"Crónica de Costumes"

domingo, 13 de janeiro de 2008

E grito...

(Nota: O terceiro e último acto está em construção =D Como esta é a última semana antes do mais que bem-vindo mês de férias que vou ter, os professores estão a redobrar a sua dose habitual de tortura, pelo que sobra muito pouco tempo para escrever [afinal também precisamos de um pouco de vida social]. Deixo simplesmente aqui uma música que melhor reflecte aqueles momentos em que precisamos de nos encontrar, aqueles momentos em que só sentimos vontade de gritar na esperança que alguém nos oiça... quem nunca passou por um momento assim que atire a primeira pedra.)

Pluma - E Grito
Sinto o toque do chão

mergulho na areia fria
Vejo ao longe o céu urgente
está a gritar
Perco as horas
sinto as ondas pulsar de vida
suspeito que é este o meu lugar

(Refrão)

Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma
Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma...
E grito

Sinto sangue fervente

sinto a alma vazia
Respiro fundo e sinto o sal secar-me a pele
É um sopro dormente, quebra a nostalgia
É um mar de riso e choro
quadro de papel

Rasgo a pele

quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma
Rasgo a pele
quero ser nada
Quero despir-me de mim
Reencontrar a alma

Quero fugir

Quero me libertar
Quero sair
Procuro resgatar
O que resta de mim
Quero fugir
Quero me libertar
Quero sair
Procuro resgatar
O que resta de mim

E grito

E grito
E grito
Eu grito

sábado, 12 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

II Acto – Debate sobre as famílias modernas

(Nota: a ideia para este texto surgiu de uma conversa com o meu amigo Jadson. Dedico o post de hoje ao professor Luís (de História) e à professora Maria (de alemão), sem dúvida os dois professores que mais me marcaram pela positiva ao longo deste incasável percurso escolar)

Ingrid Thorsten achava-se naquele momento na sala de professores debruçada sobre a correcção dos exames que havia distribuído naquela manhã. Estava pasmada por haver tantos erros… decididamente aqueles alunos não eram nada dados a aprender a beleza da língua alemã. Era descendente de imigrantes alemães, judeus, que, aquando da Segunda Guerra Mundial, haviam fugido das perseguições hitlerianas. Era uma mulher de mente aberta, já na casa dos quarenta, era uma excêntrica por natureza, amante da ideologia hippie e todo o seu guarda-roupa parecia remontar à gloriosa década de sessenta. Não era casada e nem tinha filhos, apenas vivia com um alemão, Tobias. A grande maioria dos professores costumava olhar para ela com um ar incrédulo, principalmente quando ela falava da grandeza da Alemanha, para todos eles a Alemanha era uma terra de racistas. Pobrezinhos, pensava Ingrid de si para consigo, a maior parte deles nem tinha viajado e falava fazendo eco de coisas que ouviam dizer. «Com professores assim não admira que os jovens sejam como são»

A porta da sala abriu-se (Ingrid optara pela sala de não fumadores, primeiramente porque detestava aquele cheiro horrível a tabaco e o fumo causava-lhe comichão nos olhos e como aquela sala de fumadores era quase sempre tão barulhenta, ela decidira ficar pela sala de não fumadores, bem mais sossega e propícia para a correcção de testes) e Bernardo Campos, o professor de Economia, entrou.

Era um homem gordo, com uma cabeça redonda que assentava directamente em cima dos ombros, pelo que o pescoço se encontrava escondido pelos seus múltiplos queixos, o seu cabelo grisalho apresentava-se uniformemente penteado e o professor usava sempre uns suspensórios para que as suas calças ficassem seguras sobre a sua considerável barriga.

- Ora viva, Ingrid, por aqui? – saudou Bernardo.

- Sim, tenho que corrigir estes testes – elucidou Ingrid que não se dera ao trabalho de erguer a cabeça para ver quem era. – Campos, espero bem que não venhas fumar o teu charuto para aqui.

- Não, não. Só quero um pouco de sossego, o Carlos pediu-me para escrever uns quantos textos para o jornal da escola e sabes como é, naquele barulho todo é difícil.

- O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Gosto particularmente desta citação do Huxley – disse Ingrid com a sua atenção ainda virada para as provas.

- Ah sim!

Campos abanou a cabeça. Decididamente ela era louca. Sentou-se e puxou de um pequenino bloco de notas, começando a escrever.

Uns dez minutos depois a porta voltou a abrir-se e Catarina, a tia de Joana entrou.

- Ah, Cat, ainda bem que chegaste – Ingrid e Catarina dava-se realmente muito bem. – Já estou farta de dar negativas e uma pausa entre os «insuficientes» e os «péssimos» não me ia fazer nada mal.

Catarina riu, adorava a jovialidade de Ingrid.

- Que tal um chá? – sugeriu Catarina.

- Cat, meine Liebe, eu sou alemã, não inglesa. Mas aceito um chocolate quente com muito gosto.

- Ah, só tu Ingrid. Como vai o casamento?

As professoras costumavam brincar uma com a outra devido ao facto de ambas não se terem casado e nem terem filhos.

- Oh, wunderbar. Uma eterna lua-de-mel! E os teus filhos, Cat?

- São uns santos de altar, não dão trabalho nenhum.

E riam as duas em uníssono.

- Vocês devem ser as únicas pessoas que se vangloriam de não ter casado e de não terem tido filhos – Campos disse. Ingrid sobressaltou-se, esquecera-se completamente que ele estava na sala.

- Eu tenho muito medo da solidão, Campos – disse Ingrid. – Por isso é que não me caso. Sou muito feliz e não precisei de me casar. Essa velha opinião de que uma mulher só é feliz quando se casa já tem as barbas tão compridas como as do Pai Natal.

- Sim, mas e os filhos? – Campos parecia chocado. – Os filhos dão verdadeiro sentido à vida!

- Isso depende de pessoa para pessoa – disse Catarina. – Conheço pessoas que teriam dado tudo para não terem os filhos que têm….

- Vocês não sentem necessidade de serem amadas? Os filhos são quem mais nos amam nesta vida!!

- Se me disseres que os pais amam os filhos mais do que tudo nesta vida sou capaz de acreditar – retaliou Catarina. – Alguns filhos são os primeiros a culpar os pais por tudo de mal que lhes aconteceu na vida. Se isto é amor, Campos…

- Realmente não vos compreendo. Que sentido pode ter a vida de alguém que não tem filhos, não é casado? Vivem em função de quem? De que vos valeu a passagem pela terra? Que fizeram de bom?

As duas mulheres entreolharam-se. Que mente tão fechada!

- Campos, tu dizes que casar, chegar a casa depois do trabalho e aturar os teus filhos é fazer algo de bom por alguém? – disse Catarina. – É a mais pura das normalidades e eu tenho pavor a tudo o que seja normal. Diz-me lá, para além dos teus rebentos, quem mais se vai lembrar de ti? Que contributo fizeste tu? Eu e a Ingrid, por exemplo, costumamos fazer coisas pela comunidade e contribuímos para o sorriso de crianças desfavorecidas. Sim, eu sei que há muitas pessoas casadas que o fazem, mas não me venhas dizer que as pessoas que não tem filhos não têm sentido nenhum, porque é sem dúvida a maior baboseira que eu ouvi, e olha que eu sou professora. Não menosprezo quem tenha filhos e nem detesto crianças, simplesmente foi a opção que eu fiz para a minha vida!

Campos murmurou algo que não foi perceptível ao ouvido das professoras.

- Campos, não percas o teu tempo a tentar compreender a vida dos outros – aconselhou Ingrid. – Creio que a tua vida de casado e os teus filhos é que precisam que tu as compreendas.

E antes que Campos pudesse abrir a boca para ripostar, a porta abriu-se novamente: o professor Carlos, que leccionava História, acabava de entrar, trazendo debaixo do braço um jornal. Sorriu ao ver Ingrid e Catarina. De todos os professores daquela escola aquelas duas eram sem dúvida com quem melhor Carlos se relacionava. É que embora ele tivesse casado há pouco tempo, também ele não tinha filhos.

- Ah, Carlos, sê bem-vindo – saudou pomposamente Catarina. – Estávamos aqui a confessar ao Campos o quão vazia é a nossa vida sem filhos. E que bons ventos te trazem?

- Bah, estou farto daquela ala – explicou Carlos, puxando uma cadeira e sentando-se. – Estão p’ra ali a discutir o facto daquele aluno, o tal Paulo, viver com o pai que é gay e vive com outro homem.

- Pessoas inteligentes discutem sobre ideias, pessoas normais discutem sobre coisas e pessoas fúteis discutem sobre pessoas – filosofou sabiamente Ingrid. – Já sabes como é que as coisas funcionam por aqui, meine Freund.

- Eu já sou contra a homossexualidade, quanto mais ao facto de uma criança viver com dois gays – opinou Campos, como se alguém o tivesse consultado.

Os três professores entreolharam-se, mas foi Carlos quem falou num tom de voz calmo.

- Ai sim Campos, então porquê?
- Deus fez o homem e a mulher – principiou Campos, mas os três professores soltaram um sono “Aaaahhh”, as suas dúvidas haviam sido esclarecidas -… para eles viverem juntos.

- Deus fez o homem e a mulher para estes serem felizes – contrapôs Carlos. – Cada um tem a sua noção de felicidade, não é. Para algumas pessoas a felicidade é ter saúde, para outras é ter dinheiro. Algumas acham que é ter uma família numerosa e outras que é viajar pelo mundo e não ter filhos – trocou um olhar significativo com as professoras. – E para algumas pessoas essa felicidade pode ser conviver com alguém do mesmo sexo…

- Quem somos nós para julgar quem quer que seja? – concluiu por fim Ingrid.
- E quem pode julgar? – perguntou Campos, os seus ânimos começavam a exaltar-se.
- E p’ra quê julgar? – contrapôs Catarina.
- Sim, e não me venhas com religião – pediu Carlos. – Também cresci numa aldeia no meio do nada e ia todos os domingos à missa e nem por isso tenho uma visão retrógrada do assunto, Campos. Sou uma pessoa religiosa e tenho muitos amigos homossexuais, pessoas maravilhosas, eu devo dizer. Isso que estás p’ra aí a dizer é puro fundamentalismo.

- Eu não sou contra os homossexuais – disse Campos. – Sou contra a homossexualidade, o acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo.

- Campos, Campos – disse Catarina em tom pesaroso – conheces o velho provérbio de que quem cospe para cima acaba sempre por se molhar? Tu tens filhos! Que ias fazer se eles te dissessem que eram homossexuais?

- Eu ia querer a felicidade deles, mas não ia concordar com a opção.

- Porquê? – perguntaram os três ao mesmo tempo. Era quase como estar a bater com a cabeça na parede.

- Eu não sou contra os homossexuais! Sou contra a homossexualidade! O acto de uma pessoa se relacionar sexualmente com outra pessoa do mesmo sexo. Eu às vezes ponho-me a pensar como estariam as coisas se a homossexualidade fosse normal há uma data de anos atrás, como estaria a humanidade.

- Ela sempre existiu – explicou Carlos. – E se bem sei, se ela fosse vista como “normal” talvez as pessoas tivessem uma mente mais aberta. Sabias que às vezes há pessoas que nasceram com o corpo errado, ou com mais hormonas masculinas do que femininas e vice-versa? Vão fazer o quê? Trancar-se em casa? Todos temos direito ao amor.

- QUÊ?! Que disparates são esses de hormonas femininos?! Homossexualidade é opção, meu amigo. Não têm nada a ver com formação humana! Opção, opção, opção – disse isto com tanto dogmatismo que Carlos franziu as sobrancelhas de admiração.

- Ai sim, foi a opção de um homem que de repente se cansou de comer mulheres? – troçou Ingrid, já estava a ficar irritada com o comportamento de Campos.

- Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto – justificou-se Campos. – Mas eu tenho os meus princípios e sei muito bem o que a homossexualidade na vida de uma pessoa.
- E o que pode provocar? – quis saber Catarina.
- A extinção humana!!

Os três professores entreolharam-se. Aquilo haveria sido, sem qualquer margem para dúvida, o maior disparate que Campos alguma vez proferira.

- Mein Gött! – exclamou Ingrid. – O Hitler sempre tem mais seguidores do que eu pensava.

- E vocês ainda se metem para aí a falar de homossexuais a adoptarem crianças – Campos continuou, ignorando o espanto de Ingrid. – Uma criança precisa é de um pai e de uma mãe, não de dois homens que se cansaram de comer mulheres – sorriu cinicamente para Ingrid.

- Bem, estás mas é a comparar a homossexualidade com a lepra, meu caro – disse Carlos. – A homossexualidade não é uma doença e nem é contagiosa. Eu não preciso de ser pai para saber que nem sempre os filhos imitam os pais. Tu podes passar a vida toda a dizer aos teus filhos para não fumarem e do nada eles agarram num cigarro e começam a fumar. Se fosse por seguir os exemplos dos pais então não havia homossexuais, já que no teu ponto de vista é tudo uma questão de imitação. Por favor Campos basta ligares a televisão e veres documentários sobre crianças que vivem com gays e lésbicas. Elas dizem que são felizes e têm muitas probabilidades de se tornarem pessoas com mente aberta. Mas no teu ponto de vista temos é que deixar os homossexuais em casa trancados e crianças a precisar de amor em instituições.

- Chega, Carlos – disse Campos. – Estás coma visão bem ingénua sobre o assunto – Catarina e Ingrid soltaram sonoras gargalhada.

- Abre a tua mente, Campos!!!

- Pfff, mente mais aberta que a minha não vais encontrar! Vocês é que ainda não viram o quão complexo este assunto é e de certeza que estão a apresentar esses argumentos todos baseados na opinião de pessoas que não têm opinião nenhuma sobre o assunto. Eu posso não ser uma pessoa muito esclarecida no assunto…

- Eu normalmente costumo mostrar respeito por aquilo que não conheço, Campos – disse Carlos já irritado.

- Como é que eu posso respeitar um homem que… bah! Até partidos políticos eles querem fazer! É tudo merchandising. Vocês nunca iriam perceber o quanto isto iria alterar as concepções de casamento, adopção, família…

Aquilo pareceu ser a gota de água que fez transbordar o copo. Os três professores já estavam saturados de tentar conversar com alguém que não mostrava qualquer abertura face ao tema e era uma pena que se tratasse de um professor, só iria ajudar propagandear ainda mais a versão e a discriminação a homossexuais.

- É normal, é normal! Não me venham com história que não é!

- Sabes que mais, Campos, tens razão – acabou por concordar Carlos. – Pega neles e enfia-os a todos numa câmara de gás.

E abriu o jornal, começando a ler as notícias. Não estava para continuar a discutir com alguém tão desprovido de inteligência. Campos tinha razão, a sua mente era tão aberta que pelos vistos o seu cérebro devia de ter caído!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Admirável Mundo Apresenta – Famílias Modernas – “Tragédia” em Três Actos

I Acto – Famílias Monoparentais

O sol reluzia nos óculos de Ivan enquanto ele, sentado descontraidamente no banco do jardim, observava o seu amigo Gustavo a andar de skate. As aulas já haviam terminado e os jovens aproveitavam aquele momento de lazer para confraternizar. Eram grandes amigos, desde o tempo de infância, e agora que estavam na adolescência, esta amizade revelara-se de uma importância acrescida. Estavam quase sempre juntos e faziam sempre algo na companhia do outro, desde ir ao cinema, ao salão de jogos a concertos e até dormiam na casa um do outro. No entanto, Ivan sempre preferia dormir na casa de Gustavo por gostar muito da família dele. Era para Ivan totalmente diferente das famílias que ele conhecia. Todas tinham quase sempre somente um pai ou uma mãe, ou em alguns casos já havia um padrasto ou uma madrasta e filhos de outros casamentos. O próprio Ivan conhecia essa realidade, as sucessivas decepções amorosas que a sua mãe tivera enquanto jovem haviam-na levado a escolher ser mãe solteira, pelo que ela recorrera à inseminação artificial. Era algo que havia feito imensa confusão na cabeça de Ivan quando, ao fazer onze anos, a mãe lhe explicou porque motivo ele não tinha pai. Ivan não era um jovem revoltado, antes pelo contrário. Tinha uma vida confortável e a sua mãe tinha um emprego estável, tinha bons amigos, no entanto faltava-lhe uma figura masculina. O seu avô morrera cedo e ele não tinha tios, da sua família somente lhe restavam a sua mãe e a sua avó. Já a família do Gustavo era tão grande, tantos tios, primos, e Gustavo tinha irmãos, e o mais importante, tinha um pai, Ivan não sabia o que era isso. Estava sempre tão rodeado de mulheres que às vezes as dúvidas explodiam-lhe na cabeça como fogo de artificio, no entanto não tinha com quem falar sobre isso… Daria tudo o que tinha para conhecer o pai.

Naquela tarde haviam falado de quase tudo: desporto, as aulas, música, filmes, garotas e até haviam feito para planos para o fim-de-semana. E agora que o assunto parecia estar esgotado, permaneciam os dois em silêncio, aguardando por Joana e a sua amiga Rebeca, que estavam prestes a sair da aula de teatro.

- Então, Gus, como ‘tão as cenas com a Joana? – indagou Ivan enquanto observava o amigo. Era um rapaz alto, de cara redonda e cabelo preto encaracolado.

Gustavo desequilibrou-se ligeiramente no skate.

- ‘Tão normais, como é que querias que tivessem? Somos só amigos.
- Infelizmente, né? – Ivan riu-se, uma vez que o amigo começava a ficar ligeiramente envergonhado.

- Cala-te, ela é mais velha que eu. Não ia querer nada comigo!

- Ela vêm aí, porquê que não lhe perguntas?

Evidentemente Joana acabara de chegar, com seu cabelo artisticamente desgrenhado. Trazia consigo a sua amiga Rebeca, de nacionalidade inglesa. Rebeca, ou Becky, como Joana lhe chamava, era uma menina gorducha com um comprido cabelo ruivo e sardas na cara. Joana, habitualmente, a chamava, com carinho, de Bolinha.

- Então, rapazes, de que falavam? – perguntou Joana, saudando-os com um largo sorriso. Estava muito mais feliz desde que recebera aqueles conselhos da tia Catarina.

- Da vida amorosa do Gustavo – esclareceu Ivan com um sorriso maroto, adiantando-se ao amigo que ia dizer que não estava a conversar sobre nada.

Joana corou ligeiramente. Somente Receba sabia que ela gostava do Gustavo. Ela passava muito tempo a conversar com o amigo, no entanto temia que ele descobrisse e se afastasse dela… não queria perder aquela amizade.

- É qual é o balanço que fazes dela? – perguntou Joana, o seu sorriso desvanecera-se consideravelmente. Será que o Gustavo gostava de alguém?

- Ele chegou a conclusão que a vida amorosa dele é quase tão vazia como a minha carteira – disse Ivan e as meninas começaram a rir. Gustavo fez-lhe um gesto obsceno com os dedos. Interiormente Joana sentiu-se aliviada.

- Que tal correu o ensaio? – perguntou Gustavo, para desviar as atenções do tema relativo à sua vida amorosa.

- Ah, normal – disse Rebeca com a habitual acentuação inglesa. – O Ricardo, p’ra variar, atrapalhou as cenas. Ele nunca estuda os textos em casa e depois atrapalha-se nas falas.

- Ya – acabou por dizer Gustavo. Estava à espera que fosse Joana a responder. – Já acabaram o texto que a stôra de Geografia pediu?

- “Explique porque motivo as taxas de divórcios têm vindo a crescer em detrimento das taxas de casamentos” – Joana fez uma perfeita imitação do tom de voz afectado da professora de Geografia. Os jovens começaram a rir. – Que mulher mais chata! Sei lá porquê que as pessoas se divorciam! Cada um tem o seu motivo.

- Olha, os meus divorciaram-se por falta de tempo – disse Rebeca. – O meu pai é médico e ‘tá quase sempre no Hospital. A minha mãe ficou tão farta que o mandou passear.

- Os teus pais são divorciados, Becky? – quis saber Gustavo.

- Ya. Mas dão-se muito bem, acho que melhor do que quando ‘tavam casados. Costumam ir jantar todos os sábados p’ra falarem sobre mim. Acho que o meu padrasto não gosta muito da ideia, mas ele que se lixe. Apesar de ser um bocado totó a minha mãe gosta dele, e eu também, costuma levar-nos a passear, mais do que o meu pai.

- E os teus velhos voltaram-se a casar?

- Sim, o meu pai já tinha uma filha do primeiro casamento dele, mas ‘tá em Bristol, com a mãe. Agora que ele se casou de novo, tem outra filha também, a Amanda. E a minha mãe tem um filho com o meu padrasto, o Andrew. É fixe, porque tenho duas casas e quando me chateio com a minha mãe posso ir p’ra casa do pai e ao contrário também. Assim nunca me farto!

- Sim, mas mesmo assim, tens outras pessoas a mandarem em ti. Eu não era capaz. Se às vezes nem obedeço aos meus pais, quanto mais aos outros.

- Oh, mas eles nem mandam muito em mim – esclareceu Rebeca. – O meu padrasto quase que nem se mete. E a minha madrasta quer-se meter mas eu corto-lhe logo as asinhas. Mando-a à merda, se for preciso. O meu pai fica sempre do meu lado, sou a menina dos olhos dele. Mas de resto a minha madrasta não faz mais nada, no fundo até é boa pessoa e o meu pai gosta dela. Acho que à terceira ele acertou! – e esboçou um largo sorriso.

- Eu não tenho padrasto – disse Joana. – Mas a minha madrasta é uma cabra, não gosto mesmo nada da mulher. E o meu pai, vocês já sabem como é – Joana fez uma curta pausa. Era tudo relativamente recente e no seu inconsciente ouviu a voz da tia Catarina, dando-lhe forças para continuar a falar. – Mas pelo menos também não se intromete e a minha mãe nunca o consulta p’ra tomar as decisões. Eles separam-se porque o meu pai tinha um caso com uma lá do trabalho e era muito ciumento… até compreendo o lado da minha mãe.

- Isso é muito porco – disse Gustavo lançando um olhar reconfortante à amiga. – Fazem as merdas e os filhos é que sofrem sempre com essas cenas das separações. Tenho uns tios que quando se separaram ‘tavam sempre a discutir sobre quem é que ia ficar com os meus primos. Os miúdos passaram uns tempos lá em casa p’ra não verem as cenas… eram mesmo de baixo nível. Estas coisas são sempre muito estranhas, quando ‘tavam casados eram «queridinho» «amorzinho» e agora quase que se matam um ao outro.

- Oh, se até nós nos fartamos às vezes, imagina os adultos. A vida deles é uma seca! Trabalhar, trabalhar, trabalhar e tomar conta dos putos – disse Joana. – Namorar já é complicado, imagina então viver na mesma casa e isso tudo.

- Mas os meus pais dão-se super bem – relembrou Gustavo. – Ás vezes até parece que têm a nossa idade… e as ás vezes também se chateiam e o meu pai vai dormir pró sofá da sala, mas no fim fazem sempre as pazes.

- Bem, nas novelas dizem que temos uma alma gémea, não é – explicou Rebeca em tom de brincadeira. – Com os teus pais foi fácil, encontram-se logo. A alma gémea da minha mãe pelos vistos é o meu padrasto… a do meu pai é a chata da Bianca.

- Sim, mas quem paga por esse procura são os filhos – voltou a dizer Gustavo que ainda não compreendia muito bem aquela situação. – Sei lá, p’ra mim isso é estranho.

- Bah, nem é muito – disse Joana. – A vida é feita de altos e baixos, e sempre se aprende alguma coisa. Acreditem, isto é tão normal que nem vale a pena fazer um bicho-de-sete-cabeças. É muito melhor quando os pais tão separados do que ‘tarmos a aturar as discussões deles.

Acabaram todos por chegar a conclusão de que Joana tinha razão e Gustavo não conseguiu deixar de sentir a sua admiração por aquela moça a crescer ainda mais. No entanto Ivan era o único que permanecia calado, facto que os outros notaram.

- E tu, Ivan – disse Rebeca. – Vives com os teus pais?

Ivan fitava os seus ténis, estava ligeiramente abatido.

- Nunca conheci o meu pai – disse por fim. Rebeca e Joana entreolharam-se, Gustavo nada fez, já conhecia a história.

- Porquê? Ele morreu?

- Nah, a minha mãe é que quis ser mãe solteira. Fez uma cena qualquer super estranha e nasci eu.
Disse aquilo com tanta normalidade que os jovens ficaram chocados. Já haviam estudado nas aulas de Ciências que era possível engravidar sem qualquer relação sexual, bastava somente recorrer à inseminação artificial, mas eles achavam aquilo tão surreal e digno de um filme de ficção científica que sentiram-se escandalizados por saber que tinham um caso assim tão perto.

- Bem… - Joana não sabia o que dizer – mas vê o lado positivo, tens a tua mãe. Tipo, eu vivo só com a minha e adoro. Ela dá-me conselhos, eu dou conselhos a ela. Ela é super liberal, falamos de tudo mesmo.

- Sim, ma é mais fácil para uma mulher ser mãe solteira quando tem uma filha do que quando tem um filho – opinou Ivan. – Agora uma mãe solteira com filho é mau é pró filho.

- Sim, mas nós mulheres também sentimos falta de um pai – contrapôs Joana. – Por exemplo eu, nunca tive uma figura masculina… e eu antes pensava que se tivesse uma figura masculina ia aprender a ser mais confiante em mim mesma. Sempre achava que não tinha muita sorte com os rapazes por causa disso – olhou para Rebeca e para Gustavo – vocês sabem como é que foi o meu namoro com o Victor. Eu pensava «como é que o Victor podia gostar de mim se nem o meu próprio pai gosta».

- Nah, mas isso não foi culpa tua ou da falta do teu pai – disse Gustavo. – Era mesmo o Victor que era estúpido.

- Pfff – fez Ivan indiferente ao que Joana dissera. – Se fosses um moço é que não ias ter confiança nenhuma. Vê tipo, nos bairros sociais, os miúdos acabam por ir pró crime porque faltava lá em casa um pai. Quem melhor para acalmar um homem do que outro homem?

- Por acaso é verdade – concordou Gustavo. – Tipo a minha mãe não consegue por limites em mim. Eu faço asneiras, revolto-me, parto as coisas, até me zango com ela. Mas com o meu pai a história já é outra…

- Tu fazes isso com a tua mãe – interrompeu Joana, escandalizada.

- Somos pessoas diferentes.

- Sim, mas também é mau da tua parte – repreendeu Joana e Gustavo deu por ele a corar. – Eu também sou diferente da minha mãe, mas sempre obedeço ela. Não tenho mais ninguém!

- Ya – foi a vez de Ivan falar. – Mas se quiseres aprender a andar em saltos altos tens lá a tua mãe. Quando querias aprender a usar sutiãs, tinhas lá a tua mãe. Quando queres usar maquilhagem também tens a tua mãe. Agora um homem?! Como é que uma mãe vai ensinar um filho a jogar à bola? A andar de bicicleta? É complicado, pessoal.

Ficaram um pouco em silêncio.

- Lembras-te quando disseste que também querias ser mãe solteira, Jo? – disse Gustavo. Lembrava-se de uma vez, enquanto falava no Messenger com a Joana, de ela, num ataque de raiva por o pai não se preocupar com ela, ter dito que queria ser mãe solteira. – Eu lembrei-me do caso do Ivan e digo-te… não faças isso… só se não puderes mesmo evitar…

- É verdade – continuou Ivan. – Mulher e mulher até funciona… agora mulher e homem é p’ra esquecer. Como é que eu falo sobre assuntos sexuais com a minha mãe? Quem é que me vai levar aos jogos de futebol? Acho que a minha mãe não pensou nisto quando me quis ter.

- Essa história da tua mãe é um pouco marada – opinou Rebeca. – Ela deve ter tido um desgosto mesmo grande p’ra querer ter sido mãe solteira…

- Sim, mas os desgostos ultrapassam-se, não é – relembrou Joana. – Afinal as desilusões não matam, ensinam a viver.

- E a tua mãe nunca mais arranjou namorado? – perguntou Rebeca, curiosa.

- P’ra quê? – Ivan sobressaltou-se. – Ela não precisa! Eu sei tomar conta dela, ok!

- Calma, meu – acalmou Gustavo. – Como ‘tavas a dizer que precisavas de um homem lá em casa…

- Sim, mas era o meu pai, não um homem qualquer… o mal agora também já ‘tá feito, não é? Já tenho quinze anos!

Joana sentiu que o Ivan estava era a precisar de uma boa conversa com a tia Catarina para esclarecer as dúvidas que lhe consumiam.

- Os filhos têm que ter mãe e pai - disse Ivan. – Tu tens um bom exemplo feminino em casa, Joana. A tua mãe é batalhadora. A Becky e o Gus também tem bons exemplos. Agora eu! Gosto muito da minha mãe, mas sei lá… esta cena toda é super estranha.

E Gustavo pensou para si mesmo que de facto era tudo muito estranho. A mãe de Ivan era uma mulher estranha. Gostava muito do filho, era verdade, mas era uma mulher extremamente severa, raramente ria e não era muito dada a conversas. E isso notava-se na maneira de ser do próprio Ivan. Ele era um rapaz muito inibido e retraído, às vezes Gustavo tinha que puxar por ele para saber o que ele tinha, parecia que toda aquela atmosfera negativa que consumia a mãe do Ivan havia passado para o filho e então Gustavo concluiu que… estejam casados ou divorciados, todos os filhos tinham mesmo de ter um pai e uma mãe…

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Alcatraz

(Nota 1: Peço desculpa aos meus leitores pela considerável perda de qualidade que os meus posts têm vindo a sofrer [desconheço também se alguma vez tiveram alguma qualidade, mas enfim…]. Com o teste de psicologia à porta toda a minha atenção e todo o meu tempo têm sido direccionados neste sentido. Hoje optei por colocar aqui a letra de uma música, é que com os nervos em franja para a prova de amanhã não consigo transpor para o papel quaisqueres ideias que não estejam relacionadas com formações de impressões, atribuções causais e todo esse palavreado da Psicologia Social. Tenho que aprender com a minha mãe a formula perfeita para fazer várias coisas ao mesmo tempo!)

(Nota 2: Lembro-me muito bem da minha primeira reacção quando comecei a escutar Facção Central. A principio até julguei que eles procuravam dar a pobreza como desculpa para a brutalidade dos crimes cometidos pelos bandidos, mas pouco a pouco me fui apercebendo que o que eles queriam na verdade era alertar para a raiz do problema e a sua possível solução. Apesar das suas letras serem um pouco violentas é através delas que eles reportam a violência vivida nas favelas de São Paulo. Servindo-se de hipérboles, isto é, exagerando um pouco, eles narram a realidade do Brasil. Esta música debruça-se sobre os problemas que um garoto rico e um garoto pobre enfrentam num país de extremos)

(Nota 3: Junto acrescento a música, é só carregar no play e apreciar. Obs: o género musical é o RAP)


Da cobertura eu observo os moleques lá embaixo
chinelo no cotovelo jogando bola descalços
Felizes sem muro com caco de vidro
Sem vigia com Walkie Talkie, camera de vídeo
Indo pra aula sonho atrás da blindagem do Nissan
com pipa, pião, carrinho de rolimã
Tenho 12 até hoje ninguém reclamou em casa
que na minha cobrança de falta eu quebrei sua vidraça
Não tem graça no condomínio minha bike nova
me sinto igual a um Hamster correndo na gaiola
Meu pai nunca me buscou depois da aula
pra eu ver ele só marcando horário com a secretaria
Minha mãe só se preocupa com plástica, jóia
Alta costura, teatro, desfiles de moda
Pra eles foda-se o que o pobre ta comendo, bebendo
Aí eu termino de computador, escargot, só que preso
Não passo de mercadoria, produto pra sequestro
Meu chofer na Blitz falsa é projéctil no cérebro
Pra quem joga sozinho não tem cartucho legal
Sem Internet eu nem teria amigo virtual
FODA-SE o parque aquático, o toboagua
quero a bandeira do meu time, gritar gol na arquibancada
Daria meu kart, minha parte na herança
pra tá no bar do morro jogando fliperama

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(4x)

Daqui debaixo eu observo a cobertura de luxo
como seria abrir a geladeira e ter de tudo
Morar num Ap de 600 de área construída
fim de semana na fazenda, no haras da família
vou pra aula sonhando com um copo de leite
com as prateleiras da Ri-Happy, um ténis sem silver-tape
Ate hoje um frango assado foi meu melhor almoço
esmola do padeiro pra eu não olhar pro seu forno
não tem graça na favela rolê com a minha bike roubada
perto de cadáver, gambé dando cabada
Há, se eu esconder uma camera pra filmar
o que meu pai me bate, vira santa a babá
minha mãe só se preocupa com a escolha do vestido
tem que ser bem fudido pra vender doce no seu vidro
nasci pra ser cobaia, puta que pariu
pra testar com a 9,3-8 terno blindado de 9 mil
Igual ao cão que odeia o gato
gato que odeia o rato
por instinto quer o menino do condomínio enterrado
filho de egoista, que país é turista
praga ruim tem que cedo trombar pesticida
Tem foto em Orlando com Mickey abraçado
e eu pra andar num Vectra é só algemado
Daria até minha automática com dois pentes cheios
Pra nunca mais sonhar com o lanche na hora do recreio

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(4x)

O vinho do meu pai é 12 mil a garrafa
penso no numero de cesta básica o apetite vasa
prevejo que um dia vai ter bomba no motor
virou a chave no contato, adeus Doutor
Dono de loja, famosa, varias filiais
tipo que odeia pobre mas não seus Reais
tem como hobby humilhar a empregada domestica
também pegar o jato e pular de pára-quedas
O mundo é o corpo e ele é o tumor maligno
descende de quem roubou as terras dos índios
Eu nunca vou ter minha carta de Alforria
é que corpo em chamas não é problema da minha família
Meu sonho é ser astro de cinema
mas não ser o ator preto carregando bandeja
quero dar colectiva, ter minha cara fotografada
mas não pra explicar minha fuga cinematográfica
Harvard pra um pivete de patinete no pé
um do tambor pro de isipor vendendo picolé
Sem Game Boy, brinquedo da Tec Toy
no aniversario é só 2 Dolly e um bolo Seven Boys
eu sou a artista plástico pronto pra expor
seu retrato falado no museu da dor
Tem um muro de lágrima entre o bandido e o boy
do lado dourado cresce a vitima
no vermelho seu algoz

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(2x)

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(2x)

Sonho com a carta de alforria da minha
Alcatraz de Ouro
com a paz sem vigia
nem muro de tijolo(2x)

Sonho com a carta de Alforria
da minha Alcatraz de compensado
com a paz sem revolver
nem refém torturado(2x)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Emigração a quanto me obrigas...

Inicialmente tinha pensando em dedicar o post de hoje a outro tema, porém o Mundo Moderno é tão Admirável que nos dá a possibilidade de colher inspiração a partir do momento em que colocamos os pés fora de casa... e isso aconteceu-me hoje quando me encaminhava para o Terminal Rodoviário para apanhar um autocarro (ou ônibus se preferirem) para ir para a Faculdade.

Moro numa zona nos subúrbios da cidade de Albufeira que se intitula de Montechoro, contudo, nós residentes desta zona adoptamos um nome mais inovador, vanguardista e real: Brasilândia. Sim, Brasilândia! Isto porque a zona do Montechoro é habitada maioritariamente por famílias de nacionalidade brasileira, ficando os africanos com o segundo lugar, os ingleses e os imigrantes de leste rivalizam entre o terceiro lugar (mas aqui também existe um bairro onde moram muitos imigrantes de leste, pelo que chamamos a zona de União Soviética [é incrível como a imaginação dos adolescentes funciona])... e agora perguntam pelos portugueses, já que estamos em Portugal, convém que existam portugueses não é... bem, os portugueses são escassos aqui na nossa querida Brasilândia.

Eu recordo-me de que vim para Portugal numa altura em que os brasileiros eram como as notas de 500 euros, muito difíceis de encontrar, contudo, com as inúmeras vagas de emigração que têm assolado Portugal, começo a pensar que é mais fácil encontrar um brasileiro do que um português. O Montechoro, por exemplo, costumava ser um local de eleição pelos ingleses e alguns portugueses abastados que vinham de férias para a cidade, mas agora, com o elevado número de emigrantes que vivem nesta zona, alguns problemas começaram a surgir, como o da criminalidade e tudo mais e o preço das casas desceu consideravelmente e as imobiliárias chegam mesmo a queixar-se de não existir muitas pessoas (portugueses, claro) interessadas em comprar casa nesta zona, pois alegam que «o Montechoro é um lugar violento». Cá por mim nunca me aconteceu nada aqui na minha querida Brasilândia.

Confesso que sempre fui muito patriota e quando olho para os meus conterrâneos não deixo de esboçar um ligeiro sorriso... adoro o povo brasileiro, principalmente aqueles que vêem para Portugal tentar a sua sorte e tentar vencer todas as adversidades deste país, é que a situação já está complicada para os portugueses, imagino como estarão os brasileiros. Quer dizer, até imagino, eu bem sei, convivo de perto com situações assim, basta só abrir a porta de casa.

Eu sei que os portugueses não morrem de amor pelos brasileiros, isto tudo derivado aos preconceitos já enraizados na sociedade portuguesa, e para meu desalento por vezes os brasileiros comportam-se de tal maneira que eu dou por mim com a face ruborizada de vergonha, desde o falar alto nos transportes públicos, ao usar os trajes de banho que chamam à atenção na praia (está bem que as portuguesas também têm vindo a aderir aos reduzidos bikinis, mas uma brasileira é sempre uma brasileira, meus amigos), quando passam pela rua com a música do carro bem alta e estão escutando algum forró ou funk (que pronto, nós já sabemos como é a letra), ah, e há que mencionar as cantadas dos brasileiros que trabalham nas obras «e ai gostosa» e por ai adiante, são tantas coisas que dava para escrever um post só sobre isso. São tantas as situações que já damos por nós a dizer «têm que ter sempre um brasileiro no meio».

Mas mesmo assim os portugueses até gostam dos brasileiros que eu sei, e não é só porque o Felipão treina agora a selecção deles. Têm como não rir das piadas de um brasileiro? Ainda me recordo de quando fui ao banco e encontrei uma fila tão grande que por momentos pensei em desistir e voltar para casa, mas lá fiquei e então um brasileiro que se achava na fila disse «Afff, esta fila está mais demorada que sorte de pobre». Conseguem imaginar o resto? Foi rir até não poder mais no banco, até as pessoas que lá trabalhavam tiveram de se controlar para não perder o seu profissionalismo. E como aqui em Portugal existem muitos brasileiros que trabalham na restauração, eu sei que serei sempre bem atendida quando for a um restaurante, embora os meus caros compatriotas não sejam muito dados ao domínio da língua inglesa (que é crucial aqui em Albufeira), eles nos recebem sempre com um sorriso e sentido de humor tipicamente brasileiro, tanto que dá até gosto de abrir a carteira e deixar uma gorjeta bem gratificante para o empregado de mesa.

Mas como todo na vida, esta emigração também tem o seu lado negativo, e esse lado é difícil de não negligenciar quando está tão perto de nós. Várias vezes me levantei de manhã, mas mesmo ao amanhecer, quando somente os homens da recolha do lixo andam na rua, e vi brasileiras empurrando carrinhos com bebés para os deixar nas amas ou em casa de algum amigo ou familiar... um frio gélido na rua que vai perfurando os ossos e dificulta à respiração. Às oito da manhã vejo crianças de sensivelmente nove, dez anos, pegando nas mãos dos irmãos mais novos para os conduzir à escola, possivelmente porque os pais estão trabalhando e os irmão mais velhos são assim incumbidos de zelar pela segurança dos mais novos, sendo porém a diferença de idades quase nenhuma. Conheço brasileiras que chegam a ter dois a três trabalhos, chegando ao ponto de assim que terminam um terem que ir a correr para entrar no outro. Vejo brasileiros que dividem entre si apartamentos de pequenas assoalhadas, todos amontoados e sem condições, de tal maneira que certos prédios do Montechoro já sofrem de uma sobrelotação (na zona mais alta do bairro, a que alguns chamam de “Morro”, se diz que se atirar uma bomba só iremos ver brasileiros a pular pelas janelas).

Mas sem dúvida a cena que mas me chamou à atenção foi uma vez no supermercado quando eu estava na zona dos iogurtes e uma menininha disse assim à mãe «mãe, podemos levar este iogurte? Deve ser bom, né» ao que a mãe respondeu «leva sim filha, aqui a gente têm condições para comprar, lá no Brasil a gente só via esse iogurte nas fotos». Nem vale a pena dizer mais nada, eu creio.

Andei a volta da questão mas ainda não mencionei a razão que me levou a escrever sobre este tema. Hoje vi que a polícia fizera mais uma rusga aos prédios em construção para ver se encontrava lá emigrantes ilegais, e lá estavam também os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Já estava algo que habituada, porque quando a polícia passa pela Brasilândia, há sempre um ou outro que se esconde atrás de alguma coisa para não ser visto, não fizeram mal a ninguém, são somente ilegais! Levantam-se muito, mas mesmo muito cedo para trabalhar, viajam naquelas carrinhas cheias de pessoas que estão na mesma situação que eles, trabalham de sol a sol, ajudam a construir prédios onde futuramente não os deixarão entrar, ajudam a construir a cidade, são explorados e por vezes nem chegam a ver a cor do dinheiro... mas hoje a polícia levou a melhor, estavam a fazer uma grande detenção e havia lá um emigrante que ate já chorava. Senti inúmeras sensações ao mesmo tempo, mas sabia que aquelas pessoas não haviam feito mal a ninguém, exceptuando talvez as cantadas ridículas, mas de resto, iam agora pagar a sua falta de sorte sendo deportadas de voltara para o seu país de origem, a sua Pátria, que ao invés de mãe se revelara uma maldosa madrasta.

E ao presenciar esta cena senti-me incapaz de deixar de pensar com os meus botões em como a sorte é mesmo macabra. Certamente o homem que explorava estes imigrantes iria sair ileso, e claro, os emigrantes seria os piores prejudicados, pois seriam deportados e os seus conterrâneos que cá ficam terão de ser alvos de comentários desnecessários por parte dos portugueses. Sempre que oiço algum português a dizer que os brasileiros são preguiçosos e marginais sinto vontade de os mandar levantar bem cedo para ver como os meus compatriotas acordam e trabalham durante mais do que oito horas, o sol a queimar-lhes a nuca enquanto carregam pesados baldes de cimento. E mesmo assim ainda há críticas mordazes afirmando que estes brasileiros que cá estão são os que vieram das «favelas» e não se sabem comportar, são arruaceiros, marginais e prostitutas! Por amor de Deus, será que eles não vêem aquilo que eu vejo? Ou será que querem fechar os olhos para não ver? Já diria o bom Asterix «são loucos estes lusitanos».

Eles podem não ver o que eu vejo, mas sempre que me cruzo com um dos meus compatriotas eu recordo-me do motivo pelo qual sou tão patriota... sei que existem brasileiros e brasileiras que não vêem para cá para trabalhar, mas como os que trabalham são em maioria mais notória, eu deixo-me guiar pelos bons exemplos... porque são estes trabalhadores que se sujeitam as obrigações da emigração que fazem valer a expressão «sou brasileiro e não desisto».