
Este texto foi redigido incansavelmente até as 4:43 da manhã, no entanto foi dos textos que mais prazer me deu a escrever.
O professor de Introdução à Economia, Bernardo Campos, havia lançado um trabalho para os alunos realizarem e como tal era necessário dividir a turma em vários grupos de trabalho. Raquel estava um bocado à toa, não sabia bem com quem ficar. Era ainda nova na turma e a verdade é que não nutria qualquer sentimento positivo pelas suas colegas e evidentemente que o este mesmo sentimento era recíproco. Cada dia naquela sala de aulas a conviver com elas era um tormento algo semelhante às torturas da Inquisição. Se porventura tivesse reprovado dois anos, ou até mesmo se tivesse nascido mais tarde ela poderia dar-se ao luxo de estar na turma da Joana, com os seus amigos, aqueles que, embora ela conhecesse à muito pouco tempo, ela já considerava seus verdadeiros amigos.
Ela acabou por ter de ficar no grupo das socialités, exactamente aquelas que ela mais detestava.
- Ora bem, aqui têm as vossas folhas – anunciou o professor Campos enquanto andava pelo grupo no qual Raquel se encontrava. A cada passo de cada a sua volumosa barriga abanava qual gelatina. – Vão ter que analisar esses dados na perspectiva marxista… - e posto isto encaminhou-se para outro grupo, sempre com as suas carnes a abanar.
E iniciaram rapidamente o trabalho. Claro está que com mais interrupções do que era de esperar, elas interrompiam muitas vezes para fazerem comentários desnecessários pelo facto de uma das colegas não ter as meias a combinar com o chapéu… Raquel limitava-se a revirar os olhos, ela queria apressar logo o trabalho pois quando mais cedo terminasse mais cedo se veria livre delas. Por entre as risadinhas histéricas, uma das moças deu um beijo na bochecha da garota de rosto triangular.
- Ai – disse ela num falso sentimento de excitação -, não faças isso que sabes que eu não resisto e ainda viro lésbica.
- Não faças isso – pediu a outra. – Já basta uma lésbica nesta turma.
Raquel levantou os olhos da sua folha e ao olhar em volta constatou que grande parte da mesa estava a olhar para ela… voltou a enterrar os olhos na ficha, sentindo-se como se tivesse sido empurrada abruptamente para um precipício… pensariam que ela era lésbica?! Sempre a haviam visto de forma diferente, mas chegar àquele ponto!!! Mil e um sentimentos trespassaram por ela naquele instante e nenhuma palavra seria capaz de explicar o quão invulgar ela estava a sentir-se naquele momento… procurou terminar a ficha, no entanto a sorte não sorriu a seu favor. Foram o último grupo a terminar e igualmente o último grupo a sair da sala. O professor Campos ia no corredor com as integrantes do grupo, repreendendo-as por elas terem passado grande parte da aula a dar risadinhas idiotas. Raquel viu Joana, Becky e Diana juntas a um canto a conversar e aproximou-se delas; o professor Campos aproveitou a deixa para se ir embora, como habitualmente as suas carnes abanavam.
- Bom, Raquel, já que o teu turno de ama começou a gente deixa-te aqui com as criancinhas – atirou a moça do rosto triangular no seu habitual tom de voz jocoso. E elas afastaram-se dando risadinhas histéricas.
- Que vaca! – ofendeu Diana olhando-as a afastarem-se. – Na festa do Duarte não ‘tava nada feliz quando se meteu a vomitar a Vodka!
- Ela vomitou na festa do Duarte?! – admirou Raquel. Duarte era um dos riquinhos snobes da escola e havia dado uma festa de anos onde obviamente que só havia convidado as pessoas de “linhagem” lá do Liceu. Diana tivera o infortúnio de ir arrastada pelo seu namorado Bruno, cuja banda havia sido convidada a tocar na festa.
– Oh, emborcou Vodka pura e vomitou no tapetezinho preferido da mãe do Duarte. Chorava que parecia uma manteiga derretida. É bem feita! Não sabem beber e depois admiram-se… e como também não gosto nada dela! Eu e o Bruno fartamo-nos de rir.
- Eu não sei como é que não pedes transferência de turma, Rachel – opinou Becky. – Elas são insuportáveis!
Raquel limitou-se a encolher os ombros… ainda tinha nos ouvidos o ressoar do comentário mordaz da sua colega… Ela achava-se feia, nunca tivera um namorado, e por não vestir as roupas que as suas colegas usavam eram mais do que pontos para que a considerassem lésbica… ela sabia que não o era… mas então porque nunca tivera um namorado? Porque nenhum rapaz se interessava por ela? Sentiram eles exactamente o mesmo? Pensariam eles que ela não era heterossexual? Quantas dúvidas…
Sentaram-se no bar da escola e depois das suas amigas terem ido buscar a comida, Raquel sentia-se pronta a abordar a questão e tentar fisgar algo.
- Meninas, o quê que vocês acham de mim? – perguntou ela.
- Que és fixe, uma pessoa espectacular – respondeu prontamente a Joana e Diana e Becky acenaram afirmativamente com a cabeça.
- Sim… mas e se vocês fossem rapazes… namorariam comigo?
- Porquê a pergunta? – espantou-se Becky.
- Sim ou não?!
- Bem, eu acho que sim – respondeu algo atrapalhada a Becky. – Tu és uma pessoa muito fixe, engraçada… tens um mundinho dentro de ti, e isso torna-te interessante.
Raquel fitou a mesa: - Vocês só dizem isso porque são minhas amigas!
- Raquel, o quê que se passa? – quis saber Joana.
- O quê que se passa?! – repetiu Raquel com um toque de rancor na voz. – O que se passa é que eu não sou normal!!! Porquê que os rapazes não olham p’ra mim?! Porquê que não gostam de mim?! Porquê que só me querem como amiga?! - e olhou para as amigas com um ar inquiridor.
- Oh, Raquel, não sejas assim contigo mesma – recriminou Diana. – Secalhar até querem… tu é que nunca reparaste e…
- Não, não querem, Di – contrariou-a Raquel. – Eles olham p’ra mim como se eu nada fosse e os poucos que têm a coragem de se aproximar ficam só pela amizade e deposi ainda mandam a dica «quem me dera ter uma namorada como tu!». E porque não querem nada comigo?! Serei assim tão repugnante?!
- Tu não és repugnante! – ripostou Joana. – Simplesmente eles não eram a pessoa certa!
- E porque não posso divertir-me com a errada?! – perguntou Raquel. – É simples: porque os rapazes não querem nada comigo! Acham normal eu nunca ter tido um namorado?
- Eu também nunca tive – disse Becky. – Tirando o Oliver, mas ele foi só uma cena de Verão, uns beijinhos e tal e depois ele voltou para Liverpool…
- Sim, Becky, mas tu tens quinze anos – contrapôs Raquel. – Na tua idade ainda é aceitável… agora eu tenho dezassete… nunca tive um namorado, nunca ninguém gostou de mim e sequer dei um beijo na boca… as pessoas devem olhar p’ra mim de lado…
- Deixa-as olhar – interrompeu Diana.
- Além disso com a minha idade já se fazem mais coisas do que dar beijinhos!
- ‘Tás a falar de sexo?! – perguntou Diana erguendo o sobrolho. – O teu problema então é que te sentes atrasada em relação às tuas colegas porque elas já andaram a abrir as pernas e tu não! Raquel as coisas acontecem no momento que têm que acontecer e p’ra ti simplesmente ainda não foi o momento certo. Manda p’ra merda quem pensa que tu és menos só porque ainda és virgem. As pessoas gostam de pensar nas virgens como meninhas puras, inocentes e ingénuas… mas sabes que mais?! Eu ainda sou virgem, o Bruno não é e falamos de sexo na boa e ele diz que eu percebo mais do assunto que a ex-namorada dele que já não era! Ouve, Raquel! Cada um tem o seu ritmo, e lá porque as moças da tua idade já andam aos saltinhos em cima dos namoradinhos lindinhos delas não quer dizer que tens que andar também! Dá tempo ao tempo…
- E quando é que vai ser o momento certo?! – perguntou Raquel com algum tom de troça na voz. Nada do que Diana lhe havia dito servira de ajuda… ela continua a pensar que o problema era justamente com ela. – Vai ser daqui a vinte anos? Trinta? Quarenta? A julgar por como eu sou feira talvez venha a ser nunca!
- Tu nãos és feia!!! – exaltou-se Joana. Algumas pessoas das outras mesas olharam para ver o que se passava pois havia já algum tempo que a conversa estava demasiado acalorada naquela mesa.
- Sou!!! – contrapôs Raquel.
- Raquel, eu também já passei por isso – contou Becky. – Também me achava super feia, mas agora tenho estado a ultrapassar. Tenho tomado mais conta de mim e procuro agradar a quem me interessa. Vai haver sempre alguém que nos vai achar feia, não podemos agradar a toda a gente!
- Sim, mas eu não tenho ninguém que me ache bonita!
Parecia que estavam a bater com a cabeça contra a parede. Nada do que diziam iam mudar a forma como ela sempre se havia visto: feia! O seu complexo de inferioridade não iria permitir outra visão e ele manifestava-se sempre… como um vírus, estrangulando todas as hipóteses de felicidade, culpabilizando a sua fealdade por todos os seus fracassos… ela tentava livrar-se dele mas era impossível, ele permanecia qual um parasita… um hóspede indesejável sugando todos os seus pensamentos positivos e contaminando-a com a escuridão, o medo e incerteza.
Elas iam abrir a boca para retaliar mas nesse instante soou o toque de entrada.
- Só não te damos o sermão porque temos de ir para a aula de Educação Física – disse Joana enquanto elas agarravam nas suas coisas e se levantavam. – Vens assistir?
- Não posso, tenho que estudar pró teste de Economia – mentiu Raquel. No fundo necessitava de estar sozinha.
- Não tinhas dito que tinhas teste esta semana!
- O stôr marcou hoje! Aquele Campos adora torturar os alunos!
- OK – compreendeu Diana. – Então falamos na Net e qualquer coisa apita pró telemóvel.
- E nós somos tuas amigas – concluiu Becky – e de VERDADE – colocou ênfase ao dizer isto. – Só queremos o melhor para ti e nunca te iríamos fazer sofrer.
E com um último sorriso afastaram-se em direcção ao Pavilhão Desportivo. Raquel esperou cinco minutos até igualmente se levantar e ir embora.
Saiu da escola e caminhou pela rua, guiada maquinalmente pelas suas pernas mas perdida em pensamentos. O parasita manifestara-se e ela sentia um frio glacial a percorrer cada centímetro do seu corpo…
Caminhava por entre as ruas, cruzando-se com pessoas… algumas sorriam e ela já automaticamente abria os lábios num ténue e tímido sorriso, mas eis que ele se manifestava! «Quem achas que és para os olhar nos olhos?! Para sorrires para eles?!». Pois é! Ela era feia! Nada nela era interessante e poucos eram os que gostavam dela… ela não tinha o direito de olhar para as outras pessoas nos olhos… eles eram todos superiores a ela! Eram bonitos, eram interessantes… e ela… um mero erro, um acaso! «Eles só riem porque estão a troçar contigo! És o ser mais horripilante que caminha nesta rua! Um verdadeiro Adamastor». E passou um grupo de rapazes! Mas nenhum a olhou! «Estavas à espera do quê?! Ainda acreditas em milagres?!» E era verdade! Porque haveriam eles, tão belos, interessantes e inteligentes de olhar para um ser como ela… uma mera sombra e tudo o que ela fizesse nunca os chamaria à atenção… era como uma formiga a tentar sobressair num grupo de girafas.
Viu um grupo de idosas senhoras inglesas de mochilas às costas a passear calmamente pela rua, olhando com admiração para a paisagem tão divergente da do seu país, com um ar tão sereno e imaginou-se assim no futuro. Uma velha solteirona a viajar pelo mundo, somente ela e a sua mochila… quem mais seria lunático para a acompanhar? «Achas que vais ser alguém no futuro?! Quem pensas que és para te considerares merecedora de tal sorte?!».
Um casal de namorados passou aos beijos… ali estava aquilo que ela nunca sentira nem nunca haveria de sentir! A felicidade de ser amada… o calor de um abraço… o doce toque de um beijo nos lábios… o arrepio de um beijo no pescoço… ou a emoção de um «amo-te» sussurrado ao ouvido… Ela nunca soube o que era ser amada senão pelos seus pais que, à semelhança de qualquer criador, amavam a sua obra, porém não havia como equiparar tal sentimento. Jamais saberia qual era a sensação de ter alguém que precisasse tanto de nós como do ar para respirar… alguém que acordasse a pensar em nós e que em sonhos fosse povoado com a nossa imagem… «Tu nunca conhecerás o amor! Quem iria amar alguém como TU?».
O caloroso saudar da sua vizinha fez com que ela fosse trazida à terra tão abruptamente como alguém que acorda com o ressoar irritante de um despertador. Finalmente chegara a casa. «Ela só fala contigo porque tem pena de ti», foi a cartada final do parasita… o «touché» que finalizara o duelo.
- Raquel, chegaste mesmo a tempo de evitar a chuva – disse a sua mãe lá da cozinha quando ouviu a filha a fechar a porta da entrada. – ‘Tou a fazer o jantar.
Mas ainda faltava para a hora da refeição. Passou pela sala e viu o seu pai deitado no sofá a dormir, com um livro aberto sobre o peito. Ela sorriu e preferindo não o acordar foi para o seu quarto.
Quando lá entrou foi quase como se tivesse entrado dentro de uma banheira com água quente! O seu quarto… o único lugar do mundo onde estava em segurança e onde o parasita não a conseguia atingir… o ninho onde estava protegida dos olhares da multidão… dos comentários indesejados… do desprezo e do repúdio… naquele quarto ainda sentia uma réstia de amor.
Dobby, o seu cãozinho com dois meses saiu da cesta e veio cumprimentá-la, abanando animadamente o rabo. Ganhara aquele cão recentemente do seu tio, uma companhia agora que estava em outra cidade. Dobby e o Joey, o seu ursinho de pelúcia. Eram as suas eternas companhias naquele seu mundinho, era com eles que falava e para espanto seu parecia que eles respondiam.
- O dia foi bom, Dobby – disse ela abaixando para fazer festas ao cachorrinho, como se ele lhe tivesse perguntado algo. – O de sempre. E tu, Joey?
«O habitual, a mesma pasmaceira! O Dobby tentou roer-me, mas aqui na cama estou em segurança».
- Dobby, não podes roer o Joey – repreendeu Raquel. – Ele é nosso amigo – e de repente sentiu algo acordar dentro dela, como um lampejo de lucidez que a fez aterrar com os pés no chão. Ela levantou-se e abanou a cabeça atordoada. – Eu sou louca! Estou a falar sozinha!!! Louca, louca, louca!!! É por isso que os rapazes não se interessam por mim!!! Quem é que queria namorar com alguém que fala com um cão e com um peluche?
Desconfiava que caso isso acontecesse a sua mãe recorreria a algum psiquiatra e os seus amigos afastar-se-iam dela. Aproximou-se então da janela onde a chuva grossa batia insistentemente contra o vidro e o vento fustigava as folhas das árvores.
Encostou a sua testa contra o vidro… estava frio. Fechou os olhos e pensou… tudo lhe vinha à cabeça como um flashback. A fealdade… o complexo de inferidade… a dor de nunca ter sido ama… e… seria lésbica?!
- Elas pensam que eu sou lésbica! – murmurou ela.
«Não, não és» contrariou Joey. «Até podes ser assexual, mas lésbica não… eu ouvi-te estes anos todos enquanto dormias… a sussurrar o nome de cada um deles, dos moços de quem gostastes». Cada um… cada um que a havia desiludido… que a havia enganado… que a havia desprezado… que no fundo nunca haveriam de querer nada com ela… ela não os merecia!!! «Elas não te conhecem! Não sabem como choras de noite com o teu travesseiro! O que dizes quando estás sozinha na escuridão do teu quarto! Desconhecem por completo o frio que assola o teu coração! Elas não te conhecem!».
- E tu também não! – atirou ela. – És só um velho urso. Ninguém me conhece! Muito menos eu…
Ela nãoera interessante! O que poderia haver de interessante em alguém que falava sozinho? Alguém tão desigual aos outros da sua idade? Que preferia livros e filmes ao invés de discotecas e concertos? Ela era estranha!
- Raquel, vem p’ra mesa – chamou a sua mãe.
Nem dera pelo tempo passar!
A refeição foi normal. Os seus pais passaram grande parte do tempo a debater os temas actuais do Admirável Mundo enquanto ela se debatia numa inglória luta interior.
Depois de comer foi levar a comida ao Dobby e ficou a vê-lo comer enquanto remoía se deveria ou não de perguntar a opinião aos seus pais. Jamais o faria às suas amigas, era algo de que se envergonhava…
Quando Dobby estava já sonolento por tanto ter comido, ela agarrou-o como se fosse um bebé e foi até à sala onde os seus pais se achavam sentados a ver um filme a beber chocolate quente.
- Queres chocolate? – ofereceu Louise Dias.
- Não – ela sentou-se no sofá e embalou o Dobby. – Preciso de falar com vocês.
Os seus pais trocaram um olhar.
- Diz lá – incentivou Nelson Dias.
- Bem, é um bocado complicado… eu… aa…
- Vais pedir dinheiro? – perguntou o pai por entre uma golada de chocolate quente.
- Não… não é nada disso… é só que… vocês acham que eu sou… que sou lésbica?
Nelson Dias engasgou-se com a sua bebida e Louise jogou a mão ao peito, dizendo: - Filha, porque pensaríamos semelhante coisa?
- Bem… é que as minhas colegas acham que eu sou lésbica – e narrou o episódio.
- Mas que insolentes!!! – enervou-se Nelson, o seu rosto estava vermelho e ele bufava qual um touro enraivecido. – Quem têm elas a ver com isso? A vida não é tua?!
- E tu és lésbica, filha? – perguntou Louise.
- Não… claro que não, eu não me sinto atraída por moças de modo algum…
- Filha, se fosses acredita que não teria mal nenhum – reconfortou Louise. – A sexualidade de uma pessoa em nada afecta o seu carácter, e o carácter é o que de mais importante temos. As tuas colegas é que revelaram não possuir nenhum carácter com as críticas idiotas delas…
- Quer dizer que se eu fosse não teria mal algum?
- Claro que não – disse Nelson. – Queremos a tua felicidade! Eu preferia ver-te feliz com uma mulher do que infeliz com um homem.
E algo dentro dela sorriu. A opinião dos seus pais era a que verdadeiramente interessava e a sua condescendência era algo animador.
- Elas só fizeram esse comentário porque eu não tenho namorado.
- Ah, mas é o típico comentário de quem não tem na cabeça nada mais do que caca – disse Louise enraivecida. - Estas pessoas ou são 8 ou 80. Se tivesses um monte de namorados eras “fácil demais”, e se não tens nenhum és lésbica?! Santa ignorância! Mas deixa filha, independentemente do que tenhas ou sejas vão sempre falar de ti e tu não podes mudar a forma como eles te vêem por isso limita-te a ser quem és e não deixes de fazer o que tens de fazer com receio da repreensão de alguém.
- Sim, mas enquanto morares aqui nesta casa não te esqueças de que há regras – relembrou o pai com um sorriso.
Ela olhou para o Dobby que dormia tranquilamente, livre de quaisquer preocupações e por momentos invejou-o.
- Acho que há algo de errado comigo! A sério… porquê que ninguém gosta de mim?!
- Então, filha! Nós gostamos… e os teus amigos também…
- Estou a falar de rapazes, mãe! Porquê que não olham p’ra mim… o quê que interessa a um rapaz quando olha p’ra alguém, pai?
- Oh, filha, a aparência chama sempre à atenção, mas se não tiver conteúdo então não tem grande uso. Gostamos de alguém com quem conversar, e tu és uma pessoa inteligente…
Mas eles nunca se haviam aventurado a tentar descobrir o quão inteligente ela poderia ser… preferiam ficar-se pela aparência e ela era sempre reprovada nesse teste. No fundo ela sabia que não interessava se ela fosse inteligente, culta ou interessante, desde que tivesse seios grandes e usasse uma saia que deixasse muito pouco à imaginação seria o sufeciente para cativar qualquer elemento do sexo oposto…
- Mas não chega pai… lembra-se do João? O da outra escola? Falamos tanto e ele até me disse que nunca tinha encontrado ninguém como eu p’ra falar, que eu era uma Mulher com M grande… então porque ele não quis nada… será que há algo de errado… não sou boa o suficiente?
- Oh, Raquel, não é nada disso. Simplesmente não era o rapaz certo.
- E quem é o certo? Porquê que ‘tão sempre a falar do certo? Vejo moças tão feias a namorar, feliz… porquê que não posso ser feliz também?
- E porquê que precisas de um namorado para seres feliz, Raquel? Escuta a tua mãe! Dá graças a Deus de pelo menos não teres essa chatice… preferias ‘tas a ser enganada por qualquer um? Que se aproveitassem de ti e te fizessem sofrer? Pelo menos não tens esse problema…
- Pois, pois…
- A tua mãe tem razão, Raquel. Tudo na vida tem a sua hora exacta de acontecer e senão foi agora é porque ainda não estava na hora. Eu sei que quando for o momento certo vais encontrar alguém que te faça muito feliz…
Mas ela somente fingiu acreditar. Era improvável e quase impossível que tal viesse a acontecer. Deu uma desculpa e voltou à segurança do seu quarto… ninguém sabia responder-lhe…
Deitou o Dobby na cesta e jogou-se para a sua cama, encostando o rosto ao travesseiro. Sentia os olhos húmidos…
Eles não sabiam… nunca sentiram um terço da sua dor… a dor de nunca ter sido amada… de nunca ter tido alguém que quisesse mesmo estar com ela… que lhe oferecesse presentes e lhe dissesse que não conseguia parar de pensar nela… o amor… ah o amor!!! Somente conhecia esse sentimento pelo que lera nos livros ou pelo que via nos filmes… mas nada na primeira pessoa… todos o seu amor havia sido rejeitado…
E as lágrimas escorreram pela sua face… ela enterrou a cabeça no travesseiro… Sim, ninguém a amar… ninguém quisera o seu amor… todos a haviam magoado. Somente tinha dezassete anos…e depois… havia gente mais nova que vivera brilhantes história de amor e ela iria concluir a adolescência sem sequer ter tido um único namorado, sem ter sentido o gosto de uns lábios… era revoltante… ela não era normal e nunca o haveria de ser porque ela falava sozinha… ela estava quase sempre calada… não era interessante e era feia… Para além dos seus amigos ninguém tivera a coragem de penetrar no seu mundo… ela não era normal…
Enterrou mais a cara no travesseiro.
Não se sentia adaptada ao mundo que estava lá fora… e as pessoas também não pareciam muito interessadas em integrá-la… ela não era normal… o mundo virava-lhe as costas e ela sentia-se diminuída… daquele jeito que o parasita a conseguia fazer sentir… ela não era normal… enterrou mais ainda a cara… o que tinha a fazer? Virar também ela as costas a mundo… eles não queriam dar-lhe uma oportunidade… haviam renegado todos os sentimentos positivos que ela detinha dentro de si, confinando-a a um mundo de dor.
E parecia que à medida que a escuridão da noite penetrava o seu quarto, uma parte dela também estava à mercê dessa escuridão… o amor morria dentro dela… não o amor que concedia aos seus pais ou aos seus amigos… mas si o amor a qualquer outra pessoa ou até mesmo à sociedade que tão cruelmente insistia em a ostracizar. Todos haviam renegado… e a sua fonte não era inesgotável… havia secado e ela não mais queria amar… sabia que não estaria à altura de nenhum deles, que eles nunca procurariam retribuir esse sentimento… todos a iriam magoar… apenas lhe restava o seu mundinho… ela fizera a parte dela… mas eles todos a desprezaram… era um sinal de que ela não pertencia ali…
E finalmente enterrou totalmente o rosto no travesseiro… estava finalmente em segurança… enclausurada dentro da sua própria jaula… livre deles, do desprezo… estava onde sabia que era feliz… estava prisioneira do seu próprio mundo.
O professor de Introdução à Economia, Bernardo Campos, havia lançado um trabalho para os alunos realizarem e como tal era necessário dividir a turma em vários grupos de trabalho. Raquel estava um bocado à toa, não sabia bem com quem ficar. Era ainda nova na turma e a verdade é que não nutria qualquer sentimento positivo pelas suas colegas e evidentemente que o este mesmo sentimento era recíproco. Cada dia naquela sala de aulas a conviver com elas era um tormento algo semelhante às torturas da Inquisição. Se porventura tivesse reprovado dois anos, ou até mesmo se tivesse nascido mais tarde ela poderia dar-se ao luxo de estar na turma da Joana, com os seus amigos, aqueles que, embora ela conhecesse à muito pouco tempo, ela já considerava seus verdadeiros amigos.
Ela acabou por ter de ficar no grupo das socialités, exactamente aquelas que ela mais detestava.
- Ora bem, aqui têm as vossas folhas – anunciou o professor Campos enquanto andava pelo grupo no qual Raquel se encontrava. A cada passo de cada a sua volumosa barriga abanava qual gelatina. – Vão ter que analisar esses dados na perspectiva marxista… - e posto isto encaminhou-se para outro grupo, sempre com as suas carnes a abanar.
E iniciaram rapidamente o trabalho. Claro está que com mais interrupções do que era de esperar, elas interrompiam muitas vezes para fazerem comentários desnecessários pelo facto de uma das colegas não ter as meias a combinar com o chapéu… Raquel limitava-se a revirar os olhos, ela queria apressar logo o trabalho pois quando mais cedo terminasse mais cedo se veria livre delas. Por entre as risadinhas histéricas, uma das moças deu um beijo na bochecha da garota de rosto triangular.
- Ai – disse ela num falso sentimento de excitação -, não faças isso que sabes que eu não resisto e ainda viro lésbica.
- Não faças isso – pediu a outra. – Já basta uma lésbica nesta turma.
Raquel levantou os olhos da sua folha e ao olhar em volta constatou que grande parte da mesa estava a olhar para ela… voltou a enterrar os olhos na ficha, sentindo-se como se tivesse sido empurrada abruptamente para um precipício… pensariam que ela era lésbica?! Sempre a haviam visto de forma diferente, mas chegar àquele ponto!!! Mil e um sentimentos trespassaram por ela naquele instante e nenhuma palavra seria capaz de explicar o quão invulgar ela estava a sentir-se naquele momento… procurou terminar a ficha, no entanto a sorte não sorriu a seu favor. Foram o último grupo a terminar e igualmente o último grupo a sair da sala. O professor Campos ia no corredor com as integrantes do grupo, repreendendo-as por elas terem passado grande parte da aula a dar risadinhas idiotas. Raquel viu Joana, Becky e Diana juntas a um canto a conversar e aproximou-se delas; o professor Campos aproveitou a deixa para se ir embora, como habitualmente as suas carnes abanavam.
- Bom, Raquel, já que o teu turno de ama começou a gente deixa-te aqui com as criancinhas – atirou a moça do rosto triangular no seu habitual tom de voz jocoso. E elas afastaram-se dando risadinhas histéricas.
- Que vaca! – ofendeu Diana olhando-as a afastarem-se. – Na festa do Duarte não ‘tava nada feliz quando se meteu a vomitar a Vodka!
- Ela vomitou na festa do Duarte?! – admirou Raquel. Duarte era um dos riquinhos snobes da escola e havia dado uma festa de anos onde obviamente que só havia convidado as pessoas de “linhagem” lá do Liceu. Diana tivera o infortúnio de ir arrastada pelo seu namorado Bruno, cuja banda havia sido convidada a tocar na festa.
– Oh, emborcou Vodka pura e vomitou no tapetezinho preferido da mãe do Duarte. Chorava que parecia uma manteiga derretida. É bem feita! Não sabem beber e depois admiram-se… e como também não gosto nada dela! Eu e o Bruno fartamo-nos de rir.
- Eu não sei como é que não pedes transferência de turma, Rachel – opinou Becky. – Elas são insuportáveis!
Raquel limitou-se a encolher os ombros… ainda tinha nos ouvidos o ressoar do comentário mordaz da sua colega… Ela achava-se feia, nunca tivera um namorado, e por não vestir as roupas que as suas colegas usavam eram mais do que pontos para que a considerassem lésbica… ela sabia que não o era… mas então porque nunca tivera um namorado? Porque nenhum rapaz se interessava por ela? Sentiram eles exactamente o mesmo? Pensariam eles que ela não era heterossexual? Quantas dúvidas…
Sentaram-se no bar da escola e depois das suas amigas terem ido buscar a comida, Raquel sentia-se pronta a abordar a questão e tentar fisgar algo.
- Meninas, o quê que vocês acham de mim? – perguntou ela.
- Que és fixe, uma pessoa espectacular – respondeu prontamente a Joana e Diana e Becky acenaram afirmativamente com a cabeça.
- Sim… mas e se vocês fossem rapazes… namorariam comigo?
- Porquê a pergunta? – espantou-se Becky.
- Sim ou não?!
- Bem, eu acho que sim – respondeu algo atrapalhada a Becky. – Tu és uma pessoa muito fixe, engraçada… tens um mundinho dentro de ti, e isso torna-te interessante.
Raquel fitou a mesa: - Vocês só dizem isso porque são minhas amigas!
- Raquel, o quê que se passa? – quis saber Joana.
- O quê que se passa?! – repetiu Raquel com um toque de rancor na voz. – O que se passa é que eu não sou normal!!! Porquê que os rapazes não olham p’ra mim?! Porquê que não gostam de mim?! Porquê que só me querem como amiga?! - e olhou para as amigas com um ar inquiridor.
- Oh, Raquel, não sejas assim contigo mesma – recriminou Diana. – Secalhar até querem… tu é que nunca reparaste e…
- Não, não querem, Di – contrariou-a Raquel. – Eles olham p’ra mim como se eu nada fosse e os poucos que têm a coragem de se aproximar ficam só pela amizade e deposi ainda mandam a dica «quem me dera ter uma namorada como tu!». E porque não querem nada comigo?! Serei assim tão repugnante?!
- Tu não és repugnante! – ripostou Joana. – Simplesmente eles não eram a pessoa certa!
- E porque não posso divertir-me com a errada?! – perguntou Raquel. – É simples: porque os rapazes não querem nada comigo! Acham normal eu nunca ter tido um namorado?
- Eu também nunca tive – disse Becky. – Tirando o Oliver, mas ele foi só uma cena de Verão, uns beijinhos e tal e depois ele voltou para Liverpool…
- Sim, Becky, mas tu tens quinze anos – contrapôs Raquel. – Na tua idade ainda é aceitável… agora eu tenho dezassete… nunca tive um namorado, nunca ninguém gostou de mim e sequer dei um beijo na boca… as pessoas devem olhar p’ra mim de lado…
- Deixa-as olhar – interrompeu Diana.
- Além disso com a minha idade já se fazem mais coisas do que dar beijinhos!
- ‘Tás a falar de sexo?! – perguntou Diana erguendo o sobrolho. – O teu problema então é que te sentes atrasada em relação às tuas colegas porque elas já andaram a abrir as pernas e tu não! Raquel as coisas acontecem no momento que têm que acontecer e p’ra ti simplesmente ainda não foi o momento certo. Manda p’ra merda quem pensa que tu és menos só porque ainda és virgem. As pessoas gostam de pensar nas virgens como meninhas puras, inocentes e ingénuas… mas sabes que mais?! Eu ainda sou virgem, o Bruno não é e falamos de sexo na boa e ele diz que eu percebo mais do assunto que a ex-namorada dele que já não era! Ouve, Raquel! Cada um tem o seu ritmo, e lá porque as moças da tua idade já andam aos saltinhos em cima dos namoradinhos lindinhos delas não quer dizer que tens que andar também! Dá tempo ao tempo…
- E quando é que vai ser o momento certo?! – perguntou Raquel com algum tom de troça na voz. Nada do que Diana lhe havia dito servira de ajuda… ela continua a pensar que o problema era justamente com ela. – Vai ser daqui a vinte anos? Trinta? Quarenta? A julgar por como eu sou feira talvez venha a ser nunca!
- Tu nãos és feia!!! – exaltou-se Joana. Algumas pessoas das outras mesas olharam para ver o que se passava pois havia já algum tempo que a conversa estava demasiado acalorada naquela mesa.
- Sou!!! – contrapôs Raquel.
- Raquel, eu também já passei por isso – contou Becky. – Também me achava super feia, mas agora tenho estado a ultrapassar. Tenho tomado mais conta de mim e procuro agradar a quem me interessa. Vai haver sempre alguém que nos vai achar feia, não podemos agradar a toda a gente!
- Sim, mas eu não tenho ninguém que me ache bonita!
Parecia que estavam a bater com a cabeça contra a parede. Nada do que diziam iam mudar a forma como ela sempre se havia visto: feia! O seu complexo de inferioridade não iria permitir outra visão e ele manifestava-se sempre… como um vírus, estrangulando todas as hipóteses de felicidade, culpabilizando a sua fealdade por todos os seus fracassos… ela tentava livrar-se dele mas era impossível, ele permanecia qual um parasita… um hóspede indesejável sugando todos os seus pensamentos positivos e contaminando-a com a escuridão, o medo e incerteza.
Elas iam abrir a boca para retaliar mas nesse instante soou o toque de entrada.
- Só não te damos o sermão porque temos de ir para a aula de Educação Física – disse Joana enquanto elas agarravam nas suas coisas e se levantavam. – Vens assistir?
- Não posso, tenho que estudar pró teste de Economia – mentiu Raquel. No fundo necessitava de estar sozinha.
- Não tinhas dito que tinhas teste esta semana!
- O stôr marcou hoje! Aquele Campos adora torturar os alunos!
- OK – compreendeu Diana. – Então falamos na Net e qualquer coisa apita pró telemóvel.
- E nós somos tuas amigas – concluiu Becky – e de VERDADE – colocou ênfase ao dizer isto. – Só queremos o melhor para ti e nunca te iríamos fazer sofrer.
E com um último sorriso afastaram-se em direcção ao Pavilhão Desportivo. Raquel esperou cinco minutos até igualmente se levantar e ir embora.
Saiu da escola e caminhou pela rua, guiada maquinalmente pelas suas pernas mas perdida em pensamentos. O parasita manifestara-se e ela sentia um frio glacial a percorrer cada centímetro do seu corpo…
Caminhava por entre as ruas, cruzando-se com pessoas… algumas sorriam e ela já automaticamente abria os lábios num ténue e tímido sorriso, mas eis que ele se manifestava! «Quem achas que és para os olhar nos olhos?! Para sorrires para eles?!». Pois é! Ela era feia! Nada nela era interessante e poucos eram os que gostavam dela… ela não tinha o direito de olhar para as outras pessoas nos olhos… eles eram todos superiores a ela! Eram bonitos, eram interessantes… e ela… um mero erro, um acaso! «Eles só riem porque estão a troçar contigo! És o ser mais horripilante que caminha nesta rua! Um verdadeiro Adamastor». E passou um grupo de rapazes! Mas nenhum a olhou! «Estavas à espera do quê?! Ainda acreditas em milagres?!» E era verdade! Porque haveriam eles, tão belos, interessantes e inteligentes de olhar para um ser como ela… uma mera sombra e tudo o que ela fizesse nunca os chamaria à atenção… era como uma formiga a tentar sobressair num grupo de girafas.
Viu um grupo de idosas senhoras inglesas de mochilas às costas a passear calmamente pela rua, olhando com admiração para a paisagem tão divergente da do seu país, com um ar tão sereno e imaginou-se assim no futuro. Uma velha solteirona a viajar pelo mundo, somente ela e a sua mochila… quem mais seria lunático para a acompanhar? «Achas que vais ser alguém no futuro?! Quem pensas que és para te considerares merecedora de tal sorte?!».
Um casal de namorados passou aos beijos… ali estava aquilo que ela nunca sentira nem nunca haveria de sentir! A felicidade de ser amada… o calor de um abraço… o doce toque de um beijo nos lábios… o arrepio de um beijo no pescoço… ou a emoção de um «amo-te» sussurrado ao ouvido… Ela nunca soube o que era ser amada senão pelos seus pais que, à semelhança de qualquer criador, amavam a sua obra, porém não havia como equiparar tal sentimento. Jamais saberia qual era a sensação de ter alguém que precisasse tanto de nós como do ar para respirar… alguém que acordasse a pensar em nós e que em sonhos fosse povoado com a nossa imagem… «Tu nunca conhecerás o amor! Quem iria amar alguém como TU?».
O caloroso saudar da sua vizinha fez com que ela fosse trazida à terra tão abruptamente como alguém que acorda com o ressoar irritante de um despertador. Finalmente chegara a casa. «Ela só fala contigo porque tem pena de ti», foi a cartada final do parasita… o «touché» que finalizara o duelo.
- Raquel, chegaste mesmo a tempo de evitar a chuva – disse a sua mãe lá da cozinha quando ouviu a filha a fechar a porta da entrada. – ‘Tou a fazer o jantar.
Mas ainda faltava para a hora da refeição. Passou pela sala e viu o seu pai deitado no sofá a dormir, com um livro aberto sobre o peito. Ela sorriu e preferindo não o acordar foi para o seu quarto.
Quando lá entrou foi quase como se tivesse entrado dentro de uma banheira com água quente! O seu quarto… o único lugar do mundo onde estava em segurança e onde o parasita não a conseguia atingir… o ninho onde estava protegida dos olhares da multidão… dos comentários indesejados… do desprezo e do repúdio… naquele quarto ainda sentia uma réstia de amor.
Dobby, o seu cãozinho com dois meses saiu da cesta e veio cumprimentá-la, abanando animadamente o rabo. Ganhara aquele cão recentemente do seu tio, uma companhia agora que estava em outra cidade. Dobby e o Joey, o seu ursinho de pelúcia. Eram as suas eternas companhias naquele seu mundinho, era com eles que falava e para espanto seu parecia que eles respondiam.
- O dia foi bom, Dobby – disse ela abaixando para fazer festas ao cachorrinho, como se ele lhe tivesse perguntado algo. – O de sempre. E tu, Joey?
«O habitual, a mesma pasmaceira! O Dobby tentou roer-me, mas aqui na cama estou em segurança».
- Dobby, não podes roer o Joey – repreendeu Raquel. – Ele é nosso amigo – e de repente sentiu algo acordar dentro dela, como um lampejo de lucidez que a fez aterrar com os pés no chão. Ela levantou-se e abanou a cabeça atordoada. – Eu sou louca! Estou a falar sozinha!!! Louca, louca, louca!!! É por isso que os rapazes não se interessam por mim!!! Quem é que queria namorar com alguém que fala com um cão e com um peluche?
Desconfiava que caso isso acontecesse a sua mãe recorreria a algum psiquiatra e os seus amigos afastar-se-iam dela. Aproximou-se então da janela onde a chuva grossa batia insistentemente contra o vidro e o vento fustigava as folhas das árvores.
Encostou a sua testa contra o vidro… estava frio. Fechou os olhos e pensou… tudo lhe vinha à cabeça como um flashback. A fealdade… o complexo de inferidade… a dor de nunca ter sido ama… e… seria lésbica?!
- Elas pensam que eu sou lésbica! – murmurou ela.
«Não, não és» contrariou Joey. «Até podes ser assexual, mas lésbica não… eu ouvi-te estes anos todos enquanto dormias… a sussurrar o nome de cada um deles, dos moços de quem gostastes». Cada um… cada um que a havia desiludido… que a havia enganado… que a havia desprezado… que no fundo nunca haveriam de querer nada com ela… ela não os merecia!!! «Elas não te conhecem! Não sabem como choras de noite com o teu travesseiro! O que dizes quando estás sozinha na escuridão do teu quarto! Desconhecem por completo o frio que assola o teu coração! Elas não te conhecem!».
- E tu também não! – atirou ela. – És só um velho urso. Ninguém me conhece! Muito menos eu…
Ela nãoera interessante! O que poderia haver de interessante em alguém que falava sozinho? Alguém tão desigual aos outros da sua idade? Que preferia livros e filmes ao invés de discotecas e concertos? Ela era estranha!
- Raquel, vem p’ra mesa – chamou a sua mãe.
Nem dera pelo tempo passar!
A refeição foi normal. Os seus pais passaram grande parte do tempo a debater os temas actuais do Admirável Mundo enquanto ela se debatia numa inglória luta interior.
Depois de comer foi levar a comida ao Dobby e ficou a vê-lo comer enquanto remoía se deveria ou não de perguntar a opinião aos seus pais. Jamais o faria às suas amigas, era algo de que se envergonhava…
Quando Dobby estava já sonolento por tanto ter comido, ela agarrou-o como se fosse um bebé e foi até à sala onde os seus pais se achavam sentados a ver um filme a beber chocolate quente.
- Queres chocolate? – ofereceu Louise Dias.
- Não – ela sentou-se no sofá e embalou o Dobby. – Preciso de falar com vocês.
Os seus pais trocaram um olhar.
- Diz lá – incentivou Nelson Dias.
- Bem, é um bocado complicado… eu… aa…
- Vais pedir dinheiro? – perguntou o pai por entre uma golada de chocolate quente.
- Não… não é nada disso… é só que… vocês acham que eu sou… que sou lésbica?
Nelson Dias engasgou-se com a sua bebida e Louise jogou a mão ao peito, dizendo: - Filha, porque pensaríamos semelhante coisa?
- Bem… é que as minhas colegas acham que eu sou lésbica – e narrou o episódio.
- Mas que insolentes!!! – enervou-se Nelson, o seu rosto estava vermelho e ele bufava qual um touro enraivecido. – Quem têm elas a ver com isso? A vida não é tua?!
- E tu és lésbica, filha? – perguntou Louise.
- Não… claro que não, eu não me sinto atraída por moças de modo algum…
- Filha, se fosses acredita que não teria mal nenhum – reconfortou Louise. – A sexualidade de uma pessoa em nada afecta o seu carácter, e o carácter é o que de mais importante temos. As tuas colegas é que revelaram não possuir nenhum carácter com as críticas idiotas delas…
- Quer dizer que se eu fosse não teria mal algum?
- Claro que não – disse Nelson. – Queremos a tua felicidade! Eu preferia ver-te feliz com uma mulher do que infeliz com um homem.
E algo dentro dela sorriu. A opinião dos seus pais era a que verdadeiramente interessava e a sua condescendência era algo animador.
- Elas só fizeram esse comentário porque eu não tenho namorado.
- Ah, mas é o típico comentário de quem não tem na cabeça nada mais do que caca – disse Louise enraivecida. - Estas pessoas ou são 8 ou 80. Se tivesses um monte de namorados eras “fácil demais”, e se não tens nenhum és lésbica?! Santa ignorância! Mas deixa filha, independentemente do que tenhas ou sejas vão sempre falar de ti e tu não podes mudar a forma como eles te vêem por isso limita-te a ser quem és e não deixes de fazer o que tens de fazer com receio da repreensão de alguém.
- Sim, mas enquanto morares aqui nesta casa não te esqueças de que há regras – relembrou o pai com um sorriso.
Ela olhou para o Dobby que dormia tranquilamente, livre de quaisquer preocupações e por momentos invejou-o.
- Acho que há algo de errado comigo! A sério… porquê que ninguém gosta de mim?!
- Então, filha! Nós gostamos… e os teus amigos também…
- Estou a falar de rapazes, mãe! Porquê que não olham p’ra mim… o quê que interessa a um rapaz quando olha p’ra alguém, pai?
- Oh, filha, a aparência chama sempre à atenção, mas se não tiver conteúdo então não tem grande uso. Gostamos de alguém com quem conversar, e tu és uma pessoa inteligente…
Mas eles nunca se haviam aventurado a tentar descobrir o quão inteligente ela poderia ser… preferiam ficar-se pela aparência e ela era sempre reprovada nesse teste. No fundo ela sabia que não interessava se ela fosse inteligente, culta ou interessante, desde que tivesse seios grandes e usasse uma saia que deixasse muito pouco à imaginação seria o sufeciente para cativar qualquer elemento do sexo oposto…
- Mas não chega pai… lembra-se do João? O da outra escola? Falamos tanto e ele até me disse que nunca tinha encontrado ninguém como eu p’ra falar, que eu era uma Mulher com M grande… então porque ele não quis nada… será que há algo de errado… não sou boa o suficiente?
- Oh, Raquel, não é nada disso. Simplesmente não era o rapaz certo.
- E quem é o certo? Porquê que ‘tão sempre a falar do certo? Vejo moças tão feias a namorar, feliz… porquê que não posso ser feliz também?
- E porquê que precisas de um namorado para seres feliz, Raquel? Escuta a tua mãe! Dá graças a Deus de pelo menos não teres essa chatice… preferias ‘tas a ser enganada por qualquer um? Que se aproveitassem de ti e te fizessem sofrer? Pelo menos não tens esse problema…
- Pois, pois…
- A tua mãe tem razão, Raquel. Tudo na vida tem a sua hora exacta de acontecer e senão foi agora é porque ainda não estava na hora. Eu sei que quando for o momento certo vais encontrar alguém que te faça muito feliz…
Mas ela somente fingiu acreditar. Era improvável e quase impossível que tal viesse a acontecer. Deu uma desculpa e voltou à segurança do seu quarto… ninguém sabia responder-lhe…
Deitou o Dobby na cesta e jogou-se para a sua cama, encostando o rosto ao travesseiro. Sentia os olhos húmidos…
Eles não sabiam… nunca sentiram um terço da sua dor… a dor de nunca ter sido amada… de nunca ter tido alguém que quisesse mesmo estar com ela… que lhe oferecesse presentes e lhe dissesse que não conseguia parar de pensar nela… o amor… ah o amor!!! Somente conhecia esse sentimento pelo que lera nos livros ou pelo que via nos filmes… mas nada na primeira pessoa… todos o seu amor havia sido rejeitado…
E as lágrimas escorreram pela sua face… ela enterrou a cabeça no travesseiro… Sim, ninguém a amar… ninguém quisera o seu amor… todos a haviam magoado. Somente tinha dezassete anos…e depois… havia gente mais nova que vivera brilhantes história de amor e ela iria concluir a adolescência sem sequer ter tido um único namorado, sem ter sentido o gosto de uns lábios… era revoltante… ela não era normal e nunca o haveria de ser porque ela falava sozinha… ela estava quase sempre calada… não era interessante e era feia… Para além dos seus amigos ninguém tivera a coragem de penetrar no seu mundo… ela não era normal…
Enterrou mais a cara no travesseiro.
Não se sentia adaptada ao mundo que estava lá fora… e as pessoas também não pareciam muito interessadas em integrá-la… ela não era normal… o mundo virava-lhe as costas e ela sentia-se diminuída… daquele jeito que o parasita a conseguia fazer sentir… ela não era normal… enterrou mais ainda a cara… o que tinha a fazer? Virar também ela as costas a mundo… eles não queriam dar-lhe uma oportunidade… haviam renegado todos os sentimentos positivos que ela detinha dentro de si, confinando-a a um mundo de dor.
E parecia que à medida que a escuridão da noite penetrava o seu quarto, uma parte dela também estava à mercê dessa escuridão… o amor morria dentro dela… não o amor que concedia aos seus pais ou aos seus amigos… mas si o amor a qualquer outra pessoa ou até mesmo à sociedade que tão cruelmente insistia em a ostracizar. Todos haviam renegado… e a sua fonte não era inesgotável… havia secado e ela não mais queria amar… sabia que não estaria à altura de nenhum deles, que eles nunca procurariam retribuir esse sentimento… todos a iriam magoar… apenas lhe restava o seu mundinho… ela fizera a parte dela… mas eles todos a desprezaram… era um sinal de que ela não pertencia ali…
E finalmente enterrou totalmente o rosto no travesseiro… estava finalmente em segurança… enclausurada dentro da sua própria jaula… livre deles, do desprezo… estava onde sabia que era feliz… estava prisioneira do seu próprio mundo.


4 comentários:
Dei inicio a mais um projeto louco e vc está inserida nele. Seria muito importante para mim que aceitasse participar. Passa lá no O Arroto e me diz o que achas. Bjus.
Camila. Obrigado por topar o projeto. Você terá de procurar seus parceiros de grupo (o nomes deles estão linkados) afim de que posam bolar um texto em conjunto, que será publicar obedecendo as datas pré-estabelecidas. Além disso, vcs terão de indicar um blog que vcs achem bacana e dizer o por que da escolha. Além disto, terão de comunicar aos escolhidos que os mesmo foram linkados e convidá-los a estar no dia da publicação de seus textos; os mesmo também serão convidados a escrever um texto para a Confraria dos Loucos nas datas também previamente estabelecidas. Bjus.
:| Ganda testamento LOL mas um dos teus melhores textos, belive me x). Adorei os pormenores da luta introspectiva (ehehe) da Raquel... há até algo de familiar. Tas n bom caminho K. Boyle ;)
É um texto meio dolorido... Mesmo para quem lê e se vê ali.
Beijinhos, menina!
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