"Crónica de Costumes"

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Somos todos precários!


Tirei uma semana dos meus 30 e muitos dias de férias para fazer uma pausa do blog que me permitisse descansar e reorganizar a minha vida social (sim, finalmente tenho a minha vida social de volta!!!), no entanto, acho que esta interrupção esteve muito longe de ser tranquila. Todas as vezes que eu tentava ver alguma coisa na televisão, as primeiras coisas que me apareciam à frente eram as fatídicas notícias sobre os despedimentos massificados que temos verificado ao longo do começo deste ano; nos jornais era a mesma coisa «fábricas que fecham, empregados que vão para a rua e o Obama falando do seu pacote anti-crise»; convido amigos para ir beber café e conversar sobre temas soft tipo música, cinema ou literatura, mas eis que a palavra «crise» volta a ser vociferada por pessoas com um ar desanimado e sem disposição para gastar as suas parcas poupanças em cafés (e felizmente o preço do café ainda não aumentou… God, acho que matava alguém se isso acontecesse!). De tantas vezes ouvir esta palavra acabei por concluir que era necessário dar o meu parecer sobre este tema e aqui estou eu para criticar o sistema neoliberal (coisa que eu faço com bastante gosto).

Não sei se o Huxley previu isso no Admirável Mundo ou se o Nostredamus profetizou algo assim, mas a verdade é que estamos vivendo tempos difíceis, e desta vez isto não é somente a sinopse de um filme americano ou de um romance de Steinbeck, é a mais pura realidade. Sinceramente esta verdade começa a assustar-me cada vez mais, dado que daqui a uns tempos terminarei o meu curso e serei lançada aos leões.

Acho que os meus olhos são demasiado keynesianos para entender a lógica neoliberal, abertamente acho-a com mais buracos que um campo de golfe (uma comparação algo estúpida, mas enfim). O actual sistema económico incentiva, entre outras coisas, o consumo desenfreado, e num mundo onde tudo o que temos hoje em uma semana acaba passando de moda, penso que as pessoas também entraram nesse catálogo e acabaram-se tornando descartáveis. As grandes empresas (expressão delicada para «uma-cambada-de-filhos-da-mãe-que-possui-o-monopólio-de-determinado-sector-e-que-se-está-a-“cagar”-para-o-resto-das-pessoas») fomentam essa própria flexibilidade em poder-se livrar de tudo, senão vejamos. Uma das tarefas mais difíceis para um recém-licenciado é encontrar emprego. Mandas o teu currículo para todo o lado, vais a entrevistas, às tantas desesperas e em todo o lado a única coisa que te dizem é «Pois, meu amigo, nós queremos pessoas com experiência», mas então como é que vamos algum dia ter experiência se ninguém nos dá trabalho? Ou então, empregam-te como estagiário, ganhas um bom dinheiro e quando o estágio está prestes a terminar pensar «bom, como gostaram do meu trabalho, de certeza que me vão deixar ficar», mas meu amigo, sai do mundo faz-de-conta e coloca os pés na terra: hoje em dia os patrões preferem ter estagiários que são muito menos dispendiosos do que um trabalhador a tempo inteiro. E o que acontece contigo? Vais para o fundo de desemprego, receber uns míseros euros, aguardando que um trabalho chova do céu.

Do outro lado da pirâmide etária as coisas também não estão fáceis. Mais e mais têm ido para o olho da rua trabalhadores com anos e anos de serviço. Parece que a época do «pleno emprego» fomentado pelo Estado Providência já chegou ao fim. E para estes trabalhadores é ainda mais difícil arranjar trabalho. Poderíamos pensar que seria fácil, uma vez que têm muita experiência e sabem fazer na perfeição aquele trabalho ao qual dedicaram tantos anos da sua vida. Mas qual quê? «Pedimos imensa desculpa, mas queremos pessoas jovens, os empregados são a cara da nossa empresa, somos uma empresa virada para o futuro e só empregamos gente jovem. Lamento imenso mas as múmias só ficam bem no museu». Pois é, se para um jovem já é difícil arranjar emprego, imagine-se para uma pessoa com já 50 anos? Mesmo com operações plásticas e liftings, duvido muito que tenham sorte.

O que isto tudo provoca? Mais gente desempregada, a viver na precariedade e dependente dos fundos de desemprego. Supostamente é a população em actividade laboral que, através dos seus impostos, financia o dinheiro utilizado para os fundos de desemprego, mas com o agravamento acentuado do desemprego, pergunto-me se haverá gente suficiente para sustentar tantas pessoas sem trabalho. Ainda nesta linha, tanto quanto sei um dos pressupostos do actual sistema de mercado é produzir, produzir, produzir e produzir, mas então quem é que vai comprar esses mesmos produtos se as pessoas agora contam todos os tostões que gastam? O que acontece? Excesso de produção, a empresa perde dinheiro e onde tem que cortar? Nos empregados… mais gente para a rua. As pessoas não têm emprego, não tem como pagar as suas dívidas, o que acontece? Os bancos rebentam pelas costuras com endividamentos. Parece cíclico, não?

A minha mãe contou-me no outro dia que o hotel onde ela trabalha começou a despedir pessoas com 12, 13 ou mais anos de casa. Perguntei-lhe porquê e ela disse «porque o hotel agora está a apostar nos extras. Sai muito mais barato. O extra chega lá, trabalha durante uns meses e depois vai embora. Enquanto a um trabalhador normal, seria necessário pagar subsídios de férias, vencimentos. As empresas não querem vínculos com os trabalhadores». Claro, as empresas querem é ter flexibilidade em empregar e despedir pessoas. Colocando-me no lugar de um rico empregador, o cenário até parece perfeito, com tanta gente desempregada têm-se muito por onde escolher: podes contratar uns quantos, depois manda-os embora e contratas mais uns quantos e por aí vai. É um paraíso, não é? Pois, para gente que senta todos os dias o traseiro numa cadeira giratória de cabedal e tem que gerir uma empresa parece óptimo, mas para quem trabalha como um cão, tem bilhões de contas para pagar e uma família para sustentar, ir para o desemprego é quase o mesmo que ir para o tronco levar umas chibatadas. É claro que isso não interessa muito, dado que vivemos num mundo em que adoramos objectos e usamos as pessoas (sinceramente só espero que o Reagan tenha sido um bom actor em Hollywood, porque ele como político foi uma trampa [uma forma delicada de dizer «merda»]).

«Despedimentos» e «crise» são duas palavras que não param de ecoar na minha cabeça. A empresa está a produzir pouco e por isso, para não ter despesas, tem que mandar gente para a rua. E eu que pensava que em tempos de crise o que seria mais sensato era criar postos de trabalhos para combater o desemprego, não foi esse um dos pontos do New Deal de Roosevelt? Olhem, eu não sei para onde isto caminha, a única coisa que sei é que neste momento «somos todos precários»!.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Amor...

"O amor é um narcótico extremamente nocivo e eu, pessoalmente, odeio drogas!" - C.K. Boyle

Posto isto só tenho a declarar a minha ignorância no que toca a assuntos de cariz sentimental.
Por ser a minha última semana de aulas e estar a nadar em trabalho, agendo para a próxima segunda o meu retorno pleno à blogsfera.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escravatura


Acabei, recentemente, de ler um livro de Miguel Sousa Tavares (escritor que acrescentei ao meu top ten), o Equador (obra que está a ser adaptada aceitavelmente para telenovela pela TVI, embora a performance dos actores consiga ser quase tão boa como aqueles vídeos idiotas que vemos por esse youtube a fora). De entre os inúmeros temas do livro, o que mais me intrigou foi a escravatura. Não querendo ser spoiler e estragar o prazer que é ler este livro (ao invés de ver a novela), o livro basicamente desenrola-se numa colónia portuguesa em África, São Tomé e Príncipe, durante um período conturbado da monarquia portuguesa, que foi o reinado do ilustríssimo D. Carlos, e centra-se, essencialmente, sobre a temática da escravatura, embora tenho outras histórias paralelas, ou caso contrário o livro não seria mais do que um daqueles calhamaços históricos, maçudos, cheios de factos que ficam a ganhar pó nas bibliotecas até que alguém o vá pegar, nem que seja para fazer pesquisa bibliográfica.

Bom, mas chegando onde pretendo, porque afinal o Tavares não me paga para servir de agente publicitária, li no livro a seguinte citação:

“— Já se imaginou no lugar deles?
— No lugar deles…?
— Sim, já se imaginou ali, a trabalhar dez horas por dia na plantação, a levantar-se quando o sino toca e a adormecer quando o sino manda, e a ganhar dois reis e cinquenta centavos por mês?
— Bem, senhor governador, isso nem parece conversa do senhor. Cada um tem o seu lugar, não fomos nós que fizemos o mundo, foi Deus. Foi ele, que eu saiba, que fez os brancos e os pretos, os ricos e os pobres”.

Esta passagem trouxe à luz uma das coisas com que mais tenho reparado ao longo desta tortuosa existência. Na maior parte dos casos, as pessoas preferem pensar que todos os males do mundo são fruto da providência divina e que temos que aceitar tudo passivamente porque Ele assim o quis. Enfim… bullshit. Numa das inúmeras pseudo-soirées com chocolate quente e conversas de diletante que costumo ter com a minha tia, falamos sobre a escravatura. Claro que a minha tia é a pessoa ideal para representar Portugal numa Conferência de Berlim, se estivéssemos nessa época, e apesar da sua visão colonialista das coisas, ela acaba sempre por me fazer refutar todas as verdades que eu até então considerava acertadas. Nessa tarde ela disse-me que a escravatura existe desde que o mundo é mundo é daquelas coisas quase tão antigas quanto a prostituição. Na verdade, parece que existe no ser humano esse desejo insaciável de exercer poder sobre os mais fracos. «O problema», como disse a minha tia, «é que nos dias de hoje a escravatura que se pratica é muito pior do que a que se praticava à uns anos atrás». Com efeito, na opinião da minha tia, antigamente só os homens negros, fortes é que eram postos a trabalhar em plantações, naquelas condições deploráveis que tão bem conhecemos das aulas de História. Hoje em dia, até crianças já são escravizadas (advento da Industrialização, na minha opinião). Outro ponto focado pela minha tia e que me deixa seriamente a pensar é sobre os povos que exercem a escravatura. Ela disse «mais facilmente compreendo um branco ou um árabe que escravize um povo de outra cultura do que um negro escravizando um negro». Na opinião da minha tia, os negros são responsáveis pela sua própria escravatura, visto que, durante a época dos Descobrimentos, os escravos vendidos para as colónias eram prisioneiros de guerras entre tribos que eram vendidos aos brancos, ou seja «não eram os brancos que entrava no meio do mato à procura dos negros, eram os próprios negros que se vendiam uns aos outros». Bom, na minha opinião, essa história de que os negros são racistas uns com os outros é igualmente válido para os brancos, dado que esses conflitos nos Balcãs, que ainda estou para compreender, estão inerentes a ódios reprimidos à centenas de anos. Porém, e como a minha tia afirmou, hoje a escravatura é ainda pior porque além de venderem pessoas da mesma etnia, também vemos pais vendendo os próprios filhos, como algumas vezes vi em reportagens. «África é, sem dúvida, um caso muito difícil de entender», verbalizei eu. E continua sendo…

A escravatura ainda hoje subsiste, e continuará sempre a existir, quer seja de forma encapotada por interesses filantrópicos de um burguês que diz que abrindo uma fábrica da Nike na China está a ajudar o povo a desenvolver-se e arranja postos de trabalho, quando na verdade o seu interesse principal é explorar o máximo de recursos e pagar o mínimo de salários de forma a juntar mais uns zeros à sua monstruosa conta bancária; quer seja na forma de um proxeneta que obrigada uma série de mulheres a prostituir-se; quer seja na forma de imigração ilegal, em que os imigrantes ilegais são explorados e cujos documentos muitas vezes são roubados pela entidade empregadora, havendo ameaças de denúncia aos serviços competentes caso estes não cumpram o seu trabalho. OK, a escravatura continua a ser uma realidade que se mantêm até hoje, mas a questão principal é o porquê?
Será a vontade de Deus? Ou não será daqueles sentimentos humanos desprezíveis que fazem a minha misantropia aumentar consideravelmente? Simplesmente sou daquelas pessoas que não consegue admitir que os factos da história sejam somente factos e que devemos de os aceitar tal como são. Uau, sendo assim o Hitler existiu porque há sempre um louco metido a besta que acaba chegando ao poder. Enfim…

Gostei, no entanto de outra passagem que encontrei mais à frente no livro:

Quem fez o mundo foi Deus e não os homens. Foi ele que fez ricos e pobres, pretos e brancos, e certas coisas, na obra divina, não está na mão dos homens alterar. Com efeito: certas coisas não poderiam nunca ser mudadas. Mas também, «com efeito – como declara na Assembleia Francesa o seu ídolo Victor Hugo – declaro que haverá sempre infeliz, mas que é possível deixar de haver miseráveis»”.

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Bem, este texto talvez não seja das melhores formas de começar o ano, mas acabo sempre por deixar-me levar pelos meus impulsos, e algo me dizia para escrever esta treta. De qualquer forma, quero felicitar os leitores e desejar-lhes um Feliz Ano de 2009, com tudo de bom. Quero, igualmente agradecer-lhes pela leal companhia aqui no Admirável Mundo. Confesso que, graças a vocês, comecei a ficar viciada na blogsfera e começo a achar que, afinal, até escrevo algo de jeito. A todos vocês um muitíssimo obrigado (sim, isto ‘tá a roçar o pomposo de uma forma que até me dá voltas aos estômago).

Este ano de 2009 será decisivo para mim por dois motivos. Primeiramente porque vou-me formar e estarei pronta para enfrentar o mundo real que espera por mim com um cutelo atrás das costas, pronto para me decepar e também porque, no final do ano estarei viajando para o Brasil, a fim de passar umas merecidas férias. Talvez nos consigamos encontrar…

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal

O Admirável Mundo deseja a todos os seus leitores um Feliz Natal, cheio de paz, amor e saúde. Voltaremos ao activo depois assim que conseguirmos despachar todos os sumptuosos bolos que a minha tia preparou. Merry Christmas, como diria o Gus, e obrigado pela companhia ao longo deste tortuoso ano de crise financeira =)

Beijinhos

domingo, 21 de dezembro de 2008

A inveja...

"A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em última análise, lhe apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir e, se possível for, destruir aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá." - Carlos Ruiz Zafón (o homem que escreve com o coração)