"Crónica de Costumes"

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Admirável Mundo Apresenta - Amor de Adolescente - "Tragédia" Em Três Actos

III Acto - As Respostas

Assim que tocou para a saída, Becky foi a primeira a sair, atropelando os seus colegas. Quando chegou ao pátio, viu Gustavo a escrever uma mensagem de telemóvel (provavelmente para a Joana) e aproveitou para lhe perguntar.

- Já falaste com ele?
- Já.

O seu estômago deu um salto como se estivesse num carro que acabava de passar numa lomba. Queria logo saber a resposta, estava ansiosa, mas ao mesmo tempo precisava de saber quais haviam sido os preliminares para a principal questão.

- Como é que lhe perguntaste?
- Bem, quando saí da aula vi ele sozinho lá no banco. Fui ter com ele e ‘tivemos a falar de um monte de cenas, até que o assunto foi parar em moças. Ele perguntou se eu gostava de alguém… eu ‘tava um pouco com o pé atrás de dizer que gosto da Jo… mas parece que o pessoal todo já sabe neh, mas pronto… disse-lhe que gostava da Jo e ele disse que curtia muito do estilo dela e achava ela bem fixe – Becky sentiu-se deprimida… preferia que Diogo tivesse falado nela ao invés de estar a gabar a amiga… sentiu algo que não se lembrara nunca de antes ter sentido e sentiu nojo de si mesma. – Bem, depois eu perguntei se ele conhecia a ruivinha que andava sempre com ela. Ele disse que sim, que a Di vos tinha apresentado e eu perguntei o que ele achava de ti.

Era agora… ia finalmente saber qual a opinião dele a seu respeito…

- Tens a certeza que queres saber a resposta? – perguntou Gustavo, receoso.

Aquilo só podia ser um mau presságio.

- Sim, quero – Becky engoliu em seco.
- Bem... ele... ele disse que te achava simpática, parecias ser super fixe...aa… mas que na aparência... bem… que deixavas um pouco a desejar… er…

Becky nem precisou de ouvir o resto. A realidade tomou conta dela duramente. Agora sabia. Diogo nunca iria querer ter nada com ela porque ela era feia... sentia-se horripilante, medonha, monstruosa... e ele tão bonito... podia ter todas as garotas que queria, porque haveria de querer alguma coisa com ela? Talvez até sentisse alguma coisa por ela, mas mesmo assim nunca iria assumir nada... iria ser motivo de chacota por parte dos seus amigos…

- Desculpa, Becky, eu não sou muito bom a dizer estas cenas. Mas eu falei bem de ti a ele... só que sabes né… vocês são super diferentes… ele ia preferir alguém mais…

Porém Becky sentiu que não era necessário ele continuar… Diogo preferia alguém que fosse mais parecido com a Joana, com o cabelo rebelde, as roupas alternativas e os piercings… alguém que fosse bonito como a amiga e além disso popular… e Becky era somente mais uma garota normal como todas as outras que andavam naquele Liceu. Ela sabia que só nos filmes de adolescentes é que o rapaz popular se apaixonava pela menina anti-social ou que a garota da claque namorava com o nerd… esse tipo de coisas não acontecia na vida real…

- Eu já sei, Gus. Obrigada à mesma, mas eu tenho que ir a biblioteca.

E afastou-se... mas ao invés de se refugir na biblioteca, preferiu um cubículo da casa de banho onde se sentou na sanita e começou a chorar... tudo o que vivera até então durante aqueles meses resumia-se a pó, a nada... ele nunca iria querer nada com ela... de que adiantaria continuar com aquela troca de olhares... um dia ele iria farta-se e ela só havia jogado tempo fora com uma paixão que além de platónica era impossível.

Soou o toque de entrada mas ela decidiu para si mesma que não ia para a aula... nem iria ter cabeça para se concentrar nas aulas, todos iriam notar que ela estava deprimida e provavelmente seria bombardeada com perguntas… Sentia-se tão triste, como se a tivessem acordado cruelmente de um sonho agradável… o desenho que ela havia pintado até então estava incorrecto… escolhera as cores erradas e tudo resumia-se a ilusão…

Ouviu a porta da casa de banho e nem se preocupou em sufocar o choro.

- Está aí alguém? – era a voz de Diana. – Sentes-te bem? Queres que vá chamar ajuda?

Becky sentia que precisava de falar com alguém; Joana devia de estar no dentista e ela não queria incomodar, e além disso Diana havia sido tão sua amiga e tentado juntá-la com Diogo, era o consolo de que ela precisava… ela tinha de alguma forma de despejar para fora o que estava a sentir.

Abriu a porta do cubículo e abraçou Diana que se achava encostada ao pé da porta e se assustou quando viu uma figura ruiva agarrar-se a si.

- Becky, o que aconteceu?

Quando se sentiu capaz de falar, contou à amiga tudo o que havia passado. Diana ouvia atentamente e quando Becky terminou ela estava boquiaberta.

- Bem, Becky, tens que ver que ele também não deve ter grandes confianças com o Gus, se sente alguma por ti não era a ele que ia dizer…
- Sim, Di, mas pela resposta que ele deu já se pode ver que nunca iria querer nada comigo porque eu não sou uma freak. Secalhar se aparecesse aqui com o cabelo de rosa e um piercing na língua de certeza que ele ia andar babadinho atrás de mim…
- Mas não vais mudar por causa dele, Becky, ele tem que gostar de ti da maneira que tu és!
- Sim, mas não gosta!
- E agora vais fazer o quê?! Tentar mudar para que ele se interesse? Becky, assim só ias mostrar que não tens personalidade nenhuma e és influenciável, tal como ele. Sim, porque há muitas coisas que ele faz que é só p’ra impressionar os amiguinhos dele. Vê o Bruno, por exemplo, anda com eles mas não fuma… já o Diogo! De que ia adiantar fazer essa extremely makeover toda? Tu não és assim! Ias enganar-te a ti mesma. Deixa a rebeldia para o nosso casalinho Joana e Gustavo.
- Tens razão! Mas eu também fui burra de pensar que ele ia querer ter alguma coisa comigo! Já o viste bem? É skater, guitarrista, bonito e popular, pode ter as moças que quiser e quando quiser! Onde é que eu estava com a cabeça?!
- Ai, Becky, não dramatizes! Ele pode ser isso tudo, mas falta-lhe o mais importante: atitude! Prefere esconder os sentimentos do que admitir que gosta de ti…
- Como é que sabes que gosta?!
- Desculpa, as atitudes dele só provam isso… ele é um fraco que se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema não és tu, amiga… a sério. Tu és bonita, inteligente, simpática, engraçada e boa no Teatro, tens tantas qualidades e tanta gente que gosta de ti de verdade. Vocês são totalmente diferentes, é verdade, mas iam fazer um casal engraçado, e ele nem sabe a miúda espectacular que ‘tá a perder…

Becky sorriu timidamente. Queria acreditar que no fundo a Diana tinha razão, mas ainda assim sentia-se fracassada, como se a culpa fosse dela. Infelizmente o curativo para aquela ferida só o tempo podia dar.

- E o que faço agora? – perguntou Becky?
- Agora vais limpar essas lágrimas e vamos p’ra aula!
- P’ra aula?! Não me apetece nada, Di! Além disso já passou muito tempo da entrada, a stôra não nos vai deixar entrar.
- Dizemos que ‘tavas maldisposta! Anda lá, não vais te prejudicar nos estudos por causa daquele ranhoso. Como diz a minha mãe: os estudos primeiro e os namoricos depois! Vamos, vamos. Como dizem os brasileiros: bola p’ra frente que atrás vêm gente! A fila ‘tá andando, querida. Esta é a última aula do dia e depois que tal uma reunião de mulheres lá na minha casa? Tenho uns filmes bem fixes. Vou ligar a Joana e vocês as duas dormem lá. Com a nossa companhia e o Johnny Deep de certeza que te animas logo.

E saíram da casa de banho. Diana estava abraçada à amiga. Becky tinha os olhos avermelhados e notava-se claramente que estivera a chorar. À saída daquele bloco encontraram Diogo a fumar e com um punhado de giz na mão. Ela sentiu-se pior… ir para escola e encontrá-lo todos os dias ia ser muito difícil, e vê-lo logo ali fê-la perceber que tinha um longo caminho pela frente.

Diogo mostrou-se preocupado quando viu a cara de Becky, o sorriso que até então se havia desenhado nos seus lábios desapareceu rapidamente e ele perguntou:

- Aconteceu alguma coisa?

Diana parou à frente dele e olhou-o com desprezo como se ele fosse um insecto repugnante.

- Di, vamos embora – sussurrou Becky.

- Na verdade até aconteceu – começou Diana encarando-o altivamente.

Mas nesse instante apareceu um professor com um farfalhudo bigode castanho.

- Como se não bastasse demorar uma eternidade para arranjar giz ainda está aqui fora a fumar e a namoriscar, Diogo! – reclamou o professor, irritado. – Dê-me cá esses gizes – e arrancou-os da mão do aluno. – Apague essa porcaria imediatamente e ande para a aula senão quer levar uma falta disciplinar – e afastou-se a largas passadas.

Diogo apagou o cigarro e olhou de Becky para Diana. A última encarava-o com um ar ameaçador.

- O quê que ias dizer?

- Esquece lá isso – disse Diana olhando-o de cima abaixo – Há coisas na vida que não têm explicação. Vamos, Becky – puxou a amiga pelo braço -, vamos perder tempo com coisas que valem a pena!

E dito isto saiu dali arrastando a jovem ruiva atrás. Diogo ficou estarrecido a olhar para a situação. Ela devia de ter enlouquecido!


*

Haviam-se passado semanas desde que Gustavo falara com Diogo. Joana e Diana dedicaram-se a ajudar a amiga a esquecer o jovem e Becky andava agora mais concentrada nas aulas e aceitava todas as propostas para sair. Às vezes o seu olhar cruzava-se com o dele, mas ela desviava logo a sua atenção, fingindo-se interessada em qualquer outra coisa. Notou que Diogo ainda continuava a olhar para ela, mas ela encontrou forças que nem sabia que tinha e ignorou a situação. No fundo as coisas haviam mudado e já não podiam ser como eram antes. Sabia que aquela experiência estava a ser particularmente dolorosa pois fora a primeira vez que ela se sentira apaixonada por alguém. Estava cansada de ouvir as amigas dizer que com o tempo iria esquece-lo… no fundo bastava o Diogo olhar para ela para que ela colocasse todas as suas escolhas em questão, mas por outro lado… a resposta que ele havia dado a Gustavo ainda ressoava nos ouvidos dela… E de facto veiu-se a comprovar que ele era mesmo um pau mandado na mão dos seus amigos quando ele apareceu com um braço engessado porque estivera a andar de mota embriagado… Não é assim que eu quero um namorado, pensou por fim, Becky. E decidiu que o melhor mesmo era colocar aquele sentimento de lado e partir para a frente.

Na aula de Português estavam a ler poemas de cariz romântico, e naquele dia a professora estava a explicar-lhes o que era o amor platónico. Haviam lido um poema deprimente em que o poeta afirmava que apesar de amar a sua amada nunca iria ter oportunidade de consumar o seu amor pois este era impossível.

- Isso é estúpido – opinou Gustavo bem ao seu jeito característico e espontâneo de ser. – Amores impossíveis! Bah, eu fartava-me! P’ra quê ‘tar a perder tempo senão vale a pena?
- Ah, meu jovem! – exclamou a professora, ela própria parecia ter saído de um poema, era poética em quase tudo o que fazia. – Os amores impossíveis são os melhores. Existirá algo mais sublime do que o toque subtil do fatalismo romântico?!

Os alunos ficaram a olhá-la, boquiabertos. Não haviam entendido nada.

- Os apaixonados ficam sempre na expectativa do que poderiam ter vivido, do que poderiam ter dito um ao outro. É uma miscelânea de possibilidades que dá cor ao nosso baú de memórias.

Mas Becky percebeu o que a professora havia dito, ela própria o sentira na pele. Ela não detestava o Diogo pela resposta que ele havia dado, nunca seria capaz de o fazer depois de ter sentido por ele algo tão sublime. Sabia que sofrera com a desilusão da resposta dele, mas ainda guardava cada página dessa paixão platónica, não no seu diário, mas na sua memória, e sabia que mais tarde se iria recordar daquele possível romance... não teria de viver com a realidade de que correra mal... poderia ter a oportunidade de ela mesmo pintar o destino daquela paixão... era ela a realizadora daquele filme...

Ao olhar pela janela da sala e ver o Diogo lá em baixo no pátio, deitado ao sol no banco dos punks e lançando baforadas de fumo para o ar, a Becky não deixou de sorrir interiormente… evidentemente a professora tinha razão... os amores impossíveis eram sem dúvida os melhores...


Camilla Boyle fala:

Bom, esta história é baseada em factos reais. Aconteceu aquando da primeira vez que me apaixonei. Anteriormente já tinha tido aquelas paixonetas bobocas de pré-adolescente, mas nunca algo como eu senti pelo senhor da História (que por acaso não se chama Diogo). Algumas cenas que aqui escrevi aconteceram mesmo, outras acrescentei, mas o conteúdo da História é mesmo verdade. Ele estava sempre a olhar para mim e eu para ele. Eu sentia ciúmes quando o via rodeado de garotas e vice-versa. Fomos apresentados, mas nas coisas nunca evoluíram. Um amigo meu foi-lhe perguntar o que ele achava de mim e eu ouvi uma resposta igual à da Becky. Fiquei muito desapontada com a resposta mas o tempo ajudou… só foi pena ter perdido tanto tempo a perceber isso. Eu nunca fui a garota popular que os rapazes queriam conhecer e nem me esforcei por isso. Sempre gostei de ser como sou e nunca fiz questão de mudar para agradar ninguém… muito menos a pessoa de quem gostava. “Me aceite do jeito que eu sou”! Bom, a vida continuou e ele arranjou uma namorada quando nós estávamos no último ano do Liceu e eu me envolvi em muitas outras peripécias que sempre recordo quando saio com meus velhos amigos. Sou da opinião de que os amores impossíveis são os melhores, exactamente pelos motivos que acima citei. Esta história foi algo que “um romance inacabado”, mas como eu sou adepta da expressão “Tudo tem o seu tempo”, acredito que haverá uma oportunidade de concluir o que aconteceu se for o momento certo e se tiver que acontecer. É que todos nós temos te passar por muito até encontrar a nossa alma gémea, não é! E se for o rapaz da História melhor ainda, tenho a vantagem. Se não for, sorry but I can't be perfect! xD

Ps: Adoro a banda Simple Plan porque eles parecem que têm uma música para cada situação que eu vivo. É daquelas bandas que a gente têm a sensação que o vocalista pensou em nós quando escreveu a música. E para esta “página da vida” eu escolhi esta música. Apesar de ter sido escrita como se fosse para um pai, vamos fazer de conta que diz respeito ao senhor a História (não vou citar nomes rsrsrs).


7 comentários:

Anónimo disse...

Naaaaooooooo!!!!!! Eles nao ficaram juntos e casaram com 16 e 15 anos, mesmo tendo a autorização dos pais (sim há muitos pais que deixam os filhos casar com esta idade). Já não podes ir pra Malhação! Com este drama todo davas cabo das audiencias LOOL

Isto foi uma "tragégia" em tres actos com um final mesmo tragico bem ao estilo de C. K. Boyle. "Romances incabados" tu tens com cada uma. Adorei rever esta pagina. Os romancences de adolescencia tal como eles são.
Parabens!

Anónimo disse...

A Bruxa quer saber qual a minha opiniao da historia? x)

Pense em duas pessoas totalmente diferentes uma da outra. Assim eram os protagonistas desta historia. Passaram dois anos lectivos olhando um pra o outro e ate foram apresentados. No fim acaba assim. Eu nao sei quem eu espanco primeiro. Eles tinham tudo pra ser o casal do ano la da escola, ou entao nao, talvez nem desse certo, mas nem tentaram porque causa dos amigos dele. Por favor, nao sei como que a Camila nao lhe partiu o skate na cabeça x)
Eu disse que ele iria gostar da historia porque era a tal pancada de skate que ele precisava d ter levado, pra saber o quanto gostaram dele e o que ele desperdiçou.

Anónimo disse...

Ah notas finais =P: na altura é que devias de ter feito o piercing que queres fazer agora!!!!

LOOOOOOOOL tive que deixar esta!

Anónimo disse...

Você acerta em cheio nas minhas preferências sobre histórias. Sabes fazer uma narativa certa nos amores que nos pegam quando adolescentes. Bjus e continue assin.

Lola disse...

Simplesmente A D O R E I!

=))

Beijoss

Mirian Martin disse...

Menina, corajosa voce foi! Apesar de enrolar por dois anos...
Eu nunca teria essa paciência...
E me vejo muito em becky - eu era uma magrela, que não se achava bonita, achava que não tinha conversa para nada. Em contrapartida, a última coisa que eu pensava era namorar alguém, ter alguém no meu pé!

Teflon, por que você não deu com o skate na cabeça do camarada?! Para onde vão os amigos nessas horas?! =D

PaT Gimenez disse...

O.o
UAU!