I Acto - As Trocas de Olhares
(Nota: Estive relendo o meu diário de quando eu tinha 15 anos. Com esta idade eu entrei para o Liceu e assim se iniciou a melhor fase da minha vida. Me recordo de todas as tardes passadas com a galerinha, falando besteira, jogando Playstation, fazendo filmagens dos Losers [a nossa versão do Jackass], das aventuras e até das aulas. Mas uma das coisas que eu tive de resgatar por entre as linhas deste glorioso tempo foi este "romance" que vivi e o qual irei contar em 3 actos através dos meus queridinhos habitantes do Admirável Mundo Moderno. Na realidade esta História estendeu-se por dois anos de Liceu, com muitas aventuras à mistura, mas eu só relatei os acontecimentos mais marcantes desta paixão e espero que gostem porque acredito que provavelmente já passaram por um momento assim).
A música ecoava por todo o pátio da escola qual uma banda sonora ao momento de convívio que os adolescentes do Liceu viviam naquele instante. Eram quase duas horas e aqueles que iriam ter aulas de tarde achavam-se a desfrutar da sua hora de almoço… namorando, estudando ou conversando.
Um grupo de jovens moças sentadas junto de um canteiro conversava sobre os artigos que a revista de adolescentes havia escrito naquela quinzena, nomeadamente sobre rapazes, as suas séries e novelas preferidas, os seus ídolos, roupa e maquilhagem. Joana dava a sua opinião sobre o que iria acontecer nos próximos episódios da novela que todos os adolescentes acompanhavam fanaticamente e Marta e Cátia, constituindo uma atenta plateia, bebiam-lhe as palavras e acenavam afirmativamente com a cabeça. Becky achava-se de pé, escutando música no seu mp3, alheia ao que a amiga dizia, já havia conversando com ela sobre aquele tema. Dançava timidamente ao som da sua música quando o viu sair do bar da escola…
Os seus olhares cruzaram-se e a face de Becky tornou-se carmesim… ele sorriu para si mesmo e Becky sentiu-se tremendamente estúpida… daquela forma estúpida que só ele a conseguia fazer sentir.
Quando um dos amigos dele passou, ele o chamou e ficaram a conversar. Embora ele estivesse atento ao que o amigo dizia, arranjava sempre uma maneira discreta de olhar para Becky e ela, apaixonada como estava, não deixava de sentir um certo aperto na boca do estômago e o coração a pulsar mais depressa contra as suas costelas.
O seu cérebro perdeu-se momentaneamente no mar de recordações que coloriam aquela paixoneta. Diogo era um daqueles rapazes por quem as meninas facilmente se apaixonavam. De cabelos loiros e olhos azuis, era alto e de constituição musculosa, digna de quem passara algum tempo no ginásio, tudo nele era simétrico, como se tivesse sido moldado por algum Leonardo da Vinci, «um verdadeiro Deus grego», como Becky costumava dizer. E para além deste naipe de agradáveis características físicas, Diogo era skater e baterista de uma banda de garagem, um ano mais velho que Becky, pertencia ao grupo de alunos populares do Liceu e um tudo ou nada perigoso… era bem dotado fisicamente, no entanto não parecia constituir o tipo de genro que os pais de Becky gostariam de ter.
Veio-lhe ao pensamento a primeira vez que os seus olhares se haviam cruzado. Becky tinha ido ao Liceu com Marta e Cátia (na altura ainda não conhecia Joana), para se inscrever e concluídas as inscrições, haviam combinado de ir comer um gelado. Aquela escola era tão diferente da que anteriormente haviam estudado… um novo mundo prestes a ser explorado e quando elas se dirigiam para o portão das traseiras, passaram por um grupo de alunos, maioritariamente constituído por apreciadores de punk, quase todos fumavam, tinham piercings e cara de poucos amigos. Deram por elas a tremer, principalmente porque eles haviam começado a assobiar e a dizer «Hmmm, carne fresca», uma espécie de ritual de praxe que faziam quase todos os anos com os novos alunos.
Becky, como era particularmente mais branca do que as suas amigas devido às suas raízes inglesas, sentiu as bochechas gorduchas a arder de vergonha. Baixou a cabeça e caminhou apressadamente, no entanto, a curiosidade era mais forte do que ela e pelo canto do olho viu pela primeira vez Diogo… sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha como se lhe tivessem dado um banho de água fria, ele estava abraçado à sua então namorada e sorriu alegremente para Becky.
Quando trespassou os portões, ela não resistiu a olhar para trás e viu que ele ainda olhava para ela… Ainda voltou a encontrá-lo mais duas vezes durante as férias, uma vez no salão de bowling e da outra vez na fila para o cinema… e os seus olhares sempre se cruzavam. De noite ela chegava a casa e dava por ela a pensar nele… era tudo tão recente e tão misterioso que dava um certo romantismo à situação.
Sonhou com ele, pensava nele a quase toda a hora e ao seu diário confessava os seus segredos, a sensação que sentia quando olhava para ele, o modo como os seus olhos azuis faziam o seu coração bater mais depressa… a Harry, o nome do Dário, dirigia uma série de cartas relatando pormenorizadamente as escassas vezes em que eles haviam encontrado… sentia-se até um pouco estúpida com a situação. Porém, quando a escola começou ela não deixou de sentir uma certa alegria quando o voltou a encontrar. Ele pareceu sentir o mesmo pois ficou durante dois intermináveis minutos a olhar fixamente para ela, de tal maneira que um dos punks o teve de abanar para chamar novamente à terra.
Becky estava decidida a descobrir mais sobre ele, uma vez que até então todos os dados pessoais sobre ele permaneciam desconhecidos. Descobriu-lhe o nome quando o viu a discutir com a namorada… «Diogo, não me vires as costas», gritou ela e Becky sentiu-se duplamente feliz, primeiro porque eles haviam discutido e segundo porque achara o nome dele bonito, aos seus ouvidos até soava melodicamente. Todos os outros dados foi pescando ao acaso e como eles nunca haviam falado, Becky conjurou por si mesma uma história sobre ele, desconhecendo totalmente se batia ou não com a realidade.
Quando conheceu Joana e constatou que ela era daquelas raras pessoas acabadas de conhecer com quem a conversa fluía naturalmente como se já se tivessem conhecido à anos, decidiu abrir o seu coração e contou-lhe o que sentia por Diogo. Joana sabia que eles eram totalmente diferentes um do outro, no entanto até iria ter certa piada vê-los aos dois namorando, sem dúvida seriam um casal bastante peculiar.
E os meses foram-se passando e eles sempre olhando um para o outro, sem nunca se terem falado. De todas as situações ele insistia em passar perto dela, conduta que ela procurava não seguir pois sentia-se intimidada quando passava por perto dos punks. Às vezes até dava por ela a pensar se alguma vez uma relação entre eles daria certo, eram tão diferentes, e ele tinha cara de ser daquelas pessoas que se deixava influenciar pelos amigos. A única coisa que podia fazer era mesmo imaginar como seria estar com ele. No entanto, todas as atitudes dele demonstravam que Becky não lhe era indiferente. Diogo abraçava-se à suas amigas e olhava descaradamente para Becky para ver a sua reacção... passava muitas vezes perto dela para saber do que falava... uma vez até se recusara a acompanhar a namorada ao bar só para poder ficar a olhar para Becky. Todas aquelas atitudes por parte dele deixavam-na totalmente confusa. Porquê que ele não tentava nada? E na verdade, Diogo mexia com ela de tal forma que Becky passava a maior parte do tempo a pensar nele, às vezes nem se conseguia concentrar nas aulas pois estava com os pensamentos a leste da matéria. Uma vez chegara mesmo a rasgar os seus apontamentos para estudar para o teste de Geografia... havia visto o Diogo aos beijos com a namorada. Era tudo tão recente e tão confuso... nunca nenhum rapaz havia mexido com o seu coração de tal forma... parecia que pela primeira vez na vida estava a experimentar algo que se assemelhasse ao amor.
O toque de entrada havia soado e Becky ainda olhava para ele, como se o pano de fundo houvesse desaparecido e naquele momento sentiu que só existissem eles… até que…
- Ei, terra chama Becky – gritou Joana dando-lhe um ligeiro safanão. – ‘Tá na hora da aula de História.
- Sempre no mundo da lua, Becky – troçou Marta enquanto agarrava nos seus cadernos. – ‘Bora que o prof. Não gosta nada de atrasos.
Marta e Cátia avisaram que ainda iam à casa de banho e deixaram as duas amigas para trás. Becky arrumou as suas coisas de uma forma irritantemente lenta, queria fazer tempo para puder apreciá-lo antes de passar duas entediantes horas a ouvir o professor a falar do Império Romano. Joana olhou à volta e quando viu Diogo especado junto a um pilar a conversar com seu amigo apercebeu-se do motivo da indolência de Becky.
- Ele mais um pouco e come-te com os olhos – comentou Joana.
- Até que não me importava – riu Becky colocando a mochila sobre os ombros.
- Não sei como é que aguentas ficar só a olhar p’ra ele. Quando é que ganhas coragem e vais lá perguntar qual é a dele?
E antes que Becky pudesse responder um dos punks aproximou-se de Diogo e fingiu-se socá-lo no estômago. Os três amigos desataram a rir.
- Aquilo responde a tua pergunta?
- Ele é bonito, só é pena ter os amigos que têm. São super estranhos!
- Esquece isso, vamos para a aula.
Enquanto se encaminhavam para o edifício escolar, Becky olhou de soslaio e viu que Diogo se colocara em bicos dos pés para ver para onde ela se dirigia.
Felizmente o professor Carlos havia faltado, tinha ido a uma conferência qualquer, explícita para professores de História. Becky sentiu-se aos pulos interiormente, se se apressasse talvez ainda conseguia ver o Diogo, antes de ele entrar para a aula de Biologia.
- Quê que fazem cá fora? – perguntou Gustavo quando viu as suas colegas de turma a sair do bloco. Ele e Ivan chegavam quase sempre atrasados às aulas e especialmente às aulas depois do almoço. – Não me digam que foram todas expulsas?
- Nada disso, Gus – Joana respondeu. – O prof. É que faltou. Quatro horinhas de almoço para depois termos estômago para aturar a stôra de Português... nada mal, hein?
Diogo passava por eles naquele momento e ouvira o que Joana dissera. Também já estava atrasado para a aula, mas quando as palavras da jovem entraram nos seus ouvidos, quase que por impulso ele voltou para trás e foi sentar-se junto dos seus amigos punks que também estranharam o comportamento.
- Então, Didz, não ias ter aula?
- Bah, não ‘tou com vontade de ir – explicou Diogo atirando a sua mochila para o chão e sentando-se junto dos amigos.
Joana e Becky que estavam a pouca distância do banco dos punks trocaram um olhar significativo. Becky não se achava uma pessoa convencida, mas de certeza que ele havia faltado a aula para a poder ver, e isso veio-se a comprovar durante aquele serão agradável que eles passaram no pátio da escola, a rir das piadas de Gustavo e das histórias surreais que o seu colega David contava. Sempre pelo canto do olho, Becky constatava que Diogo olhava para ela... trocaram olhares que pareciam ter significados, e mais ninguém parecia reparar no que se passava, só eles, e evidentemente Joana.
- Não sei como é que ele ainda não ficou com um torcicolo – segredou ela ao ouvido da amiga.
Porém, Becky nem fez caso. Aquele momento era seu e do Diogo, sentia-se a flutuar num mundo paralelo àquele em que vivia. Ele faltou à aula para me ver!, dizia uma voz no seu inconsciente. E não pára de olhar para mim! Ela estava desejosa de chegar a casa para partilhar aqueles acontecimentos com Harry.
*
Uns dias mais tarde, elas estavam almoçando num snack-bar nas imediações da escola. Era o lugar de eleição da maior parte dos alunos que menosprezavam a comida integrável da escola. Ali comiam cachorros-quentes, hambúrgueres, sandes, e toda àquela espécie de comida que faria qualquer nutricionista soltar gritos de indignação.
Joana e Becky conversavam animadamente sobre os planos para o fim-de-semana, quando ele entrou.
Becky engasgou-se com as batatas fritas, pelo que teve de beber uma grande golada de Coca-Cola para as conseguir engolir. Ele a viu e sentiu-se momentaneamente patético, sem saber o que fazer, até ser trazido à realidade por um grupo de jovens que tencionava entrar no estabelecimento mas que não podia pois ele estava a empatar a porta. Ele desviou-se e foi na direcção da máquina de cigarros, introduzindo as moedas para depois tirar o maço.
- Diogo, fumar mata – disse uma garota de encaracolados cabelos negros.
Era Diana, uma jovem que estudava na mesma turma que Joana e Becky, ela era incrivelmente popular, pois pertencia à Associação de Estudantes e também porque era uma pessoa afável, daquele tipo de pessoas de quem facilmente gostamos.
- Têm de ser, não é – disse Diogo sorrindo timidamente, em seguida cumprimentou-a com dois beijos na cara e os dois ficaram a conversar.
- Não sabia que a Diana conhecia o Didz – comentou Joana enquanto bebia distraidamente o seu Ice-Tea.
Quando se despediram, Diogo abandonou o snack-bar e Diana foi sentar-se na mesa ao lado da delas, juntamente com algumas pessoas da Associação de Estudantes que estavam a planejar o próximo evento.
Becky deu por ela a conjecturar inúmeras possibilidades de pedir a Diana que lhe apresentasse Diogo, e a sorte sorriu-lhe quanto as pessoas da Associação abandonaram o snack-bar e Diana foi-se sentar na mesa que elas para acabar a sua sandes de atum.
- Di, quem era aquele moço com quem ‘tavas a falar? – perguntou Becky fingindo nada saber sobre Diogo.
- O Didz? – perguntou Diana com a boca cheia de comida. – Ah, o Diogo é demais, mesmo. Ele toca bateria na banda do Bruno, o tal que eu disse que gostava de mim. Como o Bruno me têm convidado para eu assistir aos ensaios, já conheço a banda toda e o Diogo é o mais louco deles todos. Mas coitado, ‘tava agora a contar que acabou com a namorada... é pena... sempre pensei que eles iam dar certo.
Becky sentiu uma súbita vontade de dançar, cantar, dar cambalhotas... DIOGO ESTAVA DESCOMPROMETIDO.
- Meninas, fiquem só aqui um bocadinho com as minhas cenas que eu tenho de ir lá fora ver se apanho Bruno – pediu Diana enquanto se levantava. – Vamos dar uma festa e ‘távamos a pensar se ele ia querer tocar.
E saiu, deixando para trás a sua mochila e duas jovens alarmadas. Joana não sabia como reagir e Becky parecia que tinha o coração cheio de ar.
- Jo, ele acabou com aquela vaca... secalhar agora até tenho chances.
- Vocês nunca falaram. Sabes lá se ele não é daquele tipo que quando abre a boca só diz merda?
- Tenho que atacar – Becky nem ouvira o que amiga havia dito. – Se conseguisse o número dele.
Joana ouvira o que amiga havia dito... as duas olharam ao mesmo tempo para a mochila de Diana e foi então que se fez luz nas suas cabeças. Joana abanou a cabeça de modo negativo, achou que iria ser um escândalo se Diana entrasse e as visse a mexer nas suas coisas, mas Becky olhou para ela com aquele olhar que as mães já sabiam reconhecer à distância... o olhar de quem pedia alguma coisa.
- Oh, ‘tá bem, mas fica de olho e vê se a Diana não entra! Só me metes em confusões!
Joana conseguiu surripiar o telemóvel da Diana e anotou o número de Diogo. Passou o papel à amiga que o guardou como se fosse algo invulgarmente raro e precioso.
*
Eram quase sete horas da tarde e elas eram quase as últimas alunas da escola. Haviam ficado até depois das aulas para o ensaio do grupo de teatro e já escurecera. O típico vento invernal fustigou-lhes os cabelos e as obrigou a apertarem contra si os casacos.
- O stôr hoje puxou bué por nós – queixou-se Joana.
Mas Becky não ouvira. Ela havia olhado como era hábito para o banco dos punks e constatou que Diogo estava lá com mais três amigos, conversando animadamente e lançando baforadas de fumo para o ar. Fora eles e elas, somente um ou outro empregado se achava naquele pátio, o resto dos alunos certamente já tinha ido para a casa
-... só acho o personagem do Ricardo devia de falar mais, normalmente os pais falam que se farta, este é muito calado, não achas? – Joana olhou de forma indagadora para a amiga, no entanto viu que ela estava totalmente distraída e quando viu Diogo sentado apercebeu-se logo da razão. – Becky, acho que o bar ainda está aberto, anda comprar água – e puxou a amiga pelo braço até ao bar da escola.
Becky deixou-se arrastar. Em outra altura provavelmente teria contestado, principalmente porque no dia seguinte era feriado e como seria uma quinta-feira, os professores haviam aproveitado para fazer ponto, pelo que teriam um fim de semana prolongado e ela só o voltaria a ver na próxima segunda-feira, mas dentro a sua carteira repousava o papelzinho com o número de telefone dele e Becky ganharia coragem para dizer-lhe qualquer coisa.
Compararam a água e quando iam a sair do bar, cruzaram-se na porta com o Diogo e os amigos que estavam a entrar.
- Pessoal, acho melhor irmos embora – sugeriu Diogo ao trocar um olhar com Becky quando a viu passar por ele.
- Mas tu tinhas dito que ‘tavas com sede, meu – relembrou o amigo de piercing no lábio.
- O bar já ‘tá a fechar – limitou-se a dizer Diogo. Os seus dois amigos encolheram os ombros e seguiram Joana e Becky até à entrada da escola.
Na entrada da escola os dois grupinhos sentaram-se em lugares distintos, aproximadamente ao pé uns dos outros. Eram já poucos os carros que se achavam no parque de estacionamento e Joana telefonara à sua mãe para a ir buscar a ela e a Becky. Os rapazes também aguardavam alguém e conversavam animadamente e em voz alta para chamar à atenção delas, era típico dos rapazes daquela idade.
- Ei tu – chamou o amigo de Diogo com os cabelos em forma de canudos, dirigia-se à Joana. – Não és do grupo de teatro.
- Sou – respondeu Joana.
- Curti bué da última peça – elogiou o rapaz. – Tens jeito.
- Obrigada.
E foram-se aproximando sem darem por isso. Becky e Diogo permaneciam calados, Joana e os dois rapazes eram quem monopolizavam a conversa, o que até era mais agradável, pois nenhum dos dois saberia o que dizer. Becky sentia o seu coração a bater como um tambor da selva. Nunca havia estado tão perto dele como naquele momento. E Diogo também parecia estar constrangido.
- Parece que se esqueceram de nós – troçou o rapaz de piercing após consultar o relógio e verificar que eram já sete e meia.
Meu dito, meu feito. Um jipe apareceu com uma mulher loira conduzi-lo, Becky identificou-a como sendo a mãe de Diogo, já a conhecia de vista.
- ‘Bora, Didz, a tua mãe chegou – disse o rapaz de piercing. – Querem boleia, meninas?
- Não, a minha mãe ‘tá quase a chegar – recusou Joana com um sorriso.
- Então xau ai, até segunda.
E foram-se embora. Pouco depois chegou a mãe de Joana e elas foram-se embora. Becky, sentada no banco de trás, sentia-se absolutamente patética. Não proferira uma só palavra na presença do Diogo. Provavelmente ele achava-a uma tremenda idiota. Joana conversara animadamente com outros dois e de certeza que o Diogo a achou muito mais interessante. Tinha vontade de chorar de raiva dela mesma, não sabia porquê que se sentia tão atordoada quando ele estava por perto, tinha até vergonha de respirar, temia fazer qualquer movimento que o levasse a pensar que ela era uma «totó». Mas ele era tão bonito de perto... os cabelos loiros, os olhos azuis, o narizinho perfeito... Becky já sabia com quem iria sonhar logo à noite.
(Nota: Estive relendo o meu diário de quando eu tinha 15 anos. Com esta idade eu entrei para o Liceu e assim se iniciou a melhor fase da minha vida. Me recordo de todas as tardes passadas com a galerinha, falando besteira, jogando Playstation, fazendo filmagens dos Losers [a nossa versão do Jackass], das aventuras e até das aulas. Mas uma das coisas que eu tive de resgatar por entre as linhas deste glorioso tempo foi este "romance" que vivi e o qual irei contar em 3 actos através dos meus queridinhos habitantes do Admirável Mundo Moderno. Na realidade esta História estendeu-se por dois anos de Liceu, com muitas aventuras à mistura, mas eu só relatei os acontecimentos mais marcantes desta paixão e espero que gostem porque acredito que provavelmente já passaram por um momento assim).
A música ecoava por todo o pátio da escola qual uma banda sonora ao momento de convívio que os adolescentes do Liceu viviam naquele instante. Eram quase duas horas e aqueles que iriam ter aulas de tarde achavam-se a desfrutar da sua hora de almoço… namorando, estudando ou conversando.
Um grupo de jovens moças sentadas junto de um canteiro conversava sobre os artigos que a revista de adolescentes havia escrito naquela quinzena, nomeadamente sobre rapazes, as suas séries e novelas preferidas, os seus ídolos, roupa e maquilhagem. Joana dava a sua opinião sobre o que iria acontecer nos próximos episódios da novela que todos os adolescentes acompanhavam fanaticamente e Marta e Cátia, constituindo uma atenta plateia, bebiam-lhe as palavras e acenavam afirmativamente com a cabeça. Becky achava-se de pé, escutando música no seu mp3, alheia ao que a amiga dizia, já havia conversando com ela sobre aquele tema. Dançava timidamente ao som da sua música quando o viu sair do bar da escola…
Os seus olhares cruzaram-se e a face de Becky tornou-se carmesim… ele sorriu para si mesmo e Becky sentiu-se tremendamente estúpida… daquela forma estúpida que só ele a conseguia fazer sentir.
Quando um dos amigos dele passou, ele o chamou e ficaram a conversar. Embora ele estivesse atento ao que o amigo dizia, arranjava sempre uma maneira discreta de olhar para Becky e ela, apaixonada como estava, não deixava de sentir um certo aperto na boca do estômago e o coração a pulsar mais depressa contra as suas costelas.
O seu cérebro perdeu-se momentaneamente no mar de recordações que coloriam aquela paixoneta. Diogo era um daqueles rapazes por quem as meninas facilmente se apaixonavam. De cabelos loiros e olhos azuis, era alto e de constituição musculosa, digna de quem passara algum tempo no ginásio, tudo nele era simétrico, como se tivesse sido moldado por algum Leonardo da Vinci, «um verdadeiro Deus grego», como Becky costumava dizer. E para além deste naipe de agradáveis características físicas, Diogo era skater e baterista de uma banda de garagem, um ano mais velho que Becky, pertencia ao grupo de alunos populares do Liceu e um tudo ou nada perigoso… era bem dotado fisicamente, no entanto não parecia constituir o tipo de genro que os pais de Becky gostariam de ter.
Veio-lhe ao pensamento a primeira vez que os seus olhares se haviam cruzado. Becky tinha ido ao Liceu com Marta e Cátia (na altura ainda não conhecia Joana), para se inscrever e concluídas as inscrições, haviam combinado de ir comer um gelado. Aquela escola era tão diferente da que anteriormente haviam estudado… um novo mundo prestes a ser explorado e quando elas se dirigiam para o portão das traseiras, passaram por um grupo de alunos, maioritariamente constituído por apreciadores de punk, quase todos fumavam, tinham piercings e cara de poucos amigos. Deram por elas a tremer, principalmente porque eles haviam começado a assobiar e a dizer «Hmmm, carne fresca», uma espécie de ritual de praxe que faziam quase todos os anos com os novos alunos.
Becky, como era particularmente mais branca do que as suas amigas devido às suas raízes inglesas, sentiu as bochechas gorduchas a arder de vergonha. Baixou a cabeça e caminhou apressadamente, no entanto, a curiosidade era mais forte do que ela e pelo canto do olho viu pela primeira vez Diogo… sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha como se lhe tivessem dado um banho de água fria, ele estava abraçado à sua então namorada e sorriu alegremente para Becky.
Quando trespassou os portões, ela não resistiu a olhar para trás e viu que ele ainda olhava para ela… Ainda voltou a encontrá-lo mais duas vezes durante as férias, uma vez no salão de bowling e da outra vez na fila para o cinema… e os seus olhares sempre se cruzavam. De noite ela chegava a casa e dava por ela a pensar nele… era tudo tão recente e tão misterioso que dava um certo romantismo à situação.
Sonhou com ele, pensava nele a quase toda a hora e ao seu diário confessava os seus segredos, a sensação que sentia quando olhava para ele, o modo como os seus olhos azuis faziam o seu coração bater mais depressa… a Harry, o nome do Dário, dirigia uma série de cartas relatando pormenorizadamente as escassas vezes em que eles haviam encontrado… sentia-se até um pouco estúpida com a situação. Porém, quando a escola começou ela não deixou de sentir uma certa alegria quando o voltou a encontrar. Ele pareceu sentir o mesmo pois ficou durante dois intermináveis minutos a olhar fixamente para ela, de tal maneira que um dos punks o teve de abanar para chamar novamente à terra.
Becky estava decidida a descobrir mais sobre ele, uma vez que até então todos os dados pessoais sobre ele permaneciam desconhecidos. Descobriu-lhe o nome quando o viu a discutir com a namorada… «Diogo, não me vires as costas», gritou ela e Becky sentiu-se duplamente feliz, primeiro porque eles haviam discutido e segundo porque achara o nome dele bonito, aos seus ouvidos até soava melodicamente. Todos os outros dados foi pescando ao acaso e como eles nunca haviam falado, Becky conjurou por si mesma uma história sobre ele, desconhecendo totalmente se batia ou não com a realidade.
Quando conheceu Joana e constatou que ela era daquelas raras pessoas acabadas de conhecer com quem a conversa fluía naturalmente como se já se tivessem conhecido à anos, decidiu abrir o seu coração e contou-lhe o que sentia por Diogo. Joana sabia que eles eram totalmente diferentes um do outro, no entanto até iria ter certa piada vê-los aos dois namorando, sem dúvida seriam um casal bastante peculiar.
E os meses foram-se passando e eles sempre olhando um para o outro, sem nunca se terem falado. De todas as situações ele insistia em passar perto dela, conduta que ela procurava não seguir pois sentia-se intimidada quando passava por perto dos punks. Às vezes até dava por ela a pensar se alguma vez uma relação entre eles daria certo, eram tão diferentes, e ele tinha cara de ser daquelas pessoas que se deixava influenciar pelos amigos. A única coisa que podia fazer era mesmo imaginar como seria estar com ele. No entanto, todas as atitudes dele demonstravam que Becky não lhe era indiferente. Diogo abraçava-se à suas amigas e olhava descaradamente para Becky para ver a sua reacção... passava muitas vezes perto dela para saber do que falava... uma vez até se recusara a acompanhar a namorada ao bar só para poder ficar a olhar para Becky. Todas aquelas atitudes por parte dele deixavam-na totalmente confusa. Porquê que ele não tentava nada? E na verdade, Diogo mexia com ela de tal forma que Becky passava a maior parte do tempo a pensar nele, às vezes nem se conseguia concentrar nas aulas pois estava com os pensamentos a leste da matéria. Uma vez chegara mesmo a rasgar os seus apontamentos para estudar para o teste de Geografia... havia visto o Diogo aos beijos com a namorada. Era tudo tão recente e tão confuso... nunca nenhum rapaz havia mexido com o seu coração de tal forma... parecia que pela primeira vez na vida estava a experimentar algo que se assemelhasse ao amor.
O toque de entrada havia soado e Becky ainda olhava para ele, como se o pano de fundo houvesse desaparecido e naquele momento sentiu que só existissem eles… até que…
- Ei, terra chama Becky – gritou Joana dando-lhe um ligeiro safanão. – ‘Tá na hora da aula de História.
- Sempre no mundo da lua, Becky – troçou Marta enquanto agarrava nos seus cadernos. – ‘Bora que o prof. Não gosta nada de atrasos.
Marta e Cátia avisaram que ainda iam à casa de banho e deixaram as duas amigas para trás. Becky arrumou as suas coisas de uma forma irritantemente lenta, queria fazer tempo para puder apreciá-lo antes de passar duas entediantes horas a ouvir o professor a falar do Império Romano. Joana olhou à volta e quando viu Diogo especado junto a um pilar a conversar com seu amigo apercebeu-se do motivo da indolência de Becky.
- Ele mais um pouco e come-te com os olhos – comentou Joana.
- Até que não me importava – riu Becky colocando a mochila sobre os ombros.
- Não sei como é que aguentas ficar só a olhar p’ra ele. Quando é que ganhas coragem e vais lá perguntar qual é a dele?
E antes que Becky pudesse responder um dos punks aproximou-se de Diogo e fingiu-se socá-lo no estômago. Os três amigos desataram a rir.
- Aquilo responde a tua pergunta?
- Ele é bonito, só é pena ter os amigos que têm. São super estranhos!
- Esquece isso, vamos para a aula.
Enquanto se encaminhavam para o edifício escolar, Becky olhou de soslaio e viu que Diogo se colocara em bicos dos pés para ver para onde ela se dirigia.
Felizmente o professor Carlos havia faltado, tinha ido a uma conferência qualquer, explícita para professores de História. Becky sentiu-se aos pulos interiormente, se se apressasse talvez ainda conseguia ver o Diogo, antes de ele entrar para a aula de Biologia.
- Quê que fazem cá fora? – perguntou Gustavo quando viu as suas colegas de turma a sair do bloco. Ele e Ivan chegavam quase sempre atrasados às aulas e especialmente às aulas depois do almoço. – Não me digam que foram todas expulsas?
- Nada disso, Gus – Joana respondeu. – O prof. É que faltou. Quatro horinhas de almoço para depois termos estômago para aturar a stôra de Português... nada mal, hein?
Diogo passava por eles naquele momento e ouvira o que Joana dissera. Também já estava atrasado para a aula, mas quando as palavras da jovem entraram nos seus ouvidos, quase que por impulso ele voltou para trás e foi sentar-se junto dos seus amigos punks que também estranharam o comportamento.
- Então, Didz, não ias ter aula?
- Bah, não ‘tou com vontade de ir – explicou Diogo atirando a sua mochila para o chão e sentando-se junto dos amigos.
Joana e Becky que estavam a pouca distância do banco dos punks trocaram um olhar significativo. Becky não se achava uma pessoa convencida, mas de certeza que ele havia faltado a aula para a poder ver, e isso veio-se a comprovar durante aquele serão agradável que eles passaram no pátio da escola, a rir das piadas de Gustavo e das histórias surreais que o seu colega David contava. Sempre pelo canto do olho, Becky constatava que Diogo olhava para ela... trocaram olhares que pareciam ter significados, e mais ninguém parecia reparar no que se passava, só eles, e evidentemente Joana.
- Não sei como é que ele ainda não ficou com um torcicolo – segredou ela ao ouvido da amiga.
Porém, Becky nem fez caso. Aquele momento era seu e do Diogo, sentia-se a flutuar num mundo paralelo àquele em que vivia. Ele faltou à aula para me ver!, dizia uma voz no seu inconsciente. E não pára de olhar para mim! Ela estava desejosa de chegar a casa para partilhar aqueles acontecimentos com Harry.
*
Uns dias mais tarde, elas estavam almoçando num snack-bar nas imediações da escola. Era o lugar de eleição da maior parte dos alunos que menosprezavam a comida integrável da escola. Ali comiam cachorros-quentes, hambúrgueres, sandes, e toda àquela espécie de comida que faria qualquer nutricionista soltar gritos de indignação.
Joana e Becky conversavam animadamente sobre os planos para o fim-de-semana, quando ele entrou.
Becky engasgou-se com as batatas fritas, pelo que teve de beber uma grande golada de Coca-Cola para as conseguir engolir. Ele a viu e sentiu-se momentaneamente patético, sem saber o que fazer, até ser trazido à realidade por um grupo de jovens que tencionava entrar no estabelecimento mas que não podia pois ele estava a empatar a porta. Ele desviou-se e foi na direcção da máquina de cigarros, introduzindo as moedas para depois tirar o maço.
- Diogo, fumar mata – disse uma garota de encaracolados cabelos negros.
Era Diana, uma jovem que estudava na mesma turma que Joana e Becky, ela era incrivelmente popular, pois pertencia à Associação de Estudantes e também porque era uma pessoa afável, daquele tipo de pessoas de quem facilmente gostamos.
- Têm de ser, não é – disse Diogo sorrindo timidamente, em seguida cumprimentou-a com dois beijos na cara e os dois ficaram a conversar.
- Não sabia que a Diana conhecia o Didz – comentou Joana enquanto bebia distraidamente o seu Ice-Tea.
Quando se despediram, Diogo abandonou o snack-bar e Diana foi sentar-se na mesa ao lado da delas, juntamente com algumas pessoas da Associação de Estudantes que estavam a planejar o próximo evento.
Becky deu por ela a conjecturar inúmeras possibilidades de pedir a Diana que lhe apresentasse Diogo, e a sorte sorriu-lhe quanto as pessoas da Associação abandonaram o snack-bar e Diana foi-se sentar na mesa que elas para acabar a sua sandes de atum.
- Di, quem era aquele moço com quem ‘tavas a falar? – perguntou Becky fingindo nada saber sobre Diogo.
- O Didz? – perguntou Diana com a boca cheia de comida. – Ah, o Diogo é demais, mesmo. Ele toca bateria na banda do Bruno, o tal que eu disse que gostava de mim. Como o Bruno me têm convidado para eu assistir aos ensaios, já conheço a banda toda e o Diogo é o mais louco deles todos. Mas coitado, ‘tava agora a contar que acabou com a namorada... é pena... sempre pensei que eles iam dar certo.
Becky sentiu uma súbita vontade de dançar, cantar, dar cambalhotas... DIOGO ESTAVA DESCOMPROMETIDO.
- Meninas, fiquem só aqui um bocadinho com as minhas cenas que eu tenho de ir lá fora ver se apanho Bruno – pediu Diana enquanto se levantava. – Vamos dar uma festa e ‘távamos a pensar se ele ia querer tocar.
E saiu, deixando para trás a sua mochila e duas jovens alarmadas. Joana não sabia como reagir e Becky parecia que tinha o coração cheio de ar.
- Jo, ele acabou com aquela vaca... secalhar agora até tenho chances.
- Vocês nunca falaram. Sabes lá se ele não é daquele tipo que quando abre a boca só diz merda?
- Tenho que atacar – Becky nem ouvira o que amiga havia dito. – Se conseguisse o número dele.
Joana ouvira o que amiga havia dito... as duas olharam ao mesmo tempo para a mochila de Diana e foi então que se fez luz nas suas cabeças. Joana abanou a cabeça de modo negativo, achou que iria ser um escândalo se Diana entrasse e as visse a mexer nas suas coisas, mas Becky olhou para ela com aquele olhar que as mães já sabiam reconhecer à distância... o olhar de quem pedia alguma coisa.
- Oh, ‘tá bem, mas fica de olho e vê se a Diana não entra! Só me metes em confusões!
Joana conseguiu surripiar o telemóvel da Diana e anotou o número de Diogo. Passou o papel à amiga que o guardou como se fosse algo invulgarmente raro e precioso.
*
Eram quase sete horas da tarde e elas eram quase as últimas alunas da escola. Haviam ficado até depois das aulas para o ensaio do grupo de teatro e já escurecera. O típico vento invernal fustigou-lhes os cabelos e as obrigou a apertarem contra si os casacos.
- O stôr hoje puxou bué por nós – queixou-se Joana.
Mas Becky não ouvira. Ela havia olhado como era hábito para o banco dos punks e constatou que Diogo estava lá com mais três amigos, conversando animadamente e lançando baforadas de fumo para o ar. Fora eles e elas, somente um ou outro empregado se achava naquele pátio, o resto dos alunos certamente já tinha ido para a casa
-... só acho o personagem do Ricardo devia de falar mais, normalmente os pais falam que se farta, este é muito calado, não achas? – Joana olhou de forma indagadora para a amiga, no entanto viu que ela estava totalmente distraída e quando viu Diogo sentado apercebeu-se logo da razão. – Becky, acho que o bar ainda está aberto, anda comprar água – e puxou a amiga pelo braço até ao bar da escola.
Becky deixou-se arrastar. Em outra altura provavelmente teria contestado, principalmente porque no dia seguinte era feriado e como seria uma quinta-feira, os professores haviam aproveitado para fazer ponto, pelo que teriam um fim de semana prolongado e ela só o voltaria a ver na próxima segunda-feira, mas dentro a sua carteira repousava o papelzinho com o número de telefone dele e Becky ganharia coragem para dizer-lhe qualquer coisa.
Compararam a água e quando iam a sair do bar, cruzaram-se na porta com o Diogo e os amigos que estavam a entrar.
- Pessoal, acho melhor irmos embora – sugeriu Diogo ao trocar um olhar com Becky quando a viu passar por ele.
- Mas tu tinhas dito que ‘tavas com sede, meu – relembrou o amigo de piercing no lábio.
- O bar já ‘tá a fechar – limitou-se a dizer Diogo. Os seus dois amigos encolheram os ombros e seguiram Joana e Becky até à entrada da escola.
Na entrada da escola os dois grupinhos sentaram-se em lugares distintos, aproximadamente ao pé uns dos outros. Eram já poucos os carros que se achavam no parque de estacionamento e Joana telefonara à sua mãe para a ir buscar a ela e a Becky. Os rapazes também aguardavam alguém e conversavam animadamente e em voz alta para chamar à atenção delas, era típico dos rapazes daquela idade.
- Ei tu – chamou o amigo de Diogo com os cabelos em forma de canudos, dirigia-se à Joana. – Não és do grupo de teatro.
- Sou – respondeu Joana.
- Curti bué da última peça – elogiou o rapaz. – Tens jeito.
- Obrigada.
E foram-se aproximando sem darem por isso. Becky e Diogo permaneciam calados, Joana e os dois rapazes eram quem monopolizavam a conversa, o que até era mais agradável, pois nenhum dos dois saberia o que dizer. Becky sentia o seu coração a bater como um tambor da selva. Nunca havia estado tão perto dele como naquele momento. E Diogo também parecia estar constrangido.
- Parece que se esqueceram de nós – troçou o rapaz de piercing após consultar o relógio e verificar que eram já sete e meia.
Meu dito, meu feito. Um jipe apareceu com uma mulher loira conduzi-lo, Becky identificou-a como sendo a mãe de Diogo, já a conhecia de vista.
- ‘Bora, Didz, a tua mãe chegou – disse o rapaz de piercing. – Querem boleia, meninas?
- Não, a minha mãe ‘tá quase a chegar – recusou Joana com um sorriso.
- Então xau ai, até segunda.
E foram-se embora. Pouco depois chegou a mãe de Joana e elas foram-se embora. Becky, sentada no banco de trás, sentia-se absolutamente patética. Não proferira uma só palavra na presença do Diogo. Provavelmente ele achava-a uma tremenda idiota. Joana conversara animadamente com outros dois e de certeza que o Diogo a achou muito mais interessante. Tinha vontade de chorar de raiva dela mesma, não sabia porquê que se sentia tão atordoada quando ele estava por perto, tinha até vergonha de respirar, temia fazer qualquer movimento que o levasse a pensar que ela era uma «totó». Mas ele era tão bonito de perto... os cabelos loiros, os olhos azuis, o narizinho perfeito... Becky já sabia com quem iria sonhar logo à noite.


3 comentários:
Temos romance! Isto ja parece a Malhaçao, aceita o meu conselho e vai escrever guiões pros morangos com açucar LOOL
Admiro como é que consegues resumir em tres actos uma cena que deu assunto para dezenas de telefonemas. Gostei da forma como transpuseste os aconteceimentos, mas eu tenho a vantagem de saber como é que a historia acaba! Adoro histórias baseadas em factos reais e acho que o sr. a quem a historia diz respeito tambem ia gostar ;)
Menina vc escreve...o primeiro amor é sempre uma emoção marcante.
Veremos o desenrolar da história.
Bjks.
Hummm... quer dizer que o sr. da história iria gostar?
Parece que a coisa ainda vai rolar... =)
Adorei!
www.caldeirao-da-bruxa.myblog.com.br
Enviar um comentário