essas coisas que deves fazer igual. Não estou a dizer para o abraçares e tudo mais... – Catarina fez questão de acrescentar isso quando sentiu que a fúria da sobrinha estava prestes a imergir com as palavras que ela proferira. – Apenas estou a dizer isso porque não vale a pena ficares com esse ódio, essa vontade de vingança no teu coração.
Joana fungou, não compreendia o que a tia lhe queria dizer. Queria que ela deixasse de lado o desprezo por parte do pai e o tratasse com cordialidade como se fosse um velho amigo de escola?
- Joana, eu olho para ti e vejo uma adolescente brilhante! Tivestes aqueles problemas todos mas conseguistes ultrapassá-los... tens tantos amigos que gostam de ti, as tuas notas estão tão boas e quem sabe vais ter uma óptima carreira como actriz... Cresces-te e ainda estás a crescer... aprendeste, erraste e tudo sem ele. Joana, tu venceste! Acredito que o Pedro, quando olhou para ti, viu uma mulher vencedora! Criaste-te e fizeste-te por ti mesma. Eu acredito que ele pense nisto... e tu... tu tens a consciência limpa porque nunca desprezaste nem fizeste mal a ninguém... agora diz-me, para quê esse ódio todo? Tens agora dezasseis anos e um longo caminho pela frente, passaste grande parte da tua vida sem a presença dele e mais anos virão e tu serás sempre a mesma pessoa. Não é melhor passar esse longo caminho com a consciência limpa, perdoando os outros, do que estares sempre a remoer o facto de o teu pai não te ter amado e tudo mais...
- No fundo ele não me ama, não é, tia?
Catarina suspirou.
- Ama sim, Joana, mas da maneira dele. No fundo o teu pai sempre foi aquele que mais deu trabalho à tua avó... por ter boa índole sempre se deixou influenciar pelos outros e como encontrou alguém mais forte que ele deixou-se guiar por ela... só tenho pena de a Sônia ser a influência que é na vida dele.
Custava-lhe imenso estar a dizer aquilo à sobrinha, mas ela já tinha dezasseis anos, já estava na altura de compreender algumas coisas e curar algumas feridas que não queriam parar de sangrar.
- Joana, ele fez o que fez e tu vais passar a vida inteira com isso e mesmo assim vais ser feliz... vais ter as tuas emoções, a tua vida... já passaste por todas as dificuldades mas venceste! Se por acaso o encontrares, fala com ele, se ele não perguntar como estás, pergunta tu, se ele não te deu os parabéns, dá tu... se ele não te fez, faz tu. Vais ver como vais te sentir melhor. Imagina o velho Pedro, ele deve pensar «eu nunca dei para ela, nunca fiz nada por ela e ela trata-me desta maneira». Joana, não há melhor resposta que esta.
- Mas tia... eu vou estar quase que oferecendo a outra face para ele bater e ele vai-me pisar mais ainda... vou fazer figura de otária!
- Joana eu vou-te contar uma história que eu ouvi quando viajei até Pernambuco.
Catarina voltou a sentar-se, agarrou na chávena de chá e ficou a observar o fumo que provinha da bebida.
Eles eram muito pobres, jovens e amavam-se profundamente. Casaram-se e tiveram 8 filhos, porém, ela começou a beber... batia nas crianças e um dia saiu de casa e não mais voltou. Deixou o marido para trás, sozinho e com oito filhos para sustenta e criar. Ele sofreu muito, ficou desesperados e chegou mesmo a pensar em se matar. Mas logo se lembrou... 8 filhos! Ele recuperou... começou a trabalhar o dia todo para sustentar aquelas crianças... eram 8 e ele trabalhava incansavelmente, e todos os dias ele pensava na mulher que o deixou. Ele estava revoltado com a vida, contudo ele amava os filhos, e trabalhava, trabalhava... só fazia questão que os filhos estudassem, para serem alguém na vida.
Os anos foram passando, passando... ele sofria, vivia em favor dos filhos... anos e anos... o tempo passou e os filhos cresceram e se formaram... advogado, engenheiro, médico... um orgulho atrás do outro.
Até que num Natal, o pai e todos os seus filhos estavam reunidos... todos viviam bem... numa casa boa, com tudo do bom e então bateram à porta.
Todos ficaram em silêncio e o pai foi ver quem era. Quem poderia ser... ninguém imaginava...
Mas heis que bate à porta... A Mãe!!! A mulher que deixou o pai sozinho... ele passou a vida inteira trabalhando, amargurado por ela ter deixado. Ele tinha todos os motivos do mundo para chegar ao extremo de fazer alguma coisa com aquela mulher...
E o pior... ela disse que estava pobre... na miséria... dormia na rua e não sabia mais o que fazer diante daquilo tudo e eles eram as únicas pessoas que poderiam ajudá-la.
E o que pai fez? ~
Podia a ter matado, espancado, batido a porta na cara dela, a ter tdesprezado... mas Não! Ele simplesmente disse
-Entra! Entra na casa de onde voce nunca devia ter saído!!!
A mulher não aguentou. Chorou e abraçou o pai, que não se moveu, também ele segurava as lágrimas.
Eles deram tudo para ela! Cama quente, comida farta, uma vida de rainha naquela casa... uma semana depois ela adoeceu... vomitava, tossia, doía-lhe a cabeça e um mês depois ela morreu com cancêr no fígado...
Ela não aguentou aquela situação... aquela vergonha das pessoas que ela tanto maltratou... as pessoas que ela havia deixado, foram justamente aquelas que a ajudaram...
Catarina bebeu o chá enquanto a história que ela contara surtia efeito na sua sobrinha... quase que sentia o cérebro dela a digerir a história que acabara de contar.
- Não adianta de nada pagar da mesma moeda – disse por fim Joana.
A velha senhora sorriu.
- Tu venceste, Joana! Quem vive de passado é museu, e se estiveres sempre a tocar na ferida ela nunca parará de sangrar. Se perdoares o teu pai e fizeres aquilo que ele nunca fez vais-te tornar uma pessoa melhor. Não podes mudar o passado... mas o futuro? Podes... porque o futuro é consequência do presente... A vida continua minha querida...
Joana sentiu as lágrimas a correm-lhe pela face.
- Posso lhe dar um abraço?
Catarina levantou-se e abriu os braços e apertou a sobrinha com força contra ela... só tinha dezeseis anos, pensou para consigo, que longa caminhada ainda tinha pela frente.
Ficaram abraçadas durante instantes até um barulho proveninente do estômago de Joana quebrar o silêncio... lembrou-se de que ainda não almoçara.
- Ainda queres o arroz de pato?
Joana sorriu e aceitou a refeição...
Sentia-se leve, como se tivesse tirado um grande peso de cima dos ombros e que daí para à frente ia ser diferente... podia ser mais uma “órfã de pai vivo”... mas fizera grandes conquistas... e muitas mais aguardava por ela...
Joana olhou pela janela e viu que o céu adquirira um cálido brilho vermelho, pronuncio de que estava quase a anoitecer. Ela tinha à sua frente o homem que, embora fosse seu pai, ela já não reconhecia. Já não era o mesmo homem que a embalara em seus braços, o mesmo homem que a levava a passear na garupa da bicicleta, o mesmo homem que lhe contava história antes de dormir... era como estar defronte de um desconhecido... desde os seus sete anos, quando os seus pais se divorciaram, que as coisas haviam mudado. A sua mãe insistia sempre que ela devia de ver o pai, e ele por vezes ia visitá-la, apático, cabisbaixo, algo deprimido por causa da separação, mas mesmo assim com aquele olhar reconfortante que sempre transmitira confiança à filha... todavia, desde que a Sônia entrara na vida do pai as coisas haviam mudado... lá estava a madrasta. Joana deixara de interessar ao pai e ele raramente a ia ver, a distância foi-se tornando tão grande que ela passara a ser ex-filha... mais uma coisa que ele havia deixado para trás, uma mera recordação do seu primeiro casamento... agora só lhe interessava a nova vida, a nova mulher, os filhos que ela já tinha e quem sabe os futuros filhos que viriam a ter... e que lugar Joana ocupava na vida do pai. As visitas foram diminuindo drasticamente com o passar dos anos até pura e simplesmente deixaram de existir.
A falta de um pai havia-se tornando bastante visível quando Joana começou a entrar na puberdade... todas aquelas mudanças no sue corpo, sentia-se estranha. Sabia que tinha a mãe para a ajudar em tudo o resto... mas o pai?! Também precisara muito dele, da confiança que aqueles olhos sempre lhe haviam transmitido, porém ela já não tinha mais isso, não tinha quem a protegesse dos rapazes nem quem lhe transmitisse segurança, sabia que tinha a mãe, uma mulher batalhadora, mas era uma pessoa insegura... faltava-lhe uma figura masculina.
Ela tivera uma pré adolescência bastante conturbada e acusava sempre a falta do pai por tudo de mal que lhe acontecia. Começou a misturar-se com más companhias, baixou as notas e repetiu um ano, fez piercings e tatuagens às escondidas da mãe e chegou mesmo a começar a fumar... parecia que a sua rebeldia não tinha limites. Ela fazia aquilo tudo para chamar à atenção da mãe, queria que ela tivesse pena dela, que se preocupasse com ela... toda àquela insegurança pela falta de um pai tinha de ser suprimida por uma atenção extra por parte da sua mãe, tinha de ter a certeza que a mãe a amava já que o pai parecia não gostar dela. Dona Maria, a mãe de Joana, não sabia o que fazer... sabia que o facto de a filha ter crescido sem pai a estava a tornar numa adolescente revoltada e ela tinha que por um termo a isso. Colocou a filha num psicólogo e mudou-a de escola, ela precisava urgentemente de sair de perto daqueles arruaceiros ou sua filha ingressaria por um caminho que provavelmente não teria volta....
Na escola nova o comportamento de Joana havia melhorado bastante... ela tinha novos amigos, os professores gostavam dela e as suas notas haviam melhorado tanto que a mãe até já estava a retirar-lhe muitos castigo... fora também na nova escola que ela descobrira o seu talento para a representação (estava agora num grupo de teatro) e que conhecera Gustavo (lembram-se do Gustavo da outra história xD), que embora um ano mais novo que ela, era um rapaz interessante e ela gostava muito de conversar com ele. Parecia que as coisas estavam a melhorar na vida dela, mas mesmo assim, sozinha na segurança do seu quarto, Joana chorava e sentia-se profundamente triste: o pai não a amava... ela não conseguia entender porquê! Estivera sempre a culpá-lo pela sua ausência e isso não era nada saudável para ela... precisava de respostas urgentemente para poder seguir em frente, chafurdar no passado só lha causava dor...
E hei-los ali naquele momento... cara a cara. A irmã de Pedro, o pai de Joana, havia implorado ao irmão para se encontrar com a filha... Joana contara à tia que precisava urgentemente de falar com pai, contara à tia tudo o que lha afligia e Pedro arranjara um tempo para ir à casa da ex-mulher ver a filha e saber o que se passava. Teve um choque momentâneo quando olhou para uma adolescente de dezasseis anos, alta e de estatura média, com um piercing no queixo e outro transversal na orelha e um cabelo preto com madeixas cor-de-rosa que se apresentava num corte extremamente excêntrico, como se Joana o tivesse cortado ela mesma num momento de grande fúria...
O silêncio mantinha-se e Joana decidiu falar... era agora ou nunca... precisava das resposta. Respirou fundo, era quase como estar a representar junto de uma plateia extremamente hostil.
- Pai, eu preciso de lhe fazer uma pergunta...
- Força... estou aqui para te dar a resposta...
- O senhor esteve afastado de mim estes anos todos... o senhor... – a sua voz vacilou, temia a resposta – o senhor não gosta de mim?
A menos que os seus olhos a estivessem a trair, ela sentiu o seu pai estremecer na cadeira.
- Mas que pergunta!! É claro que gosto... és minha filha! Foste o melhor que a tua mãe me deu... és tudo o que eu tenho nesta vida...
Joana sentiu uma súbita vontade de rir, que hipócrita!
- Então porque que não demonstra? Nunca me telefonou para saber como eu estava! Nunca me ligou a desejar Feliz Aniversário ou Feliz Natal... nunca me ajudou nos trabalhos de casa...nunca esteve por perto quando eu não conseguia dormir... nunca perguntou se eu precisava de ajuda... se eu passei fome... nada!!! Precisei de si estes anos todos e nada...
Pedro engoliu em seco.
- Bem, eu não tinha dinheiro no telemóvel...
- Pai, o senhor ficou oito anos sem dinheiro no telemóvel!?
- Eu também não tinha muito para te dar...
- Pai eu não queria dinheiro, eu só queria a sua atenção, o seu carinho, estar consigo!
- Mas eu no princípio convidava-te para vires comigo... e com a Sônia. Ela também nunca entendeu porquê que não gostavas dela... ela sempre disse que se quisseses podias ir passear connosco... ela não fazia distinção entre ti e os filhos dela... se quissesses podias ter ido passear connosco! Já fomos a tantos lugares da Europa... mas não, tu implicaste com ela de uma forma que eu nunca percebi muito bem...
- Pai, eu não tenho que gostar dela! Eu vejo o que ela está a fazer ao senhor, a sugar o seu dinheiro, mas seja como for, eu já existia antes dela aparecer... sou sua filha! Não é capaz de tirar cinco minutos do seu tempo para ‘tar comigo?!
- Sim... tens razão! Eu sei que tenho sido um péssimo pai e no fundo já estava a espera que me puxasses as orelhas! Eu bem mereço... sempre fui desleixado...
- Sim mas na hora que me fez de certeza que não foi! Já ‘ta na hora de assumir as suas responsabilidades, não acha?
- Tens razão! – Pedro esboçou um ténue sorriso. – No próximo domingo, que tal ir-mos almoçar? Mas só nós os dois, claro – acrescentou ele ao ver o olhar da filha.
- ‘Tá bem... a tia deu-lhe o meu número... eu vou ficar à espera que me ligue, nem lhe vou telefonar.
- Acredita que ligo...
E Pedro aproximou-se da filha e deu-lhe um abraço, Joana sentiu uma vontade imensa de chorar... à tanto tempo que não sentia o calor e o conforto que aquele abraço lhe transmitia... e no seu coração a vela da esperança acendeu-se, uma ténue chama que lhe aquecia o peito e ela acreditou no pai.
- Só espero que ela não se decepcione – disse Maria que, inevitavelmente, escutara atrás da porta. Queria o melhor para a filha mas não sabia até que ponto o melhor para ela seria voltar a aproximar-se do pai... tinha medo que a filha se voltasse a decepcionar com ele novamente e o pesadelo recomeça-se...
No domingo combinando Joana esperava pacientemente na casa da tia Catarina. A jovem adorava aquela tia solteirona que tinha um gosto refinado para as artes... era professora de História da Arte no Liceu e pintava quadro para a Galeria de Artes da cidade, às vezes até escrevia alguns poemas e crónicas para o jornal local. Durante todos aqueles anos a tia Catarina dera a Joana o carinho que supostamente deveria pertencer ao seu irmão Pedro... nem ela conseguia compreender ao certo porquê de o irmão se comportar daquela maneira... Joana era uma jovem adorável, embora Catarina nutrisse alguma repulsa pelos piercings e o cabelo artisticamente desgrenhado. A senhora não deixou de sentir um aperto no coração ao ver a expectativa com que a sobrinha estava em se encontrar com o pai...
Mas a hora de almoço passara e nem sinal dele... Catarina tentou servir-lhe um pouco de arroz de pato mas Joana não quis... «acho que foi o trânsito, deve ser algum engarrafamento».
Duas da tarde... três... quatro... e ele não aparecia... Joana sentiu a chama a diminuir lentamente a escuridão a tomar conta dela... quando no relógio soaram as cinco horas e a tia se sentou em frente dela com uma chávena de chá, Joana não aguentou e começou a chorar...
- Ele não vêm, tia! Eu já devia de saber!!! Ele nunca vai mudar!! Prefere a outra e os filhos dela... ele nunca gostou de mim...
Aquela senhora, já de meia idade fitou a sobrinha, começava já a sentir os olhos a querer lacrimejar.
- Sou mesmo burra! Como é que fui acreditar?! Nunca mais quero saber dele! Odeio-o, ele também me odeia! Tenho nojo de ser filha dele...
E sentiu uma vontade enorme de partir algo, de descarregar a sua raiva em algo. Tentara acreditar no pai mas de nada valera... era somente mais uma desilusão para somar a todas as outras com que tinha de conviver.
Catarina colocou a chávena de chá em cima da mesa de pé-de-galo, levantou e fitou a sobrinha.
- Joana, tu és igual ao teu pai?
- Não, não sou nem nunca quero ser igual a ele... tenho nojo de ser filha dele...
- Então... não é porque ele te faz todas essas coisas que deves fazer igual. Não estou a dizer para o abraçares e tudo mais... – Catarina fez questão de acrescentar isso quando sentiu que a fúria da sobrinha estava prestes a imergir com as palavras que ela proferira. – Apenas estou a dizer isso porque não vale a pena ficares com esse ódio, essa vontade de vingança no teu coração.
Joana fungou, não compreendia o que a tia lhe queria dizer. Queria que ela deixasse de lado o desprezo por parte do pai e o tratasse com cordialidade como se fosse um velho amigo de escola?
- Joana, eu olho para ti e vejo uma adolescente brilhante! Tivestes aqueles problemas todos mas conseguistes ultrapassá-los... tens tantos amigos que gostam de ti, as tuas notas estão tão boas e quem sabe vais ter uma óptima carreira como actriz... Cresces-te e ainda estás a crescer... aprendeste, erraste e tudo sem ele. Joana, tu venceste! Acredito que o Pedro, quando olhou para ti, viu uma mulher vencedora! Criaste-te e fizeste-te por ti mesma. Eu acredito que ele pense nisto... e tu... tu tens a consciência limpa porque nunca desprezaste nem fizeste mal a ninguém... agora diz-me, para quê esse ódio todo? Tens agora dezasseis anos e um longo caminho pela frente, passaste grande parte da tua vida sem a presença dele e mais anos virão e tu serás sempre a mesma pessoa. Não é melhor passar esse longo caminho com a consciência limpa, perdoando os outros, do que estares sempre a remoer o facto de o teu pai não te ter amado e tudo mais...
- No fundo ele não me ama, não é, tia?
Catarina suspirou.
- Ama sim, Joana, mas da maneira dele. No fundo o teu pai sempre foi aquele que mais deu trabalho à tua avó... por ter boa índole sempre se deixou influenciar pelos outros e como encontrou alguém mais forte que ele deixou-se guiar por ela... só tenho pena de a Sônia ser a influência que é na vida dele.
Custava-lhe imenso estar a dizer aquilo à sobrinha, mas ela já tinha dezasseis anos, já estava na altura de compreender algumas coisas e curar algumas feridas que não queriam parar de sangrar.
- Joana, ele fez o que fez e tu vais passar a vida inteira com isso e mesmo assim vais ser feliz... vais ter as tuas emoções, a tua vida... já passaste por todas as dificuldades mas venceste! Se por acaso o encontrares, fala com ele, se ele não perguntar como estás, pergunta tu, se ele não te deu os parabéns, dá tu... se ele não te fez, faz tu. Vais ver como vais te sentir melhor. Imagina o velho Pedro, ele deve pensar «eu nunca dei para ela, nunca fiz nada por ela e ela trata-me desta maneira». Joana, não há melhor resposta que esta.
- Mas tia... eu vou estar quase que oferecendo a outra face para ele bater e ele vai-me pisar mais ainda... vou fazer figura de otária!
- Joana eu vou-te contar uma história que eu ouvi quando viajei até Pernambuco.
Catarina voltou a sentar-se, agarrou na chávena de chá e ficou a observar o fumo que provinha da bebida.
Eles eram muito pobres, jovens e amavam-se profundamente. Casaram-se e tiveram 8 filhos, porém, ela começou a beber... batia nas crianças e um dia saiu de casa e não mais voltou. Deixou o marido para trás, sozinho e com oito filhos para sustenta e criar. Ele sofreu muito, ficou desesperados e chegou mesmo a pensar em se matar. Mas logo se lembrou... 8 filhos! Ele recuperou... começou a trabalhar o dia todo para sustentar aquelas crianças... eram 8 e ele trabalhava incansavelmente, e todos os dias ele pensava na mulher que o deixou. Ele estava revoltado com a vida, contudo ele amava os filhos, e trabalhava, trabalhava... só fazia questão que os filhos estudassem, para serem alguém na vida.
Os anos foram passando, passando... ele sofria, vivia em favor dos filhos... anos e anos... o tempo passou e os filhos cresceram e se formaram... advogado, engenheiro, médico... um orgulho atrás do outro.
Até que num Natal, o pai e todos os seus filhos estavam reunidos... todos viviam bem... numa casa boa, com tudo do bom e então bateram à porta.
Todos ficaram em silêncio e o pai foi ver quem era. Quem poderia ser... ninguém imaginava...
Mas heis que bate à porta... A Mãe!!! A mulher que deixou o pai sozinho... ele passou a vida inteira trabalhando, amargurado por ela ter deixado. Ele tinha todos os motivos do mundo para chegar ao extremo de fazer alguma coisa com aquela mulher...
E o pior... ela disse que estava pobre... na miséria... dormia na rua e não sabia mais o que fazer diante daquilo tudo e eles eram as únicas pessoas que poderiam ajudá-la.
E o que pai fez? ~
Podia a ter matado, espancado, batido a porta na cara dela, a ter tdesprezado... mas Não! Ele simplesmente disse
-Entra! Entra na casa de onde voce nunca devia ter saído!!!
A mulher não aguentou. Chorou e abraçou o pai, que não se moveu, também ele segurava as lágrimas.
Eles deram tudo para ela! Cama quente, comida farta, uma vida de rainha naquela casa... uma semana depois ela adoeceu... vomitava, tossia, doía-lhe a cabeça e um mês depois ela morreu com cancêr no fígado...
Ela não aguentou aquela situação... aquela vergonha das pessoas que ela tanto maltratou... as pessoas que ela havia deixado, foram justamente aquelas que a ajudaram...
Catarina bebeu o chá enquanto a história que ela contara surtia efeito na sua sobrinha... quase que sentia o cérebro dela a digerir a história que acabara de contar.
- Não adianta de nada pagar da mesma moeda – disse por fim Joana.
A velha senhora sorriu.
- Tu venceste, Joana! Quem vive de passado é museu, e se estiveres sempre a tocar na ferida ela nunca parará de sangrar. Se perdoares o teu pai e fizeres aquilo que ele nunca fez vais-te tornar uma pessoa melhor. Não podes mudar o passado... mas o futuro? Podes... porque o futuro é consequência do presente... A vida continua minha querida...
Joana sentiu as lágrimas a correm-lhe pela face.
- Posso lhe dar um abraço?
Catarina levantou-se e abriu os braços e apertou a sobrinha com força contra ela... só tinha dezeseis anos, pensou para consigo, que longa caminhada ainda tinha pela frente.
Ficaram abraçadas durante instantes até um barulho proveninente do estômago de Joana quebrar o silêncio... lembrou-se de que ainda não almoçara.
- Ainda queres o arroz de pato?
Joana sorriu e aceitou a refeição...
Sentia-se leve, como se tivesse tirado um grande peso de cima dos ombros e que daí para à frente ia ser diferente... podia ser mais uma “órfã de pai vivo”... mas fizera grandes conquistas... e muitas mais aguardava por ela...




