"Crónica de Costumes"

domingo, 13 de abril de 2008

Self-made man

Obs: Peço desculpa se o texto estiver um pouco confuso.

O Homem que se faz a si mesmo! O termo provém do século XIX, quando a nova sociedade burguesa emergiu e juntamente com ela começaram a surgir os grandes empresários, homens que provinham de classes desfavorecidas, mas que através do seu esforço conseguiram ascender socialmente... foi o caso de ricos empresários como Siemens e presentemente como o Bill Gates. Adoro isso, chegar ao topo através do fruto do seu trabalho e poder descansar dessa longa caminhada, terminar o jogo, feliz, sem ter ficado «game over». Minha mãe é, para mim, uma self-made woman, que veio do Brasil para Portugal casada com o meu pai, as adversidades da vida levaram a que eles se divorciassem e ela, num país que não conhecia, lutou, trabalhou, para dar as melhores condições de vida às suas filhas e agora vivemos bem, muito bem, graças ao esforço dela. Definitivamente para mim é um orgulho e um exemplo a seguir.

Sim, existem milhares de self-made men por esse mundo fora que fazem o mesmo. Pessoas que trabalham todo o dia, ganham pouco, têm a sua dignidade e sustentam a sua família. Sim, são a classe média, quem sabe futuros self-made woman & man. Porém, quando estava assistindo “Muito Além do Cidadão Kane”, sobre a influência da Rede Globo no Brasil (e recomendo vivamente), uma senhora disse «a Globo maquilha a realidade, dando uma falsa perspectiva do self-made man, que através do trabalho e do esforço consegue ascender socialmente». Isto veio a propósito das personagens das novelas não representarem a população brasileira. Portanto, sendo o Brasil o terceiro país com a pior distribuição de riqueza do mundo, como se sentirá a população desfavorecida que vê o Tony Ramos ou a Regina Duarte passeando pelo Leblon? A Globo obviamente que disfarça a realidade porque como conseguirá alguém que não tem acesso à educação, que está desempregado há muito tempo, isolado por viver na periferia, ascender socialmente?

O Mano Brown, por exemplo, rapper do grupo brasileiro Racionais Mc’s, cresceu ouvindo a sua mãe dizer que, por ele ser negro e favelado, tinha que se esforçar duas vezes mais para conseguir vencer, e então ele pensava «como eu posso ser duas vezes melhor se estou cem vezes atrasado?». Atrasado pela discriminação, pela pobreza, isolado e por vezes sem ajuda. Terão essas pessoas a possibilidade de poderem vir a ser self-made men? Alguns sim, mas muito escassos.

O Mundo Moderno é muito Admirável e como já dizia o meu professor Luís Laço, a História acaba sempre por se repetir. A actual sociedade, por exemplo, me faz lembrar em muito a do Antigo Regime, onde os povo, os camponeses, eram quem sustentava a nobreza que estava isenta de impostos, conquanto tivesse muito mais dinheiro. Hoje em dia substitui-se a nobreza pela burguesia, e a exploração continua. Uma vez, num filme que vi, quando um rapaz do gueto entrou num apartamento em Manhatan, até disse: «Se eu pagasse impostos era para aqui que o dinheiro vinha».

É a partir da exploração da classe dominante que começa todo o ciclo vicioso. Quando eu digo que o Governo ataca os problemas do lado errado, não quero dizer que eles não saibam como agir correctamente... o pior é que eles sabem, no entanto não têm grande interesse em fazê-lo. Até debatemos uma vez numa aula, se não exista interesse nenhum em acabar com o crime. Quanta riqueza não se gera através das empresas de segurança das prisões? Essa riqueza é importante para o desenvolvimento do país. E os problemas vão se enrolando como uma bola de neve... a exclusão social conduz ao crime, as outras classes ficam com medo e respondem pela violência, tomando medidas que somente remendam o mal quando na verdade era preciso uma operação para arrancar logo esse tumor maligno. Só que muitas das vezes quem sustenta a classe ostracizada é a classe “dominante”. Saberão os jovens que por cada “baseado” que compram estão sustentando o tráfico de drogas? O mesmo tráfico que gera a violência que eles tanto temem? Felizmente existe muita gente que têm conhecimento disto, mas e todos os outros que estão alienados de maneira a não mudar? Como poderão eles fazer alguma coisa se são embriagados com a informação dos meios de comunicação, com a educação que está ao serviço de quem tem o poder? Justamente quem atrasa a vida destas pessoas é quem tem o poder de mudar o que quer que seja: a Burguesia.

Voltando atrás ao assunto da droga, o meu amigo Jadson contou-me que no início do movimento dos Panteras Negras, muitos polícias iam aos bairros pobres e eles mesmo forneciam a droga, ou seja, a melhor maneira de combater o movimento. Os jovens iam consumindo, iam traficando, iam morrendo. O que seria feito dos detentores do poder se estes jovens que agora usam droga estivessem estudando e no futuro mudando algo e lutando pelos seus direitos? Onde estaria a burguesia se tal acontecesse?

E por esta altura a bola de neve já atingiu proporções descomunais. Penso então, que ser self-made man nos dias que correm é bastante complicado e torna o sucesso muito mais saboroso, porque parece mesmo o nível mais difícil do jogo. Admiro todos os que tiveram a sorte de se “fazer a si mesmos”, porém, também fico algo cabisbaixa por todos os outros que não tiveram oportunidade disso, justamente porque são marionetes ao serviço perverso da burguesia moderna. O Mundo Moderno é Admirável e Assustador. Quanto mais penso nestes assuntos, mais cabelos brancos nascem (e para alguém da minha idade já tenho um número considerável). É que as soluções para os problemas actuais até são simples, a questão é que por vezes se complica tanto ou não se tem interesse em resolver esses problemas que o mundo não saí da mesma.

Os rappers da Facção Central até disseram uma vez: «A faca na sua garganta é resultado; Do seu dinheiro investido no lugar errado»...

4 comentários:

Leticia disse...

O pior é que parece que todos já sabem mas se dá voltas e voltas e nada.
Me angustia a inércia de atitudes.

Boa semana.

Anónimo disse...

Faço minhas as palavras da Letícia.Bjus e boa semana.

Mirian Martin disse...

Acho que é mais fácil controlar uma sociedade drogada, passiva, do que uma sociedade pensante. Nada mais coerente com isso, do que permitir a ação de traficantes, do que subjugar o mais fraco e faze-lo acreditar fraco.
Quando um sai desse círculo vicioso... ele muda uma peça do lugar e pode ser referência de mudanças. Mas sempre vai haver quem faça pouco disso.

Camilla K. Boyle disse...

Então será impensável de acreditar que algum dia o mundo será justo!?

Quem me dera nunca ter deixado de ser criança...