"Crónica de Costumes"

domingo, 6 de abril de 2008

Liberdade ou Segurança?

A minha aula de sexta-feira de Saúde Comunitária debruçou-se sobre um dos temas que mais gosto: a União Soviética. Eu adoro história, principalmente quando esta incide sobre o século XX, e a minha admiração pelas teorias de esquerda contribuem para o interesse no antigo “Gigante Vermelho”.

Ao analisar os dados que tinha na sua frente, a professa nos revelou que, actualmente, na Europa, os antigos países que constituíam a União Soviética, com excepção da Alemanha, são os que apresentam a maior taxa de pessoas infectadas com o vírus da SIDA (ou AIDS) e onde os serviços de saúde têm piores condições.

Primeiramente a admiração atingiu-me, pois normalmente as sondagens revelam que Portugal está quase sempre à frente em todas as taxas de cariz negativo... e depois, achei incrível como as coisas se haviam alterado com o passar dos anos.

A União Soviética era um conjunto de estados com uma forma de governo extremamente paternalista, isto é, protegia imensamente os seus habitantes (com a condição, é claro, de estes não contestarem a forma de governo, ou caso contrário iriam parar à Sibéria). Fizemos então um debate: o que levara àquela alteração vertiginosa nos dados?

Ora bem, sendo o Estado paternalista que era, a União Soviética apresentava-se a anos de luz de distância de muitas nações ocidentais no que toca a educação e saúde. Com um desenvolvimento de vanguarda nestas áreas, o investimento deste colosso era em garantir uma boa saúde aos seus habitantes e uma também boa educação para assim rivalizar com os seus rivais do outro lado da Cortina de Ferro. E tanto quanto podemos saber, a primeira vaga de imigrantes que chegou a Portugal, vinda do leste europeu, era extremamente letrada... eram médicos, advogados, professores, e em nível de instrução, estavam muito mais à frente que os portugueses.

Sim, os soviéticos tinham educação, tinham boas condições de saúde e apoio do Estado, porém, faltava-lhes algo essencial: liberdade. De um lado estava o Partido e do outro o povo, e quem contestasse as regras do Estaline e dos seus seguidores acabariam num campo de trabalhos forçados na Sibéria. Sem liberdade, como poderiam os homens ser felizes, mesmo tendo tudo o resto?

Foi por isso então que caiu o Muro de Berlim... todos almejavam a liberdade... e quais foram as consequências dessa queda? Bem, a Alemanha Oriental agregou-se com o resto da Alemanha Ocidental e conseguiu desenvolver-se, embora revele um considerável atraso... porém, todos os outros Estados, presentemente, apresentam-se como dos mais pobres da Europa. E o que mudou com esta liberdade? Os soviéticos agora podem beber coca-cola, mas já não têm tanta facilidade em aceder a um bom sistema de saúde. Os ricos da antiga União Soviética ainda hoje continuam ricos, e talvez até tenham enriquecido ainda mais, e o povo pelos vistos ficou mais pobre. A minha professora de Alemão até me disse que os alemães de leste afirmaram: «em vez de derrubarem o muro deviam de o ter construído ainda mais alto». Isto porque eles ficarem expostos a todos os problemas a que os ocidentais já estão habituados: desemprego, falta de saúde, analfabetismo...

Discutimos isso tudo, e então a professora nos perguntou: «se tivessem que escolher entre liberdade e segurança, o que fariam?». A minha colega Leonor respondeu: «escolheria a liberdade de ter segurança». Rimos... mas na União Soviética não foi assim... antes havia segurança, mas não havia liberdade e com a queda do Muro a situação alterou-se... se houvesse uma máquina do tempo, seguramente que voltariam atrás... os homens nunca estão contentes com a sua situação...

Eu não sei ao certo o que escolheria... amo a liberdade e graças Deus que a tenho... uma vez até li em algum lado que as pessoas que têm liberdade nunca sabem o que fazer com ela... acham que liberdade é poder sair por ai fazendo o que se quer, mas não, tudo começa pelo poder de votar, pela liberdade de poder se escrever sem censura, e quem pode fazer isso prefere ficar escrevendo baboseiras no Orkut e por aí vai... Segurança... felizmente também a tenho... minha mãe tem um emprego fixo, estou estudando na Faculdade, tenho um bom serviço de saúde... felizmente tenho as duas coisas, mas e se me dessem a escolher, não sei bem o que faria... talvez a partir da liberdade eu poderia construir a segurança, mas e se o outro não respeitasse a minha liberdade? O meu professor de História sempre dizia «a minha liberdade começa onde a tua acaba»... Questões complicadas... o que escolheriam os leitores?

Liberdade ou segurança, porque não poderiam andar as duas de mãos dadas? Teria sido o fim da União Soviética... e então eu penso, será que foi aquilo que Marx queria? Foi por aquilo que Lenin lutou?

Há uma pergunta que nunca ninguém, nem mesmo o professor Luís Laço, me respondeu: Se o Marx dizia que o capitalismo continha em si as sementes da sua autodestruição, porquê que a União Soviética foi a primeira a cair?

5 comentários:

Leticia disse...

Liberdade de expressão nos dá o direito de julgar e sermos julgados - o que , geralmente, não gostamos.

Já segurança( ou estabilidade)nos passa a idéia de ter paz pra exercer essa liberdade.

Em penso estarem interligados , um necessita do outro.

Camilla K. Boyle disse...

Bem visto, Leticia, porém não foi o que aconteceu na União Soviética. Eles tinham segurança mas não tinham liberdade, e agora tem a segurança mas não tem a liberdade, talvez por isso que muitos prefiram voltar ao velho tempo do domínio vermelho.

Eu penso que isso também proveio do facto de como as pessoas usaram essa liberdade, afinal existem muitos países que saíram de ditaduras e conseguiram se estabilizar (terá sido combinaçao de liberdade e segurança ou intervenção do velho americano Uncle Sam?)

Camilla K. Boyle disse...

correcção, eles tinha segurança mas nao tinham liberdade e agora tem liberdade mas nao tem segurança

Letícia C. disse...

Vi uma notícia outro dia dizendo que em Cuba haveria mais liberdade de expressão com o Raul, ao que o meu amigo disse que liberdade de expressão é piada em qualquer país. Eu sinceramente simpatizo com os vermelhos, mas não imagino o que seria viver noutro tipo de sociedade senão capitalista, já que "liberdade é o bem maior do mundo" (essa frase ficou martelando na minha cabeça depois de ler Jorge Amado pra escola =P). Mesmo na época poderosa da União Soviética o socialismo nunca chegou a ser como o almejado por Marx e cia, mas isso também seria impossível. Pelo que eu me lembro de outro post um professor seu já havia respondido a pergunta - sem resposta - mais ou menos assim...
Vou ter mais tempo prta administrar o blog agora sem ass provas ^^ Um beijo

Anónimo disse...

Tudo aquilo que é bom, ou que achamos que é bom, queremos muito, insaciavelmente. O capitalismo tem em si a idéia de liberdade: liberdade de escolha, de expressão, de ir e vir. O homem não precisa ser doutrinado para querer o que acha bom. Mas,precisa ser doutrinado para ficar dentro de regras rígidas.
O marxismo na união soviética ia contra essa tendência humana de buscar a liberdade, o que é bom. Por isso caiu. Não necessariamente porque foi para o lado capitalista, mas por uma necessidade humana. Por outro lado, o capitalismo e a dita democracia acenam com uma falsa liberdade, que logo logo entra em colapso, tão logo o homem perceber que está preso às amarras do sistema econômico e as regras são muito mais rígidas do que no tempo em que se ordenhava as vacas e plantava-se para comer.