
— Gus, posso te fazer uma pergunta? — indagou ela observando-o atentamente por entre as duas velas do candelabro que adornava a mesa.
Ele respondeu com um murmúrio enquanto saboreava uma fatia do Bife com molho pimenta que havia levado à boca. Por todo o restaurante ouvia-se o tilintar dos talheres rivalizando com o riso alegre das pessoas. Os empregados passeavam por entre as mesas, procurando satisfazer o máximo possível os exigentes clientes.
— Como é que sabes que encontras-te a pessoa da tua vida?
Gustavo teve de beber dois golos de vinho Rosé para engolir o pedaço de bife, provavelmente não esperava semelhante pergunta.
— Porquê essa pergunta?
— Curiosidade mórbida… tenho pensado nisso, falam tanto nessa coisa das almas gémeas que pus-me a pensar: então e como é que sabemos que essa pessoa é tal?
— Acho que vieste pedir ajuda à porta errada — brincou ele enquanto limpava os cantos da boca com o guardanapo. — However eu acho que, pelo menos nos filmes lamechas, isso se sabe quando a pessoa entra na sala e depois as outras pessoas param, toca aquela musiquinha romântica de fundo e os teus olhos brilham e sentes aquela sensação no estômago…
— Oh, Charles, ‘tou a falar a sério — resmungou ela cruzando os talheres, terminara o seu salmão. — Puxa pela cabecinha!
— Well, eu não sou propriamente um romântico incurável e essas coisas de amor soam um bocado a Nicholas Sparks. Eu não sei se existe, supostamente, uma pessoa certa p’ra cada um de nós, tipo aquela pessoa, The One. Acho que ao longo da vida vais conhecendo várias pessoas até encontrares aquela com quem te identificas mais — fitou momentaneamente a ténue chama da vela. — Acontece tantas vezes… acharmos que encontramos o tesouro… mas no fundo são só jóias falsas — molhou novamente os lábios no vinho. — Acontece mais vezes do que devia…
— Sim, mas se isso acontece tantas vezes é porque ainda não encontrastes a tal pessoa… vê os teus pais, por exemplo, são casados há tantos anos e são felizes. Acertaram! Há pessoas que não têm tanta sorte
— É como tudo na vida… é uma questão de sorte… Os meus pais estão casados porque gostam mesmo um do outro mas há casais que ainda estão juntos por puro comodismo… por hábito, I think — inclinou-se para lhe sussurrar. — Aquele casal ali, por exemplo — Camilla seguiu-lhe o olhar até um casal de meia-idade que jantava sem trocar palavra alguma, quase como se fossem dois desconhecidos. — Chegar ao ponto de ‘tar a jantar e não se conversar com a pessoa com quem se casou... é assustador. A solidão acompanhada é pior tipo de solidão.
— É verdade, mas ‘tás a fugir um bocado ao assunto p’ra ver se te escapas da pergunta…
Sorriu novamente.
— OK, OK… Acho que sabes isso desde que falas com a pessoa. Há pessoas que passam uma eternidade de tempo juntas e de repente dá-lhes um clic e descobrem que foram feitas um para o outro… ou sei lá, quando já conheces a pessoa e sentes que ela preenche o vazio, que se completam… essas coisinhas todas… ‘Tás a rir do quê?
— Porque por essa descrição toda fez-me pensar que às vezes as pessoas devem achar, então, que nós os dois fomos feitos um para o outro!
— As pessoas não me conhecem ao ponto de me desejarem tanto mal assim — gracejou ele. — In fact, fomos feitos um para o outro, yes, mas só como amigos… acho que ambos merecemos pessoas com alguma sanidade mental… dois weirdos como nós…
Ela riu também.
— Mas vamos supor que tu vês uma pessoa, achas que têm tudo a ver…
— OH, essa coisa do amor à primeira vista é tão demodé e típico de uma novela de quinta categoria. Não podes olhar p’ra uma pessoa e dizer «é aquele», a não ser que Deus ou quem quer que seja responsável por isso, se é que há alguém responsável por isso, esteja de bom humor e decida facilitar-te as coisas… Eu acho que a pessoa certa não é quem tu queres que seja mas sim aquela pessoa que ‘tá destinada a ti — ficou alguns momentos em silêncio. — Esta conversa toda ‘tá-me a fazer sentir o Dr. Phil.
— Mas então é assim, temos de esperar pacientemente até o destino nos trazer a pessoa certa… Bah! Sinceramente detesto quem se acomoda com o destino! Será que temos que esperar que as coisas aconteçam por si só ou não podemos interferir para que as coisas aconteçam como nós queremos, afinal somos nós que fazemos o nosso próprio destino, não somos…
— Mas às vezes não o fazemos da melhor maneira… talvez a pessoa que tu achas que é a certa para ti pode não achar que tu és a certa para ela. Além disso, tentares interferir com o rumo das coisas seria manipulação e já sabemos que tudo o que é manipulado não dá frutos bons… é melhor deixar as coisas acontecerem naturalmente.
— Sim, senhor existencialista, mas eu pensei que tu fosses defensor de que o homem é que cria a sua existência e está condenado à liberdade e tal e agora vens falar de forças ocultas que controlam o rumo das coisas…
— Não são forças ocultas! Também não sei o que são, mas, por exemplo: sim, o homem, através das suas opções é que cria a sua existência, mas há certas coisas que escapam ao seu poder de decisão, coisas que por mais que nos esforcemos para que aconteçam, pura e simplesmente não acontecem por se calhar não deviam de acontecer. Essa lengalenga de que o mundo dá muitas voltas e do «aqui se faz, aqui se paga», não são os homens que fazem para que isso aconteça… é o rumo das coisas, acontece porque assim tem de ser.
— Já pensaste em criar uma corrente de pensamento filosófico só sobre essa tua teoria?
Ele riu.
— Brinca, brinca. Eu pelo menos penso que as coisas funcionam assim, que por mais que queiramos que uma pessoa seja a certa para nós, se ela não for, não vale a pena fazermos nada em relação a isso. Podes-te esforçar para tentar fazer dela a pessoa mais feliz do mundo, mas senão tem que ser ela, então nada feito. A minha mãe ‘tá sempre a dizer «o que é teu ‘tá guardado, Carlos». Quem sabe neste momento o teu futuro Mr. Boyle está a jantar fora com a melhor amiga, lamentando-se de não ter encontrado ainda o grande amor da vida dele, com violinos de fundo a acompanhar a cena. Ou a minha Mrs. Charles Gustav, como tu dizes, deve ‘tar na mesma situação que eu, desejando fumar um cigarro mas não pode por causa da lei, namorando algum Merengue de Limão exposto na montra das sobremesas, ou esperando que o empregado de mesa se digne a deixar de lamber as botas daquele casal inglês cheio de dinheiro e venha levantar a mesa.
Camilla explodiu em gargalhadas.
— Tu decididamente não existes! — levantou o copo como que lhe propondo um brinde. — Mas confessa, despertei em ti essa veia de filósofo do destino e crente na chegada de um amor ideal que tu nem sabias que tinhas.
— In deed, arrancas sempre o pior de mim daqui de dentro. Devias escrever um livro sobre isso…
— Um livro não, mas dava um bom post.
— Ah, levo-te a jantar lagosta se alguém se dignar a ler isso.
— We’ll see, meu amigo irlandês!