(Nota: Estava a ver um episódio que tinha para aqui gravado da série americana “Um Cãozinho Chamado Eddie” e lembrei-me de escrever algo deste género).
O sinal soou, avisando de que a última aula da tarde havia terminado. Ivan apressou-se a arrumar os seus cadernos dentro da mochila para ir ter com o seu melhor amigo Gustavo que se sentava no fundo da aula (Ivan fora obrigado pelo professor a sentar-se longe do amigo para não conversarem durante as aulas). Gustavo achava-se sentado descontraidamente na cadeira, rabiscando distraidamente o seu caderno e com os headphones nos ouvidos. Era gordinho, com uma barba preta de dois dias que lhe dava um ar de rebelde sem causa, o alargador na orelha esquerda e o piercing junto ao queixo, só que desta vez não espetara o seu cabelo em crista de galo decidindo optar por esconde-lo debaixo de um boné. Por sua sorte sentara-se atrás do seu colossal colega Sandro, cuja constituição enorme ocultava Gustavo e impedia que o professor se apercebesse que este não prestava atenção nenhuma às suas aulas.
— Ei Gus, a aula já acabou – informou Ivan dando um abanão ao amigo. Era um jovem alto e entroncado, com um cabelo aloirado cheio de caracóis, o que lhe dava um ar angelical.
— Ah, já? – Gustavo sobressaltou-se na cadeira e tirou os fones dos ouvidos. – Até que enfim.
— Gus, se o stôr te apanhasse a ouvir música ‘tavas tramado, ficavas sem o mp3.
— Ai dele, ia fazer queixa. Ele já ‘tá é bom p’ra reforma. Meterem um múmia destas a dar aulas é um atentado público.
Ivan riu. Gustavo era tão espontâneo que até dava graça.
— Olha, queres ir ao salão de jogos? – convidou Ivan enquanto via o amigo arrumar as suas coisas. – Chegaram jogos novos...
— Não posso, mano. Tenho treino de basquete hoje... há jogo no sábado e temos mesmo que ganhar se queremos passar prós quartos-de-final.
— Ah, sim. E que tal amanha?
— Amanhã saimos bué tarde, lembraste? E ainda por cima tenho Curso de Fotografia, deixa para o fim de semana.
— Ah, mas não se esqueçam que sábado temos o jantar de turma – relembrou Joana que “acidentalmente de propósito” estivera a ouvir a conversa. – Vais, não vais, Gustavo? – e lançou o sorriso mais largo e branco que Ivan alguma vez vira, somente teria perdido para os anúncios de pastas de dentes.
— Sim, vou sim – respondeu Gustavo.
— Boa – Joana parecia que queria voar. – Anda Becky, temos Ensaio Geral de Teatro.
E saiu da sala com a sua amiga ruiva.
— Viste isto, ela ‘tá caidinha por mim – gabou-se Gustavo enquanto acompanhava o amigo até à saída da sala.
— Andas muito convencido desde que curtiste com a Rita.
— Não é todos os dias que tens uma miúda como ela atrás de ti.
— Se a Joana sabe disso...
— Eu e a Joana não temos nada...
— Porque não querem... tu gostas dela...
— Olha, vou mas é pró treino... falamos na net, OK?
E saiu dali a correr, Ivan sabia que ele não queria era ouvir a verdade, sabia que o amigo gostava era da Joana mas que tinha medo de arriscar. Mas também não era aquilo que agora estava a afectar o jovem. As aulas haviam terminado e ele não tinha nada para fazer. A grande parte dos seus amigos estava envolvida em Actividades Extra-Curriculares como Desporto, Teatro, Cursos de Astronomia, Informática, Fotografia ou até mesmo Clubes de Leitura ou Aulas de Música, mas Ivan não estava em nada disso. Ainda não sabia bem do que gostava e estava a experimentar a difícil fase da adolescência da auto-definição, em que ele necessitava de descobrir quem era na realidade e a somar a isto tudo, era muito envergonhado, tinha sempre receio de estar a servir de bobo da corte, sentia-se retraído em público e dava muita importância ao que os outros iriam pensar dele, talvez por isso nunca tivesse arriscado entrar em nenhuma equipa de futebol ou basquetebol, pois tinha medo dos apupos do público; Teatro também estava fora de questão, não saberia do que teria mais vergonha, se representar em frente dos seus colegas ou se em frente do público. Ivan achava sempre que os outros eram melhores que ele e que nunca deveria tentar fazer o mesmo que os outros faziam porque sabia que no fundo iria perder, que nunca estaria à altura deles, igualmente por essas razões nunca optara tocar nenhum instrumento musical. Sabia que não devia de ser muito saudável mas preferia ficar quieto no seu cantinho, enclausurado caso fosse preciso, do que dar motivos para os outros rirem dele... detestava a humilhação... e na verdade tinha a sua fasquia muito embaixo. Ás vezes pensava para si mesmo como é que Gustavo tinha paciência para o aturar... Ivan era totalmente o oposto do seu amigo.
Triste e cabisbaixo por ter que ir para casa mais cedo, estando um solarengo dia lá fora, Ivan apanhou o autocarro, perdido em pensamentos. Como gostava de ter coragem para fazer centenas de coisas, mas nunca fora capaz de arriscar nada... sentia-se tão inútil às vezes por não tomar iniciativas... sabia que era muito mais do que somente timidez, era mesmo fraqueza de espírito...
Quando entrou em casa viu a sua avó a tricotar, sentada no sofá, por vezes desviava momentaneamente a atenção do seu trabalho para olhar para a televisão que emitia os seus programas da tarde: “Casos Reais”, um programa que abordava temas sociais actuais com reconstituições exageradamente fictícias. Ivan achava aquilo uma fantochada, mas parecia alegrar as tardes do público alvo do programa: as reformadas que ficavam em casa sem fazer nada e representavam a audiência dos programas da tarde.
— Então Ivan, estás por casa tão cedo? – perguntou a avó quando o seu neto se curvou para lhe dar dois beijos na face.
— Sim, não havia mais nada de jeito p’ra fazer na escola.
— Nem a namorada?
As bochechas de Ivan ruborizaram. Nunca tivera uma namorada. Bem, na verdade já curtira com uma garota, mas isso fora no jantar de aniversário do seu colega Marco em que havia bebido demais e acabara aos beijos com uma tal de Sandra. Ainda voltaram a encontrar-se umas quantas vezes, mas ela não tinha grande conversa e ele acabou por a dispensar. Ele podia ter somente quinze anos mas era de longe muito mais maduro que ela e não estava para aturar criancinhas. Mais uma vez também era tímido demais para tentar o que quer que fosse com alguém.
Não respondeu à avó. Encaminhou-se automaticamente para o seu quarto e ficou lá encerrado com os seus livros de Banda Desenhada e a ouvir música, até perto das seis da tarde alguém bater à porta.
— Então, filhote, tudo bem? – a mãe de Ivan acabara de chegar do trabalho e tinha ido ao quarto ver como o filho estava.
— Sim, mãe.
— Ai rapaz, sai deste quarto, estás aqui enjaulado. Anda cá à sala ver o que te trouxe.
Ivan levantou-se indolentemente da cama, não sabia se o esperava alguma surpresa boa ou má e no fundo até tinha algum receio do que estava para vir. Da última vez que a sua mãe lhe prepara uma supressa havia-lhe comprado um casaco incrivelmente horrível, o tipo de coisas que Ivan nunca usaria, mas a sua mãe ainda se achava no direito de escolher a roupa do filho. Para sua sorte, a sua avó interviera a seu favor, avisando a sua filha de que o neto já estava na idade de escolher a sua própria roupa e de se vestir ao seu gosto.
Chegou à sala e não viu nada de novo, exceptuando talvez um violino sobe o sofá, mas pensou estupidamente que talvez a sua mãe o tivesse comprado para enfeitar a sala ou algo do género.
— Gostas? – perguntou a sua mãe apontando para o violino. – Inscrevi-te em aulas de violino. É tão bonito, filhote. Nestas aulas podes tocar em conjunto com outros instrumentos, talvez ainda formem uma orquestra e...
Ivan sentiu provavelmente devia de ter limpado mal os ouvidos... decididamente ouvira mal. A sua mãe devia de ter enlouquecido de vez.
— Aulas... aulas de violino? – gaguejou Ivan, atónico. Ainda não conseguia acreditar. A insanidade havia tomado conta da sua mãe.
— Sim – a sua mãe estava com o sorriso ideal para os anúncios da Colgate. A transpirar felicidade pelos poros, Ivan sentiu vontade de partir o violino na cabeça dela para a chamar de volta à realidade.
— Mãe, não vou ter aulas de violino, são uma seca.
O sorriso alegre varreu-se dos lábios da mãe de Ivan mais depressa do que um piscar de olhos.
— Ivan, estas a ser injusto. Eu queria arranjar uma coisa para te divertires... podias esforçar-te um bocadinho – notava-se decepção em cada uma das palavras que proferira.
Mas para Ivan parecia que haviam acabado de anunciar que uma vaga de extraterrestres ia invadir a terra e aniquilar a espécie humana. Será que a sua mãe não conseguia compreender o que estava adjacente àquelas aulas de violino?
— Mãe, os meus amigos vão todos rir quando souberem que ando a ter aulas de violino...
— Ai Ivan! – exclamou a sua mãe. Parecia que finalmente compreendera o problema. – Estás a fazer uma tempestade num copo de água. Se são teus amigos nunca se vão rir de ti...
Ela não compreendia. Aulas de violino no universo adolescente significava que ele seria visto como um totó, um idiota, e ele não queria ser assim visto. Todos achavam o Gustavo fixe (nota: no Brasil este termo significa “legal”) por ele pertencer à equipa de basquete e andar no curso de fotografia; era também «in» andar no curso de teatro ou ter aulas de guitarra... agora violino! Daqui a bocado iriam pensar que ele também ouvia música clássica...
— Mas mãe...
— Não quero ouvir mais conversas, Ivan. Já paguei as tuas primeiras aulas. Vai guardar o violino e anda ajudar a pôr a mesa.
Não tinha mesmo escapatória possível.
No dia seguinte, estavam a sair da aula de Geografia quando Ivan fez sinal ao Gustavo de que precisava de falar com ele. Caminharam os dois juntos pelos corredores até ao pátio da escola. Ivan sabia que o seu amigo, com a sua imaginação fértil, iria arranjar uma maneira de o salvar daquela situação.
— Gus, preciso mesmo da tua ajuda.
— Vomita ai, mano.
— É a minha mãe... acho que ela endoideceu de vez... ela quer que eu vá umas aulas de violino...
Olhou para o amigo e viu que ele reagira normalmente, como se Ivan acabasse de dizer que ia fazer parte dos Detonautas. Será que também ele não via o problema? Ou será que o problema para variar era mesmo consigo?
— Sim, qual é a crise? – perguntou Gustavo.
— Aulas de violino, vê se acordas... são prá idiotas, Gus, se o pessoal sabe...
— Ivan, tu levas muito a sério aquilo que o pessoal pensa... tens que ser como o teu mano aqui, ‘tou-me a cagar pró que eles pensam de mim... até brinco com eles, digo que ter ferros na cara é o que ‘tá a dar... pelo menos os detectores de metais dão por mim...
— Sim, Gus, mas é diferente... tu és fixe porque tens piercings e alargadores e no fundo falam de ti mas querem todos ser como tu. Agora aulas de violino...
— Ivan, caga naquilo que vão pensar... tenhas piercings ou toques violino vão sempre falar de ti... por isso não deixes de fazer as cenas por causa da opinião dos outros... o meu pai sempre me ensinou a sermos nós próprios... claro que ele não gostou muito disso quando eu apareci com estes furos todos, mas pronto.... não leves a vida muito a sério, no fim vais morrer, né.
— Gus, a minha mãe deve ter-te pago p’ra me ‘tares a dizer isso, não foi?
— Nada disso... ‘tou só a dizer o que eu acho... o pessoal aqui quer sempre ser diferente mas no fim acabam todos por ser super iguais uns aos outros... ter aulas de violino é a coisa mais alternativa que eu já ouvi desde entrei p’ra este Liceu... e secalhar até vais gostar das aulas... ‘tás a fazer um grande drama mas ainda nem experimentas-te...
Tinham chegado às traseiras do pátio da escola, onde só haviam alguns casais a namorar e um grupo de rebeldes que fumava. Ivan estava atordoado com a reacção do seu amigo, estava a ser totalmente diferente da que ele concebera mentalmente.
— Porquê que viemos p’ra aqui? – perguntou Ivan agora que eles se achavam no pátio.
— Tenho um encontro – Gustavo lançou aquele sorriso que Ivan já conhecia... o sorriso de quem estava a planear alguma.
E de facto, quase que emergida do chão apareceu uma jovem de cabelos castanhos encaracolados que se atirou ao pescoço de Gustavo e lhe deu um beijo na boca. Ivan não sabia o que havia sido pior: se a reacção do seu amigo face às suas aulas de violino ou a cena que agora presenciava.
— Bom, Ivan, acho que te consegui ajudar, né? – perguntou Gustavo depois de se ter conseguido desenvencilhar dos lábios da moça.
— Sim, ajudas-te muito – respondeu Ivan. Compreendia que ele queria estar a sós com a moça, e a julgar pela maneira como o seu amigo Gustavo o havia ajudado a resolver o seu enorme problema, Ivan chegou a desejar que a Joana aparecesse e visse o Gustavo nos braços de outra, fazendo assim um escândalo digno de uma telenovela.
Quando chegou a casa, viu que para sua sorte a sua avó estava na cozinha a fazer um bolo. Era a sua última cartada, talvez a avó o pudesse ajudar. Não queria mesmo nada ir àquelas malditas aulas de violino e a sua avó conseguia sempre ser mais condescendente que a sua mãe.
— Avó, preciso mesmo de falar contigo.
— Ora diz lá, então.
— Avó, não quero ir àquelas estúpidas aulas que a mãe me inscreveu... sinto-me ridículo.
A avó olhou por cima dos seus óculos redondos que repousavam na ponta do seu nariz para o fundo dos olhos do neto. Ivan sentiu-se a corar até à raiz dos cabelos como sempre acontecia quando encarava alguém tão fixamente.
— Ridículo, Ivan? Não acho nada! Tocar violino é tão bonito – então porque não vai a avó às aulas, pensou Ivan de si para consigo -, acho que vais gostar. É normal o que estás a sentir... toda a gente têm medo de experimentar coisas novas... a tua mãe também morria de medo de ir às danças de salão, mas quando a convenci a ir ela adorou e não queria outra coisa. Ela quer fazer o mesmo contigo... alargar os teus horizontes. Podias experimentar, não custa nada... pode ser que gostes.
Outra vez! Será que havia algum vírus da idiotice à solta e ninguém o tinha avisado? Como é que ninguém via que aulas de violino eram ridículas? Ele não queria experimentar coisas novas, estava bem assim mesmo, mas não tinha mesmo como fugir.. as aulas eram já amanhã... talvez ainda conseguisse convencer a sua mãe a desistir...
Contudo fracassou...
Quando amanheceu, a sua avó e a sua mãe estavam sentadas a comer o pequeno-almoço. Ivan saiu apressadamente de casa sem sequer se sentar à mesa, dera a desculpa de que tinha um teste. Precisava de conjurar um último plano antes das malditas aulas de violino... era a sua única escapatória.
— O Ivan nem quis boleia para a escola – fez notar a mãe dele enquanto bebia os últimos goles do seu sumo de laranja. – Vou ver se hoje saio mais cedo para o levar às aulas de violino.
A avó sorriu, pousou a sua chávena de leite em cima da mesa e disse:
— Filha, não achas que talvez estejas a exagerar com isto das aulas de violino? O Ivan não está lá muito animado...
— Exagerar?! Claro que não, mãe, tenho a certeza que ele vai adorar. Se eu não o incentivar a experimentar coisas novas ele nunca o fará. Sabes bem como ele é tímido... tenho que o ajudar a sair da concha.
— Sim, mas também tens de tentar entender como ele se sente. Sabes bem como são os jovens... ligam muito ao que os outros acham, e além disso têm gostos diferentes, é provável que ele nem sequer goste de violinos... Acho que deves encorajá-lo a perder a timidez e a experimentar coisas novas, mas não obrigá-lo. Deixa que ele escolha por si mesmo....
A mãe do Ivan ficou a pensar durante alguns momentos. A sua mãe estava a mostrar ser mais condescendente com o Ivan do que alguma vez havia sido com ela. Parecia que idade tornava as pessoas mais benévolas.
— Sim, és capaz de ter razão – disse por fim. – Queria que ele experimentasse... mas acho que já pode decidir por ele mesmo...
— Mãe, eu estive a pensar nas aulas de violino, eu sei que a tua intenção foi boa e vou tentar procurar algo de que goste, mas também ‘tive a pensar e acho que já sou grandinho e posso fazer as escolhas por mim mesmo... – Ivan terminou de falar e olhou para os amigos que se achavam com ele sentados à volta de uma das mesas do bar da escola. Estivera a ensaiar aquilo que poderia dizer à sua mãe e tinha esperança de que a Joana, como actriz, aprovasse.
Estava à mesa com Gustavo, Joana e o Marco, um dos seus grandes amigos, andava com eles na turma e era surfista.
— Sabes, Ivan, até tens jeito pró teatro – opiniou Joana.
— Oh, digam sinceramente, o que acharam? – perguntou Ivan, ansioso. – Acham que ela vai entender?
— Eu não sei como é que ‘tás a reclamar das aulas de violino se ainda nem sequer experimentas-te – declarou Marco. – A minha irmã tem aulas de piano, és capaz de a encontrar por lá, ela diz que aquilo é fixe...
Não parecia ser lá grande ajuda, a irmã do Marco era um ano mais nova que eles, mas invulgarmente mais adulta do que a maioria dos jovens que eles conheciam... para alguém com catorze anos talvez as aulas de piano ou até mesmo de violino ainda eram vistas com alguma credulidade.
— Tenho ‘tado a dizer-lhe isto – reclamou Gustavo, estava ligeiramente envergonhado por Joana estar ali. – Aposto que ele vai gostar...
— Vocês devem ter batido com a cabeça – resmungou Ivan. – Estava a espera que fossem rir ou assim...
— Rir, p´ra quê?! – admirou-se Marco. – Somos teus amigos, não iamos rir de ti por teres jeito p’ra tocar violino... é difícil e eu ia sentir orgulho de ter um amigo que soubesse tocar.
Ivan deu por ele a sorrir, eles de facto não existiam, estavam mesmo empenhados em fazer com que ele fosse às tais aulas.
— Vai sim – terminou Gustavo. – Vais encontrar pessoal novo, conhecer gente nova e quem sabe alguma miúda gira...
— Pois, vocês rapazes tinham logo que ir buscar mulheres p’ra conversa – reclamou Joana levantando-se e encaminhando-se para a máquina de águas.
Nesse mesmo instante a Rita, a garota com quem o Gustavo andara aos beijos no dia anterior entrou no bar aos beijos com outro rapaz. As cabeças de Ivan e Marco viraram-se automaticamente para o seu amigo que olhava estarrecido para a cena.
— Aqueles dois namoram? – perguntou cautelosamente o Ivan.
— Ela disse-me que eles tinham acabado – articulou com alguma dificuldade o Gustavo. Sentia um bicho feroz a imergir de dentro de si. – Ela usou-me! Que cabra!
Mas todos sabiam que o Gustavo não estava verdadeiramente magoado. Ele queria dispensar a moça mas no fim acabara ele dispensado. Ivan sabia que no fundo o amigo gostava era da Joana e aquilo ia passar-lhe rápido, estava somente com a sua honra ferida.
— Bem, a Rita quase que come o Miguel aqui no bar – fez notar Joana quando se aproximou da mesa. Ela era a única que não sabia de nada. – E tu Ivan, já sabes o que vais fazer?
Ivan ia abrir a boca mas Gustavo adiantou-se.
— Faças o que fizeres, Ivan, não confies nas mulheres... são todas umas vacas! – e agarrou nas suas coisas e foi-se embora, deixando todos de boca aberta, principalmente Joana e não percebera nada.
—O que foi que lhe deu?
— Ele às vezes tem ataques destes – desculpou-se atrapalhadamente Ivan. – Deve ser isto de ser adolescente...
Quando a sua mãe parou o carro em frente à escola e Ivan entrou, ele já estava certo do que ia dizer, mas a sua mãe foi mais rápida.
— Ivan, estive a pensar, e não precisas de ir às aulas de violino... acho que exagerei um pouco e acabei por te pressionar a ires, mas só queria que perdesses essa timidez e encontrasses algo de que gostas mesmo... mas acho que podes procurar por ti mesmo, sem teres-me a mim a chatear-te...
Porém aquilo não surtiu qualquer efeito, Ivan já havia feito a sua decisão.
— Nah, mãe, eu quero experimentar, secalhar até gosto, mas primeiro tenho de tentar... senão gostar desisto, mas primeiro, antes de reclamar acho que devo conhecer isto das aulas de violino.
Ela sentiu-se orgulhosa do filho que tinha... demonstrara que de facto estava a amadurecer a tomar as decisões com a cabeça fria. Era tão difícil ser mãe solteira, mesmo que tivesse sido sua opção, no fundo sabia que o seu filho em muitos momentos havia precisado da famosa figura masculina, mas ele crescera e já estava tão responsável mesmo sem a ajuda dessa figura... ela sentiu o seu peito inchar de orgulho e chorou...
—Vá, mãe, não te metas a chorar como uma carpideira... vamos buscar o violino antes que eu chegue atrasado à primeira aula.
O sinal soou, avisando de que a última aula da tarde havia terminado. Ivan apressou-se a arrumar os seus cadernos dentro da mochila para ir ter com o seu melhor amigo Gustavo que se sentava no fundo da aula (Ivan fora obrigado pelo professor a sentar-se longe do amigo para não conversarem durante as aulas). Gustavo achava-se sentado descontraidamente na cadeira, rabiscando distraidamente o seu caderno e com os headphones nos ouvidos. Era gordinho, com uma barba preta de dois dias que lhe dava um ar de rebelde sem causa, o alargador na orelha esquerda e o piercing junto ao queixo, só que desta vez não espetara o seu cabelo em crista de galo decidindo optar por esconde-lo debaixo de um boné. Por sua sorte sentara-se atrás do seu colossal colega Sandro, cuja constituição enorme ocultava Gustavo e impedia que o professor se apercebesse que este não prestava atenção nenhuma às suas aulas.
— Ei Gus, a aula já acabou – informou Ivan dando um abanão ao amigo. Era um jovem alto e entroncado, com um cabelo aloirado cheio de caracóis, o que lhe dava um ar angelical.
— Ah, já? – Gustavo sobressaltou-se na cadeira e tirou os fones dos ouvidos. – Até que enfim.
— Gus, se o stôr te apanhasse a ouvir música ‘tavas tramado, ficavas sem o mp3.
— Ai dele, ia fazer queixa. Ele já ‘tá é bom p’ra reforma. Meterem um múmia destas a dar aulas é um atentado público.
Ivan riu. Gustavo era tão espontâneo que até dava graça.
— Olha, queres ir ao salão de jogos? – convidou Ivan enquanto via o amigo arrumar as suas coisas. – Chegaram jogos novos...
— Não posso, mano. Tenho treino de basquete hoje... há jogo no sábado e temos mesmo que ganhar se queremos passar prós quartos-de-final.
— Ah, sim. E que tal amanha?
— Amanhã saimos bué tarde, lembraste? E ainda por cima tenho Curso de Fotografia, deixa para o fim de semana.
— Ah, mas não se esqueçam que sábado temos o jantar de turma – relembrou Joana que “acidentalmente de propósito” estivera a ouvir a conversa. – Vais, não vais, Gustavo? – e lançou o sorriso mais largo e branco que Ivan alguma vez vira, somente teria perdido para os anúncios de pastas de dentes.
— Sim, vou sim – respondeu Gustavo.
— Boa – Joana parecia que queria voar. – Anda Becky, temos Ensaio Geral de Teatro.
E saiu da sala com a sua amiga ruiva.
— Viste isto, ela ‘tá caidinha por mim – gabou-se Gustavo enquanto acompanhava o amigo até à saída da sala.
— Andas muito convencido desde que curtiste com a Rita.
— Não é todos os dias que tens uma miúda como ela atrás de ti.
— Se a Joana sabe disso...
— Eu e a Joana não temos nada...
— Porque não querem... tu gostas dela...
— Olha, vou mas é pró treino... falamos na net, OK?
E saiu dali a correr, Ivan sabia que ele não queria era ouvir a verdade, sabia que o amigo gostava era da Joana mas que tinha medo de arriscar. Mas também não era aquilo que agora estava a afectar o jovem. As aulas haviam terminado e ele não tinha nada para fazer. A grande parte dos seus amigos estava envolvida em Actividades Extra-Curriculares como Desporto, Teatro, Cursos de Astronomia, Informática, Fotografia ou até mesmo Clubes de Leitura ou Aulas de Música, mas Ivan não estava em nada disso. Ainda não sabia bem do que gostava e estava a experimentar a difícil fase da adolescência da auto-definição, em que ele necessitava de descobrir quem era na realidade e a somar a isto tudo, era muito envergonhado, tinha sempre receio de estar a servir de bobo da corte, sentia-se retraído em público e dava muita importância ao que os outros iriam pensar dele, talvez por isso nunca tivesse arriscado entrar em nenhuma equipa de futebol ou basquetebol, pois tinha medo dos apupos do público; Teatro também estava fora de questão, não saberia do que teria mais vergonha, se representar em frente dos seus colegas ou se em frente do público. Ivan achava sempre que os outros eram melhores que ele e que nunca deveria tentar fazer o mesmo que os outros faziam porque sabia que no fundo iria perder, que nunca estaria à altura deles, igualmente por essas razões nunca optara tocar nenhum instrumento musical. Sabia que não devia de ser muito saudável mas preferia ficar quieto no seu cantinho, enclausurado caso fosse preciso, do que dar motivos para os outros rirem dele... detestava a humilhação... e na verdade tinha a sua fasquia muito embaixo. Ás vezes pensava para si mesmo como é que Gustavo tinha paciência para o aturar... Ivan era totalmente o oposto do seu amigo.
Triste e cabisbaixo por ter que ir para casa mais cedo, estando um solarengo dia lá fora, Ivan apanhou o autocarro, perdido em pensamentos. Como gostava de ter coragem para fazer centenas de coisas, mas nunca fora capaz de arriscar nada... sentia-se tão inútil às vezes por não tomar iniciativas... sabia que era muito mais do que somente timidez, era mesmo fraqueza de espírito...
Quando entrou em casa viu a sua avó a tricotar, sentada no sofá, por vezes desviava momentaneamente a atenção do seu trabalho para olhar para a televisão que emitia os seus programas da tarde: “Casos Reais”, um programa que abordava temas sociais actuais com reconstituições exageradamente fictícias. Ivan achava aquilo uma fantochada, mas parecia alegrar as tardes do público alvo do programa: as reformadas que ficavam em casa sem fazer nada e representavam a audiência dos programas da tarde.
— Então Ivan, estás por casa tão cedo? – perguntou a avó quando o seu neto se curvou para lhe dar dois beijos na face.
— Sim, não havia mais nada de jeito p’ra fazer na escola.
— Nem a namorada?
As bochechas de Ivan ruborizaram. Nunca tivera uma namorada. Bem, na verdade já curtira com uma garota, mas isso fora no jantar de aniversário do seu colega Marco em que havia bebido demais e acabara aos beijos com uma tal de Sandra. Ainda voltaram a encontrar-se umas quantas vezes, mas ela não tinha grande conversa e ele acabou por a dispensar. Ele podia ter somente quinze anos mas era de longe muito mais maduro que ela e não estava para aturar criancinhas. Mais uma vez também era tímido demais para tentar o que quer que fosse com alguém.
Não respondeu à avó. Encaminhou-se automaticamente para o seu quarto e ficou lá encerrado com os seus livros de Banda Desenhada e a ouvir música, até perto das seis da tarde alguém bater à porta.
— Então, filhote, tudo bem? – a mãe de Ivan acabara de chegar do trabalho e tinha ido ao quarto ver como o filho estava.
— Sim, mãe.
— Ai rapaz, sai deste quarto, estás aqui enjaulado. Anda cá à sala ver o que te trouxe.
Ivan levantou-se indolentemente da cama, não sabia se o esperava alguma surpresa boa ou má e no fundo até tinha algum receio do que estava para vir. Da última vez que a sua mãe lhe prepara uma supressa havia-lhe comprado um casaco incrivelmente horrível, o tipo de coisas que Ivan nunca usaria, mas a sua mãe ainda se achava no direito de escolher a roupa do filho. Para sua sorte, a sua avó interviera a seu favor, avisando a sua filha de que o neto já estava na idade de escolher a sua própria roupa e de se vestir ao seu gosto.
Chegou à sala e não viu nada de novo, exceptuando talvez um violino sobe o sofá, mas pensou estupidamente que talvez a sua mãe o tivesse comprado para enfeitar a sala ou algo do género.
— Gostas? – perguntou a sua mãe apontando para o violino. – Inscrevi-te em aulas de violino. É tão bonito, filhote. Nestas aulas podes tocar em conjunto com outros instrumentos, talvez ainda formem uma orquestra e...
Ivan sentiu provavelmente devia de ter limpado mal os ouvidos... decididamente ouvira mal. A sua mãe devia de ter enlouquecido de vez.
— Aulas... aulas de violino? – gaguejou Ivan, atónico. Ainda não conseguia acreditar. A insanidade havia tomado conta da sua mãe.
— Sim – a sua mãe estava com o sorriso ideal para os anúncios da Colgate. A transpirar felicidade pelos poros, Ivan sentiu vontade de partir o violino na cabeça dela para a chamar de volta à realidade.
— Mãe, não vou ter aulas de violino, são uma seca.
O sorriso alegre varreu-se dos lábios da mãe de Ivan mais depressa do que um piscar de olhos.
— Ivan, estas a ser injusto. Eu queria arranjar uma coisa para te divertires... podias esforçar-te um bocadinho – notava-se decepção em cada uma das palavras que proferira.
Mas para Ivan parecia que haviam acabado de anunciar que uma vaga de extraterrestres ia invadir a terra e aniquilar a espécie humana. Será que a sua mãe não conseguia compreender o que estava adjacente àquelas aulas de violino?
— Mãe, os meus amigos vão todos rir quando souberem que ando a ter aulas de violino...
— Ai Ivan! – exclamou a sua mãe. Parecia que finalmente compreendera o problema. – Estás a fazer uma tempestade num copo de água. Se são teus amigos nunca se vão rir de ti...
Ela não compreendia. Aulas de violino no universo adolescente significava que ele seria visto como um totó, um idiota, e ele não queria ser assim visto. Todos achavam o Gustavo fixe (nota: no Brasil este termo significa “legal”) por ele pertencer à equipa de basquete e andar no curso de fotografia; era também «in» andar no curso de teatro ou ter aulas de guitarra... agora violino! Daqui a bocado iriam pensar que ele também ouvia música clássica...
— Mas mãe...
— Não quero ouvir mais conversas, Ivan. Já paguei as tuas primeiras aulas. Vai guardar o violino e anda ajudar a pôr a mesa.
Não tinha mesmo escapatória possível.
No dia seguinte, estavam a sair da aula de Geografia quando Ivan fez sinal ao Gustavo de que precisava de falar com ele. Caminharam os dois juntos pelos corredores até ao pátio da escola. Ivan sabia que o seu amigo, com a sua imaginação fértil, iria arranjar uma maneira de o salvar daquela situação.
— Gus, preciso mesmo da tua ajuda.
— Vomita ai, mano.
— É a minha mãe... acho que ela endoideceu de vez... ela quer que eu vá umas aulas de violino...
Olhou para o amigo e viu que ele reagira normalmente, como se Ivan acabasse de dizer que ia fazer parte dos Detonautas. Será que também ele não via o problema? Ou será que o problema para variar era mesmo consigo?
— Sim, qual é a crise? – perguntou Gustavo.
— Aulas de violino, vê se acordas... são prá idiotas, Gus, se o pessoal sabe...
— Ivan, tu levas muito a sério aquilo que o pessoal pensa... tens que ser como o teu mano aqui, ‘tou-me a cagar pró que eles pensam de mim... até brinco com eles, digo que ter ferros na cara é o que ‘tá a dar... pelo menos os detectores de metais dão por mim...
— Sim, Gus, mas é diferente... tu és fixe porque tens piercings e alargadores e no fundo falam de ti mas querem todos ser como tu. Agora aulas de violino...
— Ivan, caga naquilo que vão pensar... tenhas piercings ou toques violino vão sempre falar de ti... por isso não deixes de fazer as cenas por causa da opinião dos outros... o meu pai sempre me ensinou a sermos nós próprios... claro que ele não gostou muito disso quando eu apareci com estes furos todos, mas pronto.... não leves a vida muito a sério, no fim vais morrer, né.
— Gus, a minha mãe deve ter-te pago p’ra me ‘tares a dizer isso, não foi?
— Nada disso... ‘tou só a dizer o que eu acho... o pessoal aqui quer sempre ser diferente mas no fim acabam todos por ser super iguais uns aos outros... ter aulas de violino é a coisa mais alternativa que eu já ouvi desde entrei p’ra este Liceu... e secalhar até vais gostar das aulas... ‘tás a fazer um grande drama mas ainda nem experimentas-te...
Tinham chegado às traseiras do pátio da escola, onde só haviam alguns casais a namorar e um grupo de rebeldes que fumava. Ivan estava atordoado com a reacção do seu amigo, estava a ser totalmente diferente da que ele concebera mentalmente.
— Porquê que viemos p’ra aqui? – perguntou Ivan agora que eles se achavam no pátio.
— Tenho um encontro – Gustavo lançou aquele sorriso que Ivan já conhecia... o sorriso de quem estava a planear alguma.
E de facto, quase que emergida do chão apareceu uma jovem de cabelos castanhos encaracolados que se atirou ao pescoço de Gustavo e lhe deu um beijo na boca. Ivan não sabia o que havia sido pior: se a reacção do seu amigo face às suas aulas de violino ou a cena que agora presenciava.
— Bom, Ivan, acho que te consegui ajudar, né? – perguntou Gustavo depois de se ter conseguido desenvencilhar dos lábios da moça.
— Sim, ajudas-te muito – respondeu Ivan. Compreendia que ele queria estar a sós com a moça, e a julgar pela maneira como o seu amigo Gustavo o havia ajudado a resolver o seu enorme problema, Ivan chegou a desejar que a Joana aparecesse e visse o Gustavo nos braços de outra, fazendo assim um escândalo digno de uma telenovela.
Quando chegou a casa, viu que para sua sorte a sua avó estava na cozinha a fazer um bolo. Era a sua última cartada, talvez a avó o pudesse ajudar. Não queria mesmo nada ir àquelas malditas aulas de violino e a sua avó conseguia sempre ser mais condescendente que a sua mãe.
— Avó, preciso mesmo de falar contigo.
— Ora diz lá, então.
— Avó, não quero ir àquelas estúpidas aulas que a mãe me inscreveu... sinto-me ridículo.
A avó olhou por cima dos seus óculos redondos que repousavam na ponta do seu nariz para o fundo dos olhos do neto. Ivan sentiu-se a corar até à raiz dos cabelos como sempre acontecia quando encarava alguém tão fixamente.
— Ridículo, Ivan? Não acho nada! Tocar violino é tão bonito – então porque não vai a avó às aulas, pensou Ivan de si para consigo -, acho que vais gostar. É normal o que estás a sentir... toda a gente têm medo de experimentar coisas novas... a tua mãe também morria de medo de ir às danças de salão, mas quando a convenci a ir ela adorou e não queria outra coisa. Ela quer fazer o mesmo contigo... alargar os teus horizontes. Podias experimentar, não custa nada... pode ser que gostes.
Outra vez! Será que havia algum vírus da idiotice à solta e ninguém o tinha avisado? Como é que ninguém via que aulas de violino eram ridículas? Ele não queria experimentar coisas novas, estava bem assim mesmo, mas não tinha mesmo como fugir.. as aulas eram já amanhã... talvez ainda conseguisse convencer a sua mãe a desistir...
Contudo fracassou...
Quando amanheceu, a sua avó e a sua mãe estavam sentadas a comer o pequeno-almoço. Ivan saiu apressadamente de casa sem sequer se sentar à mesa, dera a desculpa de que tinha um teste. Precisava de conjurar um último plano antes das malditas aulas de violino... era a sua única escapatória.
— O Ivan nem quis boleia para a escola – fez notar a mãe dele enquanto bebia os últimos goles do seu sumo de laranja. – Vou ver se hoje saio mais cedo para o levar às aulas de violino.
A avó sorriu, pousou a sua chávena de leite em cima da mesa e disse:
— Filha, não achas que talvez estejas a exagerar com isto das aulas de violino? O Ivan não está lá muito animado...
— Exagerar?! Claro que não, mãe, tenho a certeza que ele vai adorar. Se eu não o incentivar a experimentar coisas novas ele nunca o fará. Sabes bem como ele é tímido... tenho que o ajudar a sair da concha.
— Sim, mas também tens de tentar entender como ele se sente. Sabes bem como são os jovens... ligam muito ao que os outros acham, e além disso têm gostos diferentes, é provável que ele nem sequer goste de violinos... Acho que deves encorajá-lo a perder a timidez e a experimentar coisas novas, mas não obrigá-lo. Deixa que ele escolha por si mesmo....
A mãe do Ivan ficou a pensar durante alguns momentos. A sua mãe estava a mostrar ser mais condescendente com o Ivan do que alguma vez havia sido com ela. Parecia que idade tornava as pessoas mais benévolas.
— Sim, és capaz de ter razão – disse por fim. – Queria que ele experimentasse... mas acho que já pode decidir por ele mesmo...
— Mãe, eu estive a pensar nas aulas de violino, eu sei que a tua intenção foi boa e vou tentar procurar algo de que goste, mas também ‘tive a pensar e acho que já sou grandinho e posso fazer as escolhas por mim mesmo... – Ivan terminou de falar e olhou para os amigos que se achavam com ele sentados à volta de uma das mesas do bar da escola. Estivera a ensaiar aquilo que poderia dizer à sua mãe e tinha esperança de que a Joana, como actriz, aprovasse.
Estava à mesa com Gustavo, Joana e o Marco, um dos seus grandes amigos, andava com eles na turma e era surfista.
— Sabes, Ivan, até tens jeito pró teatro – opiniou Joana.
— Oh, digam sinceramente, o que acharam? – perguntou Ivan, ansioso. – Acham que ela vai entender?
— Eu não sei como é que ‘tás a reclamar das aulas de violino se ainda nem sequer experimentas-te – declarou Marco. – A minha irmã tem aulas de piano, és capaz de a encontrar por lá, ela diz que aquilo é fixe...
Não parecia ser lá grande ajuda, a irmã do Marco era um ano mais nova que eles, mas invulgarmente mais adulta do que a maioria dos jovens que eles conheciam... para alguém com catorze anos talvez as aulas de piano ou até mesmo de violino ainda eram vistas com alguma credulidade.
— Tenho ‘tado a dizer-lhe isto – reclamou Gustavo, estava ligeiramente envergonhado por Joana estar ali. – Aposto que ele vai gostar...
— Vocês devem ter batido com a cabeça – resmungou Ivan. – Estava a espera que fossem rir ou assim...
— Rir, p´ra quê?! – admirou-se Marco. – Somos teus amigos, não iamos rir de ti por teres jeito p’ra tocar violino... é difícil e eu ia sentir orgulho de ter um amigo que soubesse tocar.
Ivan deu por ele a sorrir, eles de facto não existiam, estavam mesmo empenhados em fazer com que ele fosse às tais aulas.
— Vai sim – terminou Gustavo. – Vais encontrar pessoal novo, conhecer gente nova e quem sabe alguma miúda gira...
— Pois, vocês rapazes tinham logo que ir buscar mulheres p’ra conversa – reclamou Joana levantando-se e encaminhando-se para a máquina de águas.
Nesse mesmo instante a Rita, a garota com quem o Gustavo andara aos beijos no dia anterior entrou no bar aos beijos com outro rapaz. As cabeças de Ivan e Marco viraram-se automaticamente para o seu amigo que olhava estarrecido para a cena.
— Aqueles dois namoram? – perguntou cautelosamente o Ivan.
— Ela disse-me que eles tinham acabado – articulou com alguma dificuldade o Gustavo. Sentia um bicho feroz a imergir de dentro de si. – Ela usou-me! Que cabra!
Mas todos sabiam que o Gustavo não estava verdadeiramente magoado. Ele queria dispensar a moça mas no fim acabara ele dispensado. Ivan sabia que no fundo o amigo gostava era da Joana e aquilo ia passar-lhe rápido, estava somente com a sua honra ferida.
— Bem, a Rita quase que come o Miguel aqui no bar – fez notar Joana quando se aproximou da mesa. Ela era a única que não sabia de nada. – E tu Ivan, já sabes o que vais fazer?
Ivan ia abrir a boca mas Gustavo adiantou-se.
— Faças o que fizeres, Ivan, não confies nas mulheres... são todas umas vacas! – e agarrou nas suas coisas e foi-se embora, deixando todos de boca aberta, principalmente Joana e não percebera nada.
—O que foi que lhe deu?
— Ele às vezes tem ataques destes – desculpou-se atrapalhadamente Ivan. – Deve ser isto de ser adolescente...
Quando a sua mãe parou o carro em frente à escola e Ivan entrou, ele já estava certo do que ia dizer, mas a sua mãe foi mais rápida.
— Ivan, estive a pensar, e não precisas de ir às aulas de violino... acho que exagerei um pouco e acabei por te pressionar a ires, mas só queria que perdesses essa timidez e encontrasses algo de que gostas mesmo... mas acho que podes procurar por ti mesmo, sem teres-me a mim a chatear-te...
Porém aquilo não surtiu qualquer efeito, Ivan já havia feito a sua decisão.
— Nah, mãe, eu quero experimentar, secalhar até gosto, mas primeiro tenho de tentar... senão gostar desisto, mas primeiro, antes de reclamar acho que devo conhecer isto das aulas de violino.
Ela sentiu-se orgulhosa do filho que tinha... demonstrara que de facto estava a amadurecer a tomar as decisões com a cabeça fria. Era tão difícil ser mãe solteira, mesmo que tivesse sido sua opção, no fundo sabia que o seu filho em muitos momentos havia precisado da famosa figura masculina, mas ele crescera e já estava tão responsável mesmo sem a ajuda dessa figura... ela sentiu o seu peito inchar de orgulho e chorou...
—Vá, mãe, não te metas a chorar como uma carpideira... vamos buscar o violino antes que eu chegue atrasado à primeira aula.


7 comentários:
LOL Andas a fazer concorrencia aos morangos com açucar?
Adorei o texto... esse Gustavo tem muito que se lhe diga!
Tem não tem? Foi por isso mesmo que lhe dei o teu nome =) LOL
Ah, peço desculpa aos leitores pelo uso de palavrões mas todos sabemos que os adolescentes usam termos impróprios, foi para dar o toque real à situação... mas mesmo assim nao utilizei termos piores ou os textos perderiam o pouco nivel que tem rsrsrsr
Eu comecei a ler o texto, mas quando eu olhei para o lado e li "pensamento do dia" eu tive que parar tudo. Vou tomar um café e depois eu volto.
Isso é para se pensar com calma... (mas que ela tem um sorriso misterioso e enigmático tem,)
nossa....to impresionadu com a sua cronik viu...bem elaborada....e bem bolada viu....d+++
lg7fortalezxace.blogspot.com
Tks
Luiz Guilherme By Lg7
ah sorry..o endereço e...lg7fortalezace.blogspot.com
Outro "pensamento do dia" para se pensar durante o dia... então, vamos sempre buscar.
Mas será que encontramos respostas erradas? Ou as perguntas não são certas?
Adorei a história! Mesmo porque, é uma das brigas que tenho com os meus meninos - para dizer que não gosta, tem que experimentar primeiro.
Mas, ao contrário de Ivan, os meus gostam de música e tocam. Só detestam estudar quando eu mando - só quando dá na "telha"... aí fica difícil... rsss
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