As consecutivas aulas de Sociologia têm-me levado a pensar que a famosa frasezinha «sorria, você está sendo manipulado» não se cinge somente aos meios de comunicação e que está é muito mais abrangente, abarcando também uma instituição que eu desde pequena fui levada a adorar: a Escola!A escola, essa nobre instituição que forma os futuros cidadãos do Admirável Mundo Moderno… ou será que os molda? Bem, depois da chuva de ideias que tivemos nas aulas sou levada a pensar que efectivamente a escola molda os alunos à luz da ideologia dominante. Os programas escolares são elitistas e estruturados em função de quem detêm o poder, afinal quem organiza os programas escolares é o Ministério da Saúde, e tal como Paulo Freire afirmou «não existem educação neutra».
Por exemplo, dando uma olhada aos livros da Escola Primeira da minha irmã (que tem oito anos), eu vejo que os livros vão logo ensinando, por meio daqueles pequenos textos para ensinar a ler, que as meninas devem brincar com tais brinquedos e os meninos com outros tais brinquedos. Nas gravuras destes mesmos livros podemos ver que as criancinhas são quase todas loirinhas e de olhos azuis, quase parece que estamos na Escandinávia, ou que então andaram a copiar os programas escolares do Hitler. Raramente se vêm crianças de outras etnias, e note-se que Portugal tem uma elevada taxa de habitantes africanos.
Estes programas escolares estão muito longe de incluir os seus alunos. É que a Educação que vemos nas escolas é aquela a que Paulo Freire designou de “educação bancária”: o professor deposita os seus conhecimentos e os alunos digerem o que professor disse. Isto é, o Ensino acaba assim por não dar oportunidade aos alunos de manifestar os conhecimentos que estes adquiriram fora da escola, no convívio com elementos da sua comunidade. O que eu aprendi nas Aulas de Educação de Adultos foi que ao ver da Escola os alunos são folhas em branco quando lá chegam e são os professores quem vão rabiscar nessas folhas, ou seja, a escola ignora todas as outras aprendizagens do aluno. Concluímos então que a escola não vai de encontro à necessidade de todos os alunos.
O meu professor de Educação de Adultos disse-nos sempre que a Educação deve ir de encontro à necessidade dos alunos, ou seja, era fulcral que se utilizasse o método Paulo Freire na aprendizagem (partir do Universo Vocabular do aluno para iniciar a alfabetização, assim os alunos estariam mais motivados a estudar). Como os programas escolares são universais para todo o país, estes acabam por excluir vários alunos. Por exemplo, a estudar os meios de transporte o professor está a ler um texto sobre o metro de Lisboa, isto numa sala de aulas de uma pequena vila no Norte de Portugal. Tendo em conta que se encontram no meio do campo e que só duas cidades portuguesas possuem uma rede de metropolitanos, possivelmente os alunos não se sentiram assim (tão) motivados para aprender sobre aquele meio de transporte uma vez que não o conhecem. Não seria muito melhor se o professor começasse por falar dos meios de transporte que os seus alunos já conhecem em vez de falar logo no metro? Ou por outras palavras, partir do conhecido para o desconhecido. Provavelmente teria muito mais saída.
Pensemos então na escola que acaba por excluir os alunos. Falando especificamente dos alunos que não são nacionais, pensemos… quantos se sentem motivados para aprender a História ou a Geografia de Portugal? Será que aos ouvidos deles o Marquês de Pombal, o Rei do Carlos I ou o Salazar lhes dizem alguma coisa? O professor poderia articular as aulas de maneira a que estes filhos de imigrantes participassem, relacionando a matéria com a realidade dos seus países… seria entre-ajuda onde um aprende com o outro.
É que a escola é tipo o capitalismo contém em si mesmas as sementes da sua própria auto-destruição. Desde cedo que esta Educação selecciona logo quais serão os alunos que vão prosseguir e aqueles que terão insucesso escolar e claro está que os que prosseguirão no estudo serão aqueles que estiverem mais dentro da ideologia dominante. No entanto os professores também são seres humanos, e o que está expresso nos manuais escolares pode ser contestado pelos professores e pelos alunos que vivem esta realidade e sabem que na prática as coisas não são bem como está patente na teoria. Digo isto relembrando-me de que foi o meu professor de História que me infectou com o bichinho do comunismo, ele é que nos fez começar a pensar e a analisar criticamente o Admirável Mundo (ave stôr Luís Laço). Isto vem se relacionar com o que a Letícia comentou no post sobre o Relatório do Estado do Mundo: “É importante ressaltar que estar inserido num modelo de educação não limita a pessoa a buscar mais conhecimento e se interessar por matérias que sua educação não abrange...as piores amarras são criadas por nós mesmos”. Concordo, até porque se foram os meus professores de História e de Alemão que nos injectaram com doses colossais de análise crítica, isto me leva a pensar que talvez esteja tudo nas mãos dos professores. Estes são os mediadores entre o Sistema de Educação e os Alunos… são eles que têm a faca e o queijo na mão e a partir do programa escolar que tem em frente dos seus olhos eles podem estruturar as suas alunas. Eles podem querer que os seus alunos sejam poluídos mentalmente ou podem querer suscitar neles o pensamento crítico. Talvez seja por isto que a questão da Educação Inclusiva ande na ordem do dia… e eu, como depois de concluir este curso quero pensar em ser Professora de História talvez deva de pensar nisto…
Contudo, e já que falamos de Educação, eu tenho pensado na sistema de Ensino. Agora há cada vez mais Cursos de Educação e Formação onde os alunos aprendem trabalhos práticos e se revelam uma forma alternativa de concluir o Liceu e quem sabe concorrer à Universidade. Isto é o reflexo da tal procura da Educação Inclusiva, pois a taxa de insuseço escolar já estava a atingir proporções catastróficas.
Desde o fim do regime salazarista que se procurou melhor o sistema de ensino, tentando acabar com o elitismo que anteriormente se verificava. Então antes da Faculdade existiam três tipos de ensino:
As Escolas Comerciais (para trabalhos práticos como Secretária, Dactilógrafa, Contabilista, etc.)
As Escolas Industriais (para trabalhos práticos como Carpinteiro, Electrecista, Mecânico, ect)
O Liceu (para quem pretendia seguir profissões liberais e ingressar na Faculdade. As outras escolas também possibilitavam a entrada na Universidade, no entanto no Liceu era mesmo obrigatório seguir para o grau seguinte de educação).
Uma coisa era certa, aqueles que não pretendiam ir para a Universidade, e eu conheço muitas pessoas cujos seus planos não são estes, tinham sempre a possibilidade de aprender uma profissão e exerce-la, tanto que verificamos que os carpinteiros, electricistas mais velhos são muito mais eficientes que a nova geração. Uma coisa que a minha tia me disse uma vez e que me deixou com uma pulguinha atrás da orelha foi que: «Não podemos pensar que todos querem ser doutores. Um electricista ou um mecânico é tão necessário quanto um médico ou um advogado». E como Portugal está com um excesso de licenciados uma parte de mim até crê que ela tem razão. Talvez um dos erros do 25 de Abril tenha sido a abolição das Escolas Comerciais (a minha tia às vezes tem a capacidade de me “endireitar” [de fazer com que eu vá para a Direita]).
E nisto tudo, retomando ao assunto da Poluição Mental na Escola, eu fui contar à minha tia estas ideiazinhas acima expostas de modo a ouvir o que a visão salazarista dela teria para me dizer. É certo que a escola acaba por excluir os alunos, então ela disse-me «e tu, que nasceste no Brasil, sentiste excluída quando estudaste a História de Portugal?». Bem, pensei para mim mesma que não, porque vivo em Portugal desde os dois anos de idade e já sei mais da História portuguesa do que da brasileira. E por fim ela colocou a cereja em cima do bolo «E porquê que estão sempre a defender os mais fracos? Aqueles que têm dificuldade à aprender, aqueles que não se sentem incluídos e que muitas vezes têm preguiça de estudar, em detrimento daqueles que sabem? Numa sala de aula, se o professor estiver sempre a perder tempo a repetir inúmeras vezes uma matéria, os alunos que já a sabem detrás para a frente vão acabar por não se sentir motivados a querer estudar…» ao que eu respondi que se devia de ter em conta que os que não sabem deviam de ser ajudados para poder estar ao nível dos que sabem. Então ela arrematou «Sim, mas acabamos por prejudicar os que já sabem. Porquê que estamos sempre a beneficiar os que estão em piores condições em vez de ajudar a crescer aqueles que são inteligentes?». Acho que se estivéssemos numa partida de xadrez esta era parte em que ela dizia «Xeque». Por acaso concordo em parte (lá está o estado Direito das coisas a falar) com que ela disse, no entanto porque não fazer com que os alunos que sabem ajudem os que não sabem, a tal entre-ajuda de que falei, na base do um aprende com o outro e todos crescem? Como vi que esta a ficar encurralada e precisava de construir um argumento forte apenas disse «Tia, faça picanha para o próximo sábado e eu arranjo uma maneira de salvar o meu Rei e dizer “Xeque-mate”».
Ps: Diz que amanhã alguém vai ter uma surpresa e tal…


5 comentários:
O conceito de flexibilidade curricular seria o ideal , consiste em matérias obrigatórias( português , matemática...)e optativas.
Assim se aprenderia o ideal e o que realmente interessa a cada um individualmente.
Mas a questão barra nos interesses políticos...menina vc ia dar uma ótima professora!
Bjks.
Ahh..eu concordo com você ,principalmente na parte em que não precisamos somente de médicos e advogados. Porra ninguém da valor para outras profissões. Professor por exemplo é MEGA desvalorizado no BR , parece que o cara virou professor porque não tinha mais outra profissão.
Outro dia mesmo a garota perguntou para o professor, porque ele era professor se era tão inteligente podia ter sido outra coisa. Coisas bizarras.....
Portugal, bom eu nunca morei mas como meu pai eh português já passei férias aí, cara rola muito preconceito ainda quanto aos negros.
Vai demorar um "pouco" pra eles aparecem como exemplo de alguma coisa positiva.
BJus
É Letícia, a Camila tem jeito de uma prof. de responsa. Valeu pela indicação ao Blues. A educação só irá mudar quando resolvermos mudar.
Bom, é verdade que no Brasil muitas vezes parece que o cara virou professor por falta de opção... meu amigo mesmo acabou largando o curso de letras e agora vai começar direito, mesmo se interessando mais na outra área! O sistema está mesmo nas mãos dos professores, que vez ou outra nos dão uma "luz" e ajudam a desenvolver pensamento crítico...
Gostei do teu post de baixo, além de talento pra lecionar, tem talento pra escrever ;)
Vou indo, mal começaram as aulas e já vou ter um teste no sábado. Mas pode deixar que passo por aqui, beijos!
Curiosidade: já leu Persépolis? xD
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