“Voltou ainda três vezes ao aterro, não a tornou a ver; e então envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia assim, numa inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da Rampa de Santos ao Cais do Sodré, à espera de uns olhos negros e de uns cabelos loiros de passagem em Lisboa (…). E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a mesa! E que todas as tardes, antes de sair, se demorava ao espelho, estudando a gravata! Ah!, miserável, miserável natureza…” – por Eça de Queirós in Os MaiasAcordo de manhã, sobressaltada pelo irritante e insistente barulho do despertador e a primeira imagem que me vêm à cabeça és tu. Ainda com os olhos ligeiramente fechados, receando a luz do sol que já bate na janela, lembro-me que adormeci pensando em ti e que de noite povoaste os meus sonhos… sonhei que te tinha do meu lado, que sussurrava ao teu ouvido palavras ternurentas, que sentia as tuas mãos acariciando-me e que fazíamos amor…, por fim, por entre os beijos que marcam o culminar de momento tão intimo, segredas-me juras de amor … e eu sorrio estupidamente, ainda ensonada, pois sei que nada mais passou do que um sonho: nunca falámos e provavelmente nem sabes que existo…
Saio da cama e os meus pés, nus e quentes do calor da cama e dos meus pensamentos, queixam-se do choque térmico ao pisar o chão frio. Vou até à casa de banho e vejo o meu reflexo no espelho, o meu cabelo desgrenhado e o acne na face. No meu sonho acordavas alegre do meu lado… se tivesses comigo naquele momento talvez morrerias de susto por ver-me assim. Retraio-me! És belo, divinal, um Deus! O meu Deus! Sim, nunca terias nada com alguém como eu. Tu, tão belo, e eu tão comum… amor impossível como anteriormente vivi, és só mais um para juntar ao currículo desta doutorada em romances impossíveis.
Vou para a escola com a ânsia de te ver. Já tenho o teu horário decorado, melhor até do que tenho o meu. Vejo a tua turma mas não te vejo a ti… fico receosa… pensando que talvez tenha acontecido algo, mas eis que surges… vindo do céu, da Escandinávia, meu Deus Viking. O meu coração bate mais depressa, sinto a alegria explodir dentro de mim qual um vulcão em erupção, só te vejo a ti à frente… tu passas… olhas para mim e eu já tenho o dia ganho… vejo os teus olhos azuis e lembro-me deles no meu sonho, quando me olhavas profundamente e dizias que me amas.
Espero sempre ver-te, mudo de lugar para te poder ver melhor, só quero sair quando te vejo e vibro de emoção quando ao acaso te encontro na rua. Sinto-me inútil por não ter coragem de falar contigo ou de lutar por ti, mas o receio é maior, e verdade seja dita que seria uma luta inglória. Procuro força dentro de mim e os incentivos amigos ajudam-me a ganhar coragem, tento dizer coisas parvas para te chamar à atenção, mas penso que no fundo julgas que tenho um parafuso a menos. No fundo nada mais passo do que uma analfabeta sentimental!
Não sei como é possível sentir isto. Um sentimento que transcende o prazer carnal. Nunca senti o gosto dos teus lábios, nunca ri das tuas piadas, nunca senti o teu cheiro, nunca falei contigo, mas encantas-me, fascinas-me, de tal forma que ver-te, ouvir-te, já me deixa realizada. Amores platónicos!!! Sentiria isto por ti se te conhecesse verdadeiramente? Ignoro-o por completo! Mas de momento vivo disto, de imaginações e sonhos. Sou chacota de muitos e tenho consciência disso. Amores platónicos não enchem barrigas, mas de todos serão sempre os mais belos e os meus predilectos. Alimento-me deste sentimento e vou acumulando a coragem necessária para ir falar contigo.
Por entre as baforadas que dou ao meu cigarro enquanto espero que o meu café arrefeça, penso nas próximas linhas do nosso romance… um dia saberás o quanto gostei de ti…
“O amor platónico passou a ser entendido como um amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve. Reveste-se de fantasias e de idealização. O objecto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platónico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia.
Ocorre de maneira frequente na adolescência e em adultos jovens, principalmente nos indivíduos mais tímidos, introvertidos, que sentem uma maior dificuldade de aproximar-se do objecto de amor, por insegurança, imaturidade ou inibição do ponto de vista emocional.” – in Wikipedia
Ps: Como a pseudo-escritora que sou, obviamente que tive de exagerar a realidade para dar um toque dramático à cena. É sempre bom salientar que não tenho tendências psicóticas... é tudo meramente platónico.


2 comentários:
ô meu Deus um dos meus prediletos também.se não um dos mais belos um dos que de onde saem as mais belas poesias.
mesmo com todo o lado drmático da estória.é um dos mais admiraveis.
então cara amiga escritora estou voltando a blogsfera...e smpre que puder to de olho aqui nos seus escritos.
=* =)
menina, isto me faz lembrar do meu, quando adolescente. até eu descobrir que ele também nutria por mim sentimento parecido. e quando nos encontramos uma primeira vez, não conseguimos nem mesmo nos cumprimentar. e quando nos vimos frente-a-frente... foi emocionante mas... cada um já estava com seu respectivo namorado/a. a vida não é justa, né? rsssss
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