Num daqueles dias em que eu não tinha nada para fazer (o que é muito esporádico porque normalmente tenho sempre uma pilha instável de fotocópias da Faculdade para ler, mas que eu normalmente uso para me abanar quando tenho calor ou para matar uma ou outra mosca impertinente [gosto de ler e de estar informada, mas odeio estudar]) fui até à locadora procurar um filme legal para ver. Esta locadora não tem clássicos do cinema e prima por aqueles filmes com efeitos especiais (bah!). Pensei em algum filme com o Johnny Deep mas já os vi a todos… evitei os quarentões que rodeavam a secção de filmes pornográficos e afastei-me da prateleira com filmes franceses cuja história ninguém percebe (vá digam lá quem é que percebe os filmes franceses? =D )… foi então que vi o Michael Moore a rir na capa de um DVD e aproximei-me.Já conhecia a fama do Michael Moore… ele é daqueles realizadores audazes que critica o que de errado vê na sociedade, e eu gosto disso. Sendo ele americano, achei corajoso da parte dele criticar a guerra do Iraque e não ser daqueles que sentem orgulho da guerra do Vietname… e mais me admirei de a CIA não ter arranjado uma forma de o “apagar”, sei lá, com algum charuto envenenado como pensaram em fazer com o Fidel Castro (ah mas não se esqueçam que os charutos cubanos são ilegais nos EUA… os rappers podem ser apanhados a fumar maconha, mas charutos cubanos dá direito à cadeira eléctrica!).
O filme chamava-se “Bowling for Columbine”. Li a contracapa… falava sobre o massacre ocorrido no Instituto Columbine, a 20 de Abril de 1999, quando dois adolescentes mataram vários alunos e professores. Era um documentário sobre as influência das armas na sociedade americana e aquele pequeno texto terminava com uma questão colocada pelo próprio Moore: “Seremos nós loucos por armas ou simplesmente loucos?”. «É isto!», pensei para mim mesma. E aluguei o filme!
Depois do ritual habitual que precede ao visionamento de um filme (fazer pipocas e encher um grande balde com um daqueles refrigerantes super saudáveis sem corantes nem conservantes), instalei-me confortavelmente a ver o filme.
Assim que o filme terminou eu fiquei boquiaberta. Decididamente um dos melhores documentários que já vi (sem querendo menosprezar os documentários habituais sobre a vida dos animais nas savanas) e claro está que o Michael Moore entrou para o meu top 10 do cinema (mas o Charlie Chaplin continua a ocupar o primeiro lugar). É que assim que o filme acabou eu fiquei a pensar o quão complexa é a sociedade americana e a própria mente dos americanos.
O filme começou com o Michael Moore a dirigir-se a um banco. Ele pediu para abrir uma conta e a mulher do banco perguntou-lhe que tipo de conta queria abrir, então ele respondeu «aquela conta em que oferecem uma arma». Sim, isso mesmo. Este banco estava a fazer uma promoção «Na abertura da sua conta, oferecemos-lhe uma arma» e havia muitas à escolha. Quer dizer, enquanto nos outros países oferecem descontos em outras lojas, viagens (nem que seja à cidade vizinha), mealheiros, rolos de papel higiénico, sei lá, há tantas coisas estúpidas para se oferecer… na América oferecem armas. Tudo bem, foi a pensar nos caçadores, podem pensar os ingénuos. Mas não! A mulher nem lhe pediu a licença de arma… afinal nos Estados Unidos qualquer um pode ter uma arma.
No filme também vi que existem muitos (mas muitos mesmo) americanos com armas em casa, alguns até dormem com elas debaixo da almofada. Sinceramente, não sei se é da ingenuidade típica da minha idade, mas o que temem os americanos para andarem armados até os dentes e terem uma casa tipo bunker? Têm medo que o país deles seja invadido? Mas ele é que invadem o país dos outros! Pode ocorrer um ou outro atentado, mas normalmente são usados aviões cheios de gente inocente e que chocam com algum arranha-céus, não sei em quê que as Magnum 44 ou as Glock 9mm que estão debaixo da almofada podem ajudar para enfrentar um Boeing fora de rota. Além disso, as pessoas do Médio Oriente ou dos Balcãs é que deviam de andar armadas até aos dentes, afinal os seus países é que estão constantemente a ser bombardeados! Agora os americanos?!
Moore fez uma comparação interessante. Em algumas das casas que ele visitou, na América, notou-se que os seus habitantes usavam segurança máxima, trancando-as a sete chaves (no sentido literal da expressão), em algum dos casos até afirmaram que tinham medo dos afro-americanos. Então Moore foi até ao Canadá, a uma cidade com um elevado número de habitantes de descendência africana e muitas casas onde foi bater ele verificou que os habitantes nem as trancavam, em alguns dos casos até deixavam a porta entreaberta, mesmo estando em casa (os afro-americanos nem andam tão armados como os americanos). Então eu conclui que o medo dos americanos não é de um ataque perpetuado por alguém de fora mas sim por um seu compatriota. E há à medida que o filme se foi desenrolando eu comecei a compreender porquê.
Os americanos tem mesmo uma grande predilecção por armas e afinal estas até são um negócio lucrativo, juntamente com as drogas e o sexo. E esta adoração parece que afectou as crianças. Há semelhança do sucedido em Columbine, inúmeros outros casos se repetiram. A maior parte destes jovens eram alunos não populares, vitimas das troças dos seus colegas e o fizeram o que fizeram por vingança. Mas note-se: o bulling é uma realidade mundial e não única e exclusivamente americana, no entanto não vejo os estudantes da Alemanha, da Espanha, da África do Sul, do Brasil ou até mesmo do Cambodja, a irem para a escola armados e a dispararem contra os seus professores e colegas. E na América casos destes parecem ser o prato do dia. O caso mais chocante foi mesmo o de uma criança de 6 anos que levou a arma do tio para a escola e disparou sobre uma coleguinha sua.
Moore foi então à procura das respostas. Entrevistou uma série de pessoas para saber se elas sabiam qual a razão de os jovens americanos ter este comportamento. As respostas foram diversificadas. Falou-se nos desenhos animados violentos, mas estes são vistos em todo o mundo, incluindo o Japão é o exportador principal, no entanto os índices de jovens envolvidos em tiroteios são reduzidos; pensou-se que fosse da História violenta do país, nas também não foi nada disso. Os EUA são país há pouco tempo em comparação com a Alemanha, por exemplo, que foi povoada por povos bárbaros e que teve o mais sangrento dos ditadores, mas mesmo assim os índices de jovens envolvidos em tiroteios também são reduzidos. «É da música», responderam muitos. Até culparam o Marlyin Manson porque os jovens do Columbine ouviam as músicas dele. Mas também não tem nada a ver! O Manson é ouvido em todo o mundo! E por aí vai, as desculpas foram muitas, mas ainda assim parece que não se apontou para a própria cultura americana.
Conseguir uma arma nos Estados Unidos é bem mais fácil até do que conseguir um emprego. E acham que o Governo se preocupa? Claro que não, é uma forma de rendimento para o seu país, mesmo que isso implique a morte de inocentes. Como o Chris Rock disse uma vez na MTV: «nós não precisamos de controlo das armas. Precisamos de controlo às balas. Se as balas custassem $5000 não morreriam mais inocentes». Mas ninguém ainda me explicou porquê que os americanos necessitam tanto de estar armados, nem mesmo o Michael Moore o conseguiu através do filme porque nem ele mesmo percebeu. Os americanos cometem os crimes mais surreais, têm acesso às armas, será que não passará pelas cabeças dos especialistas em psicologia de Harvard que isto possa ser uma questão cultural? Os americanos que se sentem os polícias do mundo, que acham que devem intervir em todas as questões mundiais, que fomentam guerras e colocam ditadores no poder. Não será tudo uma questão de cultura? Que temem eles? Do jeito que as coisas andam talvez devessem começar a temer os seus próprios filhos.
Como diria o Asterix: «Por Toutatis, são loucos estes yankees»!
Eu cá por mim acho que só vou poder terminar este post se tirar um Mestrado em Psicologia, e a sociedade americana iria ser um óptimo objecto de estudo.
PS: Junto acrescento uma passagem do filme do Michael Moore. A “Breve Historia dos EUA” (legendado).


6 comentários:
O teu sentido de humor negro teve em alta neste texto mas os filmes franceses matou tudo x)
É apavorante.
E assusta a relação tênue entre medo e racismo .
Menina invista no mestrado !
É eu também assisti e não fica mesmo claro porque necessitam tanto estar armados, só que os crimes mais bizarros são cometidos por eles que ainda insistem em criticar a violência em outros países. Quanto a guerra do Vietnã só o RAmbo se deu bem ^^.
E grande Michael Moore, aqui temos o dia Moore, vai passar documentarios otimos sobre tudo isso no GNT!
Parece que esse pessoal armado até os dentes que coleciona armas não tem mesmo é o que fazer. Prova disso é que aqueles crimes mais bizarros acontecem nos países desenvolvidos (no Japão, estudantes se matam por não passar no vestibular, pq a cobrança é muito grande; na Finlândia também já aconteceram casos do estudante aparecer com uma arma e detonar a classe). Eu tive uma professora que dizia que isso é culpa da globalização, por tirar a individualidade das pessoas por produtos consumidos em massa, etc. Será?
Adorei ver a história dos americanos como sendo um bando de coverdes xD Chega a parecer nóia mesmo... nunca vi nenhum filme do Michael Moore o.o' Mas enfim, cada país com suas desgraças, para cada família paranóica nos EUA temos um cantor de funk aqui.
Adorei o texto, até mais!
Por Toutatis! E loucos todos nós que vemos a coisa andar do jeito que está... Ou será que a multidão de imigrantes que vai para lá vai mudar algo nas eleiçòes presidenciais? Ou será que vão simplesmente ganhar o seu dinheirinho e se conformar com a loucura deles todos?
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